Por integrar o conjunto de serviços disponibilizados pelo Google, para tornar-se um membro do Orkut é preciso abrir uma conta Google, o que significa que se está de acordo com as condições que caracterizam seu termo 1 geral de serviços. Com o login e senha
gerados por esta conta, é possível acessar a plataforma, mas antes de começar a utilizá-la deve-se confirmar algumas informações (data de nascimento, nome, sobrenome, sexo e país de origem) e anuir com a afirmação “Sei que é preciso ter 18 anos ou mais para usar o
Orkut.com. Tenho 18 anos ou mais e aceito cumprir o Estatuto da Comunidade [hiperlinkado]
ao usar o Orkut”. Após a realização desses procedimentos, o Orkut permite que o usuário procure amigos que já estejam na plataforma ou convide outros, além de iniciar a edição do próprio perfil, ou identidade-perfil, como este estudo prefere chamar.
A identidade-perfil é formada pelo conjunto dinâmico de páginas vinculadas à página inicial do usuário (figura 3), que apresenta suas informações e um preview da lista de
amigos e comunidades aos quais o mesmo está vinculado. Além desta, as páginas de recados
(scrapbook), fotos, vídeos, depoimentos e eventos também contribuem – ainda que de forma fragmentária e por vezes contraditória – para a caótica e ruidosa transposição sígnica do eu. E, apesar do menu disponível separar o item “perfil” dos demais, é importante ressalvar que a leitura do Estatuto da Comunidade 2 leva à compreensão de que, para o Orkut, o perfil
equivale à totalidade de páginas relativas ao usuário, já que a não obediência às restrições a determinados conteúdos ou comportamentos podem levar à suspensão ou cancelamento de um perfil.
O processo de transposição sígnica implica uma série de ações que objetivam a configuração de uma identidade virtual. Trata-se de conferir uma “face” à sequência de
interfaces que, de certo modo, uniformizam as aparições dos sujeitos na plataforma (a figura 3
apresenta a interface padrão, antes de sua customização), o que envolve: (a) publicação de uma foto de identificação e definição de nome e sobrenome a serem exibidos junto com a mesma; (b) preenchimento do item “perfil”, que dispõe no formato de uma enquete uma série
1 A última versão dos termos é de 16 de abril de 2007, conforme divulgado no próprio documento.
www.google.com/accounts/TOS?hl=pt-BR. 9 jan. 2009.
2 Este artigo é atualizado com frequência; por isso, o Orkut sugere aos usuários que refaçam sua leitura
de questões de caráter geral 3, social 4, profissional 5 e pessoal 6, além de disponibilizar os
contatos 7 do usuário; e (c) publicação de fotos, vídeos e agenda de eventos.
Figura 3. Página inicial do perfil de Cíntia (10 jan. 2008).
Embora o Estatuto da Comunidade recomende que a foto de identificação retrate o usuário, observa-se o uso corrente de imagens contra a luz ou em ângulos que não permitem
3 Nome e sobrenome (conforme disposto, aparecem junto da foto de identificação), sexo, estado civil,
cidade, estado, idiomas que fala, escola (ensino médio), faculdade, empresa em que trabalha e seu interesse no Orkut (amigos, companheiros para atividades, contatos profissionais e/ou namoro).
4 Filhos, etnia, religião, visão política, humor, orientação sexual, estilo, fumo, bebo, animais de
estimação, moro, cidade natal, página web, quem sou eu, paixões, esportes, atividades, livros, música, programas de tv, filmes, cozinhas.
5 Escolaridade, escola (ensino médio), curso, diploma, ano, profissão, setor, sub-setor,
empresa/organização, site da empresa, cargo, descrição do trabalho, e-mail de trabalho, telefone de trabalho, habilidades profissionais, interesses profissionais.
6 Título, o que mais chama atenção em mim, altura, cor dos olhos, cor do cabelo, tipo físico, arte no
corpo, aparência, do que mais gosto em mim, o que me atrai, o que não suporto, primeiro encontro ideal, com os relacionamentos anteriores aprendi, cinco coisas sem as quais não consigo viver, no meu quarto, você encontra, par perfeito.
que se veja o rosto do usuário. Também é comum fotografar a própria sombra ou apenas partes do corpo (os olhos são os preferidos). Tais imagens são indiciais, mas também há quem faça uso de ícones (como avatares que buscam reproduzir o tipo físico do usuário) ou símbolos (objetos, paisagens, imagens de artistas ou desenhos animados, entre outros). Nome e sobrenome também podem sofrer alterações: são trocados por apelidos ou recebem caracteres especiais que personalizam-nos.
