3. RESULTS
3.2. Presenting the most parsimonious models
3.2.1. Before 15th of May
A partir das aproximações aos campos da Arquitetura e do Urbanismo, aqui expostas, em especial o contato com o livro de Gehl (2013), discutido anteriormente, pude extrair e também ampliar (a partir de referências próprias) o conjunto de elementos que podem integrar essa possível gramática da cidade. Aspectos esses que, me parece, ajudam a constituir também um índice de possibilidades composicionais para a encenação.
É importante ressaltar aqui que, a abordagem feita por Gehl desses aspectos é bastante voltada para projetos de urbanismo, de modo que minha apropriação dos mesmos os retira de um contexto original de discurso e se volta na direção de redimensiona-los como possíveis focos de interesse da encenação no espaço urbano. Assim, nosso intuito aqui será, mais uma vez, apresentar esses elementos de modo a chamar a atenção para o modo como sua presença se dá na silhueta da cidade e, assim, provocar olhares de encenação mais demorados, investigativos e composicionais sobre os mesmos. Não teremos condições de oferecer, nesta pesquisa, maiores detalhamentos acerca desses elementos, todavia, quando possível, indiquei alguns trabalhos que parecem dialogar de modo direto com os mesmos e, alguns desses aspectos, poderão ser retomados quando for feita a análise das encenações do Teatro do Concreto.
Escala e velocidade
Noà ívelà aisà si o,à pode osà pe sa à e à es alaà di eta e teà ela io adaà sà p opo ç esàdeàu aà ep ese taç oàeàasàdoào jetoà ep ese tado à HOUáI““,à ,àp.à .à Para Ghel, de modo geral, o urbanismo e o planejamento urbano articulam no seu trabalho três níveis de escalas: grande, média e pequena escala.
A grande escala é o tratamento holístico dado à cidade, abrangendo bairros, funções e instalações de tráfego. É a cidade vista de cima e à distância, de uma perspectiva aérea.
A escala média, então, é a escala do desenvolvimento, que descreve como partes individuais ou bairros da cidade devem ser projetados; e, ainda, como são organizados os edifícios e o espaço público. É o planejamento urbano visto da perspectiva de um voo de helicóptero à baixa altura.
(...) a escala pequena, a paisagem humana. É a cidade experimentada pelas pessoas que a utilizam ao nível dos olhos. Aqui não interessam as grandes linhas da cidade ou a espetacular implantação dos edifícios, mas a qualidade da paisagem humana tal como percebida por aqueles que caminham ou por aqueles que permanecem na cidade. Aqui se trabalha com uma arquitetura a 5 km/h. (GHEL, 2013, p.195, grifo meu).
Numa aproximação do campo da encenação, pode ser interessante pensar modos de explorar essas escalas e também o aspecto da altura na composição espacial de uma proposta cênica, uma vez que cada escala nos oferece diferentes impressões perceptivas. A esse respeito, gostaria de referenciar rapidamente os trabalhos que, numa rápida mirada parecem jogar com esse elemento: Kastelo (2010), do Teatro da Vertigem, com direção de Eliana Monteiro, que fez uso das fachadas do prédio do SESC Avenida Paulista, em São Paulo. E Das saborosas aventuras de Dom Quixote de La Mancha e seu fiel escudeiro Sancho Pança – criação do grupo Teatro que Roda (Goiânia – GO) sob a direção de André Carreira, onde, na cena inicial, dois atores escalam a fachada de um edifício.
Campo social de visão
A esse respeito, Gehl elege a visão como métrica para pensar as relações sobre distância, sentidos e comunicação. De modo geral, propõe algumas indicações sobre o que o olhar humano é capaz de identificar a cada faixa de distância e, em que distância os demais sentidos também são mobilizados.
