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O novo paradigma tornou inadequadas as ferramentas de avaliação de decisões em uso nas empresas, conforme visto no capítulo 2, por não captar especialmente benefícios intangíveis e de longo prazo. Neste sentido, a matriz do desempenho sustentável empresarial, aliada à matriz estratégica apresentada na tabela 5.6, pode tornar-se uma excelente ferramenta estratégica, no que tange à gestão sócio- ambiental, se inseridas ponderações e pontuações para cada fator. Algumas das possíveis aplicações desta ferramenta são:

- avaliação de investimentos ambientais, de processos produtivos e de produtos;

Estratégia ambiental processos Produtos Indicador de sucesso empresarial Estratégia empresarial

Estratégia Ferramenta Estratégia Ferramenta Crescimento de receitas e Atração do cliente, Inovação Diferenciação ou liderança em produto; Foco ou Intimidade com o cliente Certificações dos processos ou SGA conforme requisitos do mercado SGA ou SUST Certificação de produtos e processos, produtos ecológicos, foco nos segmentos- alvo ACV, Selos Ecológicos, Marketing Amb. Eficiência operacional Custos ou excelência

operacional Reduzir custos

P+L, associada a SGA, contabilidade

ambiental

Reduzir custos Eco-design

Acesso ao capital Relacionamento com o Mercado (corporativa) Certificações dos processos ou SGA SGA ou SUST, conforme requisitos do mercado Produtos Éticos e Seguros --- Valor da marca e reputação, Licença para operar Relacionamento, empresa cidadã e líder (corporativa) Diálogo e parceria com os "stakeholders", além de processos e produtos "limpos" SUST, Marketing e Comunicação Ambiental Diálogo e parceria com os "stakeholders", além de processos e produtos "limpos" Marketing e Comunicação Amb., Selos ecológicos, em segmentos- alvo Perfil de

riscos Gestão de risco

Gestão de Riscos SUST; contabilidade ambiental Produtos Seguros Eco-design, Selos Ecológicos, Mark. Amb. Capital humano e intelectual Competências Essenciais Motivação, Conscientização e Retenção de funcionários SUST; Educação Ambiental; Gestão por Competências Competência em Desenvolvimento de Produtos SUST; Gestão por Competências Fonte: elaborada pelo autor

- construção de um conjunto de indicadores de desempenho ambiental balanceados, alinhados aos indicadores empresariais (p.ex. baseados e integrados ao "Balanced Scorecard"). Monteiro; Castro; Prochnik (2003) identificaram 4 maneiras de incorporar a gestão ambiental no quadro de indicadores de desempenho empresarial do "balanced scorecard": distribuída por todas as perspectivas, criação de uma perspectiva específica, inclusão na perspectiva de processos internos (como proposto por Norton; Kaplan, 2000), ou construção de um "balanced scorecard" separado para o setor de meio ambiente;

- avaliação de aspectos e impactos ambientais; - avaliação de projetos junto às comunidades.

Considerando a influência dos indicadores de sucesso entre sí, assim como a dificuldade de associar conclusivamente fatores da gestão ambiental com o critério "valor ao acionista", o autor desta dissertação sugere a consideração dos critérios empresariais como listados a seguir:

- crescimento das receitas e atração do cliente; - eficiência operacional;

- acesso ao capital;

- valor da marca e reputação; - capital humano e intelectual; - perfil de risco;

- inovação;

- licença para operar.

A ferramenta é apresentada na tabela 5.7. O critério qualitativo para pontuação baseou-se naquele adotado para o QFD ("Quality Function Deployment", ferramenta da qualidade utilizada para desenvolvimento de produtos e processos). Vale comentar que escalas qualitativas para pontuações são amplamente utilizadas na área

ambiental, em função das características que atribuem subjetividade aos impactos ambientais, conforme discutido no capítulo 4. Vale comentar que a grande maioria das ferramentas de avaliação de impacto ambiental e análise de riscos utilizam-se de critérios qualitativos. Na área de planejamento estratégico e gestão de riscos financeiros, também são normalmente utilizadas escalas qualitativas. Segundo Hax; Majluf (1991), a escola de planejamento estratégico alicerçada na teoria comportamental atribui menor importância à formalidade das ferramentas analíticas.

