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PILOT STUDY

3. Primer-target extremity

7.10. Test oftarget brand beliefs (Hl)

Sigmund Freud (1897-1939), de descendência judaica, por cuja discriminação o levou a sentir “uma inclinação secreta pelas opiniões minoritárias”(apud Gay, 1995, p. 42), muitas vezes fora das convenções aceitas pela academia, mantinha uma atitude singular diante desses eventos, que sustentava nos inumeráveis confrontos com a instituição médica e filosófica de sua época. Em sua dedicação inicial à filosofia, por mais crítico que estivesse se tornando em relação a ela, encontrou em Ludwig Feuerbach, renomado pensador e filósofo, uma inspiração especial, que, assim como Freud, também era um herdeiro do iluminismo do século XVIII. Intelectualmente o mais vigoroso entre os hegelianos de esquerda, Feuerbach

cultivava um estilo depurado das áridas abstrações que desfiguravam a prosa acadêmica alemã, e uma postura combativa que encantava, ou amedrontava, seus leitores ao brandir armas contra os juízos tolos e pérfidos de seus detratores (ibid. p. 43)

Assim, para Feuerbach, em sua especulação crítica sobre a filosofia e a Teologia, a religião seria a forma alienada da essência humana, onde os atributos de Deus são, na verdade, os atributos dos homens e sua existência foi concebida para dar suporte a esses atributos, como uma projeção da própria existência humana.

Também Rouanet (1985, p. 70) argumenta que,

como o homem pensa, como ele crê, assim é seu Deus (...) A consciência de Deus é a autoconsciência do homem, o conhecimento de Deus é o auto- conhecimento do homem (...) Deus é a interioridade revelada, o Eu manifesto do homem. A religião é o desvendamento solene dos tesouros ocultos do homem.”

Entretanto, o homem não sabe disso e vê sua própria imagem como num espelho deformador, que o desfigura e sua própria consciência-de-si é uma consciência obscura, na verdade, a falta da sua real consciência, o que vem a ser a especificidade propriamente dita da religião. A percepção dessa consciência imperfeita, a caminho de uma consciência verdadeira, passa necessariamente pela abolição da religião.

A superação dessa condição, para Feuerbach (1957), não se dá no nível da especulação filosófica sobre essa ilusão religiosa, mas no nível do homem concreto, na qual o papel da crítica seria o de contribuir para essa reformulação do ideal no material, pela qual o homem se apropria do saber de si, que na religião é apenas virtual, mostrando que o contraste entre o divino e o humano é essencialmente ilusório.

A sedução desse ilusório levou Freud, já como estudante universitário, ao ambiente atraente do filósofo e professor Franz Brentano, com o qual, manteve temporariamente relações acadêmicas sobre o teísmo filosófico. Segundo Gay, (1995, p. 43 e 477) Freud assistiu a cinco séries de conferências e seminários oferecidos por Brentano – “ex-padre, intérprete de Aristóteles e da psicologia empírica – instigante professor que acreditava em Deus e, ao mesmo tempo, respeitava Darwin” - e procurou-o para entrevistas particulares, cuja relação levou-o a declarar “não sou mais um materialista e também ainda não um teísta”. Quando conseguiu superar os argumentos de Brentano voltou para sua descrença, levando-o à conhecida declaração em 1874 como “um estudante de medicina ateu e um empirista” (ibid., p. 43 e 477).

A partir desse embate filosófico, Freud, tendo como referência os postulados iluministas da medicina do século XIX, em especial dos estudos da neurologia, em Viena, esquadrinhou o comportamento religioso do ponto de vista da ilusão como (psico) patologia, que tomou por objeto dos seus estudos no contexto da neurose obsessiva.

Ao observar as práticas religiosas, Freud (1907/1976, p. 121) estabeleceu uma relação entre essas práticas e os traços de neurose obsessiva, pois, “o cerimonial religioso é executado como se obedecesse a certas leis tácitas”,cujos rituais simbólicos são geralmente coletivos, como, por exemplo, os atos de penitência, em geral, e, particularmente, os atos litúrgicos – orações, cantorias, sacramentos, casamentos, sepultamentos – e executados conforme simbologias pré-formuladas. Essas semelhanças entre cerimoniais neuróticos e atos sagrados do ritual religioso facilmente se observam na proeminência de escrúpulos exagerados de consciência que uma negligência destes acarreta; na exclusão de atos incomuns e uma extrema consciência da execução de minúcias.