(...) Dependendo do fundo e da luz, podemos reconhecer pessoas como seres humanos em vez de arbustos ou animais a uma distância de 300 a 500 metros. (...) a cerca de 100 metros podemos ver movimento e linguagem corporal em linhas gerais. (...) normalmente reconhecemos uma pessoa à distância de 50 a 70 metros. (...) a uma distância de 22 a 25 metros, podemos ler corretamente expressões faciais e emoções dominantes. (...). A 50-70 metros, podemos ouvir gritos de ajuda. A 35 metros, podemos usar a comunicação unilateral em voz alta, como a usada em púlpitos, palcos (...) de 20 a 25 metros, podemos trocar mensagens curtas (...). Quanto mais curta a distância, na faixa de 7 metros a meio metro mais detalhada e articulada pode ser a conversa (idem, p. 34, 35).
Distância
Elemento que também dialoga com a escala e o campo de visão. O curioso aqui são as categorias apontadas pelo arquiteto para dimensionar a distância média entre as pessoas nas diferentes práticas relacionais (idem, p.46): O que ele chama de distância íntima, podemos supor um contato afetivo mais próximo, estaria entre (0 – 45cm); a distância pessoal, como uma conversa no banco de uma praça (45-120cm); distância social, como por exemplo, uma roda de amigos num piquenique ou em situação de trabalho (1,2 a 3,7m) e distância pública, mais relacionada as ações humanas em espaço aberto, (acima de 3,7m).
Densidade
Do ponto de vista da arquitetura e do urbanismo, esse elemento estaria relacionado à ideiaà deà ueà u aà idadeà viva à e essiteà deà altaà de sidadeà o st uídaà eà g a desà o e t aç esàdeà o adiasàeàlo aisàdeàt a alho .àTodavia,àGehlàpo de aà ue,
(...) Cidades vivas requerem estrutura urbana compacta, densidade populacional razoável, distâncias aceitáveis para serem percorridas a pé ou de bicicleta e espaço urbano de boa qualidade. A densidade, que representa quantidade, deve ser combinada com a qualidade sob a forma de bons espaços urbanos (idem. p. 69).
Fluxos e Tráfego
Essas dimensões, que talvez estejam entre as mais complexas da teia urbana, parecem articular de modo simultâneo, diferentes aspectos de nossas práticas sociais na cidade, como:
1) Circulação/movimento/trânsito
2) Quantidade/velocidade/sentido/tempo/permanência
Esses aspectos podem se relacionar a quantidade de pessoas ou carros, por exemplo; as direções/sentido das vias como subir descer, esquerda, direita, norte, sul, leste, oeste; se esses deslocamentos são lentos ou rápidos; se o movimento é intenso ou alternado; se a duração de um trajeto ou a permanência em determinado espaço é longa ou rápida, etc.
Do ponto de vista da encenação, pensar esses aspectos pode envolver desde perceber períodos de maior circulação de pedestres num determinado local da cidade, bem como horários de pico em relação ao trânsito de carros; o fluxo proposto pela duração e posicionamento dos semáforos; podemos também considerar aqui as direções desses fluxos, bem como trajetos oficiais ou desvios próprios dos pedestres em determinado sítio; Perceber os obstáculos e interrupções em calçamentos e ruas, que também interferem em questões como movimentação e visualidade; os desenhos que os deslocamentos inscrevem no espaço, como por exemplo, um bloco de 50 pessoas atravessando uma faixa de pedestre; estimar o tempo que normalmente um grupo de 80 pessoas pode levar para percorrer uma distância de 958 metros; Identificar momentos de maior permanência de pessoas numa praça ou maior fluxo de carros numa via.
Esses aspectos, como verão adiante, foram bastante sintomáticos para os trabalhos Ruas Abertas (2008) e Entrepartidas (2010), do Teatro do Concreto.
Altura
Relacionada à dimensão vertical de um corpo/objeto. As diferentes alturas das edificações no espaço urbano provocam diferentes percepções. Por exemplo, quanto mais alto um evento, maior nossa dificuldade de enxerga-lo, de modo que precisamos nos recuar para melhor ver, o que torna o evento/corpo visto, cada vez menor. Para Gehl, escritórios e residências acima do quinto andar estão de tal modo apartados da relação com a rua que deve ia à pe tencer ao âmbito das autoridades de tráfego aéreo. Pelo menos, não pe te e à aisà à idade à GEHL,à ,à p.à .à Out oà aspe toà ela io adoà à altu aà eà ueà muito interessa à encenação diz respeito ao pé direito, medida entre o chão e o teto de um espaço e que muitas vezes influencia na disposição de cenas.
