5.4 How Interaction patient-doctor shapes the patient treatment process
5.4.1 The implications of combining doctor and patients/parents knowledge
Não conseguimos documentar se Pastore, ao retornar para a Itália, depois de ter permanecido em São Paulo no ano de 1895, tentou abrir um estúdio primeiro em Bari, se deslocando posteriormente para a região da Basilicata. Quando tenta-se compreender por que teria ele escolhido a pouco promissora província potentina, que ao final da última década do século XIX era considerada como uma zona opaca, como uma região remota, mal integrada com as grandes redes de comunicação ao sul da Itália, vê-se como inicialmente apenas razões particulares, de parentesco ou afetivas, explicariam seu ato de imigração interna.
O fato de Elvira ter nascido e vivido na capital da antiga Lucania se coloca como a mais plausível explicação para a ida de Pastore para a região da Basilicata, deixando para trás a sua província barese, que apresentava dimensões urbanas mais significativas. Após a unificação desse país, Bari havia se tornado a capital da província da Puglia assistindo a um intenso crescimento demográfico e urbano, com notável expansão das classes médias, conseqüência do aumento das funções burocráticas e terciárias desenvolvidas na cidade. Pastore, na
110
trajetória de deslocamentos de fotógrafos das províncias do sul não optou por Nápoles, o grande local de irradiação cultural de toda Itália meridional, dividindo com Salermo o posto de grande centro de atração para os fotógrafos retratistas. Trata-se de cidades que também se destacavam na comercialização de produtos fotográficos.91
O trajeto de Bari à Estação Central de Potenza ainda hoje é realizada com exaustão. Quatro horas e meia foram necessárias para se cumprir tal trajeto. Na metade do percurso, na comuna de Foggia, troca-se de trem que apresenta apenas dois carros, nada confortáveis. A linha ferroviária Foggia-Potenza foi inaugurada em 1897, diminuindo o isolamento da região da Basilicata, ligando a capital potentina com as demais províncias do sul da Itália (Buccaro, 1997). Tratamos da linha férrea utilizada por Pastore no percurso Bari-Foggia-Potenza, ainda hoje ativado.
Para sair de Bari rumo a Potenza, ao final dos oitocentos, levava-se uma média de onze horas de viagem. Imagina-se o desgaste de tal travessia. Realizá-la foi a chance de se ter a exata noção deste ato de migração interna trilhado por Pastore.
Foi no dia seis de setembro de 1897 que Pastore casou-se com Elvira. A certidão de casamento traz Potenza como o “lugar de celebração do matrimônio”.92 Um ano depois seu
estúdio já se destacava na região da antiga Lucania, composta por duas províncias: Matera, com trinta e três comunas e Potenza, capital da Basilicata, constituindo-se um total de cem comunas. Se por um lado Potenza não era na época considerada como uma cidade em expansão, por outro a extensão territorial e a proximidade entre as várias comunas poderiam ter dado esperança a Pastore, prometendo uma ampla clientela.
A província potentina é uma cidade popularmente conhecida pelas riquezas arqueológicas sobrepostas. Segundo Alfredo Buccaro (1997), trata-se de uma cidade primitiva, sedimentada e constantemente reconstruída após inúmeros terremotos, dado a instabilidade geo-física da região. Antes da unificação do país a capital da Basilicata era considerada a quarta província do antigo reino de Nápoles.
No relato de muitos viajantes, Potenza em meados de 1860 era tida como um lugar a ser evitado. O “Diario di un viaggiatore tedesco in Basilicata” com o título “La terra incognita”, escrito pelo médico alemão Karl W. Scharns descrevia Potenza como “colocada no meio de um estenso vale, como uma cidade montanhosa, isolada e submetida a ventos frios e fortes”.
91 Sobre o desenvolvimento da fotografia ao sul da Itália ver Leone, Nicole. La scoperta da fotografia nella
stampa napoletana. 1839. In: Segni Di Luce. V. 1.1993, pp. 181-192.
