3. Target structure
3.1 Prepositions and prepositional phrases in English
3.1.2 The internal and external structure of prepositional phrases
Sem prejuízo da cooperação que Cabo Verde tem desenvolvido com os parceiros do Atlântico norte, nomeadamente a Europa e os EUA, que não deve ser descurada pela relevância que tem tido no desenvolvimento integrado do país, há que (re)pensar o
fortalecimento da relações diplomáticas e de cooperação procurando outras ancoragens, nomeadamente a valorização da cooperação Sul-Sul (Graça 2014, 267-287).
Numa altura em que se discute muito a questão da mutação no que tange à polaridade do sistema internacional devido à emergência de vários polos de poder, inclusive no Sul, qual é o impacto que isto representa na reconfiguração e redefinição da política externa cabo-verdiana? Esta redefinição do espaço político e económico internacional, introduzindo profundas alterações na economia política internacional, terá grande reflexo no xadrez diplomático internacional. O Sul poderá ter um papel mais activo e interventivo nas grandes decisões políticas e económicas e internacionais invertendo a marginalidade a que foi tendencialmente relegado na política internacional, de regiões consideradas periféricas do Sistema-Mundo segundo as perspectivas analíticas das teorias da dependência e de economia-mundo capitalista já discutidas no capítulo 2.
Uma redefinição da política de cooperação de Cabo Verde, apostando na cooperação Sul-Sul, poderá ter uma grande relevância estratégica relativamente aos problemas que nos ocupam. Tendo em conta que as ameaças mais relevantes para o ambiente estratégico cabo-verdiano têm origens bem identificadas, nomeadamente da América Latina e do Espaço Oeste-africano, sem prejuízo de uma atenção alargada a outras áreas do continente africano pelas razões acima expostas, cremos ser fundamental neste momento o fortalecimento da política externa de cooperação de Cabo Verde com três espaços bem definidos: O Brasil, a CEDEAO, e as Ilhas Canárias.
A cooperação com o Brasil alicerça-se em vários aspectos: primeiro, no facto de o Brasil fazer neste momento parte do corredor internacional do narcotráfico proveniente da Colômbia, de que fazem parte Cabo Verde e outros países da CEDEAO, penetrando particularmente nos países sul da Europa como a Espanha, Portugal e Itália através da região autónoma espanhola das Ilhas Canárias, e daí acedendo aos restantes centros de consumo de drogas no Norte da Europa, territórios privilegiados pelo narcotráfico internacional devido às suas potencialidades económicas (Durmaz 2005, 13-18, Ebo 2008, 61). Por isso, uma cooperação estratégica com o Brasil no domínio da segurança, concretamente no combate ao narcotráfico, poderá ter efeitos positivos. Um outro aspecto que enforma uma cooperação privilegiada com o Brasil, é o facto de este ser um importante polo de poder emergente no Sul e possui uma das maiores forças
armadas do mundo.113 Sendo um país com potencialidades económicas e militares, não só pode desenhar uma cooperação eficiente do ponto de vista operacional no combate às novas ameaças, mas também poderá dar um grande contributo no quadro das reformas estruturais das forças armadas cabo-verdianas, em curso desde o início dos anos noventa do século passado114.
Como segundo eixo estratégico de cooperação, defendemos uma cooperação estratégica com a Espanha no que tange ao controlo e fiscalização da fronteira entre o arquipélago de Cabo Verde e a região autónoma de Canárias. Esta cooperação no que concerne à fiscalização da fronteira mais setentrional de Cabo Verde é de extrema relevância para estancar, ou pelo menos mitigar os fluxos da criminalidade organizada em direcção ao Norte.115
Para fechar este triângulo de cooperação internacional na área do Atlântico Médio e Sul, restam os países da Costa Ocidental Africana, que como já referimos se encontram no epicentro de várias ameaças exógenas à segurança interna do arquipélago de Cabo Verde, devido aos casos de ineficiência da construção e de desestruturação dos Estados pós-coloniais, aliados às dinâmicas políticas e sociais internas como conflitos políticos e sociais, e a factores geopolíticos como a porosidade das fronteiras e a migração e implantação de grupos radicais e terroristas. Entra também nas relações com este espaço o dossier da regulação da imigração, que abordámos no capítulo 5.
