3 Acquisition and subsequent handling of SkyTEM-data
3.4 Data processing
3.4.1 Couplings
O ser-aí é em sua essência cura/cuidado (Sorge), tal como vimos no testemunho pré-ontológico apresentado pela fábula de Higino. O deus do tempo, Saturno, ao resolver o impasse entre a cura (sorge), tellus (terra) e Júpiter, diz: “enquanto viver a criatura será da cura, do cuidado”. Heidegger dirá que a essência do ser-no-mundo é cura (Sorge). Podemos aproximar essa condição existencial através do cotidiano em que o ser-aí se ocupa das coisas com as quais se enreda nos seus afazeres (lidas), como também o ser-aí que se preocupa (Fürsorge) com os outros, no sentido de ficar apreensivo por, ter expectativas, decepções, paciência ou impaciência e até sentir indiferença em relação ao outro. Queremos com isso ressaltar que tanto o cuidado como a preocupação, envolvem os seus modos deficientes.
“(....)Porque , em sua essência, o ser-no-mundo é cura, pode-se compreender, nas análises precedentes, o ser junto ao manual como ocupação e o ser como co-presença dos outros nos encontros dentro do mundo como preocupação. O ser-junto a é ocupação porque, enquanto modo de ser-em, determina-se por sua estrutura fundamental que é a cura. A cura caracteriza-se não somente pela existencialidade, separada da facticidade e de- cadência, como abrange a unidade dessas determinações ontológicas. A cura não indica, portanto, primordial ou exclusivamente, uma atitude isolada do eu consigo mesmo. A
expressão ‘cura de si mesmo’, de acordo com a analogia de ocupação e preocupação, seria tautologia. A cura não pode significar uma atitude especial para consigo mesmo porque essa atitude já se caracteriza ontologicamente como um preceder a si mesma(...)” (HEIDEGGER, 1988, p.257).
De fato, a cura não pode ser pensada como “uma atitude isolada do eu consigo mesmo”, ela perfaz um todo estrutural da condição do homem como existente. Este preceder a si mesmo diz que o ser-aí projeta-se em possibilidades nas quais a temporalidade futuro (ir-a-si) lhe é primordial. Jean Paul Sartre assimila essa indicação ontológica dizendo que o homem é um “para si”. Para não significa, para Sartre, um voltar para si, o “para” tem como referência “o fora”, para fora, pois é lá fora que podemos nos encontrar junto às coisas e aos outros. Tais indicações foram significativas, pois desconstruíram o clima que perdurava na Europa no fim do século XIX e começo do século XX , que era o espiritualismo francês concebido no século XVIII e XIX, um misto de iluminismo com as influências de Augusto Comte, em que se acreditava numa interioridade rica, interna ao homem, na qual ele pudesse se nutrir, conhecendo-se. O conceito de consciência como intencionalidade em Franz Brentano e Edmund Husserl, como vimos, foi fundamental para a desconstrução do espiritualismo francês, que ofereceu bases para Jean-Paul Sartre conceber o homem como um para-si, como projeto.
O ser-aí existe precedendo-se a si mesmo, antecipando-se em relação às suas possibilidades, cuidando delas independentemente do modo como esse cuidado se exerce. A facticidade do ser-aí determina uma apreensão de si como algo já dado, como estando lançado num mundo já posto, constituído. Essa condição existencial do ser-aí, aliada à condição da de-cadência, da queda (Verfallen), constitui o solo por onde a cura (Sorge) encontra uma unidade e sua proveniência perante essas determinações ontológicas da existência.
Porque o ser-no-mundo é cura, pode-se compreendê-lo no modo de relação do ser-aí junto aos entes. Com relação aos entes intramundanos71, podemos dizer que o ser-aí, enredado no seu fazer, na sua lida cotidiana, (que
71 Entes intramundanos é uma expressão usada para as coisas que servem de imediato para algo, os utensílios, brinquedos, idéias, crenças, basicamente, o que não se refere aos outros dasein..
