“Relacionamento” é o assunto mais quente do momento, e aparentemente o único jogo que vale a pena, apesar de seus óbvios riscos. [...] Talvez seja por isso que, em vez de relatar suas experiências e expectativas utilizando termos como “relacionar-se” e “relacionamentos”, as pessoas falem cada vez mais (auxiliadas e conduzidas pelos doutos especialistas) em conexões, ou “conectar-se” e “ser conectado”. Em vez de parceiros, preferem falar em “redes”. (BAUMAN, 2004, p. 9-12).
Em 2004, quando foi lançado, “estar” no Orkut era um privilégio para os poucos que conheciam alguém que conhecia alguém que já estava “dentro”: só era possível acessar este “território” munido de um convite disparado por membros devidamente associado. A página inicial, tal qual uma muralha, recepcionava os curiosos com o enigmático “Who do you know?”. O objetivo era garantir a colonização da rede com pessoas “de confiança”, razão pela qual “ser bem relacionado” era a chave de acesso para o Orkut. Nesse período, a demanda de interessados era tal que, no Brasil, convites de entrada passaram a ser vendidos e leiloados. 9 Essa disfunção da proposta inicial terminou quando o Orkut abriu suas portas 10 e,
hoje, independentemente de “conhecer alguém”, é possível abrir uma conta para “conhecer pessoas que tenham os mesmos hobbies e interesses que você, que estejam procurando um relacionamento afetivo ou contatos profissionais” (SOBRE O ORKUT, 2009).
De qualquer forma, não é possível entrar no Orkut sem vir a fazer parte dele. O status de membro implica a construção de um perfil pessoal (o profile) que se transforma em conteúdo aberto (hoje, parcialmente) aos demais usuários. Não é exagerado afirmar que os
9 Segata (2008, p. 45) testemunha e relata sobre a dificuldade de entrada e a oferta de convites de
acesso em sites de vendas e leilão.
10 Neste momento, o Google aproveitou a oportunidade para alavancar adesões para sua caixa postal
de e-mail gratuita, o G-Mail. Hoje, não é mais preciso ser usuário do G-Mail para abrir uma conta
perfis são o Orkut e que cada perfil é um Orkut particular 11, configurando uma relação fractal
entre o sujeito e a rede. Se o perfil é o ponto de origem e entrada do sujeito no Orkut, a capacidade individual de relacionar-se está diretamente ligada à possibilidade de tornar-se mais visível: sociabilidade e ubiquidade encontram-se intimamente ligadas, pois cada amigo aceito implica a disponibilização de um hiperlink personalizado que aponta (ou retorna) para o perfil correlato; cada mensagem, recado ou depoimento também contém a identificação hipertextual (foto e nome) do emissor. O sujeito, portanto, integra a rede e esparrama nós de retorno para si ao mesmo tempo em que é por ela perpassado, abrigando em seu perfil outros tantos nós de outros sujeitos. É nesse sentido que Couchot (2003, p. 271) chama a atenção para o fato de que, de todas as hibridações: “a mais violenta e decisiva é a hibridação do sujeito e da máquina, através da interface”. Emaranhadas entre si, todas as (inter)faces transformam-se em parte de cada percurso particular pelo labirinto: “o sujeito, traspassado pela interface, é, de agora em diante, muito mais trajeto do que sujeito” (Ibid., p. 275).
O excesso de vínculos expresso no número de amigos 12 aos quais o sujeito-
usuário pode associar-se e a existência, na plataforma, de um sistema de “gerenciamento” de contatos (fora recursos adicionais que podem ser aplicados para “aprimorar” ou “otimizar” a comunicação com tantos amigos) dão margem a que se problematize a qualidade das relações que se estabelecem em uma comunidade virtual de relacionamento como o Orkut, conforme disposto a seguir:
a) não há outra denominação possível para os vínculos estabelecidos: amigo é, necessariamente, todo usuário adicionado à lista de amigos do perfil e não aquele em quem se pode confiar, embora a denominação pressuponha uma qualificação que inspira distinção. Sob esse chavão acomodam-se conhecidos e desconhecidos, pessoas íntimas e não-familiares, próximas e distantes, amigos e (até) inimigos. É possível, entretanto, classificar os diversos
amigos em grupos. As categorias default da plataforma são família, escola, trabalho e melhores amigos, sendo que o usuário pode criar outros grupos. Esta classificação é útil
quando se deseja encaminhar uma mesma mensagem (que, diferente do recado – scrap, não
11 É oportuno lembrar, a partir das considerações de Segata (2008, p. 55), que no conjunto de páginas
que constitui o perfil existe “a possibilidade de adicionar outros participantes, ou ser adicionado, à lista intitulada amigos e criar e participar das chamadas comunidades”; este espaço é chamado de “meu Orkut”. Há uma comunidade no Orkut intitulada “Deixa eu ver o meu Orkut?”, com mais de 150 mil membros (www.Orkut.com.br/ Main#Community.aspx?rl=cpn&cmm=38146838).
