4. DISCUSSION
4.1.4 Herring abundance
O Archigram39 surge na década de 60, como movimento de um grupo de arquitetos ingleses que pretendiam romper com os modelos vigentes para se pensar a cidade. Marcadamente influenciado pelos avanços tecnológicos e na área da comunicação, esse grupo passa a difundir renovadas possibilidades para a arquitetura, muitas vezes consideradas utópicas, gerando novas discussões e redes de diálogo ao redor do mundo.
38 Cena do espetáculo Barafonda (2012), da CIA São Jorge de Variedades, na Praça Marechal Deodoro, em São
Paulo. Créditos: Cacá Bernardes. Fonte: http://educacaointegral.org.br/mundial-de-educacao/espetaculo- barafonda-da-cia-sao-jorge-de-variedades-conta-historia-de-bairro-central-de-sp/
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Archigram foi um grupo formado pela reunião de dois trios de jovens arquitetos ingleses – os recém- formados, David Greene (1937), Peter Cook (1936) e Michael Webb (1937), e os mais experientes Warren Chalk (1927-1987), Ron Herron (1930-1994) e Dennis Crompton (1935) – cuja produção se organizou em torno de uma publicação informal e independente homônima entre 1961 e 1974. Sua atuação no meio arquitetônico nesse período foi bastante ampla, ultrapassando a distribuição da própria revista e incluindo a organização e montagem de exposições, o envio de artigos a periódicos especializados em arquitetura, a participação em concursos, a organização de seminários e congressos, o magistério em faculdades de arquitetura britânicas e norte-americanas e mesmo a constituição de um escritório de arquitetura e uma galeria de arte (MIYADA, 2007, p.9).
Nas suas proposições, pensar a cidade significou dialogar com diversos campos para além da matéria arquitetônica, contribuindo para ampliar a dimensão experimental na arquitetura. Embora muitos de seus projetos nunca tenham saído do papel, diferentes aspectos de sua produção parecem mover, cada vez mais, o interesse de pesquisadores, arquitetos e artistas na construção de reflexões sobre o urbano. O arquiteto e curador Paulo Miyada destacaria três aspectos importantes nas produções do grupo, que ganhou repercussão a partir da criação de uma revista: a produção gráfica, crítica e projetual.
Há que se levar em conta que sua operação compreendia a captação e processamento de referências que além de não serem arquitetônicas tampouco eram compatíveis com a alta cultura, como livros e quadrinhos de ficção científica, imagens coloridas e composições dinâmicas das propagandas impressas, da televisão e do cinema, com suas representações das novas maquinarias da exploração espacial e submarina. Soma-se a isto tudo a preocupação em fazer da linguagem um lugar de especulação sobre a noção de espaço urbano, capaz de renovar a concepção de tempo e de urbanidade (MIYADA, 2007, p.10).
Na colagem abaixo40,àdeà ,àI sta tàCit ,à Urban Action: Tune Up ,àdeà‘o àHe o ,à podemos ter uma ideia dessa rede de combinações entre elementos da arquitetura, da comunicação, da cultura pop, da publicidade nas projeções do Archigram para o contexto urbano.
I sta tàCit ,à Urban Action: Tune Up
A cidade que preconizaram seria, cada vez mais, atravessada por novas dinâmicas e fluxos a partir do avanço tecnológico; das redes de comunicação (princípios como conectar- desconectar, movimento, agilidade); das imagens criadas pela publicidade (dimensão narrativa, ficcional e espetacular); bem como de maior mobilidade e transformação. Assim, aquela imagem anterior de cidade, do tecido urbano, talvez associada a uma perspectiva de maior estabilidade, seria completamente transformada.
Ao abordar o modo como o movimento pensava a cidade, o teórico da Arte José Miguel G. Cortés destaca que mais que pano de fundo para o desenvolvimento do trabalho do grupo, a sociedade do consumo do pós-guerra, se efetiva diretamente como fonte de alguns de seus conceitos para a cidade:
(...) Seus projetos baseiam-se em uma sensibilidade de domínio da imagem e das redes de comunicação urbana. Esses arquitetos recorreram à cibernética e à informática, mas também aos dados da economia, da demografia e da cultura pop (muito influenciados pelo trabalho de seus predecessores do Independent Group) para apresentar, na forma de histórias em quadrinhos, configurações imediatamente conectáveis e desconectáveis a redes técnicas complexas. (CORTÉS, 2008, p. 25).
As formulações do movimento Archigram, num primeiro momento, nos pareceu expressarem uma antevisão do que se tornariam as cidades no século XXI. Desde a predominância das relações de consumo até a influência contundente dos avanços tecnológicos, sobretudo da informática, na organização da sociedade. Por isso, apresentou- se como campo de estudo instigante para a reflexão sobre a encenação no espaço urbano ao propor um novo modelo de compreensão da cidade:
(...) ofereceram a proposta do non-plan of a non-city, que baseia na idéia de mudança permanente e segundo a qual o urbanismo reprime os processos inovadores espontâneos e a consolidação do urbano em vez de dinamizá- los.à á hig a à eto ouà dosà situa io istasà asà oç esà deà u a is oà u it io à eà deà a o te i e to à pa aà situa à oà i divíduoà oà e t oà doà processo de concepção e evolução da cidade (...) não é de admirar que a ubiquidade, a mobilidade, a reversibilidade, a instantaneidade, a precariedade ou o indeterminismo sejam alguns dos seus conceitos operativos básicos. (CORTÉS, 2008, p.26, grifo meu).
Essa pequena introdução em torno das proposições do Archigram permite vislumbrar um campo ampliado de possibilidades de contribuições da disciplina arquitetônica para as reflexões sobre a encenação contemporânea nos espaços da cidade. Além do movimento inglês, ora discutido, podemos citar outros movimentos que flertam com uma dimensão experimental da arquitetura e de sua relação com outros campos, como os grupos italianos Archizoom e Superstudio também surgidos na década de 1960.
Todavia, ainda que bastante instigante e mobilizador esse campo expandido das relações entre arquitetura, urbanismo, cidade e cena aqui introduzidos, desenvolvimento que demandaria mais tempo para o necessário aprofundamento desses temas, optamos por um recorte a partir da análise que Cortés desenvolve desse movimento, na qual identifica alguns princípios que podem nos interessar de modo mais direto: a ubiqüidade, a mobilidade, a reversibilidade, a instantaneidade, a precariedade ou o indeterminismo.
Ao nos depararmos com esses princípios, ainda nas primeiras leituras, ocorreu um movimento natural de relacioná-los às práticas de encenação dos trabalhos Ruas Abertas (2008) e Entrepartidas (2009). A partir desse insight, para além da aproximação imediata com os trabalhos do Teatro do Concreto, esses elementos me pareciam apontar noções que talvez permitam à encenação ampliar sua teoria e prática, a partir do diálogo com conhecimentos que ultrapassam o campo do teatro contemporâneo e de outras matérias afins. Com isso quero dizer que as áreas da arquitetura e do urbanismo podem ter muito a oferecer às pesquisas artísticas no tecido da cidade. São campos que nos interessa, sobretudo, por ajudarem a ampliar o olhar da encenação para um fenômeno tão complexo e interdisciplinar como a própria cidade.
Desse modo, os cinco princípios propostos por Cortés serão retomados no capítulo III, quando apoiarão a análise de alguns processos de encenação do Teatro do Concreto. Passemos agora à terceira potência em torno das dramaturgias ou discursos da cidade.