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The international discourse on large dams

In document Institutions for Sustainable Development (sider 108-123)

Shifting legitimizations of large dams: A review of current debates on India and Turkey

3. The international discourse on large dams

Vimos no decorrer deste capítulo que as obras literárias facultam aos alunos espaço para construir o conhecimento, o que leva a que estes possam ter uma melhor perceção do mundo em que estão inseridos. Para tal, utilizámos algumas lendas que foram selecionadas de modo a promover a construção de conhecimento histórico e que veiculam informações preciosas relativamente ao meio local (Lenda dos batizados da Meia-noite) e (Lenda do Caramuru), bem como relativamente ao contacto entre portugueses e brasileiros no processo de expansão portuguesa, isto relativamente à figura lendária do Caramuru. Antes de nos centrarmos propriamente numa descrição histórica destas duas ferramentas didáticas, procurámos explicar a diferente tipologia de lendas que Marques (1962) defende. Para este autor, “as lendas transmitem- se e perduram, sem que seja necessário nada disso. Apenas a voz as transporta. De voz em voz, galgam os séculos. Perpetuam-se como a própria vida” (p.5)

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Marques (1962) refere “(…) foi o povo que me contou as suas histórias.” (p.6), tal como nós percebemos que isso aconteceu com as lendas por nós exploradas em contexto de PES, uma vez que os seus autores se muniram de diálogos com o povo ou então de relatos escritos para redigirem tão “preciosas obras”, sendo que estas se modificam através do ato de “passar de geração em geração” (p.6). As lendas que este projeto veicula vão, na nossa opinião, ao encontro daquilo que este autor defende, uma vez que apresentam: “um conteúdo muito mais profundo do que pode supor-se à primeira vista (…) com razões de ponderar, que as lendas constituem na sua essência o anseio espiritual do homem de sempre ao tentar conhecer e dominar os mistérios do universo” (p.7). Ainda sobre Marques, este publicou a obra “Lendas de Portugal”, entre 1962 e 1966, onde faz a compilação, através de vários volumes de: Lendas dos Nomes das Terras, Lendas Heroicas, Lendas de Mouras e Mouros, Lendas Religiosas e Lendas de Amor. Trata-se de uma obra das mais conhecidas uma vez que integra um trabalho exaustivo das lendas de Portugal. Segundo este autor e fazendo apenas uma pequena elucidação acerca das demais tipologias de lenda, Marques (1962) defende que as Lendas Piedosas são destinadas apenas à “vida dos santos e histórias relacionadas com a Igreja” e que as Lendas Tradicionais são “fiéis, cada vez mais, ao maravilhoso e ao sobrenatural.” (p.8). No que concerne às Lendas de Mouras e Mouros, é de notar que prevalece o encontro civilizacional entre a cristandade e o mundo islâmico onde se contam lendas plenas de amores, batalhas e emoções onde um mundo mágico ganha forma diante da nossa imaginação fruto da herança direta da ocupação muçulmana da região portuguesa. Noutro âmbito aparecem-nos as Lendas de Amor que segundo o autor são de índole “mais ingenuamente popular, mais tipicamente tradicional, mais saborosamente simples” uma vez que o grande denominador de todas as lendas deste autor não mais é, senão o amor. Por fim, elucidámos um pouco aquilo que são as Lendas dos Nomes das Terras uma vez que estas servem como testemunho de terras antigas, dos seus mitos fundadores e dos eventos e acontecimentos que as definem enquanto local com identidade, conferindo aos seus habitantes um sentido de unidade e pertença. De modo a sintetizar, focamo-nos nas lendas Heroicas e Históricas uma vez que foram estas aquelas que escolhemos para o desenvolvimento do projeto.

No que alude, então, às Lendas Heroicas e Históricas importa dizer, desde já, que estas nos transmitem momentos num tempo em que o homem e, consequentemente, a história decidiram recordar, mitificando acontecimentos e ações representativas de ideais de coragem e valor. Este tipo de lendas referem-se a personagens da História de um país, de determinados

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locais ou monumentos históricos. Por vezes, são contadas de uma forma exagerada, extraordinária e simbólica.

A escolha da obra para cada um dos ciclos, teve que coincidir com os conteúdos de História que os alunos estavam a realizar aquando da nossa intervenção em 2ºCEB, na qual nos centramos, à posteriori. Paradoxalmente, e uma vez que estes conteúdos não se enquadram no programa do 2º ano de escolaridade do 1ºCEB, embora em nossa opinião devam fazer parte da formação integral dos alunos, optámos por escolher a Lenda dos Batizados da meia-noite, onde iríamos trabalhar duas distintas versões. Como tal, escolhemos “Um baptizado à meia-noite de Luís Arezes (2005) e ilustrado por Isabel Casares da obra “Ponte da Barca: Lendas e Narrativas e História (p.139), (versão A da lenda), (anexo I) e “Os baptizados da meia-noite” de Viale Moutinho (anexo J) na obra “Lendas de Portugal” (versão B da lenda).

