O objetivo da an´alise feita nessa se¸c˜ao ´e quantificar as taxas de troca de calor por convec¸c˜ao atrav´es do uso da analogia de Colburn (1933), equa¸c˜ao (2.13), em um escoamento gerado pelo efeito da estratifica¸c˜ao t´ermica provocado pela presen¸ca de uma placa plana vertical na qual ´e imposta condi¸c˜ao de contorno na parede de fluxo de calor constante. A camada limite fluidodinˆamica que se desenvolve sobre a geometria de contorno s´olido ´e inteiramente laminar, por esse motivo, correla¸c˜oes anal´ıticas baseadas
na solu¸c˜ao integral das equa¸c˜oes de camada limite aplicadas a escoamentos nos quais a for¸ca de campo gravitacional ´e o elemento motor do escoamento s˜ao v´alidas e servem tamb´em como parˆametro de compara¸c˜ao para a valida¸c˜ao da an´alise num´erica realizada.
O algoritmo de resolu¸c˜ao num´erica adotado nesse trabalho, o c´odigo Turbo2D, tamb´em se aplica a solu¸c˜ao de escoamentos laminares, portanto seu uso ´e apropriado para o estudo num´erico realizado nessa se¸c˜ao. O trabalho experimental que inspirou esta an´alise num´erica foi realizado por membros do grupo Vortex - Mecˆanica dos Fluidos de Escoamentos Complexos, do departamento de Engenharia Mecˆanica da Universidade de Bras´ılia no ano de 2003.
O estudo experimental realizado por Lino et. al (2003) consistia em aplicar sobre um aqu´ario de ´agua feito de vidro, uma placa plana vertical de alum´ınio em uma das laterais e aquecˆe-la aplicando uma condi¸c˜ao de contorno t´ermica de fluxo de calor constante imposto ao longo da placa de alum´ınio. As dimens˜oes do aqu´ario eram de 0,45 X 0,56 X 0,13 m, altura, largura e profundidade. A placa vertical de alum´ınio possuia 0,31 m de altura e 0,035 m de largura. O escoamento na se¸c˜ao m´edia longitudinal do aqu´ario ´e bidimensional. O aqu´ario era aberto na parte superior, de modo que a condi¸c˜ao de press˜ao atmosf´erica ´e garantida nesta parte do dom´ınio de c´alculo.
Apesar do escoamento ocorrer no interior de uma geometria fechada, a menos da parte superior do aqu´ario, devido `a raz˜ao de aspecto da geometria utilizada a parede n˜ao aquecida n˜ao influencia o escoamento nas imedia¸c˜oes da parede aquecida, de modo que o escoamento pode ser considerado como um escoamento sobre uma placa plana vertical, conforme mostram evidˆencias num´ericas e experimentais do trabalho de Lino et. al (2003).
O fato do escoamento laminar se desenvolver sobre uma placa plana vertical, per- mite o emprego de solu¸c˜oes anal´ıticas baseadas na solu¸c˜ao integral das equa¸c˜oes da energia e da quantidade de movimento. Sparrow (1955) propˆos uma equa¸c˜ao para a quantifica¸c˜ao do n´umero de Nussel local em fun¸c˜ao dos n´umeros de Prandtl e de Rayleigh local do escoamento, considerando condi¸c˜ao de fluxo de calor constante im- posta ao longo da placa plana vertical. Essa equa¸c˜ao, (5.10), ser´a utilizada, juntamente com os dados experimentais, para a valida¸c˜ao da solu¸c˜ao num´erica obtida com im- posi¸c˜ao de condi¸c˜ao de fluxo de calor. A equa¸c˜ao proposta por Sparrow (1955) assume a forma
Nuy = 2 36015 P r 4 5 + P r !1 5 Ra15 y, (5.10)
onde o n´umero de Rayleigh utilizado ´e modificado em fun¸c˜ao do valor do fluxo de calor imposto na placa e pode ser determinado pela express˜ao:
Ra+ y =
gβqpy4
ανk , (5.11)
onde β ´e o coeficiente de expans˜ao volum´etrica da ´agua, qp representa o valor do fluxo
de calor imposto na parede vertical, α ´e a difusividade t´ermica da ´agua, ν representa a viscosidade cinem´atica e k a condutividade t´ermica da ´agua. Experimentalmente todas as propriedades foram avalidas em uma temperatura de 300K e valem: k = 0, 613W/mK, ν = 8, 575x10−7 m2 /s, β = 2, 761x10−4 K−1 e α = 1, 471m2 /s.
