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2 Theoretical background

2.1 Airborne electromagnetics (AEM)

2.1.4 The SkyTEM system

Um outro texto importante de Heidegger refere-se a uma conferência realizada por ele sobre a técnica, com o título: A questão da técnica <Die Frage nach der Technik>, proferida no dia 18 de novembro de 1953, na Escola Superior Técnica de Munique. Essa conferência abre a possibilidade de melhor entendermos nossa época atual. Heidegger inicia suas reflexões procurando mostrar que a tarefa do pensamento se constitui num indagar, e que tal indagação constrói um caminho e que todos os caminhos do pensamento passam pela linguagem. Questionar a técnica moderna implica em buscar uma relação livre dos homens com a técnica, entende-se por relação livre se abrirmos a nossa existência à compreensão da essência da técnica. Ele nos adverte que “(....)a essência da técnica também não é, de modo algum, algo de técnico” (HEIDEGGER, 1997, p.43). Será preciso, portanto, nos aproximarmos do que entendemos por técnica e, mais especificamente, como aponta Heidegger devemos nos aproximar de sua essência, quando nos referimos à técnica moderna. A essência de algo, segundo antiga doutrina, refere-se ao “pelo que algo é”. “(....)Questionamos a técnica quando questionamos o que ela é” (Idem, ibidem). A palavra técnica provém do grego techno de téchne, que se refere à arte, a habilidade especial de executar ou fazer algo. Heidegger segue dois enunciados esclarecedores: técnica é um meio para fins, e o outro diz: técnica é um fazer do homem”. As duas indicações estão relacionadas e nos remetem ao fazer humano, utilizando instrumentos, aparelhos e máquinas no uso e no seu emprego para determinados fins. Dirá Heidegger que a técnica moderna também é um meio para determinados fins, mesmo considerando-se a diferença entre um cata-vento e uma hidroelétrica, entre tantos outros equipamentos que entram no processo de produção da técnica industrial. Mas o caráter “(....)instrumental da técnica não nos mostra a sua essência” (Idem, p.45). É preciso ir além e

observarmos que a técnica nos remete à idéia de causalidade, pois a realização, a efetuação de algo está implicada a um operar de causas em direção a este fim.

“(....)Aquilo que tem como conseqüência um efeito, denominamos

causa. Contudo, não somente aquilo que mediante o qual uma outra coisa é efetuada é uma causa. Também o fim, a partir de que o tipo do meio se determina, vale como causa. Onde fins são perseguidos, meios são empregados e onde domina o instrumental, ali impera a causalidade <Ursächlichkeit>, a causalidade <Kausalität>” (HEIDEGGER, 1997, p.45).

Heidegger retoma a noção de causa presente em Aristóteles, que fala das quatro causas, a saber: a causa materialis, ou seja, a matéria tal como concebemos hoje no conceito de matéria-prima, diz respeito ao material empregado para a realização de algo, como o aço que está contido numa faca; a causa formalis, que se refere à forma, à figura em que se instala o material – faca, sua forma; a causa finalis, o fim a que se destina a coisa criada, por exemplo: a faca para cortar pães, para cortar a carne, como uma taça que é requerida para brindar, celebrar ou “(....)o sacrifício para o qual a taça é requerida e determinada segundo a matéria e forma”; e, por último, a causa efficiens, que está associada àquele que efetua, que realizou o trabalho, por exemplo: o forjador da faca ou da taça de prata.

“(....)A causa efficiens, uma das quatro causas, determina de modo exemplar toda a causalidade” (Idem, p.47).

Os desdobramentos do pensamento metafísico levaram-nos ao esquecimento dessas quatro causas, concentrando-se mais fortemente na causa efficiens. Assim, a eficiência produtiva da fábrica volta-se à produção em grandes escalas, onde o homem passou a ser um mero executor, que faz parte de uma linha de montagem, obedecendo rigorosamente à logística do processo produtivo com seqüências previsíveis e, certamente, enfadonhas. A sofisticação dos meios de produção nos dias atuais chega a substituir os homens pela robótica, uma ciência contemporânea capaz de executar funções antes humanas, garantindo assim uma eficiência precisa, eletro/mecânica de um robô programável. A logística da produção envolve minimização de custos operacionais, uma vez que com os robôs a empresa evita os pesados custos alcançados pelo direito

trabalhista. Conforme indica a tradição filosófica advinda de Aristóteles, estas quatro causas deveriam ser consideradas na produção, por exemplo, de uma coisa como a taça de prata conforme nos indicou Heidegger. No entanto diz o pensador, há muito essas quatro causas foram abandonadas em detrimento de uma causa que se tornou imperativa sobre as demais, que é a causa efficiens, ou seja, aquele que efetua, que realiza.