12 “Com o Orkut é fácil conhecer pessoas que tenham os mesmos hobbies e interesses que você, que
estejam procurando um relacionamento afetivo ou contatos profissionais. [...] Nossa missão é ajudá-lo a criar uma rede de amigos mais íntimos e chegados. Esperamos que em breve você esteja curtindo mais a sua vida social. Divirta-se” (SOBRE O ORKUT, 2009).
fica visível para todos) para um grupo específico, mas não serve para o estabelecimento dos filtros de restrição ao conteúdo, aberto, no mínimo, a “apenas os meus amigos” (figura 1);
Figura 1. Área de restrição de acesso ao conteúdo disponibilizado no perfil (5 jan. 2008).
b) além de classificar em grupos, é possível tornar-se fã e computar pontos para os indicadores de popularidade do próprio Orkut (confiável, legal e sexy). A pontuação, somada, é apresentada na forma de pequenos gráficos no topo da página inicial do perfil do usuário;
c) Bauman (2004, p. 77) já havia sinalizado: “quando a qualidade o decepciona, você procura a salvação na quantidade”. No Orkut, cada perfil comporta “apenas” 1000
amigos. A ironia reside no fato de que, paulatinamente, “Quem você conhece?” passou a ser
menos significativo (até chegar à nulidade, pois deixou de ser condição de acesso) do que “Quantos você conhece?”, e ter muitos amigos tornou-se sinônimo de ser popular – mais até que os próprios indicadores de popularidade disponíveis na plataforma. Por essa razão, muitos usuários precisam abrir um segundo (e depois, um terceiro, um quarto...) perfil para atender às novas solicitações de amizade. Na figura 2, o item “quem sou eu” de Milton Pantoja indica o endereço de seu segundo perfil, uma vez que este chegou ao limite de mil amigos;
Figura 2. Perfil de Milton Pantoja com mil amigos (5 nov. 2008).
d) o estabelecimento de vínculos é prático, rápido e dialógico: a opção “adicionar
amigo”, disponível na página inicial de todos os perfis, dispara uma “solicitação de novos
amigos” no qual se responde a seguinte pergunta: “(Tal usuário) é seu (sua) amigo(a)?”. Não é possível adicionar um amigo sem que isso implique sua própria inclusão no rol de amizades do outro. Para ter amigos é preciso ser considerado amigo. Se, por um lado, o estabelecimento de vínculos entre usuários “encurta” o percurso/tempo de acesso entre os mesmos, o que deve, em princípio, facilitar a comunicação e o relacionamento na plataforma, por outro lado, esse efeito de espelhamento do eu, como dito anteriormente, aumenta sua visibilidade na rede. Nesse sentido, os amigos do Orkut são nós que reproduzem e multiplicam outros amigos; e por serem nós, e não laços, devem ser compreendidos mais como relações do que, propriamente, como relacionamentos.
A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” – mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos. (BAUMAN, 2004, p. 82).
Uma rede de amigos promete as delícias do estar junto sem estar; nela é possível, à distância, privar de intimidade instantânea e convívio seguro até quando for conveniente, após o que, basta “derrubar” a conexão. Para Bauman (2004, p. 82), “as conexões tendem a
ser demasiadamente breves e banais para poderem condensar-se em laços”. Trata-se de pensar, como sugere o autor, a que se deve a popularidade das tecnologias em rede que facultam a proximidade virtual: “Será a nova facilidade de conectar-se? Ou a de cortar a conexão?”.
Tenho a impressão que, ao formar algumas dessas ligações, estão atravessados outros sentimentos, que não o de estar realmente em relação, mas o de formar uma espécie de índice de auto-afirmação de que se é sociável: a própria ideia de adicionar amigos tem um ar quantitativo de redes de relações, e não de qualidade das relações – é muito comum, no Orkut, comentários que visam ostentar o número de amigos adicionados à lista, bem como a quantidade de recados deixados no mural; como resume p. Valdo, “o
barato é ser popular”. (SEGATA, 2008, p. 58).
Se uma rede de amigos faculta o excesso, um sistema de gestão é imprescindível. A facilidade em adquirir e classificar amigos também está presente em não aceitá-los, ignorando convites. De modo geral, a prática parece impregnada por uma relação de consumo sem consumação: tem-se o outro, mas não por inteiro – em imagem; tem-se o outro, um perfil. O outro vira objeto de cena no visual da (inter)face ou figurante no scrapbook. O relacionamento não precisa consumar-se; a afetividade reduz-se ao desejo de “adicionar” e “ser adicionado”. Para ser sujeito e “apareser”, o eu objetifica-se e faz propaganda de si.
Você decide com quem quer interagir. Antes de conhecer uma pessoa no
Orkut, você pode ler seu perfil e ver como ela está conectada a você através