Alguns investigadores cabo-verdianos, com destaque para João Estêvão (2014, 321-346), têm argumentado que uma integração plena de Cabo Verde no espaço Oeste- Africano (CEDEAO) apresenta muitas contradições relativamente aos valores sociopolíticos e socioculturais do país. Face a estas contradições, questiona-se se realmente Cabo Verde deve apostar na integração política no espaço onde está inserido geograficamente, ou se não seria melhor postar nas relações de cooperação e integração em outros espaços com maiores afinidades socioculturais e políticas, mais estáveis e mais dinâmicos politicamente e economicamente, como o Europeu.
113 Embaixador da República de Portugal em Cabo Verde, entrevista, Cidade da Praia.
114 Coronel Fernando Carvalho, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadasde Cabo Verde, entrevista,
Cidade da Praia, Setembro de 2010. Saliente-se que existe já um Acordo sobre a Cooperação Técnica no Domínio Militar entre o Governo da República de Cabo Verde e o Governo da República Federativa do Brasil. Resolução nº 126/VII/2010 publicada no Boletim Oficial de Cabo Verde de 12 de Abril de 2010.
Para uma melhor percepção sobre esta questão das relações diplomáticas com a CEDEAO, fomos ao encontro de dois diplomatas ao serviço do governo de Cabo Verde. Camilo Leitão da Graça, que vem defendendo a opção pelo continente africano em detrimento de outros espaços de integração como a Europa (2014, 267-283), considera que existe uma falta de sentimento e de pertença a uma identidade africana por parte dos cabo-verdianos e dos seus dirigentes políticos: “Dá-se a percepção que as elites políticas cabo-verdianas vêem Cabo Verde, como uma realidade política sociocultural que não se insere na CEDEAO, ou seja, vêem como que nós não estamos na CEDEAO”116. Por isso, no seu entender, Cabo Verde teria evitado intrometer-se ou assumir posição perante os problemas da CEDEAO, que vê como problema desses países e não seus:
O que se verifica, é um discurso por parte de Cabo Verde de que somos um país estável, com características diferentes em relação aos restantes países da CEDEAO, que por isso, não devemos meter nestes problemas que não é nosso. Mas como já vimos, os problemas da CEDEAO são também problemas de Cabo Verde117.
O diplomata Eduardo Jorge Silva, à data da entrevista director da política externa de Cabo Verde, partilhava da convicção de que Cabo Verde é um país africano inserido na CEDEAO, de cujos problemas não se pode demarcar: “não é possível fazer parte de uma organização e querer apenas a parte boa, mesmo assim, a nossa participação na CEDEAO, o que temos de vantagem é imensamente superior em relação às desvantagens, não necessariamente a um curto prazo”118. Para o nosso entrevistado, a CEDEAO pode vir a tornar-se num grande mercado regional e será de extrema utilidade para o arquipélago.
De facto, as relações diplomáticas de Cabo Verde com a CEDEAO apresentam uma equação complexa da relação custos/benefícios. Em termos de benefícios, a CEDEAO pode vir a tornar-se num grande mercado sub-regional, se levarmos em conta os grandes polos regionais na CEDEAO: Nigéria, Costa do Marfim, Senegal e Gana, países prósperos e com grandes potencialidades económicas. Por outro lado, temos que ver como desvantagens para o arquipélago a questão da imigração, que como dissemos no capítulo 5 permanece um dossier em aberto que ainda não foi possível resolver, e os
116 Camilo Leitão da Graça, diplomata, entrevista, Cidade da Praia, 26 de Julho de 2013. 117 Camilo Leitão da Graça, entrevista supra.
118 Eduardo Jorge Silva, Director da Política Externa, entrevista, Cidade da Praia, 10 de Fevereiro de
riscos de circulação facilitada do narcotráfico, relativamente ao qual a CEDEAO ainda não adoptou um mecanismo eficiente de combate. Paradoxalmente, a Nigéria, que é um gigante desta Comunidade e talvez o seu membro mais influente, está ela mesmo a braços com problemas profundos de narcotráfico, sendo a máfia nigeriana líder internacional dessa actividade na região.