Heidegger chega a observar no seu texto que, em geral, nem mais se considera a causa finalis, a finalidade, como causalidade. A finalidade, o a-fim- de-que, perde-se no horizonte da efetuação. Temos a impressão até de que o desdobramento dessa relação homem técnica e o âmbito das produções industriais e a economia de consumo a que estamos enredados produzem tanto e tão vorazmente que se violenta aquilo que é realmente necessário ao homem. A reflexão sobre as quatro causas, mais do que um exercício filosófico acadêmico, ressalta a maneira como os homens se encontram comprometidos com a coisa. Um exemplo dado por Heidegger pode nos esclarecer:

“A prata é algo a partir de que a taça de prata é feita. Ela é,

enquanto essa matéria, cúmplice da taça. Esta deve à prata, isto é, agradece à prata por aquilo em que subsiste. O libatório, porém, não somente deve algo à prata. Enquanto taça, o que está comprometido com a prata aparece no aspecto da taça e não no de uma fivela ou de um anel. O libatório, desse modo, é imediatamente dependente do aspecto da taça. A prata, por onde o aspecto taça penetrou, e o aspecto, por onde a prata aparece, ambos estão a seu modo comprometidos com o libatório. Mas, sobretudo, um terceiro elemento está comprometido com ele. Este elemento delimita previamente a taça no âmbito da consagração e do sacrifício. É assim que ela é circunscrita enquanto libatório. O que circunscreve, finaliza a coisa. Com esse fim, a coisa não cessa, mas inicia a partir de si o que será após a fabricação. O que termina, completa neste sentido, significa em grego telos, que na maioria das vezes se traduz por objetivo e fim e, assim, se deturpa. O telos compromete, é o que com-promete <Mitverschuldet> o libatório enquanto matéria e enquanto aspecto. Por fim, há um quarto elemento comprometido na disposição e preparação do libatório fabricado: o forjador da prata; porém, de modo algum enquanto causa efficiens, no sentido de que ele efetua agindo, como efeito de um fazer, o libatório fabricado”

(HEIDEGGER, 1997, p.48-49).

Mais do que marcar uma a inversão gramatical possível, ao colocar todo produzir da coisa e sua destinação na voz passiva, Heidegger quer com isto

testemunhar o modo como esse produzir, esse fazer, está enredado nessas quatro noções de causa. O âmbito da relação com os entes quer seja a matéria- prima, a taça enquanto forma que possibilita conter e verter o vinho nela contido, como a haste que permite segurá-la com firmeza e erguê-la durante o libatório, marca o gesto da oferenda e da consagração, são reuniões que auscultam o fazer dos homens naquilo que Heidegger denominou, como vimos, quadrindade, “pela brincadeira de espelhamento entre os constituintes da quadrindade” (LOPARIC, 20001, p.52). Pela brincadeira no sentido da leveza com que esses envios do ser podem ser desvelados no horizonte da proximidade vivida junto aos entes (coisas).

“(....)Esta totalidade é o elemento específico do Mundo (perdido

pela época atual) – a unidade mítico-precursora, na qual céu e a terra, o ser-aí, enquanto mortal, e a divindade sacral instituem-se na abertura poética. Superam-se, assim, as dicotomias filosóficas que separam o sujeito do objeto, a razão do sentimento, o pensar do poetar, enfim, as superfícies que encobrem o real impenetrado”

(BEAINI, 1986, p.96).

Heidegger, ao apontar para a quadrindade céu-terra-divinos e mortais, quer apenas mostrar os diferentes âmbitos em que podemos presentificar o ente, desvelando-o num horizonte rico e não empobrecido pela aridez da logística produtiva e do consumo.

Retornando à questão da técnica e do caminho que Heidegger percorre na explicitação de sua essência, convém observarmos que o perigo da técnica moderna ao voltar-se unicamente para a causa efficiens ou para a eficiência produtiva, é nos esquecermos ou nos distanciarmos dessa totalidade que envolve não somente as quatro causas, mas o âmbito do que designamos pela reunião dos divinos e dos mortais, do céu e da terra, ou seja, dos diferentes envios do ser. A técnica moderna corre o perigo de transformar a coisa em mera coisa, ou seja, em objeto sustentado apenas por relações objetivadas (Vorhandenheit).

Produzir ou ocasionar algo articula-se às quatro causas, conduzindo algo do ocultamento para o desvelamento.

“(....)O produzir leva do ocultamento para o descobrimento. O

trazer à frente somente se dá na medida em que algo oculto chega ao desocultamento. Este surgir repousa e vibra naquilo que denominamos o desabrigar <Entbergen>. Os gregos têm para isso a palavra Alethéia. Os romanos por ‘veritas’. Nós dizemos verdade e a compreendemos costumeiramente como a exatidão da representação” (HEIDEGGER, 1997, p.53).