A edição do item “perfil” possibilita que se faça a inclusão ou alteração da foto de identificação e suas questões podem ser respondidas parcialmente ou não, sendo que para algumas delas é possível configurar o nível de exposição. Interessante notar que o questionário faz alusões à localização do sujeito na territorialidade, contendo endereço físico, além de solicitar informações sobre sua aparência. Também abre espaço para a descrição de hábitos culturais, aspectos comportamentais, expectativas. E, dentre todas as questões propostas, o complicado “Quem sou eu”, cuja definição é constantemente alterada – razão pela qual, provavelmente, a plataforma tenha implementado a área de “status”, especificamente para que o usuário possa indicar seu “estado de espírito” atual.
O item “fotos” dá acesso a uma área de publicação de imagens (minhas fotos) organizadas em álbuns. Pode-se conferir acesso a esses arquivos ou a parte deles, reservando alguns privilégios a apenas meus amigos. Além disso, é possível visualizar as fotos comigo: imagens postadas em outros perfis nas quais o sujeito foi marcado. Superada a limitação de doze fotos por perfil, o Orkut passou a concorrer, de certo modo, com os fotologs, aliviando seus usuários de manterem dois sites paralelos de publicação de imagens. Ainda assim, é interessante notar que muitos endereços de blogs ou fotologs pessoais são disponibilizados pelos usuários no campo “Quem sou eu”, pois este possui melhor visibilidade na página inicial do que os itens de contatos.
No item “vídeos” são visualizados filmes postados no YouTube, que também integra o pacote de serviços do Google. Por isso, não é possível, por exemplo, exibir no Orkut um vídeo caseiro sem que o mesmo esteja, antes, disponível no YouTube. Entretanto, o procedimento técnico é muito simples: o Orkut solicita apenas que seja indicado o endereço (url) do filme a ser (re)exibido; o mesmo pode ser assistido na plataforma, sem que o usuário tenha que sair do perfil visitado – o que representa uma vantagem em tempos “dromocráticos”. A marca YouTube não perde por isso, ao contrário: amplia o raio de visibilidade de seus conteúdos e a possibilidade de testar novas parcerias comerciais. Se o usuário do Orkut não sabe postar seus próprios vídeos no YouTube, pode fazer uso dos inúmeros filmes já disponibilizados por outros e, assim, ampliar seu arsenal de referências ao
eu: ao invés de escrever o trecho de uma letra de música que seja significativa para si, pode colocar o próprio videoclip da música.
Em “eventos” é possível comunicar a realização de encontros, festas e reuniões, disparando convites por meio do próprio Orkut para os amigos indicados. Aqui, cabe considerar que a plataforma propicia os inevitáveis “reencontros” de pessoas que não se veem há muito tempo – antigos amigos de infância, de escola, vizinhos e parentes. São recorrentes os vagos “A gente precisa se ver qualquer dia desses...” e, talvez, essa ferramenta seja um instrumento de comunicação indispensável para marcar encontros presenciais com aqueles cujo contato é absolutamente facilitado pelo Orkut.
O processo de transposição sígnica também implica um trabalho ativo de vinculação: amigos e comunidades constituem a identidade-perfil e têm destaque na página inicial. Se, por um lado, as configurações anteriores buscam conferir ao sujeito representado/simulado aquilo que o torna um indivíduo, por outro, as vinculações sinalizam universalidades compartilhadas que são apropriadas pelo usuário para formar, no conjunto, a sua singularidade. O outro (os amigos), bem como os espaços de sociabilidade em que é possível encontrar o outro (as comunidades), são ostentados de forma auto-referente e buscam impressionar pela quantidade ou pela qualidade dos vínculos exibidos. Além disso, há intensa produção de conteúdo por terceiros no perfil alheio (por meio dos itens “recados” e “depoimentos”, canais de comunicação e relacionamento que dão acesso às mensagens escritas por amigos), e a particularidade, bem como a gravidade, de tal prática serão tratados nos próximos tópicos.