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4 MEANS OF NAMING

4.2 The North

A atracção do poeta português Eugénio de Castro pela obra de Mallarmé foi relevante para o desenvolvimento de toda a poética finissecular em Portugal e um desafio muito positivo à renovação dos moldes estéticos, há muito estagnados. A literatura portuguesa vivia, uma fase de renovação e de transformação75 com a poesia a libertar-se das fórmulas estabelecidas, a individualizar-se e a procurar adquirir valor através da perfeição. Este ambiente ficaria marcado por vultos da poesia portuguesa, como João de Deus (1830-1896), poeta lírico, autor de Campo de Flores, publicado sob a protecção de Teófilo Braga e que viria a compilar todas as suas obras; Cesário Verde (1855-1886), cuja poesia, dada a sua morte prematura, foi compilada por Silva Pinto sob o título O Livro de Cesário Verde, João Penha (1838-1919) que só em 1892 publicou um conjunto de poemas Rimas, onde se destacava o lirismo realista e moderno; Gonçalves Crespo (1846-1883) com Miniaturas; António de Macedo Papança, conhecido por Conde Monsaraz, (1852-1913) com a sua Musa Alentejana; Guilherme de Azevedo (1846-1882) e as suas três obras líricas fulcrais para a poesia moderna, e onde se sentia a influência de Baudelaire, Aparições, Radiações da Noite e Alma Nova; Leonardo Coimbra (1864-1884), neo-romântico, cuja obra Dispersos foi marcada pela influência de João de Deus e Gonçalves Crespo; António Nobre (1867-1900) fortemente influenciado pelas correntes ultra-romântica, simbolista e saudosista com destaque para a obra Só, nostálgica e subjectivista e onde o discurso coloquial e diversificação estrófica e rítmica dos poemas rompem com a estrutura

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Maurice BLANCHOT, Le livre à venir, Éditions Gallimard : Collection Folio/Essais, 1996, pp. 269- 274.

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formal do género poético vigente, vindo a influenciar o modernismo português e autores como Fernando Pessoa e Mário de Sá- Carneiro; António Gomes Leal (1848-1921) com a sua obra O Anti-Cristo; Guerra Junqueiro (1850-1923) e a sua obra A Velhice do Padre Eterno. Eugénio de Castro não poderia ter ficado indiferente a muitos deles e ainda adolescente, mais concretamente em 1884, com quinze anos, a morte de um irmão levou-o a escrever os sonetos elegíacos que intitulou Cristalizações da Morte, que já prenunciavam uma certa pertinência vocabular. Seguem-se, no mesmo ano, Canções de Abril, onde se nota uma renovação versicular, de agradável musicalidade que se confirmará em Jesus de Nazaré e nas Horas Tristes de 1888. Só em 1890 e depois de fundar com João Menezes e Francisco Bastos, em 1889, a Revista Os Insubmissos, revelou a sua verdadeira personalidade com a edição de uma das suas grandes obras Oaristos, marco de uma nova consciência da linguagem poética. Com ela declarou guerra à «l’usata poesia»76 e enveredou pelo caminho da inovação, mudança que justifica no Prefácio à 1ª edição:

“[…]Com duas ou três luminosas excepções, a Poesia portuguesa contemporânea assenta sobre algumas dezenas de coçados e esmaiados lugares comuns [...] por onde segue num monótono andamento de procissão o combóio mixto que leva os Poetas portugueses da actualidade à gare da Posteridade, poetas sufientemente tímidos para temerem o vertiginoso correr do expresso da Originalidade. Inexperiente, o autor de

