Case and PPs
5.2 The distribution of postpositions
O programa do SESP para a construção de fossas sépticas em Governador Valadares teve início logo após a ida do Serviço para Minas Gerais, em 07 de abril de 1943. A população atendida era composta de famílias que não tinham acesso à higiene básica, as mesmas que foram beneficiadas com as instalações de fontes de água potável no município. “Specific health benefits such as, reduction in worm infections and improved yard cleanliness cannot now be definitely measured, but are nevertheless slowly becoming effective” (Fundo SESP – 1943/1945 – COC – Doc. 35/ Caixa 47)54.
O comprometimento com a continuidade das medidas de higiene, dispostas após a construção das latrinas (ver figuras 3.9 a 3.12), ficou a cargo dos próprios moradores locais, isto em concomitância às visitas regulares praticadas pelos guardas do Centro de Saúde municipais. Houve uma proposta de inserção das camadas mais pobres de Governador Valadares aos quadros de desenvolvimento econômico pretendidos pelo Serviço.
Como a busca por minerais e a reconstrução da EFVM exigiram um reordenamento no traçado de algumas cidades do Vale do Rio Doce, passou-se a dar importância a aspectos pouco relevantes até este momento (se formos nos ater a um quadro político mais amplo), como a contenção da malária, a construção de latrinas e as preocupações com o nível de salubridade dos indivíduos do leste mineiro. Até que ponto, medidas importantes seriam tomadas contra a presença de doenças neste território, se o mesmo não fosse fonte para a extração de minerais de guerra? O território teria se isolado no tempo (assim como muitas regiões interioranas do país), ou se transformaria para se tornar o que hoje conhecemos como uma cidade de médio porte, denominada Governador Valadares?
O apoio dado pelo SESP para o Vale do Rio Doce teve grande motivação econômica, pois a própria duração do Serviço se faria somente até o findar da II Guerra Mundial. No ano de 1947, o Serviço propõe a
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Traduzindo: os benefícios gerados pelo trabalho do SESP acabariam por eliminar ou diminuir os casos de verminoses, mesmo que de forma lenta.
construção de latrinas a serem instaladas em residências, tendo como premissa a importância de Governador Valadares no contexto econômico nacional. Segundo o documento:
A cidade de Governador Valadares, no estado de Minas Gerais é uma das maiores cidades do Vale do Rio Doce. Pela riqueza mineral das suas circunvinhanças ela tem lugar destacado não somente na economia estadual como nacional. Também no reino vegetal se faz sentir o seu peso. Cerca de 8 serrarias se encontram dentro dos limites da cidade, havendo mais algumas nos arredores.
(Fundo SESP – 1943/1945 – COC – Doc. 35/ Caixa 47)
A justificativa para a cooperação Brasil/EUA é apresentada pelo Serviço em relação ao número de habitantes e de domicílios construídos, durante toda a década de 1940. Até o ano de 1943, havia em Governador Valadares uma população em torno de 7.000 habitantes, tendo a cidade 1.200 prédios aproximadamente. Já em 1947, este número se eleva para 15.000 e 3.000, respectivamente. Com este salto demográfico, impulsionado pela “(...) exploração da mica, cristal de rocha e também da industria madeireira para exportação” (Fundo SESP – 1943/1945 – COC – Doc. 35/ Caixa 47), há um planejamento para a instalação de latrinas (ver tabela 3.4), nos domicílios ainda não assistidos. De acordo com o Fundo SESP:
Recente levantamento feito pelos guardas sanitários do Centro de Saúde mostrou que quase 960 prédios não possuem instalação sanitária de espécie alguma. As necessidades fisiológicas são satisfeitas nas imediações das habitações muitas vezes próximo ao poço que fornece toda água usada na casa. Daí, provavelmente, as origens dos casos de febre tifóide que surgem. No mês de setembro deste ano foram confirmados 8 casos completando assim 42 em todo o ano de 1947.
(Fundo SESP – 1943/1945 – COC – Doc. 35/ Caixa 47)
Tabela 3.4 – Número de escolas x número de privadas.
Escola Nº. de alunos Nº. de privadas
Escola Presbiteriana 69 1
Grupo Escolar 694 13
Escola Padre Anchieta 156 2
Escola Santa Therezinha 80 1
Escola Bela Vista 41 0
Escola Vila Nova 20 0
Os dados da tabela 3.4 mostram o número reduzido de privadas nas escolas em comparação ao número de alunos matriculados. Isto acentua a importância dos trabalhos do SESP (uma vez que foi o Serviço quem construiu estas privadas) e uma preocupação com a saúde infantil no pós- guerra. O projeto do SESP assinado por Marcolino Candau e Eugene Campbell, abrangeu o atendimento a um número razoável de domicílios do município, conforme demonstram os pontos a seguir:
a) Prover cerca de 500 casas, localizadas onde não haja rede de esgotos, e onde a situação econômica do proprietário não o permita construir, de uma privada sanitária;
b) Fornecer 250 lages para que os proprietários em melhores condições financeiras construam uma privada em suas propriedades;
c) Fazer as 500 privadas propostas em cooperação com os proprietários ou moradores de maneira a dividir o custo entre estes e o SESP;
d) Cooperar no serviço de saneamento geral levado em efeito pelo Centro de Saúde prestando assistência técnica quando requerida pelo Diretor do referido Centro;
e) Obter da prefeitura local a cooperação necessária à realização do projeto e também a ligação à rede de esgotos dos prédios cujos proprietários estejam em condições de fazê-las;
f) Obter da Prefeitura local que se coloque a licença de construção na dependência da existência no projeto de meio satisfatório para disposição dos excretos.
