2 Theoretical background
2.4 System response (SR)
“Heidegger dirá que estamos à beira do abismo, não pelo perigo
advindo das máquinas ou ogivas nucleares, da violência das grandes cidades ou mesmo da barbárie cultural, mas, antes e justamente da possibilidade real de que o homem possa não ter mais acesso ao pensamento do ser que é aquele que traz o sentido das coisas para o homem. E fazer sentido significa compreender-se a si mesmo ao lidar com as coisas, ser tocado e afetado por elas, habitar na sua proximidade. Assim, um possível esquecimento definitivo do ser, verdadeiramente, constituiria para nós o perigo supremo, pois isso significaria o desaparecimento para sempre da essência do humano no homem” (MICHELAZZO ,
2000, p.10).
A ruptura da unidade originária, fruto do esquecimento da diferença ontológica entre ser e ente, nos encaminhou aos desdobramentos já anunciados neste capítulo. Chegamos a nossa época atual, orientada pelos imperativos da ciência e da técnica moderna, cujos alcances positivos e negativos pudemos observar nas considerações de alguns desdobramentos do pensamento de Heidegger. Algumas das conseqüências desse modo de ser e pensar, levaram Heidegger a falar sobre um ‘obscurecimento do mundo’, que compreende a devastação da terra, a massificação dos homens e a fuga dos deuses. Já tivemos a oportunidade de mencionar a devastação da terra quando discorremos sobre a essência da técnica moderna como sendo a provocação, a disputa alicerçada por uma armação (Gestell) do pensamento, que tem como visada provocar a natureza a nos fornecer recursos e energias ao atendimento das demandas de um consumo cada vez mais voraz e exigente. A terra devastada nos seus recursos mostra sinais de debilidade que já são anunciados por poucos que tentam com
tenacidade preservar e conter os avanços abusivos desse posicionamento metafísico.
A massificação dos homens também já foi devidamente discutida na passagem da impessoalidade, ou da queda (Verfallen) do ser-aí tal como foi discutida em Ser e tempo (1927), e o nosso momento atual, implicado aos determinantes do consumo e da propaganda que nos enreda a interpretar o ser do ente à luz do ser-mercadoria. Resta-nos refletir sobre a fuga dos deuses e para isto creio que um dos mais belos e célebres textos de Nietzsche nos convida a penetrar neste tema, que é o aforismo 125: “O homem louco”, presente em A Gaia ciência:
“Não ouviste falar daquele homem louco que, em plena manhã
clara, acendeu um candeeiro, correu para o mercado e gritava incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus?’ – E, como lá se reunissem justamente muitos daqueles que não acreditavam em Deus, provocou ele então grande gargalhada. ‘Perdeu-se ele, então?’, dizia um. ‘Ter-se-ia extraviado, como uma criança?’, dizia outro. ‘Ou se mantém oculto? Tem ele medo de nós? Embarcou no navio? Emigrou?- desse modo gritavam e riam entre si. O homem louco saltou em meio a eles e transpassou-os com o olhar. ‘Para onde foi Deus?’, clamou ele, ‘eu vos quero dizê-lo! Nós o matamos, vós e eu! Nós todos somos seus assassinos? Como, porém, fizemos isso? Como pudemos tragar o oceano? Quem nos deu a esponja para remover o horizonte inteiro? Que fizemos nós quando desprendemos esta Terra de seu sol/ Para onde se move ela, então? Para onde nos movemos nós? Longe de todos os sóis? Não nos precipitamos sem cessar? E para trás, para o lado, para a frente, de todos os lados? Há ainda um alto e um baixo? Não erramos como através de um nada infinito? Não nos bafeja o espaço vazio? Não ficou mais frio? Não vem, sem cessar, sempre a noite e mais noite? Não se tem que acender candeeiros pela manhã? Nada ouvimos ainda do rumor dos coveiros, que sepultam Deus? Nada sentimos ainda do cheiro da decomposição divina? – também os deuses se decompõem! Deus morreu! Deus permanece morto! E nós o matamos! Como é que nos consolamos, nós os assassinos de todos os assassinos? Aquilo de mais santo e poderoso que o universo possui até agora sangrou sob nossos punhais – quem enxuga de nós esse sangue? Com que água poderíamos nos purificar? Que cerimônias de expiação, que divinos jogos teríamos de inventar? A grandeza desse feito não é demasiadamente grande para nós? Não teríamos que nos tornar, nós próprios, deuses, para apenas parecer dignos dele? Jamais houve um feito maior – e sempre quem tenha apenas nascido depois de nós pertence, por causa desse feito, a uma história mais elevada do que foi toda história até agora!’ – Aqui, calou-se o homem louco e mirou de novo os
seus ouvintes. Também estes silenciavam e olhavam-no com estranhamento. Finalmente, ele arrojou o candeeiro ao solo, de modo que este se estilhaçou e apagou. ‘Chego cedo demais’, disse ele então; não estou ainda no tempo oportuno. Esse acontecimento formidável está ainda a caminho e peregrina – ele ainda não penetrou nos ouvidos dos homens. Relâmpagos e trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, feitos precisam de tempo, mesmo depois de consumados, para serem vistos e ouvidos. Este feito está ainda distante deles do que os astros mais remotos – e, todavia, eles o consumaram’. Conta- se ainda que, no mesmo dia, o homem louco teria entrado em diversas igrejas e nelas entoado seu réquiem a eternam Deo. Conduzido para fora e instado a falar, teria ele replicado sempre apenas isto: ‘O que são, então, as igrejas, se não criptas e mausoléus de Deus?’”(NIETZSCHE, aforismo 125)84.