111
A cidade cravada entre montanhas hoje conta para o deslocamento da população com imensas escadas rolantes que vencem as dificuldades de uma região acidentada, a qual em 1883 foi assim descrita pelo arqueólogo Francois Lenormant: “para um viajante que chega de Nápoles, Potenza é um buraco na província, atrasada, vulgar e morta” (Perretti, 2008, p.22.). São essas visões pejorativas decepcionadas pela ausência de monumentos e grandes edificações, atributos do fetiche do Grand Tour.
A capital potentina entra no século XX com um pouco mais de 16 mil habitantes. Até 1881, 85% da sua população era tida como analfabeta. As precárias condições sanitárias ajudavam a explicar a difusão das epidemias de cólera. Apenas a partir de 1912 foi de fato conduzido por alguns anos um projeto de melhoramentos para a província. Iniciaram-se obras de pavimentação de algumas ruas e becos da cidade, levando mais de vinte anos para ampliar a rede de esgostos, restrita à nova estrutura urbana que se desenvolvia ao entorno da sua principal rua, a Via Pretoria, o coração do centro histórico da capital potentina que exige atualmente cerca de menos de 30 minutos para ser percorrida em toda sua estensão.
Perretti (2008) reitera Buccaro (1997) quando se queixa da ausência de uma única monografia sobre a região. Pouco se documentou sobre a vida cotidiana desse antigo “paese” que se tornou “città”, afirma Perretti, pesquisador da história meridional da Itália. O que se tem de conhecimento produzido condensam-se em descrições “genéricas, superficiais, lacunares” (2008, p.11).
A província potentina que acolhia Pastore na virada de século era tida como a região mais pobre de todo reino. Sua população teve poucas chances de escapar da situação de expulsão que lançaria um grande contingente para a experiência de imigração. Agricultura pobre, pouco mecanizada, além da concorrência das grandes propriedades produtoras empurravam as famílias com menores posses e propriedades para a experiência do deslocamento além-mar. Alvim (1986) reitera Ana Lanna (2012): entender os fatores de expulsão da população da Itália ilumina as ações de um vasto contingente saído primeiro da região norte da Itália, sobretudo da cidade de Veneto, depois motivando os camponeses e pobres do sul, grupos que não hesitavam em fugir da perene miséria e evidente ausência de perspectivas.
Abandonar a região da Basilicata vinha também como resposta a alta carga de impostos locais, outro fator de expulsão da população local. Pequenos proprietários viviam de uma agricultura de pouca renda, numa região marcada pelo isolamento, com poucos médicos,
112
muitas epidemias e estruturalmente muito precária. Razões da grave situação de despovoamento de inúmeras províncias ao sul do país.
Apesar da trajetória de Pastore não se encaixar no perfil chamado por Ana Lanna (2012) de migração masculina e solitária, elemento este que foi para a pesquisadora fundamental na manutenção dos vínculos firmados na experiência vivenciada na terra de acolhida, é pertinente notar os dados que rastrearam a saída de parte da população meridional italiana:
A maioria daqueles emigrantes originários do sul da Itália era constituídapor homens jovens e que viajavam sozinhos, fossem ou não casados. Dados mostram que, para o período de 1876 a 1905, de 70 a 85% dos emigrantes calabreses eram homens, jovens, com mais de 14anos. (Lanna, 2012, p. 881)
Pastore viria para o Brasil num período no qual o sul da Itália começava a se destacar pelo deslocamento Atlântico. Isto posto, vemos Pastore integrando as levas de calabreses chegados à terra de acolhida:
Os imigrantes oriundos da Itália predominaram na corrente imigratória para o estado de São Paulo no período entre 1886 e 1902. Desta data até 1920, as condições de atração exercidas pelos EUA diminuem consideravelmente o fluxo migratório para o Brasil. A partir de 1905, já são majoritários migrantes oriundos de Portugal e Espanha. Entre 1870 e 1902, a média anual de entrada era de 43.116 italianos; entre 1902 e 1920, este número cai para 14.328. Outro dado importante refere-se à origem destes italianos. De 1886 até 1902 predominavam vênetos e lombardos (30,9%). Após esta data aqueles originários das províncias do sul eram a maioria. Alvim demonstra que o período que abarca os anos 1895/1896 a 1902 caracteriza-se por expressivo aumento da chegada das populações meridionais. (Lanna, 2012, p. 880)