Indicador de Sucesso Empresarial Peso Influência da Gestão Ambiental de Processos Gestão Ambiental de Processos da Empresa comparada aos concorrentes Influência da Gestão Ambiental de Produtos Gestão Ambiental de Produtos da Empresa comparada aos concorrentes Pontuação normalizada fator de sucesso empresarial crescimento de receitas e atração do cliente eficiência operacional acesso ao capital valor da marca e reputação capital humano e intelectual perfil de risco inovação licença para operar Pontuação normalizada fator da gestão ambiental

Nota: pontuação normalizada de 0 a 10

Grau de efeito Pontuação Descrição

negativo -1 efeito negativo sobre o negócio

nulo 0 não afeta o negócio

fraco 1 efeito positivo pequeno ao negócio moderado 3 efeito positivo moderado ao negócio

forte 9 efeito positivo crítico ao negócio Fonte: elaborada pelo autor

Sugere-se uma ponderação de pesos para cada indicador de sucesso empresarial, que varia de 1 a 5, sendo 5 o de maior prioridade para a companhia. Tal ponderação deve ser especificada para cada empresa, produto-mercado-setor, região, estratégia e valores internos, como nos exemplos a seguir:

- empresas do setor químico podem adotar um peso maior para valor da marca e reputação, perfil de riscos e inovação;

- empresas que adotam a estratégia de diferenciação podem colocar mais peso no crescimento de receitas e atração do cliente, assim como na inovação;

- empresas de estratégia de custos podem colocar mais ênfase na eficiência operacional;

- empresas altamente dependentes de financiamentos externos podem colocar mais ênfase no acesso ao capital;

- empresas com maior potencial de impacto, localizadas em regiões sensíveis do ponto de vista ambiental, podem ponderar mais fortemente o critério "licença para operar".

A comparação do desempenho da gestão ambiental da empresa frente ao mercado (ou aos concorrentes) pode ser efetuada com base no conhecimento existente na empresa, ou com base em avaliações comparativas de desempenho de empresas ou índices especializados (p.ex. DJSI, Innovest). É sugerida a utilização de critério de pontuação para "benchmarking" da ferramenta QFD, que consiste de uma pontuação relativa de 1 a 5 (onde 1 ponto significa que a empresa é a pior dentro da comparação com outras empresas; 3 pontos sinalizam que a empresa apresenta desempenho igual à média de outras empresas; e 5 pontos indicam que a empresa apresenta o melhor resultado da comparação). A normalização da pontuação visa facilitar as comparações, trazendo todos os dados para uma escala de 1 a 10. Ela pode ser efetuada através das fórmulas apresentadas em seqüência.

• Indicadores de sucesso empresarial

NSE = (P * (Nproc + Nprod) * 10) , onde:

(Pmáx * (Nmáx proc + Nmáx prod))

- NSE é a nota normalizada do efeito da gestão ambiental no indicador de sucesso empresarial em questão;

- P é o peso do indicador de sucesso empresarial;

- Nproc é a nota atribuída ao fator da gestão ambiental de processo; - Nprod é a nota atribuída ao fator da gestão ambiental de produto;

- Pmax é o maior peso atribuível, considerado como nota 5 para o trabalho apresentado;

- Nmáx proc é a nota máxima atribuível ao fator de gestão ambiental de processos, considerado 10 para este trabalho;

- Nmáx prod é a nota máxima atribuível ao fator de gestão ambiental de produtos, considerado 10 para este trabalho

Portanto, a fórmula final será:

NSE = (P * (Nproc + Nprod) * 10)/(5*18) = P * (Nproc + Nprod)/9

• Fatores da gestão ambiental

A pontuação normalizada para os fatores da gestão ambiental é calculada de forma semelhante, porém através da fórmula:

NGPC = (SOMATÓRIA (P * Nproc) * 10) , onde:

(SOMATÓRIA (Pmax * Nmax proc))

- NGPC é a nota normalizada do efeito da gestão ambiental de processos no sucesso empresarial;

- P é o peso do indicador de sucesso empresarial;

- Nproc é a nota atribuída ao fator da gestão ambiental de processo;

- Pmax é o maior peso atribuível, considerado 5 para o trabalho apresentado; - Nmáx proc é a nota máxima atribuível ao fator de gestão ambiental de processos,

considerado 10 para este trabalho;

Portanto, a fórmula final será:

O mesmo cálculo vale para a gestão ambiental de produtos. O cálculo do efeito global da gestão ambiental no sucesso empresarial é dado por:

NGPC = (SOMATÓRIA (P * (Nproc + Nprod) * 10) (SOMATÓRIA (Pmax * Nmax proc + Nmax prod))

Portanto, a fórmula final será:

6. A INFLUÊNCIA DA GESTÃO AMBIENTAL NA COMPETITIVIDADE E SUCESSO EMPRESARIAL NOS FABRICANTES DE VEÍCULOS AUTOMOTORES

Figura 6.1 Estrutura lógica da dissertação

Fonte: elaborada pelo autor

Paradigma Ambiental (Capítulo 2)

