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Foreignness realized in names from ASOIAF

4 MEANS OF NAMING

4.5 Foreignness realized in names from ASOIAF

A panóplia de «ismos», já referidos, e outros, como o Saudosismo, Paulismo, Interseccionismo e Sensacionismo, movimentos estéticos, filosóficos e literários portugueses, do 1º quartel do século XX reforçaram com o seu aparecimento, a tensão de crescente desconforto e o sentimento de plenitude que Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, no seu poema A Passagem das Horas refere,

“[…]Sentir tudo de todas as maneiras, Viver tudo de todos os lados

Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo, Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos

Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo. […] Ter todas as opiniões,

Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,

Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,[…] […] Sentir tudo excessivamente,

E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida

O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.”102

Nesta realidade excessiva, desenvolvia-se um «eu» que é todas as vozes, que encena a sua própria realidade e se confunde com ela na ausência do autor que dele se apoderou. Autor e personagem fundem-se através dos mitemas com que preenchem os espaços da sua criação e encenam a vida. Luigi Pirandello, (1867-1936) na sua obra Six Chraracters in Search of an Author, retrata o drama da consciência do ser humano como ser que se revela, «um» e «mil», ao ser colocado numa situação de ausência de um autor,

“[…] si sono già stacati da me; vivono per conto loro; hanno acquistato voce e movimento; sono dunque già divenuti di per sé stessi, in quedta lotta che han dovuto sostenere con me per la loro vita, personaggi drammatici, personaggi che possono da soli muoversi e parlare; vedono già sé stessi comme tali; hanno imparato a difendersi da me; soprano ancora difendersi dagli altrin […] esprime come sua viva passion e suo tormento quelli che per tanti anni sono stati I travgli delmio spirit: l’inganno della comprensione recuproca fondato irrimediabilmente sulla vuota astrazione delle parole; la molteplice personalità d’ognuno secondo tutte le possibilità d’essere che si trovano in ciascuno di noi; e infine il tragico conflitto immanente tra la vita che di continuo si muove e cambia e la forma che la fissa, immutabile.”103

O desinteresse do autor, a sua própria rejeição do drama, razão de ser das personagens, inviabiliza o encontro entre eles,

"[…] ho accolto dunque l’essere, rifiutando la ragion d’essere; ho preso l’organismo affidando a esso, invece della funzione sua propria, un’altra funzione più complessa e in cui quella propria entrava appena come dato di

102

Fernando PESSOA, Poesia dos Outros Eus, Ed. Richard Zenith, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 291.

103

Luigi PIRANDELLO, Sei personaggi in cerca d’autore, In: Opere di Luigi Pirandello, Volume secondo, Milano: Arnoldo Mondadori Editore, 1993, pp.656-657.

fatto. […] É ben vero che io, di ragion d’essere, di funzione, gliene ho data un’altra, cioè appunto quella situazione «impossible», il drama dell’essere in cerca d’autore, rifiutati: ma che questa sia una ragion d’essere, che sia diventata, per essi che giá avevano una vita propria, la vera funzione necessaria e sufficiente per esistere, neanche possono sospettare.”104

e os actores que as representam confrontam-se com uma situação em que se vêem obrigados a utilizar uma multiplicidade de máscaras que atenuam a sua presença e os fragmenta como seres humanos.

Fernando Pessoa e Maurice Maeterlinck revelaram uma profunda dificuldade em aderir a uma realidade sem fugir para um mundo fictício onde a voz recheada de (im)possíveis de Pessoa se silenciou em Maeterlinck, impedindo que nos situássemos nos espaços onde eles, diferentemente, se imaginaram sombras de si próprios, espaços que não pertenciam à vida mas à ilusão de quem os criava. Fernando Pessoa com os seus heterónimos que o distanciavam de si e dos outros «eus» que ele, porém, identificava, reviu-se, como autor e ser humano, nessa multiplicidade e nela se escondeu para nos dar a conhecer uma ficção onde se tornou outro sem perder a sua identidade, mas que se fragilizou pela diversidade das vozes que se fizeram ouvir como se fossem reais, sentindo-se estranho a si mesmo. A sua distanciação, aparente como autor, em relação às suas personagens tornou possível a criação de uma obra múltipla, mas fragmentada, mas esta aparência, acentuada por ele próprio ao entrar na sua própria criação, permitiu que as suas próprias personagens na busca do seu autor o recriassem através das máscaras adequadas às vozes que representavam e iniciassem um diálogo múltiplo embora construído por uma só voz, dispersa e sofrida:

“Não sei quem sou, que alma tenho.

Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei que existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-se ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julgo que eu tenho.

104

Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”105

Já Maurice Maeterlinck desafiou-nos com os seus jogos intertextuais para uma aventura interior guiada por palavras balbuciadas. Os seus personagens buscaram o autor, mas ele queria-o ausente para não se confundir com eles. A camuflagem que ele imprimiu ao símbolo não facilitou este afastamento e criou uma tensão entre o visível e o invisível, o material e o espiritual. Através dele(s) “[…] celui de la montagne et de la nuit, le silence de la lune et des étoiles, le silence de l’espace et de la mort. Chacun de ces silences a sa couleur, son odeur, sa musique et sa signification”106

, personificou as vozes, que o silêncio acentuou.

Não é fácil a autonomia do autor em relação à personagem porque, a acontecer, esta distanciação vai reflectir-se num trabalho igualmente de busca para o leitor em relação ao autor. Como afirma Antoine Compagnon, o leitor sente essa necessidade

“[…] pour comprendre l’oeuvre, c’est à dire pour aller à la rencontre de l’autre, de l’auteur, à travers son oeuvre, comme conscience profonde, […] de reproduire le mouvement de l’inspiration, de revivre le projet créateur”.107

Se tivermos em conta que a escrita é a expressão do que se pretende dizer correspondendo, desta maneira, à visão do mundo do seu autor como narrador ou leitor implícito na obra, como lhe chama Wolfgang Iser, e aquele que a prepara para que o leitor real nela interaja, o seu distanciamento vai, certamente, dificultar o trabalho deste leitor enquanto viajante numa leitura em que o horizonte de espera se vai alterando com a indeterminação que caracteriza os textos modernistas.

105

Fernando PESSOA, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, op.cit., p. 93.

106

Maurice MAETERLINCK, Le Réveil de L’âme, Poésie et Essais, Oeuvres I, Bruxelles: Editions Complexe, 1999, p. 236.

107