Espaços de transição
Segundo aborda o autor, são zonas mais vivenciadas no nosso caminhar pela cidade, onde temos muito contato com vitrines, portas, fachadas, calçamentos, jardins, texturas e detalhes, etc.
(...) trata-se da zona onde se caminha quando se está na cidade; são as fachadas que se vê e se experimenta de perto, (...). É o local onde se entra e sai dos edifícios, onde pode haver interação da vida dentro das edificações e da vida ao ar livre. É o local onde a cidade encontra as edificações (idem, p. 75).
Atividades e Funcionalidades
De algum modo, se relaciona ao tipo de atividade, ramo ou função de um local. É comum termos, por exemplo, em Brasília, diversos edifícios que funcionam como sede de órgãos ligados ao governo federal. Num conjunto comercial podemos ter uma diversidade de atividades ligadas ao comércio de bens e serviços. Podemos ter um bairro que concentre atividades relacionadas à confecção têxtil, como o bairro Bom Retiro, em São Paulo. Podemos ter um local que funcione como abrigo de dependentes em crack. Um bairro que, durante o dia, concentra atividades administrativas e comerciais e, na parte da noite, se configura como um espaço boêmio da cidade.
Iluminação
A dimensão da iluminação pode contemplar desde postes de iluminação pública até letreiros luminosos de fachadas de lojas, boates, etc. É comum em atividades realizadas no período noturno, mapear fontes luminosas, de modo a contribuir com a visibilidade das ações. Ou, investigações sobre como fazer uso dos recursos de luz do local, bem como quanto à necessidade de complementações por meio de equipamentos que são levados pelos artistas. O uso de tecnologias tem sido bastante utilizado por artistas nesse contexto, um exemplo é o vídeo mapping (projeção mapeada), que permite adequar de modo preciso dimensão da imagem à superfície onde será projetada.
Foto de divulgação do projeto 3º Vídeo Guerrilha – Rua Augusta, SP, 201234
34 Imagem extraída na página http://guia.uol.com.br/sao-paulo/exposicoes/noticias/2012/11/21/predios-da-
Apoios
É bastante natural as pessoas buscarem pontos de apoio no espaço urbano enquanto descansam, contemplam uma vista, esperam alguém, etc. Neste sentido é comum encontrarmos assentos primários e secundários; pilastras, paredes, colunas, muretas, pinos etc., sendo utilizado para esta finalidade, o que compõe também certa gestualidade ou desenho no espaço (às vezes várias pessoas sentadas numa mureta ou encostadas numa parede).
Sinalização e Mídias
Podem contemplar desde placas de trânsito ou de sinalização geral da cidade (indicações de locais, direção de fluxos, endereços), até outdoor, letreiros comerciais e publicitários.
Mobiliário urbano
Podemos considerar bancos, parques infantis instalados em praças, paradas de ônibus, estações com equipamentos para atividades físicas, etc.
Atividades fixas, flexíveis ou fugazes
Diz respeito às atividades e eventos sociais, culturais, religiosos e políticas que ocorrem de modo planejado, compondo o calendário oficial de uma cidade, ou, de maneira eventual em determinados espaços da cidade. Poderíamos pensar desde uma rotineira aula de yoga comunitária em determinada praça até um evento como a Parada Gay de São Paulo.
Ruídos
Podemos considerar o conjunto de sonoridades presentes ou a paisagem sonora da cidade. Ruídos do intenso tráfego de automóveis; o alto volume de som num bar com música ao vivo nos arredores de uma praça; As freadas de ônibus ao parar para pegar passageiros numa parada. A dimensão acústica pode interferir de modo contundente em propostas artísticas na cidade, demandando, em alguns casos o uso de amplificadores, quando danecessidade de se fazer ouvir de modo mais amplo, ou mesmo, uma relação de maior proximidade física entre performers e espectadores para viabilizar a comunicação.