As malhas de c´alculo utilizadas para a resolu¸c˜ao num´erica desse problema encontram- se ilustradas na figura (5.59). X Y 0 0.1 0.2 0.3 0 0.1 0.2 0.3 0.4 Número de nós 1600 Número de elementos 3042 (a) X Y 0 0.1 0.2 0.3 0 0.1 0.2 0.3 0.4 Número de nós 6241 Número de elementos 12168 (b)
Figura 5.59: Malha P1 (a) e malha P1-isoP2 (b) - caso teste Lino et.al (2003)
As condi¸c˜oes de contorno adotadas nessa simula¸c˜ao s˜ao muito similares `aquelas utilizadas no caso teste de Nagano et.al (1992), exceto que na entrada n˜ao foram
impostos perfis de quaisquer vari´aveis, visto que a camada limite se inicia no come¸co da placa. Dessa forma, as condi¸c˜oes de contorno adotadas foram:
• condi¸c˜oes de parede calculadas com leis de parede, para as simula¸c˜oes realizadas foi imposta uma distˆancia adimensional y+
entre 5 e 10. O fluxo de calor imposto na parede reproduz as condi¸c˜oes experimentais;
• para o contorno oposto `a parede, foram impostas temperatura ambiente e derivada nula, com rela¸c˜ao a dire¸c˜ao x, para as demais vari´aveis;
• na sa´ıda, parte superior do dom´ınio, foi imposta condi¸c˜ao de press˜ao nula.
´
E importante frisar que a simula¸c˜ao num´erica desse tipo de problema utilizando a metodologia proposta para imposi¸c˜ao de condi¸c˜ao de contorno de fluxo de calor possui uma peculiaridade. Quando os campos de velocidade e temperatura s˜ao desacoplados, como ocorre na convec¸c˜ao for¸cada de escoamentos sobre superf´ıcies s´olidas levemente aquecidas, essa dependˆencia ´e atenuada e a convergˆencia do m´etodo de imposi¸c˜ao de condi¸c˜ao de contorno de fluxo com base no uso de analogias ´e r´apida e garantida de forma f´acil. Por´em em escoamentos gerados pelo efeito da convec¸c˜ao natural, onde os campos de velocidade e temperatura s˜ao fortemente acoplados, um certo cuidado deve ser tomado a fim de garantir a convergˆencia num´erica do algortimo respons´avel pela imposi¸c˜ao de condi¸c˜ao de contorno de fluxo de calor na parede com base no uso de analogias. A estrat´egia adotada para esta condi¸c˜ao ´e a seguinte:
• estima-se, com base em an´alise de escala, a ordem de grandeza das velocidades envolvidas no escoamento;
• ainda com base em an´alise de escala, uma temperatura de parede equivalente ´e calculada e imposta como condi¸c˜ao de contorno na parede;
• ap´os a convergˆencia num´erica da simula¸c˜ao realizada com uma temperatura de parede aproximada imposta na parede, os resultados num´ericos obtidos s˜ao uti- lizados como um campo inicial para a simula¸c˜ao na qual a condi¸c˜ao real de fluxo ´e imposta.
Utilizando a metodologia descrita acima, a convergˆencia do algoritmo respons´avel pela imposi¸c˜ao da condi¸c˜ao de contorno de fluxo na parede ´e garantida e o m´etodo tende a gerar resultados satisfat´orios como ser˜ao mostrados posteriormente.
O primeiro resultado obtido ilustra a varia¸c˜ao do n´umero de Nusselt local ao longo da placa em fun¸c˜ao do n´umero de Rayleigh modificado, equa¸c˜ao (5.11), para quatro condi¸c˜oes de contorno de fluxo de calor impostas. Al´em disso a figura (5.60) foi obtida adotando a aproxima¸c˜ao de Boussinesq da convec¸c˜ao natural nas equa¸c˜oes utilizadas para a resolu¸c˜ao num´erica do problema, ou seja, supondo que todas as propriedades do fluido s˜ao constantes com excess˜ao da massa espec´ıfica, que no termo de for¸ca de campo varia linearmente com a temperatura.
Ra
YN
u
Y10
210
410
610
810
1010
1210
010
110
210
3 Numérico - 1000 W Numérico - 1500 W Numérico - 2000 W Numérico - 2500 W Experimental - 1000 W Experimental - 1500 W Experimental - 2000 W Experimental - 2500 W AnalíticoFigura 5.60: Nusselt x Rayleigh - com a aproxima¸c˜ao de Boussinesq - caso teste Lino et.al (2003)
O efeito da n˜ao ado¸c˜ao da aproxima¸c˜ao de Boussinesq nos c´alculos num´ericos ´e mostrado na figura (5.61). Os gr´aficos das figuras (5.60) e (5.61) mostram pouca diferen¸ca entre a ado¸c˜ao ou n˜ao da aproxima¸c˜ao de Boussinesq da convec¸c˜ao natual nessa situa¸c˜ao espec´ıfica. Isso ocorre porquˆe a condi¸c˜ao de fluxo imposta ´e insuficiente para alterar significativamente os valores das propriedades termodinˆamicas do fluido e
porquˆe as varia¸c˜oes da massa espec´ıfica com a temperatura s˜ao muito sutis, visto que o fluido utilizado no experimento ´e ´agua.