Algumas diferenças, entretanto, apontam para a maior diversidade individual nos neuróticos em relação ao caráter mais estereotipado dos rituais religiosos, para o caráter ainda privado dos neuróticos em relação ao caráter público e comunitário das práticas

religiosas, para as minúcias do cerimonial religioso que possui um sentido mais simbólico, enquanto na neurose esses rituais parecem tolos e absurdos.

Para Freud (1907/1976, p.22), a neurose obsessiva parecia uma caricatura cômica e triste de uma religião particular. Muito embora os rituais obsessivos pareçam desprovidos de uma razão que os justifique, no decurso da investigação psicanalítica, entretanto, também o cerimonial neurótico adquire um sentido: o que está sendo representado em atos obsessivos – no caso da neurose – provém de experiências íntimas com a sexualidade. Assim, as compulsões e proibições provêm geralmente, de sentimentos de culpa, originários em eventos mentais primitivos, revividos pelas tentações resultantes de cada nova provocação, resultando daí uma ansiedade punitiva, na qual o cerimonial surge como um ato de defesa, como uma medida protetora.

No caso de uma neurose obsessiva, ela se instala a partir da repressão de uma pulsão, surgindo na forma de uma consciência dirigida contra os objetivos dessa pulsão, que sempre termina em proibições quando não for mais suficientemente efetiva. Os cerimoniais obsessivos surgem então como uma proteção contra a tentação e contra um mal esperado, por exemplo, no caso do cerimonial matrimonial da Igreja, que representa para o crente uma permissão para desfrutar dos prazeres sexuais (pulsionais), que, de outra maneira, seriam pecaminosos.

Em seu texto A Renúncia ao Instinto, (1938/1975, p. 139) Freud entende a renúncia aos prazeres da vida e da carne como um deslocamento de energia, que mobiliza uma satisfação substitutiva do eu através da religião. “O ego se sente elevado, orgulha-se da renúncia instintual [pulsional], como se ela constituísse uma realização de valor”. A sensualidade é paulatinamente substituída pela intelectualidade com muito orgulho, onde Deus se transforma numa religião de renúncias (pulsionais), controlada pela ética institucional, que se interpõe como verdade suprema e absoluta. Freud também estabelece uma relação de semelhança com o totemismo primordial, no qual as ordens e proibições são renúncias pulsionais como a exogamia, por exemplo, uma renúncia ao desejo pela mãe no mito do incesto; ou na concessão de direitos iguais a todos os membros da aliança fraterna, uma restrição da inclinação pela rivalidade violenta. Todas estas renúncias pulsionais representariam os primórdios de uma ordem social e moral na formação da sociedade primitiva, constituindo-se assim na base de formação do supereu.

Nesse mesmo sentido, Freud também vê a instituição da santidade (ibid. p.141- 2) como um elemento de conexão entre os comportamentos permitidos e os proibidos, em sua origem um privilégio apenas dos reis como representantes dos deuses, contudo negado aos mortais. No contexto dos faraós e dos ptolomeus gregos, por exemplo, era natural tomar sua irmã como primeira e principal esposa, uma evidência de incesto entre deuses, reis e heróis. Em sua origem, a proibição do incesto provinha da vontade do pai primordial representado posteriormente pela religião e transformado em sagrado para efetivar a proibição, tornando-se, mais tarde, um subproduto da racionalidade impregnada de afetos (horror ao incesto). Este parece ser também um dos significados da circuncisão imposta por Moisés, como um substituto simbólico da castração infligida pelo pai primevo, como uma preparação para a submissão posterior à sua vontade.

A renúncia pulsional parece ser um dos esteios básicos na constituição do comportamento religioso e da formação de uma religião. Entretanto, tais impulsos não são exclusivamente de natureza sexual, como no caso da neurose, mas abrigam também pulsões egoístas e socialmente perigosas, no entender de Freud, e recaídas no pecado são mais comuns entre indivíduos piedosos do que entre neuróticos. São justamente estas recaídas que, via de regra, dão origem a uma nova forma de atividade religiosa: os atos de penitência estes sim um correlato com a neurose obsessiva. Diante deste quadro pode-se então “considerar a neurose obsessiva com o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal” (Freud, 1907/1976, p. 129-30).

