From N to Num
3.5 The Spurious NP Ellipsis
3.5.6 The SNPE and the Exhaustive Lexicalization Principle
Também chamou a atenção a alteração, em parte dos assentados, na forma como concebiam o valor da terra. Como demonstrado anteriormente, no tópico sobre a luta pela terra, existem, nesse caso, duas concepções distintas: a terra enquanto mercadoria e a terra enquanto bem social. Acrescentou-se, nesse panorama, também a terra enquanto
herança, vínculo entre as gerações, aspecto importante dos valores tradicionais dos
camponeses.
Na identidade social do MST existe uma ênfase na terra enquanto um bem
social, gerador de distribuição de renda, igualdade social, sendo própria para aqueles
que nela trabalham. Essa concepção choca-se com a noção de terra enquanto propriedade privada, mercadoria, posse garantida legalmente e que pode ter uma função similar à outros produtos comercializáveis (MEDEIROS, 2002).
Nos depoimentos dos mais jovens a presença da terra enquanto mercadoria é mais forte, o que sugere uma diferença entre as gerações. Essa postura ganha um caráter mais amplo e explicito no grupo de jovens do Assentamento, que deixa claro seu afastamento do MST e sua tentativa de “renascer”, ou seja, criar algo diferente, uma postura que não está livre de tensões:
Você acha que o grupo de jovens é importante pro Movimento?
Olha [tensão]...prá dizê que num é importante, a gente num pode nem...nem falá. Eu acho que tudo que vem da comunidade é importante.
Só que...a gente num vem teno...aquela....aquele apoio do próprio MST. Isso porque...o grupo tamém ele tá... o próprio nome do grupo já diz: “Renascer”. Já vai renasceno a um ano e meio atrás, então...tá meio difícil. Mas eu acredito...com certeza vai ajudá muito e com certeza vai ajudá no que precisá.47
Vários assentados mais antigos salientaram que “os jovens não querem se organizar”48, que eles “não querem continuar a luta”49. Muitos desses jovens, quando questionados porque não entraram em novas ocupações de terra, salientam que “não vale a pena”50, não é interessante se arriscar por terras de pouco valor monetário. Sendo assim, suas expectativas direcionam-se no sentido da busca pelo trabalho urbano, pelo estudo e pela função de comerciante. Apesar de muitos deles valorizarem a busca por um ambiente comunitário mais coeso e sólido, como será demonstrado mais adiante, não relacionam, principalmente, essa busca nem com a terra enquanto herança, nem enquanto bem social.
Nos assentados mais antigos, mais próximos da lógica do MST e que viveram o processo de mobilização com mais intensidade e clareza, prevalece a noção de uso
social da terra. Também é interessante analisar casos de ruptura, como o de JR. No caso
da terra, esse assentado dá indícios de uma visão mercadológica:
E hoje não há mais necessidade pra isso porque hoje tem o Banco da Terra aí que já tá contribuino, fazeno acampamento, né. Tem várias otra entidade, né.Que nem, eu tenho uma menina, uma filha minha, que morava naquela casa ali...Ela morava aqui como dependente minha (...) Mais surgiu uma organização do Banco da Terra, lá no Município de Catuji. Nessa época era município de Itaipé, mas hoje dividiu (...)Então ela mora nesse acampamento lá mas é pelo Banco da Terra, é terra comprada. Então ela vai até muito bem, né. (...) Nóis num tinha outra saída. Nóis num intindia nem existia otra saída. Agora hoje já existe essa saída. Não há necessidade de ficá ocupano terra do jeito que nóis ocupô mais não porque já tem otras via que...a pessoa não corrê risco de vida e ocupação de terra é risco de vida, é violência. Ocupação de terra ela não é Reforma Agrária não, ela é violência. Ela é violência no campo. E isso eu tô falano e eu tenho consciência do que eu tô falano. Ocupação de terra é violência (...). Bom, o MST ele briga pra acontecê a Reforma Agrária mais é com violência. Se falá na Reforma Agrária feita pelo
47
Entrevista cedida por FB, 22 anos, assentado, em 7 de julho de 2005.
