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3. RESULTS

3.1. Model selection and evaluation

Se cada um de nós carrega uma cidade, diretamente relacionada às nossas vivências, possuímos então o que pode ser considerada uma imagem mental dessa cidade, que muitas vezes influencia, inclusive, nas nossas escolhas espaciais para a encenação, como pudemos notar na relação do encenador Mangueira Diniz com a paisagem insólita de Brasília.

O pesquisador americano Kevin Lynch, da área de Planejamento Urbano, ao desenvolver investigações empíricas em relação à imagem mental das cidades32, levando em conta o ponto de vista de seus habitantes - suas experiências e percepções desse espaço - desenvolveu alguns princípios básicos de design urbano com o objetivo de contribuir metodologicamente para pensar a forma visual em escala urbana.

(...) Cada cidadão tem vastas associações com alguma parte de sua cidade, e a imagem de cada um está impregnada de lembranças e significados. (...) Os elementos móveis de uma cidade, em especial as pessoas e suas atividades, são tão importantes quanto as partes físicas estacionárias. (...). Na maioria das vezes, nossa percepção da cidade não é abrangente, mas antes parcial, fragmentária, misturada com considerações de outra natureza. Quase todos os sentidos estão em operação, e a imagem é uma combinação de todos eles (LYNCH, 2011, p.1-2).

Nas proposições de Lynch notamos alguns pontos que merecem destaque, especialmente por dialogarem, de certo modo, com o ponto de vista de outros dois autores

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A pesquisa foi desenvolvida tomando como recorte as cidades de Boston, Jersey City e Los Angeles. Os resultados desse trabalho foram publicados em 1960 sob o título de A imagem da cidade, reverberando em muitos contextos de discussão sobre urbanismo, especialmente pelo seu pioneirismo em envolver o cidadão nessa reflexão.

explorados anteriormente, Certeau e Tuan. Para o americano, nossas práticas da cidade se relacionam com nossa experiência e memórias desses espaços. Além disso, ressaltam a urbe como um organismo complexo onde fica praticamente impossível vivenciar o todo, pois há sempre algo que o olhar ainda não alcançou.

Podemos inferir daí que, se estamos numa praça, aquilo que acontece na rua próxima ou na igreja ou no bar da esquina ajuda a compor a nossa vivência da praça. Ele aponta ainda que os elementos móveis da cidade, que dizem respeito ao fluxo das pessoas, estão no mesmo grau de importância que seus prédios, praças e avenidas, elementos mais estacionários, uma perspectiva que inclui aquele que pratica os espaços e dota-os de sentido e valor, uma vez que associa a eles suas lembranças e significados. Lynch usa metáforas do teatro para situar a todos como parte do tecido vivo da cidade, como atores num palco. Se pensarmos essa questão pelo prisma da atuação teatral, poderíamos imaginar um jogo em que todos esses elementos estão em permanente interação. Por último o autor ressalta a dimensão da percepção e dos diferentes sentidos envolvidos na nossa relação com a cidade. Lynch ressalta ainda um aspecto bastante importante em relação às cidades, que diz respeito ao fato de não serem apenas um objeto percebido, mas também o produto de muitos construtores, que modificam sua estrutura a partir de seus interesses e razões. De modo que a cidade, apesar de, nas suas linhas gerais, ser considerada estável por algum tempo, por outro, está sempre se modificando nos detalhes (LYNCH, 2011 p.2). A essa perspectiva mutante da cidade, capaz de redimensionar seus usos e discursos, talvez possa ser relacionada à compreensão do espaço como um fato, um fator e uma instância social, conforme o geógrafo Milton Santos sugere nas suas muitas reflexões sobre o espaço.

O espaço é um fato social no sentido com o qual K. Kosik (1967, p.61) define os fenômenos sociais: um fato histórico, na medida em que o reconhecemos como um elemento de um conjunto e realiza assim uma dupla função que lhe assegura, efetivamente, a condição de fato histórico: de um lado, ele se define pelo conjunto mas também o define; ele é simultaneamente produtor e produto; determinante e determinado; um revelador que permite ser decifrado por aqueles mesmos a quem revela; e, ao mesmo tempo em que adquire uma significação autêntica, atribui um sentido a outras coisas. Segundo essa acepção, o espaço é um fato social, um fator social e uma instância social (SANTOS, 2012, p.163).

