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4.3 Systematic non-spatial readings

4.3.2 The Czech prefix vy-

CAPITALISTA DO ESPAÇO

Como já foi dito, a prática dos arquitetos é fundamental na manutenção do status quo e na reprodução dos discursos dominantes por meio da produção dos símbolos que os dominantes e p ega pa a p ese a seu luga o topo da o de so ial 125. Contudo, é importante enfatizar que

o modus operandi dos arquitetos é um produto histórico, socialmente construído e adquirido por meio das experiências práticas, compreendendo aquilo que Bourdieu (1983) definiu como habitus:

um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações — e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas, que permitem resolver os problemas da mesma forma, e às correções incessantes dos resultados obtidos, dialeticamente produzidas por esses resultados.126

A partir do conceito de habitus pode-se ap ee de , o fo e Setto , u a e ta homogeneidade nas disposições, nos gostos e preferências de grupos e/ou indivíduos produtos de u a es a t ajet ia so ial 127. Além disso, há uma relação de interdependência entre o conceito de

122SANTOS. Boaventura S. O Estado, o Direito e a Questão Urbana. 1982. Disponível em <http://www.boaventuradesousasantos.pt/media/pdfs/Estado_Direito_e_a_Questao_Urbana_RCCS9.PDF>. Acesso em 27 jan 2015. p.19- 21.

123 VAZ, J.C. Dicas-ideias para a ação municipal, Legislação de uso e ocupação do solo. Desenvolvimento Urbano, São Paulo, n.77, 1996. Boletim.

124 ROLNIK, Raquel. Para além da Lei: legislação urbanística e cidadania (São Paulo 1886-1936). Direito Urbanístico. Belo Horizonte: Del Rey, p. 170, 1998.

125 STEVENS, Garry. O círculo privilegiado: fundamentos sociais da distinção arquitetônica. UNB, 2003. p.105. 126 BOURDIEU, P. Sociologia (Org. Renato Ortiz). São Paulo: Editora Ática, 1983. p.83.

habitus e a po, de fo a ue as aç es, o po ta e tos, es olhas ou aspi aç es i di iduais o

derivam de cálculos ou planejamentos, são antes produtos da relação entre um habitus e as pressões e estí ulos de u a o ju tu a 128. Segundo Dovey (2009), o habitus não pode ser apreendido

cognitivamente, mas internalizado e incorporado através das práticas sociais129.

A formação do habitus arquitetônico coincide com a formação do próprio arquiteto, já que dize ue algu u a uiteto o dize ape as ue possui u e to tipo de diplo a ou ue pode projetar edifícios, é dizer que possui um determinado conjunto de atitudes, gostos e disposiç es 130. Há que se perceber que não existe um único habitus arquitetônico, mas que esse é

singular e atrelado às origens sociais do próprio indivíduo e que, juntamente com diferentes formas de capital, determina a posição desse no campo arquitetônico.

O habitus constitui o que Banham (1999) chamou de modo architectorum, uma caixa-preta, de conteúdo obscuro mas output reconhecível. Esse modo nada mais é do que uma das incontáveis maneiras de se projetar mas que destaca-se das outras por desfrutar de prestígio social, não pelo que é produzido, mas em função de como se dá essa produção. Segundo o autor essa distinção baseia-se, em primeiro lugar, na disposição dos arquitetos em assumir a responsabilidade, de certa maneira holística, sobre o que é construído (dos aspectos ligados a funcionalidade, beleza, eficiência, materiais et . ; e segu do luga pela apli aç o de u siste a se eto de alo es ue s o po assi dize , u sintoma da assimilação do habitus arquitetônico131.

A transmissão e assimilação desse habitus arquitetônico se dá, especialmente, em dois lugares distintos e complementares: a escola e o escritório. A primeira, cuja função, segundo Bourdieu (2007), é a da conservação social e da proteção dos privilégios132, além de introduzir uma forma de habitus,

ofe e e u a fo a de apital ultu al ge i o, u a disposiç o efi ada 133 e, ao tratar estudantes

de background cultural e social diferentes como iguais, acaba por privilegiar os que já são privilegiados, de forma ue, esses pa e e atu al e te ais p ope sos se to a e a uitetos po a so e e o aio fa ilidade os sig os de disti ç o e efi a e to: p o ú ia, odos, o duta, postu a, oupas, atitudes, gostos, te pe a e to 134, não sendo possível adquirir refinamento pela

dedicação aos estudos, mas pela vivência direta e convívio com outras pessoas refinadas.