- Evolução, causas e resultados das mudanças globais - Contextualização dos fatores e

ferramentas da gestão ambiental

Competitividade e Sucesso Empresarial

(Capítulo 3)

- Resumo dos principais conceitos, indicadores de

sucesso empresarial e estratégias competitivas - Pilar para avaliar o resultado

da influência da gestão ambiental

Fatores da Gestão Ambiental (Capítulo 4)

- Discussão dos conceitos, fatores e ferramentas da gestão

ambiental

- Resultados da produção mais limpa sobre os custos

- Resultados do Sistema de

Gestão Ambiental de acordo com a Norma ISO 14001

- Pilar para avaliar o resultado da influência da gestão ambiental

A Influência da Gestão Ambiental na Competitividade e Sucesso Empresarial : Evidências Disponíveis (Capítulo 5)

- Análise crítica dos modelos e pesquisas existentes

- Correlação integrada entre os indicadores de sucesso empresarial, estratégias competitivas e fatores da gestão ambiental

- Discussão das correlações não estudadas

- Análise crítica do modelo de SustainAbility/UNEP (2001) e SustainAbility/IFC/Ethos (2002)

- Discussão sobre a influência do nível setorial na correlação

A Influência da Gestão Ambiental na Competitividade e Sucesso Empresarial nos Fabricantes de Veículos

Automotores (Capítulo 6)

- Investigar a influência do nível setorial na correlação entre gestão ambiental e sucesso/competitividade empresarial

O objetivo deste capítulo é verificar a influência setorial na correlação da gestão ambiental com o sucesso e competitividade empresarial . Pretende-se ainda verificar a aplicação de ferramenta de avaliação estratégica ambiental. Para tanto, será estudada a influência da gestão ambiental das empresas fabricantes de veículos automotores, como ícone do paradigma da produção em massa.

O automóvel é o maior bem de consumo durável adquirido pelo homem. É um símbolo de status, de liberdade, de qualidade de vida e de sucesso. A nossa sociedade está alicerçada em grande parte nele e nos segmentos industriais a ele relacionados, contribuindo com 4-8% PIB mundial, 2-4% da força de trabalho dos países da OECD, respondendo por cerca de 550 milhões de veículos nestes países (UNEP, 2002c). Esta indústria representava, em 1996, 8% do PIB industrial americano, 10,8% do PIB industrial japonês, e 7% do PIB industrial e 13% das exportações brasileiras (Instituto McKinsey, 1999). Além disso, contém algumas das maiores empresas mundiais e brasileiras (p.ex. GM, Daimler-Chrysler e Ford). Representa ainda um grande impacto em uma forte cadeia de fornecimento (Abraham, 1998); (Ferraz; Kupfer; Haguenauer, 1997).

Com o aumento da produção e do uso do automóvel, veio também a intensificação das questões ambientais associadas ao automóvel e aos processos de fabricação: o consumo de combustível, a poluição do ar, o aquecimento global, o ruído, o destino de sucatas de carros que não podem mais ser utilizados, etc. Em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Cidade do México e Los Angeles, atribui-se à poluição por veículos, e não mais à indústria, a maior parte da poluição do ar (UNEP, 2002c). Diante desta situação, nota-se um acentuado crescimento de requisitos ambientais legais e das partes interessadas com relação ao seu uso e pós-uso (p.ex. reciclagem de peças após a vida útil; redução dos padrões de emissão para o ar; exigências de combustíveis alternativos- EUA/Califórnia).

Analisando as características do setor automotivo diante da tabela 5.4, espera-se que a gestão ambiental no setor tenha uma maior influência no sucesso empresarial e nas estratégias competitivas, pelo tipo de produto fabricado (bens duráveis), posição na

cadeia (produtor final), dinamismo e globalidade dos mercados, alta preocupação das partes interessadas e demandas de financiamento externo. Espera-se que a gestão ambiental de produtos tenha influência e importância estratégica maior nos resultados empresariais do que a dos processos, uma vez que os fabricantes são atualmente montadores, não possuindo os processos mais poluidores vinculados à produção dos automóveis. Neste sentido, considerando o requisito de responsabilização pelo ciclo de vida, espera-se que requisitos ambientais consistentes deverão ser determinados para a cadeia de fornecimento.

Para realizar a análise dos fabricantes de veículos automotores, serão utilizados dados de pesquisas específicas, relatórios setoriais, literatura relacionada aos temas, informações divulgadas pela empresas e experiência profissional do autor, que já pesquisou no setor anteriormente (Epelbaum; Aguiar, 2001).