Talvez pudéssemos pensar então na cidade como uma obra em permanente processo de feitura a partir das interferências de seus criadores: milhares de pessoas com características, classes sociais e interesses e poderes distintos. Ao mesmo tempo, uma espécie de revelação dos traços de uma sociedade, de um tempo histórico e, ainda, um produtor de percepções, comportamentos, práticas sociais, por se configurar como uma instância que interfere na nossa sociabilidade, que inscreve marcas em nosso corpo- memória.

A partir dessa visão ampliada da compreensão de espaço proposta por Santos, gostaríamos de retomar as descobertas de Lynch quanto à imagem desse espaço que tanto nos interessa aqui, a cidade. O autor irá identificar na sua pesquisa alguns elementos que parecem estruturantes para pensarmos a imagem da cidade, apontando que possivelmente haja uma imagem pública de qualquer cidade que corresponde à sobreposição de muitas imagens individuais. Ou ainda a possibilidade de uma série de imagens públicas, cada qual criada por um significativo número de cidadãos (LYNCH, 2011, p.51). Em relação à forma física das cidades, ele irá destacar cinco elementos: vias, limites, bairros, pontos nodais e marcos, em que:

As vias estão relacionadas aos canais de circulação onde nos locomovemos de modo habitual, ocasional ou potencial (ruas, linhas de trânsito, alamedas, canais etc.);

Os limites seriam as fronteiras entre duas fases, barreiras mais ou menos penetráveis que separam uma região de outra ou costuras e linhas por meio das quais duas regiões se encontram (praias, espaços em construção, cortes de ferrovia, muros etc.);

Os bairros, tidos como regiões médias ou grandes de uma cidade, identificáveis a partir do lado interno e também usados para referência externa quando visíveis de fora;

Os pontos nodais dizem respeito aos lugares estratégicos de uma cidade, por onde o observador pode entrar, são os focos intensivos para os quais ou a partir dos quais ele se locomove, uma espécie de convergência de caminhos (um cruzamento, convergência de vias, momentos de passagem de uma estrutura a outra);

Os marcos são referências externas, em geral objetos físicos definidos de maneira simples (edifício, sinal, loja, torres, cúpulas, podem ser distantes ou basicamente locais).

Não iremos nos deter aqui na exploração detalhada de cada um desses elementos propostos por Lynch. Conforme dito, interessa, neste momento, apontar algumas contribuições de outras áreas do conhecimento que podem ampliar o olhar da encenação para o urbano. Por exemplo, me parece que considerar as diferentes imagens mentais que as pessoas podem ter de uma mesma cidade, bem como o que poderia se conformar como u aà i age àpú li aàda idade ,àpode àse àto adosà o oàdispositivosàaàse ài vestigadosà num processo de criação nesses espaços. Por outro lado, essas noções do design urbano, descritas acima - (vias, limites, bairros, pontos nodais, marcos) - também parecem contribuir para a articulação de proposições artísticas no tecido urbano.

A esse respeito, numa tentativa de aproximação entre o campo da encenação e essas proposições, de imediato, quando penso em um trabalho como Entrepartidas (2010), do Teatro do Concreto, que tem como ponto de partida a Rodoviária do Plano Piloto de Brasília, espaço fundamental na mobilidade das pessoas da cidade, inegavelmente estamos dialogando tanto com a ideia de marco como de ponto nodal. Noções que também parecem ser mobilizadas, em alguma medida, numa proposta artística como Remote São Paulo (2013)33, do coletivo alemão Rimini Protokoll, onde não há atores, nem representação e nossa experiência da cidade se dá ao percorrer um trajeto pela grande metrópole, proposto pelo diretor Stefan Kaegi, onde cerca de 50 pessoas são guiadas através de fones de ouvido, por uma voz artificial, referência ao GPS, que nos dá orientações do percurso a ser realizado. Ao pé do ouvido, músicas e trilhas especialmente elaboradas para a ação e orientações de deslocamento que buscam precisão ao indicar, aos participantes, vias, marcos e bairros por onde seguimos, caminhando ou usando o metrô. Um desses marcos importantes, explorados na ação, é a Praça da Sé, espécie de coração da cidade de São Paulo.

Vislumbro, desse modo, que noções como essas podem contribuir, inclusive, nas tomadas de decisão quanto a escolhas de espaços e definição de percursos para uma encenação ou proposição artística, num sentido mais amplo, a se realizar na cidade.

33 O projeto foi realizado na cidade de São Paulo no período de 19/11 a 06/12 de 2013, numa parceria entre o