Este texto é extremamente rico nas suas possibilidades interpretativas, pois na figura de um “louco”, uma figura para cujo dizer não se dá crédito, acaba por testemunhar e denunciar a morte de Deus, a um público não crédulo. Sua procura foi motivo de chacota e de risos, mas o “louco” reverte esta situação ao dizer nós o matamos, vós e eu! Nós somos seus assassinos! Como, porém fizemos isso? Essa fala do “louco” é consentida pelo silêncio e, mais tarde, pelo olhar de estranhamento, pois o que há de louco nesse louco? O testemunho de nossa solidão e desamparo diante do maior dos assassinatos não encontra ritos nem jogos divinos, nem cerimônias de expiação para nos aliviar dessa culpa e solidão. Culpa sempre traz solidão. O louco ainda pergunta: “A grandeza desse feito não é demais para nós?” A pergunta em meio a outras são testemunhos de nossa condição atual, que não contempla nenhuma resposta. Ao lançar o candeeiro ao solo, apagando-o e estilhaçando-o, o louco diz: “Chego cedo demais(...) não estou no tempo oportuno.” Heidegger dirá: “Chegamos cedo demais para o ser e tarde demais para os deuses(...)”. Uma outra frase contundente acena em direção à denúncia desse tempo sombrio: “Somente um Deus pode nos salvar”. Podemos alinhavar essas frases, dizendo que não será mais o deus judaico-cristão, nem tampouco o deus de qualquer outra religião que nos salvará. Heidegger não pensa mais em ressuscitar o deus das instituições religiosas, o deus que pode nos salvar é o deus do sentimento de religiosidade (religare), da linguagem poiética (criadora) que, aberta à escuta do ser, possa reunir na proximidade e na
84 Este texto foi traduzido por Oswaldo Giacoia Junior e refere-se ao aforismo 125 : “O homem louco”, presente na publicação A Gaia Ciência.
intimidade de nossa relação junto às coisas, como vimos, um convite à brincadeira de espelhamento entre os constituintes da quadrindade. Nesse jogo, nessa leveza em direção ao ser, o divino abriga o lugar do mistério doador do ser.
A pergunta do louco cutuca o nosso vazio existencial. A grandeza desse feito não foi demasiada para nós? Para onde nos movemos nós? Longe de todos os sóis? Não nos precipitamos sem cessar? Não ficou mais frio? Enfim, como os homens podem suportar esse vazio?
“(....)Fugindo do vazio, procurando anestesiá-lo, preenchendo-o
com qualquer coisa que dê algum sentido, nem que seja falso ou dure pouco. Para tanto, segundo Heidegger, entra em cena a maquinação planificada da qual fazem parte, por um lado, as Weltanchauungen e as ideologias que se encarregam de criar valores – sejam eles culturais ou científicos, sociais ou religiosos, segundo o que preconizam as necessidades do momento ou as exigências da moda, e, por outro, o mecanismo de produção de uma quantidade incalculável de bens e serviços fungíveis, calculados para atender às mais diversas necessidades e aos mais refinados gostos do mercado” (MICHELAZZO, 1999, p.169)
O ser-aí foge do confronto com esse vazio, preenchendo-o por diversos meios e recursos, um drible da sua condição existencial é realizado pelos modos de dissipação do ser-aí em relação a si mesmo. Um dos modo da queda (Verfallen) diz respeito à avidez de novidades, ou seja, a existência sustentada pela curiosidade, pela falta de paragem sem se demorar em nada, sem apropriação. O novo apenas incita e provoca um caminhar tímido e temporário em direção a um outro novo, e assim sucessivamente.
Mas as perguntas do louco ainda se fazem ressoar em nossos ouvidos, entre elas: “Quem deu a esponja para remover o horizonte inteiro?” Esta pergunta nos remete ao sentido, ou melhor, à falta de sentido como o único sentido a vigorar.
“(....)a fuga dos deuses, incorporado à devastação da terra e a
massificação do homem -, o mundo obscurecido torna-se mais indigente e se aproxima ainda mais do abismo. Abismo, aqui, significa ausência de fundo (Ab grund), o mundo perdeu o seu fundamento que dá o sentido às coisas e ao homem. Deste modo ’a ausência de sentido’ (Sinnlosigkeit) torna-se o único sentido {...}
dando, assim, início à era da obscuridade acabada, da perfeita ausência de sentido” (HEIDEGGER, apud MICHELAZZO, 1999,
p.169).
A fuga dos deuses em Heidegger é uma variação da temática aqui apresentada na figura do “homem louco”, de Nietzsche, e que tais referências nos situam sobre o modo de ser do homem atual. Com Heidegger, podemos observar que esses três fenômenos: a fuga dos deuses, que é parte integrante do niilismo, bem como a devastação da terra e a massificação dos homens, se acham atrelados ao esquecimento do ser, portanto, a um pensamento que, arquitetado em direção ao controle e domínio dos entes, tornou-se esquecimento da pergunta pelo sentido do ser.
CAPÍTULO VI - RE-ENCANTAMENTO DO OLHAR OU A ESCUTA DO