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Naming strategies in the foreign cultures

4 MEANS OF NAMING

4.6 Naming strategies in The Stormlight Archive

4.6.2 Naming strategies in the foreign cultures

Se tivermos em conta a realidade da vida entendida por Pessoa como sensação, poderemos tentar ver a heteronímia pessoana como um modelo que nos ajuda a interpretar um Eu que constrói e se constrói. O facto da realidade partir da sensação, faz ressaltar o seu carácter universal e cosmopolita, como ele afirma neste extracto de um texto datado de 1916,

“A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas

as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se

que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo.

Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades.140

Este pequeno texto contém a base do sensacionismo de Álvaro de Campos que ele acentua excessivamente para tentar sentir tudo de todas as maneiras. A perda de personalidade era uma das bases do Sensacionismo, como afirma Fernando Pessoa,

“O Sensacionismo opera:

(1) quanto à eliminação da Personalidade, pela admissão num mesmo individuo de todos os modos de sentir e de pensar possíveis, embora incompatíveis uns dos outros, isto quer simultaneamente sentidos (interseccionismo psychico), quer sentidos sucessivamente (dynamismo sensacionista), quer sentidos separadamente, como que com almas diversas (polypersonalidade)”141

e nota-se o esforço excessivo de Álvaro de Campos para desenvolver em si não a sensação das coisas como elas são, mas toda a variedade de sensações de coisas e até

140

Fernando PESSOA, Páginas Íntimas e de Auto-Reflexão, op. cit., p. 124.

141

Sensacionismo e outros Ismos, Volume X, Edição crítica de Fernando Pessoa por Jerónimo Pizarro, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009, p. 240.

da mesma coisa. No seu Ultimatum142 salienta o sentimento de ser vários num como essencial para o artista se exprimir na sua arte:

“Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o indivíduo que sente por vários. […] O que é preciso é o artista que sinta por um certo número de Outros, todos differentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Synthese-Somma, e não uma Synthese-Subtracção dos outros de si, como a arte dos actuaes. … O maior artista sera o que menos se definir, e o que escrever em mais generos com mais contradicções e dissimilhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter várias, organisando cada uma por reunião concretizada de estados de alma similhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisivel.”143

Se nós entendermos a arte como expressão intelectualizada da reflexão sobre a sensação, como pretendia Fernando Pessoa, e considerarmos relativa a aproximação à realidade, uma vez que a arte não refere a realidade total mas o resultado da análise das sensações sobre essa mesma realidade, encontra-nos-emos perante uma tal infinidade de sensações que só uma personalidade múltipla será capaz de assumir essa diversidade de estados de alma que as sensações despertam e ser alma e corpo no ponto onde se cruzam as coisas e a sua interpretação sobre elas. O drama ontológico vivido por Álvaro de Campos teve em Alberto Caeiro e na sua urgência de sentir o seu mestre, contudo Campos levará ao extremo a pura sensação que Caeiro no seu poema O Guardador de Rebanhos nos oferece:

“O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento

142

O Ultimatum de Álvaro de Campos foi publicado no número único do Portugal Futurista, em 1917. Esta revista que tinha como objectivo divulgar o Futurismo em Portugal, acabaria por revelar uma série de críticas ao movimento encabeçado por Marinetti, patentes nos poemas de raiz simbolista ou decadentista de Pessoa e Mário de Sá-Carneiro e no próprio Ultimatum de Campos que, parafraseando Eduardo Lourenço, constitui um trauma-síntese da cultura portuguesa oitocentista.