48
Conversa informal com MA, assentada, em 28 de outubro de 2006.
49
Conversa informal com LD, assentada, em 29 de outubro de 2006.
50
Banco da Terra ou pelo Governo eles num acredita. Eles qué fazê na violência. A gente não pode ficá tentano passá por cima de tudo de quarqué manera não porque cai do cavalo. Se cê vai com um carro assim, cê vai dirigino, cê chegô núm cruzamento, o que que cê tem que fazê? Pará, né.Como é que cê vai chegano, cê vai bate! É qui nem, se nóis não respeitá o direito do otro tamém, nóis sabe qui nóis ta errado, né. Então a paz vai saí daquele meio. Então eu num acho que esse método tá certo não.51
Quando JR relata que “ocupação é violência”, que o melhor é o “Banco da Terra” e que “se nóis não respeita o direito do otro tamém nóis sabe qui nóis tá errado”, visão que se repete em outras passagens, ele dá indícios de estar mais próximo da noção de terra como mercadoria. Não pode-se afirmar se o desligamento do MST levou-o a se apropriar dessa noção mercadológica ou vice-e-versa, mas a ligação entre o rompimento com o Movimento e essa concepção acerca da terra é bem clara.
No entanto, para a maioria dos mais antigos, dirigentes ou não, a terra ainda se constitui mais como um bem social, um direito daqueles que nela queiram e precisem trabalhar:
Eu acho que é o que tá seno feito, né, precisa de tá mesmo ocupano essas terra improdutiva...Não só as improdutiva, as produtiva também que tivé disocupada. E vamo, no dia-a-dia trabalhano e colocano o povo pra ocupá mesmo essas terra. Porque enquanto tivé na garra do patrão, ou só viveno hoje tem emprego, amanha não tem, então nada muda não. Eu acho que só vai mudá memo quando todo mundo tivé teno um emprego, todo mundo tivé teno uma terra, quem gosta de trabalhá na terra, né. E eu acho que com o tempo pricisa dá um basta nisso, nessa desigualdade que ta aí.52
Para uma melhor compreensão das questões tratadas até aqui, construiu-se um quadro que tenta traçar as principais concepções de alguns assentados em relação ao trabalho, à política e à terra, relacionando-as com a maior ou menor proximidade dessas pessoas com a mobilização e organização o MST. Note-se que, na complexidade da realidade, não se podem caracterizar os assentados dentro de apenas uma concepção, pois esses elementos se sobrepõem em inúmeras intersecções, ou seja, todos apresentam um pouco de cada concepção. No entanto, para fins analíticos, optou-se por caracterizar somente as principais tendências de concepções dos assentados, ou seja, o que foi percebido que prevalece. Dividiu-se o trabalho em familiar e coletivo e a postura política
51
em crítica (ativa, participativa) e tradicional (paternalista, clientelista). A concepção sobre a terra foi dividida em bem social e mercadoria apenas, pois a concepção de
herança, apesar de estar também presente em grande parte dos assentados, não atinge
caráter principal. No caso de MA e EV essas concepções se misturam com tal força que não se pôde identificar sua concepção principal.
Entrevistado Idade Proximidade com o MST Concepção de trabalho Concepção Política Concepção sobre a terra LV
+ 50
maior
coletivo Critic.
B.social
CV
62 maior familiar Critc. B.social
RO
21 maior familiar Critc. B.social
NT
52 maior coletivo
Critc. B.social
NC
47 maior familiar Critic. B.social
IL
46 maior familiar Critic. B.social
GE
+ 50
maior
familiar Critic.
B.social
JR
63 oposição familiar Tradic. Mercad.
FB
22 menor familiar Tradic. Mercad.
DA
20 menor familiar
Tradic. Mercad.
LD
+ 50
menor
familiar Tradic. Mercad.
MA
+ 30
menor
familiar Tradic. ---
EV