Ra
YN
u
Y10
210
410
610
810
1010
1210
010
110
210
3 Numérico - 1000 W Numérico - 1500 W Numérico - 2000 W Numérico - 2500 W Experimental - 1000 W Experimental - 1500 W Experimental - 2000 W Experimental - 2500 W AnalíticoFigura 5.61: Nusselt x Rayleigh - sem a aproxima¸c˜ao de Boussinesq - caso teste Lino et.al (2003)
As imagens (5.62) ilustram o comportamento do n´umero de Nusselt contra o n´umero de Rayleigh modificado para quatro valores diferentes de fluxo de calor im- postos na placa vertical.
O padr˜ao observado nas figuras (5.62) mostra valores num´ericos com tendˆencia a se distanciarem ligeiramente dos valores experimentais no in´ıcio da placa, a medida em que aumenta a intensidade do fluxo de calor imposto. No fim da placa os valores num´ericos s˜ao capazes de modelar os valores experimentais com uma consistˆencia maior do que a pr´opria solu¸c˜ao anal´ıtica, oriunda da equa¸c˜ao de Sparrow (1955).
Ray N u y 102 104 106 108 1010 1012 100 101 102 103 Numérico - 1500 W Experimental - 1500 W Analítico (b) Ray N u y 102 104 106 108 1010 1012 100 101 102 103 Numérico - 2000 W Experimental - 2000 W Analítico (c) Ray N u y 102 104 106 108 1010 1012 100 101 102 103 Numérico - 2500 W Experimental - 2500 W Analítico (d) Ray N u y 102 104 106 108 1010 1012 100 101 102 103 Numérico - 1000 W Experimental - 1000 W Analítico (a)
Figura 5.62: Nusselt x Rayleigh - caso teste Lino et.al (2003)
A explica¸c˜ao para a concordˆancia entre os valores num´ericos e experimentais no fim da placa, em escoamentos gerados por condi¸c˜oes mais severas de fluxo, prende- se ao fato de que no final da placa, inicia-se o processo de transi¸c˜ao entre a camada limite laminar e a camada limite turbulenta. Para fluidos com n´umero de Prandtl equivalente ao n´umero de Prandtl da ´agua, a uma temperatrua de 300K, em casos onde a condi¸c˜ao imposta na parede ´e de fluxo de calor constante, a transi¸c˜ao se inicia em Ra+
y ≈ 3, 8x10 11
.
A explica¸c˜ao para a maior discrepˆancia observada entre os valores num´ericos e experimentais no in´ıcio da placa deve-se ao fato de que, nesta regi˜ao, os gradientes respons´aveis pelo in´ıcio da forma¸c˜ao da camada limite s˜ao muito intensos, sobretudo sob condi¸c˜oes mais severas de fluxo de calor imposto, fazendo com que a capta¸c˜ao precisa destes gradientes seja de dif´ıcil obten¸c˜ao, pois demanda malhas extremamente
refinadas. Al´em disso, a medi¸c˜ao experimental, no in´ıcio da placa, ´e mais dif´ıcil de- vido aos efeitos de varia¸c˜ao na geometria provocados pela presen¸ca de uma parede inferior. ´E interessante notar, que no caso teste de Nagano et.al (1992), este problema n˜ao ocorreu, j´a que no pr´oprio trabalho experimental o autor recomendava que, os nu- mericistas interessados em estudar o problema, utilizassem uma condi¸c˜ao de contorno medida experimentalmente na entrada do dom´ınio de c´alculo e capturassem apenas o comportamento da camada limite turbulenta, justamente com o objetivo de evitar a compara¸c˜ao dos resultados num´ericos com medi¸c˜oes experimentais afetadas pelas incertezas existentes no in´ıcio da placa.
Conforme detalhado em cada caso teste proposto nessa se¸c˜ao, o uso de analogias cl´assicas, como a analogia de Colburn (1933), equa¸c˜ao (2.13), como ferramenta de imposi¸c˜ao de condi¸c˜ao de contorno de fluxo de calor na parede, foi capaz de gerar bons resultados em escoamentos que se procedem sobre geometrias suaves, incapazes de gerar separa¸c˜ao da camada limite de velocidade ou mesmo altera¸c˜oes bruscas nas linhas de corrente do escoamento.
A se¸c˜ao seguinte possui como objetivo, ilustrar a inefic´acia do uso de analogias cl´assicas em escoamentos recirculantes e tem como base o caso teste proposto por Drain e Martin (1985) e Liou et. al (1992).
5.7 Emprego de analogias cl´assicas para escoamento turbulento com des-