From Num to D
4.2 Lexicalizing the D position
4.2.2 A spanning account of non-inflecting demonstratives and -ik quan- quan-tifiers
O surgimento e desenvolvimento dos movimentos sociais são interpretados diferentemente por várias tendências nos estudos sobre a mobilização coletiva. Para aprofundar as reflexões sobre o processo vivido pelo Assentamento Aruega, lançou-se mão de dois autores que, de certa forma, representam dois enfoques distintos sobre os movimentos sociais: Sidney Tarrow (1998) e Alberto Melucci (2001).
Tarrow (1998) valoriza as condições políticas que influenciam na organização dos movimentos. Seus estudos se embasam no surgimento do que denomina “oportunidades políticas”, ou seja, o surgimento e a dinâmica dos movimentos depende de condições favoráveis no ambiente externo ao movimento. Ele divide essas oportunidades políticas em alguns pontos: existência de abertura de acesso ao poder; existência de aliados; e fragmentação das elites. Esses elementos gerariam brechas para a organização e a
dinâmica dos movimentos, porém eles seriam coadjuvantes no processo, apenas aproveitando as oportunidades externas ao processo de mobilização (GOHN, 1997).
Alguns desses pontos têm um relevante valor analítico no caso do Aruega. A mobilização que deu origem ao Assentamento, como enfatizou-se anteriormente, surgiu no momento de abertura política do País. As pressões pela redemocratização e a tentativa dos governos militares de desencadear um processo de abertura controlada abriram espaços no poder para que os movimentos se desenvolvessem (ROTHMAN, 1996).
Esses espaços ficam claros no caso de Aruega quando da-se atenção à disputa judicial que Aruega enfrentou e venceu nos primeiros anos de ocupação, com base na legislação vigente e no apoio de deputados, setores do Governo, autoridades eclesiais, etc. A “derrubada” das liminares de despejo foram essenciais para que a repressão e o enfrentamento policial não atingissem um ponto culminante. Como os próprios assentados relatam, “por incrível que pareça, se o Newton Cardoso não ajudou, pelo menos não atrapalhou!”60.
Nesse processo, cresciam também as possibilidades de alianças com outras organizações já constituídas, como a CPT, os STR, partidos políticos, etc, que, como demonstrado, tiveram papel importante no processo de mobilização, disponibilizando recursos econômicos e organizacionais, redes de apoio estabelecidas, confiança da população e lideranças experientes. As elites regionais também estavam em processo de fragmentação. O processo de abertura política dividiu os interesses dos principais grupos econômicos políticos e militares (Idem).
Apesar de não desconsiderar-se aqui a validade do trabalho de Tarrow (1998), é preciso levar em conta as limitações existentes no caráter estruturalista e utilitarista de sua obra (GOHN, 1997). Ao enfatizar as precondições externas que explicam o surgimento e a dinâmica dos movimentos, ele deixou de lado o potencial da subjetividade dos atores na construção da ação coletiva. Nesse sentido, Tarrow (1998) desconsiderou a liberdade dos movimentos em desencadear e dar rumos próprios ao processo. Nesse ponto, é interessante recorrermos à obra de Alberto Melucci (2001) sobre a construção de identidades nos movimentos sociais.
Melucci (Idem) retomando a tradição dos interacionistas simbólicos, enfatiza a mobilização social como um processo de construção de significados que servem de guia
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para a ação. Ele tenta ver as redes psicosociais que dão forma a uma identidade social e definem o auto-conhecimento de um grupo. Nesse sentido, os movimentos têm o potencial de mudar a linguagem cultural de uma época e antecipam transformações ainda latentes.
A construção da identidade retratada por Melucci (Idem) é um processo interativo de constituição de um sistema de ação. Essa construção leva em conta meios, fins e campo de ação, como na teoria da escolha racional, mas também investimento emocional, como fé, ódio, paixão e sentimento de pertencimento ao grupo.
Ao que tudo indica, a mobilização que deu origem a Aruega foi fundamental para a constituição de sua identidade, principalmente nos primeiros anos. Apesar de, como salientado, outras influências prevalecerem hoje em dia na constituição identitária de parte do assentamento, a identidade da luta foi fortemente internalizada, principalmente pelos mais antigos e atuantes. Como se poderá ver a seguir, as noções de
sujeito, reflexividade e projeto, a luta, e a imersão em uma nova cultura política -
elementos típicos da identidade do MST - foram fundamentais na trajetória identitária de Aruega.
O trabalho de Melucci também ajuda esclarecer o papel dos mediadores nesse processo. Segundo ele, a mobilização parte dos líderes mais experientes e não dos marginalizados. Pois as lideranças já conhecem procedimentos e métodos de luta. Eles já têm um mínimo de recursos de organização e redes de comunicação já existentes (GOHN, 1997).
O discurso dos líderes desencadeia, segundo Melucci (2001), um processo reflexivo nas pessoas. São as lideranças que promovem a busca de objetivos, desenvolvem estratégias e formulam e sustentam uma ideologia: ”as lideranças são elementos-clave para construir e manter a identidade coletiva de um grupo, para gerar inovações assim como para articular o movimento em suas conexões e redes” (Idem: 163).
Com base nessas reflexões pode-se inferir que a presença e o posterior afastamento dos mediadores tiveram forte ligação com as mudanças na identidade de Aruega ao longo dos anos. Com a saída dos principais mediadores, a identidade construída na luta se desarticula, perde força e passa a ser gradualmente resignificada em face da negociação crescente entre Aruega e o restante de Novo Cruzeiro.
A tendência dos assentados de reforçar elementos que mostram sua aceitação atual pela população de Novo Cruzeiro, identificada na pesquisa, faz parte do processo de formação de uma identidade que busca constituir uma relação harmônica com os moradores da Cidade. Esse processo está, talvez, intimamente ligado a alterações na vida cotidiana de Aruega, como visto, em relação ao trabalho, à política e ao papel da terra.
Com a saída dos principais mediadores, que antes eram intermediários de recursos, organização, ideologia, etc, Aruega tornou-se mais dependente – política, econômica e culturalmente – em relação á estrutura de poder de Novo Cruzeiro. Nesse sentido, ao reconfigurar parte de sua identidade em relação às novas demandas, retomaram muitos de seus valores tradicionais latentes – caracterizados pela hierarquia naturalizada, patriarcalismo, sujeição, servilismo e paternalismo - e aderiram a novos valores voltados para a vida social na Cidade. Ao que tudo indica, o estigma de Aruega diminuiu, porém essa transformação teve seus custos.
Nesse processo, Aruega teve que abrir mão de elementos da identidade do Movimento - como sua noção de uso social da terra e sua política participativa – se aproximando do poder local e redefinindo valores construídos nos primeiros anos. Os assentados menos ligados ao MST se enquadram nesse processo com mais intensidade, o que também ocorre com os mais jovens, que não viveram a mobilização social com tanta clareza. Os mais antigos e engajados resistem, em parte, a esse processo.