Se atentarmos naquilo que nos diz a Lenda dos Batizados da meia-noite, percebemos que de um modo genérico, se trata de uma profecia na qual as famílias, sobretudo as mulheres acreditavam, fruto das muitas mortes que existiam de crianças ainda no ventre da mãe ou durante o parto. Assim sendo, para o/s seu/s filho/s terem um bom nascimento acreditava-se que as crianças deviam ser batizadas com as águas do Rio Lima, ainda na barriga da mãe. As famílias deslocavam-se desde o local onde moravam até ao centro da ponte de Ponte da Barca e lá esperavam pelas doze badaladas da Igreja Matriz. A cerimónia ocorria quando, já depois da meia- noite, a primeira pessoa a atravessar a ponte aceitava ser o padrinho ou madrinha da criança. De notar que se algum animal atravessasse a ponte antes ou durante o surgimento de alguma pessoa, a cerimónia ficava sem efeito. O batizado ocorria no centro da ponte e o padrinho devia utilizar uma corda, um púcaro e um ramo de oliveira para aspergir na barriga da mãe, proferindo algumas palavras. A palavra “ámen” era proibitiva, pelo que só podia ser dita na Igreja Matriz aquando do momento em que a criança, já depois de ter nascido, era batizada. Diz-se, ainda nos nossos dias, que as crianças que foram batizadas segundo este ritual são dotadas de um bom nascimento e que são mais fortes e graciosas que as demais.

Neste contexto, a obra de Luís Arezes retrata de forma pormenorizada e quase fotográfica o ritual no qual o povo de Ponte da Barca acreditava. Arezes (2005) defende que muitas coisas “dignas de grande memória” acabam por ser esquecidas. Pensamento idêntico nos ocorre, repetidamente, em relação a Ponte da Barca. Tal é a falta de monografias e de estudos sobre a nossa História e a nossa Cultura (…)” que leva a que “a lei da morte se apodere de muitas das

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raízes da nossa identidade coletiva.” (p.27). Para tal, o autor ouviu muitas histórias de pessoas da terra, realizou pesquisas e trabalho de campo “procurando, sempre, a fidelidade ao essencial – da tradição ou da lenda – e a valorização, tanto quanto possível rigorosa, dos elementos históricos que serviram de pretexto e de inspiração à narrativa.” (p.27). O autor refere que “oxalá esta opção pela narrativa ficcional torne o texto mais apetecível e a sua leitura mais apelativa, sobretudo para os mais novos. Porque foi, antes de mais, a pensar neles que este texto foi urdido.” (p.27). Por outro lado, de um modo geral e sintético, e caraterizando a obra de Viale Moutinho (versão B da lenda dos batizados da meia-noite) podemos dizer que esta não é tão pormenorizada ou detalhada, referindo apenas a forma como as crianças que nasciam depois deste ritual se tornavam fortes e vigorosas, retratando alguns episódios de uma personagem anónima que nos aparece como o “homenzarrão”, cuja nomenclatura só por si já nos induz ao caráter possante e robusto. Esta personagem aparece como superior às demais e os seus feitos são “engrandecidos” perante a realidade e as forças dos humanos. Um ponto convergente entre as obras de ambos os autores é a utilização de uma linguagem “robusta” e “rebuscada” que nos levou a encetar uma série de pedagogias que permitissem a desmistificação de alguns termos e uma perceção correta e ajustada por parte dos alunos.

Relativamente à Lenda do Caramuru, explorada em contexto de 2ºCEB, segundo Ubaldo Marques (2013), autor da obra “Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, Patriarca do Brasil”, esta figura lendária teria três diferentes origens, ou seja, especulava-se que pudesse ser francês, espanhol ou português. Obviamente, centrámo-nos na teoria de que Caramuru seria português e no enorme contributo que deu aos portugueses durante a época dos Descobrimentos ao contactar diretamente com o povo brasileiro. Assim sendo, e segundo relatos da época “Diogo deve ter nascido por volta de 1490”. E pronto, não se conhece mais nada até 1509, ano em que o jovem surgiu na Bahia.” O autor refere no diário de navegação da armada colonizadora que quando atracaram em solo brasileiro se depararam com um branco entre os nativos da tribo tupinambá: “Nesta baía achamos um homem português, que havia vinte e dois anos que estava nesta terra”. Tendo por base alguns estudos, consta-se que Caramuru terá nascido em Viana do Castelo. Como tal, dois séculos depois, no livro “Os Vianenses na Construção do Novo Mundo (Séc. XVI-XVII)”, editado em 2008, pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, o autor, Manuel António Fernandes Moreira, fez o seguinte registo, citando: “A. Machado Vilas-Boas, historiador inquestionável de Viana, no princípio do século XVIII escreveu: Diogo Álvares, natural desta nossa Villa Viana” (Moreira, 2008, p. 149). Moreira refere ainda que “...é difícil detetar restos deste ilustre filho da

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terra. Tudo o que é possível levantar não passa de meras hipóteses” (p. 149). As duas versões lendárias que se apresentam em torno deste personagem e que procurámos implementar ao longo do projeto, prenderam-se com as duas versões referentes ao seu nome e ao porquê deste ter sido poupado pela tribo dos tupinambás, uma vez que era um grupo de canibais e devorou todos os colegas que atracaram com este “vianense” (anexo L). Fornecemos aos nossos alunos um guião para realizarem o questionário referente à segunda sessão do projeto no 2º CEB, onde denotámos as várias versões para explicar o porquê de Caramuru ter sido poupado. De notar que uma delas dizia que ele teria imposto respeito aos índios ao disparar uma arma de fogo, daí o novo nome, que significaria homem do fogo, filho do trovão. Outra versão afirmava apenas que ele era magro demais e não teria apetecido aos canibais. Quanto ao nome “Caramuru”, existiam também duas versões lendárias diferentes. A primeira afirmava que Diogo fora encontrado pelos indígenas no meio de pedras da praia e das algas, como se fosse uma lampreia. A segunda afirmava que este terá utilizado uma arma de fogo para afugentar os índios, pelo que “filho do trovão” terá sido o significado para tal apelido.

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