Heidegger pergunta-se “Por onde nos perdemos?Questionamos a técnica e agora aportamos na alethéia, no desabrigar. O que a essência da técnica tem a ver com o desabrigar?” (Idem, ibidem).

A questão da técnica sobre a qual medita Heidegger não se reduz à condição de ser meramente um meio. Alcançamos a compreensão da técnica como um desabrigar, abrindo-se assim um âmbito totalmente diferente, pois todo desabrigar acha-se articulado com a verdade (alethéia). A palavra téchne refere- se à arte, à habilidade, nesse sentido Heidegger observa que o significado desta palavra nos destina a duas coisas. Por um lado, a téchne não é somente o nome para o fazer manual, mas também para as artes superiores e belas artes. “(....)A téchne pertence ao produzir, à algo poético < Poietisches>” (Idem, p.55).

A frase a seguir explicita com maior vigor essa relação da técnica com a arte: “(....)Ela (a técnica) desabriga o que não se produz sozinho e ainda não está à frente e que, por isso, pode aparecer e ser notado, ora dessa, ora daquela maneira” (Idem, ibidem). Na pintura de Van Gogh, “O par de sapatos de camponês”, desvela-se através deste apetrecho o mundo desse camponês. Certamente, para o pintor, o seu empenho e sensibilidade puderam desabrigar o mundo desse camponês, enfatizando o vigor de um par de sapatos usados, cujas marcas e deformações próprias da marcha do camponês em terreno acidentado, árido e úmido, convocaram o pintor e a nós apreciadores a ver a força de algo que se desvela a partir desse ente, apresentando-nos a existência desse anônimo camponês.

Mas, se a téchne é um modo desabrigar, onde está a diferença da técnica moderna em relação ao téchne, tal como os gregos antigos pensavam? Heidegger dirá que a técnica moderna também é um modo de desabrigar, mas é preciso observarmos de que modo ela o faz.

Nesse itinerário reflexivo, Heidegger indica que “(....)o desabrigar imperante da técnica moderna é um desafiar <Herausfordern> que estabelece, para a natureza, a exigência de fornecer energia suscetível de ser extraída e armanezada enquanto tal” (Idem, p.57). Assim sendo, a essência da técnica moderna vai se delineando dentro da tríade já exposta por nós, onde a exploração, a produção e o consumo são as visadas desse modo de operar da técnica moderna. Nessa relação marcada pelo desafio, pela provocação, homem e natureza estão implicados.

“Esta provocação recíproca entre o homem e o real – onde o

primeiro toma o segundo como fundo de reserva e o segundo incita o primeiro a procurar as suas forças escondidas – é denominada por Heidegger de armação (Gestell). Nesta palavra está aquilo que constitui a essência da técnica moderna”

(MICHELAZZO, 1999, p.160).

A armação da técnica consolida-se na atitude dos homens perante os entes, desvelando-os a partir de uma armação (Gestell), na qual tudo se reduz a uma única visada, a visada que procura alocar os entes nesses meios de produção e de consumo.

“Com o seu furor a armação da técnica restringe de modo drástico

a nossa interpretação do real, reduzindo-a a praticamente duas posições extremamente perigosas: todo o ente que mostra é sempre apreendido como fundo de reserva e o homem é aquele ente que detém o papel de explorador desse fundo. Esta concepção do real tipo ‘caça e caçador’, estendida por todo o planeta, nos empurra para borda do precipício, pois alimenta a ilusão do homem de ser o senhor absoluto da terra(...)”

(MICHELAZZO, 1999, p.161).

Esta compreensão de Heidegger sobre a essência da técnica lança novas luzes no horizonte do cultivo das artes, uma vez que, como vimos, a téchne acha- se enredada às artes superiores, as belas artes. O fazer artístico, mais do que afeito à produção, cuja visada é o atendimento das demandas do mercado, é arte quando o artista pode auscultar o âmbito de um dizer, de uma linguagem poética, criadora, que desoculta o ente em sua possibilidades de ser, que este dizer possa recuperar o âmbito da quadrindade onde se inscreve a coisa e não a mera coisa. A técnica não pode ultrapassar a força de um logos, enquanto discurso que quer pôr algo a descoberto. O trabalho do artista consiste em abrir essa escuta

silenciosa do ser como âmbito de doação e não a um fazer compulsivo e repetitivo fechado às demandas do mercado e da obtenção do lucro. Voltar a nossa atenção ao ente, ver e desvelar possibilidades, respeitando os seus limites, são recursos que a pedagogia da desconstrução pode propor como exercício em direção a um modo de ser e pensar que ultrapasse os limites da armação (Gestell).