20, 2002. p.64. 128 Ibidem.

129 DOVEY, Kim. Becoming Places: Urbanism/architecture/identity/power. Routledge, 2009.p.32.

130 STEVENS, Garry. O círculo privilegiado: fundamentos sociais da distinção arquitetônica. UNB, 2003. p.97.

131 BANHAM, Reyner. A black box: the secret profession of architecture. In: Mary Banham, Paul Barker, Sutherland Lyall, Cedric Price. A Critic Writes: Essays by Reyner Banham. Berkeley: University of California Press, 1999. p.292-299.

132 BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Editora Vozes, 2007.p.53.

133 STEVENS, Garry. O círculo privilegiado: fundamentos sociais da distinção arquitetônica. UNB, 2003. p.215. 134 Ibidem, p.224.

De acordo com o último Censo dos Arquitetos e Urbanistas do Brasil realizado em 2012 pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), 75,18% dos escritórios de arquitetura são compostos por até cinco funcionários135, mostrando que, devido à escala dos escritórios, pode haver uma relação mais

próxima entre o arquiteto e seus funcionários — que em grande parte das vezes ainda serão estudantes — similar ao antigo sistema de pupilagem.

As disciplinas de projeto — incluindo aqui a ministrada por mim — seguem a mesma estrutura desde o século XIX136, com um professor e pequenos grupos de alunos, e geralmente simulam as

atividades desemprenhadas em um escritório, propondo uma demanda, estipulando prazos, limites, regras etc. A complementaridade entre escola e escritório ganha nitidez quando os arquitetos que também são professores de projeto, ocupando um espaço social simbólico, selecionam dentre seus alunos aqueles cujo habitus mais se aproximam com o do professor para serem seus estagiários.

A relação dos alunos com as disciplinas de projeto tende a se alterar ao longo do curso. Aqueles alunos que já iniciaram seus estágios acadêmicos e aprenderam o modus operandi dos escritórios onde trabalharam, geralmente voltam as disciplinas de projeto reproduzindo o que incorporaram da prática dos escritórios por onde passaram, criticando, por exemplo, os projetos mais experimentais por se distanciarem das demandas cotidianas de um escritório ou ainda, os professores acadêmicos por não atuarem no mercado. Nos depoimentos dos alunos (Apêndice K) surgiram por vezes traços desses o po ta e tos, elogia do o fato da dis ipli a O A uiteto o o E p ee dedo te u i s ais prático e atento à viabilidade dos projetos, e criticando as disciplinas de projeto que não se preocupam com esses aspectos.

A afinidade entre escritório, escola e a produção capitalista do espaço reside justamente na reprodução acrítica do modo de trabalhar dos escritórios pelos graduandos. Sem consciência das implicações da atuação dos arquitetos tal como ela se dá convencionalmente, geração após geração os estudantes apoiam-se as es as p ti as e as es as fe a e tas de seus est es dependendo excessivamente de duas principais ferramentas: o programa de necessidades e o desenho arquitetônico. Embora ambas as ferramentas tenham sofrido alterações significativas ao longo do tempo, elas constituem o cerne da prática arquitetônica e estão ligadas diretamente à figura do arquiteto tal qual conhecemos.

A produção capitalista do espaço pelos agentes do mercado imobiliário depende, da mesma forma que os arquitetos (e os arquitetos incorporadores), de ambas as ferramentas para o

135 CAU/BR. Censo dos Arquitetos e Urbanistas do Brasil. 2012. Disponível para consulta em: <http://www.caubr.org.br/censo/>. Acesso em 28 jan 2015.

desenvolvimento dos estudos de viabilidade econômica, que determinarão a lucratividade de um empreendimento. Percebe-se que existe uma relação harmoniosa entre as ferramentas, a produção capitalista do espaço e o modo de atuação dos arquitetos. Nesse sentido, com o objetivo de explicitar ainda mais essa relação, no próximo capítulo será feito um ensaio mais aprofundado sobre as ferramentas dos arquitetos e sua transformação ao longo dos anos.