ele) cuida72, das coisas das quais se ocupa. Diferentemente dos entes
intramundanos, quando nos referimos aos outros (ser-aí), dizemos que o ser-aí “preocupa-se por”, ou lhes é solícito. A solicitude diante dos outros é marcada por expectativa, consideração e paciência e até mesmo pela indiferença. Dois modos extremos de relação do ser-aí com os outros são contemplados por Heidegger em Ser e tempo. Um deles é o “Einspringende Fürsorge”, que quer dizer, literalmente, cuidar do outro pulando em cima, protegendo-o, mimando-o, manipulando-o, mesmo que de modo sutil. E o outro modo é o “Vorspringende Fürsorge”, que significa pular à frente do outro, antecipar-se no sentido de permitir que o outro assuma suas responsabilidades, possibilitando que o outro assuma seus próprios caminhos. Nesses diferentes modos de relação, estamos falando da “Cura”, que permeia todos os modos de relação. Essas indicações são fundamentais para que possamos falar da relação educador-educando. Toda relação pedagógica deve envolver uma preocupação liberadora em detrimento de uma preocupação substituidora. Na preocupação liberadora o ser-aí abre possibilidades para que ser-aí assuma a responsabilidade pelo seu ser.
“Do ponto de vista de quem é cuidado no encontro terapêutico
(educacional)73, o paciente é liberado para poder-ser de modo mais próprio. Ou seja, não se estabelece uma relação em que ele é dominado ou se torna dependente do outro, pelo contrário, ele é convocado a assumir sua condição própria de responsabilidade perante si mesmo. Para que o encontro descrito acima possa se dar onticamente, já deve haver, na constituição existencial do ser- aí, a condição ontológica prévia para isso. Fundamentalmente, o ser-aí é ser-no-mundo, e isso implica em sempre já ser-em um mundo compartilhado junto às coisas na ocupação e sempre já ser-com os outros na preocupação. A terapia(educação) existe porque o ser-aí somente é de um modo relativamente ao outro. Isto é, a terapia, é uma expressão ôntica de um determinado tipo de preocupação com o outro” (JARDIM, 2003, p.24).
Discute-se muito essa passagem da ontologia de Heidegger para as diferentes práticas junto aos outros, como a terapia e mesmo a educação. Se Heidegger aborda o ser do ser-aí no âmbito das possibilidades, trazer essas aproximações para uma prática não aviltaria a própria ontologia? É importante
72 Cuida – na citação referida, a expressão que identifica a relação do ser-aí junto aos entes intramundanos é ocupação. Estamos falando aqui do cuidado no sentido ôntico.
73 Os parênteses foram colocados por nós com o intuito de assinalar que estamos vinculando à relação ensino-aprendizagem.
ressaltar que, quando optamos por aproximar o âmbito da compreensão do homem como ser-no-mundo para uma prática educacional, certamente estamos aqui enfatizando, a partir mesmo dessa ontologia, aspectos que consideramos importantes em relação ao desenvolvimento das possibilidades de ser do ser-aí. Assim sendo, corremos o risco de propor indicações que possam, muitas vezes, não contemplar essa ou aquela possibilidade de ser do ser-aí, mas, ao mesmo tempo nos resguardamos diante da concepção ontológica do homem como um poder-ser. Neste sentido a preocupação liberadora abre a possibilidade para um genuíno poder-ser-si-mesmo-próprio. Quando pensamos em práticas junto aos outros, precisamos abdicar a proteção que nos dá o grande guarda-chuva ontológico para nos arriscarmos em algumas indicações ônticas, até porque nossas práticas se organizam dentro desse âmbito.
Vimos, no entanto, que a angústia se angustia por seu ser-no-mundo, ela constitui o pré da pre-sença como condição de angustiar-se perante seu estar lançado, por ter diante de si a condição de ser-para-a-morte. Neste sentido, o ser- aí mostra-se estruturalmente como cuidado, cuidando do seu existir, que envolve desde os modos mais fundamentais e básicos que concernem à sua sobrevivência, como os modos mais sutis que falam de seu sentido de vida e de seu poder-ser. É claro que devemos observar, a partir destas considerações, que a cura (Sorge) pode ser exercida de diferentes modos, até no modo negligente e desatento em que o ser-aí parece não zelar por si mesmo, nem pelos outros ou quando se arrisca desmedidamente em todos os níveis. Pode, sentir-se culpado, ouvindo o clamor da consciência em direção às possibilidades que lhe sejam mais próprias ou não. Nossa intenção, neste capítulo, é, uma vez demonstrada a cura (Sorge) como sendo o ser do ser-aí, passar do plano ontológico das possibilidades para pôr em discussão os planos ônticos que envolvem a relação pedagógica orientada por uma pedagogia da desconstrução.
4.2. PEDAGOGIA E O PARADOXO “CONDUÇÃO E NÃO-DIRETIVIDADE”