Site de relacionamento, comunidade online, rede social. 1 É interessante observar
as etiquetas que rotulam e, por isso, simplificam a definição do que seja o Orkut – aos pesquisadores cabe a tarefa de pensar os significados e as implicações de relacionar-se por meio das interfaces ciberculturais constitutivas das chamadas comunidades virtuais. Embora guardem relação entre si e apontem para um mesmo “lugar”, essas expressões não são necessariamente sinônimas, mas juntas levam à compreensão do Orkut como uma
comunidade virtual de relacionamento, pois o mesmo congrega, dispondo em rede, sujeitos
predispostos a reencontrar velhas amizades, manter contato com os amigos atuais e conhecer novas pessoas. Aparentemente, mesmo a possibilidade de criar comunidades dentro desta grande comunidade chamada Orkut comparece como ferramenta estratégica para promover o encontro 2 e, quiçá, o estabelecimento de vínculos entre sujeitos que compartilhem
características e interesses afins. Relacionamento está na ordem do dia e sugere que o sucesso ou popularidade do Orkut deva-se ao fato dele possibilitar e promover a comunicação com o outro.
Entretanto, contrariamente aos rótulos citados, este estudo propõe que se pense o
Orkut como plataforma cibercultural hiperespetacular de publicação de sujeitos que responde à crescente necessidade de exposição performática e narcísica do eu. Nesta plataforma, relacionar-se faz parte do jogo de legitimação da significância da própria existência. Para além da obviedade contida na troca de elogiosos depoimentos ou nos indicadores de popularidade próprios do Orkut, amigos e comunidades também constituem parte da dinâmica auto-referencial, como será demonstrado e problematizado no decorrer deste estudo3.
O emprego da metáfora “plataforma” justifica-se pelo fato de o Orkut ser percebido como uma base de apresentação pessoal, projeção tecno-imaginária e encontro do outro em meio ao “nada” dos fluxos informacionais do cyberspace. Embora aparente ser um “lugar”, é uma miragem que irrompe em meio ao “desértico anonimato dos códigos binários” (DAL BELLO, 2008a, p. 1-2) e proporciona a reconfortante sensação de ser povoado por
1 “O Orkut é uma comunidade on-line criada para tornar a sua vida social e a de seus amigos mais
ativa e estimulante. A rede social do Orkut pode ajudá-lo a manter contato com seus amigos atuais por meio de fotos e mensagens, e a conhecer mais pessoas” (SOBRE O ORKUT, 2009).
2 “Você também pode criar comunidades on-line ou participar de várias delas para discutir eventos
atuais, reencontrar antigos amigos da escola ou até mesmo trocar receitas favoritas” (SOBRE O ORKUT, 2009).
pessoas, o que reforça a ilusão que põe a imagem no lugar do corpo e se pretende identitária da subjetividade que representa.
Para entrar e estar neste “lugar”, é preciso ter/ser um perfil, conjunto sígnico de informações pessoais que apresenta, representa, circunscreve e presentifica o eu. O recorrente “Você está no Orkut?” denota essa sobreposição, pois tecnicamente, o correto seria perguntar “Você tem um perfil no Orkut?”. Isso posto, pode-se dizer que o perfil goza de status equivalente ao do corpo como instrumento dinâmico de individuação, a despeito de sua natureza de duplo, o que leva à congruência entre identidade e perfil na virtualidade.
Além disso, a plataforma assegura a permanência do perfil e sua rede de conexões e conteúdos, contrapondo à fugacidade do tempo real e à efemeridade das relações mediatizadas uma certa sensação de estabilidade. Tornar-se membro do Orkut significa estar na plataforma mesmo quando off-line, pois o perfil permanece disponível para visitação. E estar no Orkut implica necessariamente transformar-se em parte de seu conteúdo “navegável”, integrando sua rede e oferecendo-se como parte do que pode ser encontrado. A plataforma disponibiliza um instrumental que promove, por um lado, a comunicação, o relacionamento e o estabelecimento de vínculos entre os usuários e, por outro, projeta o sujeito em um ambiente de alta visibilidade mediática, exibindo-o para e perante o olhar de todos.