(Fundo SESP – 1943/1945 – COC – Doc. 35/ Caixa 47).
Destes pontos, alguns podem ser considerados de difícil resolução, como os itens “c” e “e”, em função dos poucos recursos econômicos da população atendida, e pelos atritos já assinalados entre o SESP e a Prefeitura de Governador Valadares. Além da construção de privadas, o Serviço se predispôs a fabricar lajes de concreto, para o complemento do trabalho. Estas ficavam alocadas no Centro de Saúde municipal, sendo repassadas para os proprietários de casas locais, algumas após o pagamento de uma pequena taxa de contribuição, outras de forma gratuita.
Nas demais localidades do Vale do Rio Doce – onde havia passagem da EFVM -, o SESP construiu um total de 122 latrinas em 1946, o que tende a ser um número relativamente irrisório, ainda mais se formos analisar o distrito de Derribadinha, onde apenas cinco latrinas foram entregues à população, conforme disposto na tabela 3.5:
Tabela 3.5 – Latrinas construídas em Minas Gerais (RD-MGE-9). Município Nº. de latrinas Resplendor 48 Conselheiro Pena 12 Barra do Cuieté 10 Tumiritinga 12 Derribadinha 5 Antônio Dias 17 Desembargador Drumond 18 Total 122
Fonte: (Fundo SESP – 1945/1947 – COC – Doc. 45/ Caixa 48)
Fato curioso foi verificado em um dos distritos de Governador Valadares, denominado “Chonim”, já em princípios de 1950. O documento intitulado Relatório do Núcleo de Cooperação Rural de Chonim, traz alguns dados significativos, sobre as condições de trabalho do SESP pela zona rural do Vale do Rio Doce, além de mostrar a inoperância da prefeitura municipal no que tange à melhoria nas condições de acesso aos limites das zonas rurais.
Escreve o documento Fausto Teixeira (visto como coordenador, possivelmente da ACAR ou do próprio SESP). Em seus comentários, a parte central é uma crítica ao prefeito de Governador Valadares, na questão relativa à falta de medidas necessárias para a interligação do distrito à Rodovia Rio-Bahia, seja pelo asfaltamento do trecho ou até mesmo pela ida ao local de tratores apropriados para a melhoria da estrada de terra.
Fausto Teixeira percorria as regiões circundantes à cidade de Governador Valadares, por esta razão, o bom estado de conservação das estradas poderia gerar um ganho de tempo em seus trabalhos. O mais interessante do documento porém, associa-se ao processo de desalento, causado também, pela falta de condições econômicas dos moradores de Chonim, para arcarem com a construção de privadas em suas casas.
Neste ponto, existem duas questões pertinentes sobre este impedimento: a) realmente os moradores não tinham como arcar com os custos da fabricação das privadas, fato este reforçado pela passagem, em que “(...) julga-se que muitos podem arcar com as despesas, se o
pagamento for em prestações mensais suaves, até 10 meses, se necessário” (Fundo SESP – 1951/1953 – COC – Doc. 45/ Caixa 23) e b) não seria visto como um problema primordial para os moradores de Chonim, a necessidade de se construir privadas higiênicas em suas residências, uma vez que a presença de doenças advindas de verminoses, não era algo desconhecido para os moradores. Embasam este raciocínio, os costumes tradicionais mencionados e a aversão por novas técnicas de lidar com a questão da saúde para as populações interioranas. É importante percebermos até que ponto havia a necessidade, por parte dos moradores deste distrito, pela construção de privadas.
Muitos problemas enfrentados pelo SESP e também pela Fundação Rockefeller, no que tange à tentativa de propor algum trabalho em saúde pública, estiveram associados à falta de conhecimentos, a partir das reais necessidades das populações assistidas. Estes órgãos, tinham em seus quadros de funcionamento, todas as doenças locais, o nível de renda dos moradores, a instrução escolar (que era deficitária na maioria dos sertões), a topografia dos municípios, e mesmo com tantos dados, abordaram um método de trabalho que excluía o seu próprio alvo de ação, das decisões a serem tomadas.
Não houve uma preocupação em listar junto às populações os tipos de problemas a que estas mesmas se inseriam, para desta forma, manipular algum tipo de assessoramento. Em grande medida, esta “falha” sespiana se apresenta pela própria essência do Serviço, que visava desde sua origem, uma extração das riquezas minerais a serem exploradas, como principal razão de existir, para a partir disto, prover os Vales Amazônico e do Rio Doce com seus métodos profissionais em saúde pública.
Em Chonim, o SESP não se preocupou em primeiro verificar a relevância econômica, cultural e até política para a elaboração de seus trabalhos, agindo abruptamente como fora feito pela Rockefeller, principalmente em países como a Colômbia. Houve no entanto, um indício de mudança ocasionado pela interligação da ACAR ao SESP em fins da década de 1940, o que propiciou um aumento de estudos sobre saúde pública e agronomia para as crianças locais. Ao Serviço, coube a tarefa de enfatizar junto às escolas de Chonim, a relevância de se ter um bom estado
de saúde, e isto era passado diretamente nas salas de aula, junto às crianças. Já a ACAR, teve a incumbência de demonstrar os novos rumos da agronomia do pós-guerra, em muito sustentada pela maior interessada nestes fins, justamente a Fundação Rockefeller, que difundia a mecanização da lavoura, a plantação em larga escala (aos moldes da plantation, o que desembocou na Revolução Verde) e o abandono dos meios tradicionais da agricultura.
3.3. Programas educativos e treinamentos realizados pelo SESP