Oaristos teve um dia a cândida ingenuidade de se meter nesse moroso mixto: cinco anos suportou a lentidão da viagem e a má companhia, até que

uma e outra começaram a incomodá-lo de tal maneira, que resolveu mudar para o supracitado expresso, preferindo deste modo um descarrilamento à secante expectativa de ficar eternamente parado na corridíssima estação da VULGARIDADE.[…] fixou, como suprema ambição, a glória de poder um dia repetir com consciência as nobres palavras de Musset;«mon verre

n’est pas grand, mas je bois dans mon verre». Os Oaristos são as primícias

dessa nova maneira do Poeta. […]Êste livro é o primeiro que em Portugal aparece defendendo a liberdade do Ritmo contra os dogmáticos e estultos decretos dos velhos prosodistas. […]Os alexandrinos são lançados em parelhas, mas os últimos quatro versos de cada poema têm (tal se faz nos

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Termo utilizado no prelúdio e 1º verso da obra de Giosuè Carducci (1835-1907) Odi Barbare, poema em que este poeta italiano e Prémio Nobel da Literatura, em 1906, rompe com o romantismo.

tercetos) suas rimas cruzadas. Salvo êrro, é a primeira vez que assim se corta o alexandrino. Pela primeira vez, também, aparece a adaptação do delicioso ritmo francês, rondel. Introduz-se o desconhecido processo da aliteração...”77

Esta nova expressão estética, de estilo decadente, como ele dizia, traduziu-se nesta obra e nas posteriores, como aconteceu em Horas, numa poética, defensora da «arte pela arte», que passou a valorizar a sugestão e a musicalidade do significante.78

Era a beleza e virtuosismo de «um artista e escritor de imagens», como diria Manuel de Silva Gayo, que contemplava, inventava e sabia desenhar, num espaço e tempo ilimitados, os símbolos da sua criação. Eugénio de Castro foi este artista, eleito pelo destino, como ele próprio afirma no Prefácio à 2ª edição de Oaristos, para «plantar a árvore desta nova estética» e ensinar a fazer versos utilizando a sugestão de um espaço real ou fictício que a musicalidade das palavras lhe oferecia e que este pequeno extracto testemunha:

“Triunfal, teatral, vesperalmente rubro, Na diáfana paz dum poente de outubro, O sol, esfarrapando o incenso dos espaços, Caminha para a morte em demorados passos, Como as bandas que vão a tocar nos enterros... E, surgindo detrás de acuminantes serros, Melancòlicamente, a lua de mãos belas, Tecedeira do azul, tece, num tear de estrelas, Um lenço branco, um lenço alvíssimo e brilhante, Para acenar com êle ao sol, seu ruivo amante...”79

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Eugénio de CASTRO, Obras Poéticas de Eugénio de Castro, Volume I, op. cit., pp. 19-24.

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É aqui evidente a influência de René Ghil que a ele se refere na sua carta a Jules Huret como um “[...]poéte qui par cinq ou six livres (dont les deux derniers très remarquables, Oaristos et Horas), est

en sa patrie le chef d’un mouvement de rénovation. Écrivant parfaitement notre langue, il s’est rallié à la méthode évolutive, pour laquelle il luttera également au Portugal”. Este partidarismo da escola evolutiva, não se viria a revelar tão frutuoso a nível da implementaçãoo na literatura portuguesa, porque o próprio Eugénio de Castro dele se demarca, em 1895, para enveredar por uma tendência mística e pessimista, de verso e música livres e que o vai aproximar de Maurice Maeterlinck.

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Com Manuel da Silva Gayo criou, em 1895, a Revista internacional A Arte, um elo simbolista entre a poesia portuguesa e a poesia europeia, que acolheu trabalhos de vários autores,80 como foi o caso de Gabriele d’Anunzio, Maurice Barrés, Gustave Kahn, Maurice Maeterlinck, Stéphane Mallarmé, Jean Moréas, Jules Renard e Paul Verlaine. O cosmopolitismo desta revista contribuiu para sedimentar a imagem da nova geração literária e dar continuidade ao processo de libertação da linguagem poética que viria a culminar com o Modernismo. E se, a partir de 1900, a sua poesia evoluiu num sentido classicizante, impregnada de saudosismo, de que é exemplo o poema dramático Constança, que retoma o mito de Inês de Castro, nunca será demais salientar a fusão da Arte e da Vida na sua obra, por ele cultivadas com harmonia e objectividade.