Segurança
Podemos considerar tanto elementos materiais como grades e câmeras, como ta àaàvigil iaà ealizadaàpo àhu a os.àCo fo eàapo taàGehl,à h àu aàa u d iaàdeà recursos: arame farpado e grades que transformam casas em fortalezas, patrulhas em áreas residenciais, guardas de segurança em frente a bancos e lojas,àpla asàa eaçado as... à ide ,à p.97).
Clima e fenômenos naturais
Fator importante em práticas artísticas no espaço urbano, considerar o clima implica prever possibilidades de chuva ou demais fenômenos naturais, como, por exemplo, tábua de marés, elemento que foi importante na encenação de BR3, do Teatro da Vertigem, durante temporada na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro (2007), uma vez que a oscilação da maré interferia na logística das barcas com atores e espectadores. Podemos pensar também em propostas que desejem justamente articular um jogo poético-político a partir de um diálogo com determinado clima. Por exemplo, a CIA Andaime, de Brasília, realiza uma irreverente ação envolvendo banho de piscina – geralmente nos dias quentes, secos e áridos da cidade - em um dos gramados da Esplanada dos Ministérios.
Banho de piscina na Esplanada dos Ministérios35
35 http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2011/10/grupo-teatral-do-df-leva-piscina-para-esplanada-e-faz-
Comunidades
Nu aà a epç oà aisà o u ,à est à ela io adaà aoà o ju toà deà pessoasà ueà seà organizam sob o mesmo conjunto de normas, geralmente vivem no mesmo local, sob o es oàgove oàouà o pa tilha àdoà es oàlegadoà ultu alàeàhist i o 36 Podemos pensar também em termos de comunidades temporárias, como, por exemplo, conjunto de pessoas que estão na Rodoviária do Plano Piloto de Brasília por volta das 18h. Ou, ainda, grupo de pessoas que trabalham no prédio da Bolsa de Valores de São Paulo. Identificar as comunidades presentes em determinados espaços pode contribuir na articulação de proposições artísticas. Por exemplo, uma performance que deseja questionar a relação com o capital pode se inscrever num espaço onde existam empresas do ramo econômico, portanto, temos ali uma comunidade de profissionais desse setor. O mesmo poderia ser pensado em relação a um espaço com grande densidade de moradores de rua.
Como podemos notar, há uma infinidade, que parece inesgotável, de aspectos que podem compor a gramática urbana. Além desses listados acima, poderíamos chamar a atenção também para: Praças e Parques; paisagismo do local; calçamentos; esculturas, monumentos e intervenções artísticas permanentes; passarelas, rampas, escadas, túneis, nichos e aberturas; fachadas, mezaninos e sacadas; transparências (presença de vidros que pode àge a àpossi ilidadesàdeà ve àat av s ;àte tu aàeàdetalhesàdeàazulejos,àpisos,àparedes, grades, etc.
Parque da Cidade (DF), azulejos de Athos Bulcão37 Espetáculo Barafonda, em São Paulo38.
36 http://pt.wikipedia.org/wiki/Comunidade
37 Parada de descanso, Parque da cidade, 1985. Brasília – DF. Fonte:
Considerar a presença desses aspectos aqui discutidos e suas possibilidades composicionais pode contribuir, conforme aponta Carreira (2012), ao discutir encenação nesse contexto, para que as escolhas surjam das articulações que caracterizam a especificidades do espaço, de modo que as encenações se relacionem com os espaços pela combinação com suas tramas e não apenas por uma sobreposiçãoàa it ia (p.12).
Depois dessa espécie de índice de elementos da gramática urbana, insistindo um pouco mais nas contribuições do campo arquitetônico para nossas reflexões quanto à encenação na cidade, passaremos agora a discutir alguns aspectos do movimento Archigram. De algum modo, as questões ligadas ao movimento parecem nos oferecer pistas quanto às transformações pelas quais passaria a arquitetura e o urbanismo a partir da década de 60, conforme apontou Gehl (2013), no início deste capítulo sobre a segunda potência da cidade. São reflexões também em diálogo com os princípios do modernismo, mas que lidaram com uma imagem da cidade mais vinculada às dinâmicas comunicacionais, tecnológicas, culturais e comportamentais, que marcariam a década.