143

É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo... “144

Na unidade entre o eterno e o novo, encontra Caeiro o essencial da arte. Ao apreciar o que já existe ele transforma a existência numa outra realidade unindo, paradoxalmente, o eterno que permanece sempre idêntico a si mesmo, porque fora do tempo, com o novo que se diferencia de si mesmo como movimento e inquietação, porque dentro do tempo. E porque a obra de arte nasce não das condições, mas a partir delas, factor que comprova a sua imprevisibilidade, quando apreendida através desta fusão pensamos não poder ser considerada uma creatio ex nihilo como acontece com a criação do Universo tido como o momento em que Deus criou algo do nada. A arte de Alberto Caeiro é saber ser no estar, sem olhar subjectivamente as coisas, deixar-se tocar por elas e ver o que lhe podem oferecer. O seu mundo não encerra mistérios, as coisas são uma realidade pura, sem símbolos e são elas que constituem a sua criação poética como se pode ver noutro fragmento do poema V de O Guardador de Rebanhos:

“Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo?

[...]

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. [...]

144

Alberto CAEIRO, Poesia, In: Obras de Fernando Pessoa, Edição de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 24.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas, Que é a de não saber para que vivem Nem saber que o não sabem? «Constituição íntima das cousas»… «Sentido íntimo do Universo»…

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. [...]

Pensar no sentido íntimo das cousas É acrescentado, como pensar na saúde Ou levar um copo à água das fontes. O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.145

O objectivismo com que Caeiro vivencia o mundo sem máscaras sígnicas e através da sensação é contrariado pelo subjectivismo, de Álvaro de Campos onde o estilo sôfrego e febril o leva a cantar as sensações da vida e a cair depois na sonolência, no tédio e na desilusão:

“Não, cansaço não é... É eu estar existindo E também o mundo,

Com tudo aquilo que contém,

Como tudo aquilo que nêle se desdobra

E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê? É uma sensação abstracta Da vida concreta —

Qualquer coisa como um grito Por dar,

Qualquer coisa como uma angústia Por sofrer,

Ou por sofrer completamente, Ou por sofrer como...

145

Sim, ou por sofrer como... Isso mesmo, como...

Como quê?...

Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua, Que formidável realejo

Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo. Confesso: é cansaço!...146

Indiferente a este cansaço, Ricardo Reis, também discípulo de Caeiro, afirma a arte de viver no prazer do instante que ele cultiva através da sua autodisciplina e do seu espírito clássico greco-latino, epicurista e estoico. Aceita a crença nos deuses enquanto disciplinadora das nossas emoções, mas a indiferença à perturbação, seja ela de que ordem for, desde que cause desassossego, faz sobressair a sua consciência de que tudo tem um fim, como este extracto das suas Odes horacianas, exemplifica:

Tão cedo passa tudo quanto passa! Morre tão jovem ante os deuses quanto Morre! Tudo é tão pouco! Nada se sabe, tudo se imagina. Circunda-te de rosas, ama, bebe E cala. O mais é nada.147

Reis não vive o drama de ser de Campos, para quem as sensações são escalpelizadas ao ponto de fazer doer o sentir, mas procura tornar viável a proposta sensacionista de Caeiro ao servir-se da tradição clássica para filosoficamente dar voz à proposta do mestre. Para alcançar a sensibilidade de Caeiro utiliza uma filosofia de contemplação

146

Álvaro de CAMPOS, Livro de Versos, Edição Crítica, Introdução, Transcrição e Notas de Teresa Rita Lopes, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p. 305-306.

147

Odes de Fernando Pessoa-Ricardo Reis, Edição Crítica de Silva Bélkior, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1988, p. 99.

quase que ataráxica e deixa-se envolver pela lucidez e serenidade epicurista, necessária para o seu confronto com a relatividade e fugacidade da vida e do todo que a comporta. Reis assimila e supera a noção de conhecimento sensível do mundo de Caeiro através duma dramatização do pensamento que parece mais ser uma rejeição do seu ser a algo que o seu eu poético não consegue viver, do que uma adaptação à vida. Entre esta metafísica de Ricardo Reis, a linguagem simples de Alberto Caeiro, e a complexidade da de Álvaro de Campos cruza-se uma arte da sensação que Fernando Pessoa, numa atitude de construção de uma teoria do conhecimento e consciente do dever a cumprir com a sua obra, viveu em sua substituição.