Migrações internas entre as próprias comunas e províncias de diferentes regiões italianas, mas também para a Europa central, segundo Alvim (1986), marcaram a experiência de sazonalidade oriunda de uma economia de transumância compartilhada entre os povos das regiões setentrionais da Itália. Ana Lanna observa mais pontualmente as migrações da região originária de Pastore, explicando a forte e a antiga tradição de deslocamentos sazonais de trabalhadores habitantes do sul rumo ao norte do país:
Eventos naturais, como o terremoto ocorrido na região da Calábria em1905 são poderosos estímulos ao incremento do movimento migratório. Entretanto, múltiplas são as causas desta emigração indo desde a estrutura da propriedade da terra e condições de pobreza até os movimentos de cunho mais político que envolvem a unificação italiana. Todos estes fatores atuam sobre uma cultura que tinha a viagem e a peregrinação como dados presentes e ativos. O deslocamento não é, portanto, novidade para estas regiões, mas as dimensões em que ele ocorre a partir de finais do século XIX e o sentido
113 de longa duração a ele associado marcam novas escalas e questões. As regiões da Calábria, Basilicata e a parte mais pauperizada da Campânia têm forte imigração transoceânica já a partir de 1870, mas acentuada no início do século XX. Os anos de 1905 a 1907 são os de maiores índices de emigração. (Lanna, 2012, p.876)
A região onde Pastore abriu seu estúdio depois de casar-se com Elvira integra, segundo Ana Lanna (2012), os grupos da Calábria entendida pela autora como a região composta pela região da Campânia, Basilicata e Calábria. Desse modo, Pastore na capital paulista tomou lugar entre os grupos reconhecidos e auto-identificados por “calabreses”. Da Basilicata partiram 52.888 compatriotas. Atravessarem as águas do Atlântico, buscando abrigo e trabalho no Brasil, dado apresentado por Alvim (1986, p.62). A Calábria perdeu entre 1900 e 1914 um terço da sua população masculina, entre 15 e 40 anos. Cerca de 8% do total da população desta região veio para a América. Basilicata, região italiana com maior emigração, assistiu a sua população diminuir em 5%. Migravam trabalhadores agrícolas sem posse de terra e ainda pequenos proprietários. Os desterrados do sul, de acordo com Alvim (1986), a partir de 1902, superavam numericamente a imigração para o Brasil, mantendo quase sempre a esperança de um dia voltar.
Veremos a seguir como de fato a procedência está atrelada à experiência de chegada e às tentativas de reconstrução de sociabilidades firmadas no ato de imigração, como defendem Alvim e Ana Lanna. A disposição de Pastore de viver do retrato na capital paulista deve ser vista à luz de sua trajetória precedente. Hábitos, experiências herdadas e tradições articulam lugar de origem e lugar de acolhimento. De Potenza, Pastore trouxe o aprendizado de tentar viver do retrato.
Uma contingência de forte concorrência nas províncias do sul da Itália impelia os fotógrafos retratistas a práticas que pudessem destacar seus ateliês. Passavam muitas vezes a vender em seus estúdios equipamentos fotográficos; dedicavam-se à técnicas de maior sofisticação e requinte da fotografia, explica D’Autilia (2012). Talvez essa contingência explique o amplo domínio de Pastore que realizava fotos em aquarelas e cianotipia, mas também dominava outras técnicas mais aprimoradas de foto-pinturas, valendo-se da técnica à óleo, da foto à carvão-print conhecidas como “fotos inalteráveis”, oferecendo ainda fotos miniaturas para medalhões e pingentes, fotos em porcelana, em esmaltes para broches, e ainda autocromos, platinotipias e fotos em tamanho natural. A não especialização era decorrente da
114
necessidade de sobreviver de seu ofício. Necessidades enfrentadas desde sua experiência na terra de origem.
2.3 A “formidável memória visual” da Basilicata: vestígios de fotógrafos em trânsito