Por estas e outras razões, percebe-se que, nos últimos tempos, o governo de Cabo Verde tenha sido muito mais cauteloso do que anteriormente no quadro das relações diplomáticas com a CEDEAO. Não obstante, na linha de pensamento do nosso segundo entrevistado, não será o reforço da intervenção diplomática na CEDEAO um recurso mas mãos de Cabo Verde para enfrentar estes problemas, dos quais de todo o modo não se poderá alhear? Pensamos, por exemplo, na acção diplomática visando negociar um estatuto de excepção para o arquipélago no âmbito do acordo de livre circulação dos cidadãos da CEDEAO que permita regular a imigração proveniente desses países, de que falámos no capítulo 5; ou, de modo mais geral, na prioridade a dar a acordos em matéria de gestão e fiscalização das fronteiras marítimas, e no papel que Cabo Verde poderá desempenhar numa diplomacia de mediação dos conflitos na região. Cabo Verde não ratificou o protocolo relativo ao mecanismo de prevenção, gestão, resolução de conflitos, manutenção da paz e segurança na CEDEAO. Embora consideremos este um instrumento importante, tendo em conta as especificidades sociopolíticas da região, a sua não ratificação pelo governo de Cabo Verde poderá ter resultado de uma análise custo/beneficio, prevendo possíveis consequências desvantajosas para o arquipélago. Contudo, cremos que Cabo Verde pode dar um grande contributo à integração da CEDEAO, precisamente pela via de uma política externa de mediação, gestão e resolução de conflitos, alicerçada em vantagens recíprocas, uma vez que Cabo Verde ao contribuir neste sentido mitigaria muitas ameaças provenientes dos países região ao seu ambiente estratégico. Quando autores como João Estêvão (2014) e Joaquim Gomes (2014) colocam a tónica num conjunto de problemas de ordem socioeconómica, sociopolítica e sociocultural do espaço Oeste- Africano que possam reverter em desfavor de Cabo Verde, como é caso dos conflitos, esquecem a enorme contribuição que o arquipélago poderá dar para a mitigação destes problemas através de uma política de soft power. Tendo em conta que, em matéria de construção do Estado, Cabo Verde constitui um paradigma no contexto sub-regional, e tendo em conta a sua integração na CPLP e as suas relações com a UE, cremos que
Cabo verde detém um capital político e diplomático que lhe permitiria contribuir positivamente para a materialização do processo de integração da CEDEAO, nomeadamente através de uma política externa de mediação, gestão e resolução dos conflitos.
Uma cooperação triangular como a que desenhámos poderá minimizar as ameaças no ambiente estratégico do Atlântico. Por outro lado, as características complexas do Atlântico Médio e Sul, referindo-nos aos territórios da América Latina, Cabo Verde, CEDEAO e Canárias, mostram que são regiões do Atlântico com grande relevância no sistema operativo da paz e segurança mundial, se houver uma cooperação articulada entre os mesmos no combate às novas ameaças e alargar esta cooperação ao Atlântico Norte. À própria OTAN interessa alargar ou reforçar a cooperação estratégica a Sul, no sentido de combater as ameaças externas à Europa e aos EUA.
A par da resenha da cooperação triangular Sul-Sul incorporando os territórios supramencionados, é mister que Cabo Verde reforce a ancoragem cooperativa no quadro da política de segurança num outro importante polo do poder no Sul – a República Popular da China. Como dissemos, este importante polo do poder no continente asiático, que tem tido um papel importante na (re)definição e (re)configuração do espaço político internacional no período pós-Guerra Fria (Ikembery 2001, 216-218, 256), os interesses de cooperação com Cabo Verde alicerçam-se mais nos factores de ordem económica. Porém, é necessário sublinhar que a China é um dos parceiros tradicionais de Cabo Verde e que as relações diplomáticas e de cooperação entre os dois países remontam aos períodos iniciais da independência política do arquipélago de Cabo Verde (Ministério dos Negócios Estrangeiros, Comunidades e Cooperação S/D, 4), sem esquecer o apoio chinês ao PAIGC durante a luta contra a dominação colonial portuguesa. Este aspecto de cooperação deve ser reinventado para se adaptar ao actual contexto securitário, pois a China, tendo em conta o seu poderio económico, poderá conceder importantes ajudas a Cabo Verde, nomeadamente na capacitação de meios militares e operacionais para fazer face aos problemas que têm sido referenciados.