Adjetivar esta plataforma de “cibercultural”, embora pareça redundante, é imprescindível para que não se perca de vista o fato de, apesar das ilusões que engendra, o
Orkut também operar sob os paradigmas da vigilância e do controle. A publicação de sujeitos
confere ao eu a desejada visibilidade, ao mesmo tempo em que o expõe continuamente para todos e qualquer um. Nesta plataforma, o sujeito pode ser rastreado, localizado, indexado e analisado a qualquer momento para os mais diversos fins. Eis a outra face da almejada exposição: a ausência de controle sobre quem é, exatamente, a audiência e quais as formas de apropriação do conteúdo. Na ludicidade das práticas culturais associadas a ser/estar em plataformas ciberculturais de relacionamento, observa-se que o interator 4, ou indivíduo
teleinteragente 5, diverte-se em poder ver, perscrutar, espiar o outro “presente-ausente”,
configurado nas páginas que constituem o perfil. Neste ponto, chama-se a atenção para a palavra “especular”, que comparece como sinônimo dos verbos ver, olhar, observar, vigiar e, como adjetivo, diz respeito ao que é diáfano ou relativo a espelho. A palavra espetáculo
4 Para Machado (2007, p. 144), o interator é aquele “receptor ativo e imerso” cuja ação participativa
está para além de “expressões como usuário, espectador e receptor”.
5 Trivinho (2001, p. 124-127) funde nesta expressão as categorias analíticas de emissor, receptor e
mensagem, dado que, para adentrar, navegar, existir e interagir no cyberspace, o usuário precisa, necessariamente, transformar-se em um conjunto de signos verbo-imagético-sonoros.
vem dos verbos latinos specio e specto. Specio: ver, observar, olhar, perceber. Specto: ver, olhar, examinar, ver com reflexão, olhar, ajuizar, acautelar, esperar. Species é a forma visível da coisa real, sua essência ou sua verdade – na ciência da óptica, a species era estudada como imagem visual. Spectabilis é o visível.; speculum é o espelho; spectator, o que vê, observa, espectador; spectrum é aparição irreal, visão ilusória; speculare é ver com os olhos do espírito e spetaculum é a festa pública. Espetáculo pertence ao campo da visão. (CHAUÍ, 2006, p. 81-82).
Além disso, apesar de suas ferramentas assíncronas de comunicação e relacionamento, o Orkut confere ao sujeito uma forma ímpar de existir em tempo real, desvinculando-o do sentido histórico sob as pressões para que esteja constantemente conectado e atualizado. Nesse sentido, é importante sinalizar que o Orkut não apresenta recursos funcionais como um blog para a manutenção de registros diários que possam ser publicados, arquivados e resgatados a qualquer tempo. 6
O Orkut globaliza e celebriza o local, mesmo aquele mais ordinário; nele, é comum encontrar comunidades tais como Colégio Argumento 7 ou Vila Nitro Química 8. A
transposição e transformação de referências concretas em comunidades reforçam na plataforma uma lógica própria de localidade – na disritmia entre próximo e distante na virtualidade – que, por sua vez, lhe confere um “charme” único: tudo e todos estão no Orkut (mesmo à revelia, como se tem observado acontecer com diversas empresas).
Esta plataforma cibercultural é “hiperespetacular” na medida em que faculta ao usuário um espectro de visibilidade com o qual pode encapsular sua subjetividade; trata-se do perfil que, ao menos parcialmente, lhe confere uma silhueta, um contorno, uma identidade. Os instrumentais de construção, manutenção e publicização desse perfil, entretanto, potencializam sua capacidade de exibição e manifestação na rede: mais que representado e presentificado, o sujeito simulado pela imagem hiper-realiza-se (no sentido conferido por Baudrillard) na performance de ser (o “apareser”); está em um canal de mídia interativa que lhe faculta ubiquidade e, esta, audiência para o seu show particular. No Orkut, a promessa que atrai milhares de usuários e o eixo que faz tudo girar são um só: poder ser – reconhecidamente – eu.
Por tais características, exatamente aquelas que particularizam o Orkut frente a outros fenômenos correlatos, conclui-se que (1) a plataforma constitui efetivamente um
6 Sibilia (2008) apresenta um interessante estudo sobre a importância dos diários íntimos para o
desenvolvimento da noção de interioridade e sua associação à subjetividade moderna.
“território espectral” cujas condições tecnológicas permitem aos usuários construir e promover um lugar de fala a partir do qual podem reconhecer-se e serem reconhecidos como sujeitos e (2) o perfil circunscreve o sujeito, pois, ao passo que o diferencia dos demais, identifica-o, afirmando as fronteiras entre o eu, o outro e o meio cibercircundante. Esse conjunto dinâmico que assume a forma de um espectro virtual ao projetar o eu na plataforma é denominado, nesta pesquisa, de identidade-perfil – e constitui seu objeto de estudo.