Também para Rouanet (1985, p. 240) a religião seria, “a projeção supra-sensível da ausência do Pai, da qual resulta uma fantasia de privação, que deriva dessa privação, e a anula, e que é simbolizada nas representações religiosas.” Como na neurose, o conflito edipiano é sua força motriz, na medida em que deriva de um drama edipiano da espécie – o assassinato do pai primitivo na teoria da horda primeva – e constitui uma tentativa de resolver essa culpabilidade universal, criando um Pai supra- sensível, substituto do pai original. Pela religião o sujeito pode renunciar a esse pai original e sua culpa constituinte, porque ela lhe oferece um pai espiritual, constituído suposto protetor supremo da vida social e coletiva, viabilizada no formato cultural da religião e da civilização.

Freud, em seu texto O Futuro de uma Ilusão (1927/1974), escrita já numa fase mais madura de sua vida, comenta a necessidade da civilização para o desenvolvimento

da humanidade e aceita até medidas de coerção, “que se destinam a reconciliar os homens com ela [a civilização] e a recompensá-los por seus sacrifícios.” (Freud, 1927/1974, p. 21) Refere-se ali aos comportamentos anti-sociais baseados nos desejos pulsionais primordiais, como o canibalismo, o incesto e o assassinato, dos quais apenas o canibalismo parece estar proscrito. Pela intensidade das proibições, entendidas como defesas contra o incesto e o assassinato, este último presente, sobretudo, nas atividades de guerra e nas revoluções sociais praticadas em nome da civilização, pode-se deduzir o grau de perturbação ainda presente na tentativa de controle desses desejos, e seu controle efetivo na civilização hodierna através da estrutura psicanaliticamente denominada de supereu.

Por outro lado, apesar das exigências morais da civilização contra esses desejos, e mesmo que a maioria das pessoas “civilizadas” se recuse a cometer incesto e assassinato, estas mesmas pessoas não se negam, entretanto, a satisfazer sua avareza ou seus impulsos agressivos e sexuais, e que também não hesitam em prejudicar seus semelhantes através da mentira, da calúnia ou da fraude, deixadas impunes pelos ditames da própria lei e da civilização à qual pertencem.

Contra estes escapes pulsionais de uma assim suposta natureza humana, (ibid. p. 26) a civilização – também no formato da religião como tal - deve proteger a humanidade. “Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual (...) se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização (...) é nos defender contra a natureza”.27 Portanto, as leis e ordens da civilização, bem como as privações e proibições, são assim imputadas e visam à proteção dos homens contra o poder superior da natureza, entendida como destino.

Justamente essa pulsionalidade do homem primevo, atualizada pela civilização, vai tornar-se um dos principais fornecedores da matéria prima cristalizada através da religião, cujo objetivo seria de exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida coletiva em sociedade lhes impôs. As idéias religiosas, assim, provêm da mesma necessidade que as outras realizações da civilização, da necessidade da defesa contra a força superior da natureza e da necessidade de retificar as deficiências da civilização

27 O termo natureza é tanto usado nesse contexto como relativo à natureza humana, como também

quanto a essa tarefa, que já se faziam presentes no contexto secularizado da vida social de sua época.

Aspira-se então a uma humanização da natureza, cujo objetivo seria pôr fim à perplexidade e ao desamparo do homem diante dos seus ditames cruéis. Na medida em que personifica e anima seus poderes em figuras mais próximas ao seu alcance – a nomeação de seres transcendentais pode representar essa tentativa – tenta estabelecer um relacionamento com as mesmas e assim, supostamente, influenciá-las e posteriormente controlá-las e apaziguá-las para seu bem-estar.

Em seu texto Totem e Tabu (1913/1974) Freud demonstra e relaciona as aspirações religiosas à procura pelo Pai primevo, isto é, a configuração do desamparo da criança diante da potência do adulto, desta vez, porém, correlacionando o desamparo do adulto diante das forças da natureza, diante do criador onipotente das mesmas, a base ideológico-religiosa do totemismo.

Mas, é em seu texto O Futuro de uma Ilusão (1927/1974) que Freud apresenta a singularidade28 do seu conceito, de que os homens inventam deuses baseados nas

interposições da sua cultura, embasadas especialmente nas fantasias da criança diante do poder e do desejo do adulto, bem como do seu próprio. A partir do modelo dessas fantasias infantis, a religião também seria uma ilusão infantil, ainda não baseada na cristalização da experiência do pensamento, e conforme interpretação de Gay (1995, p. 482)

ilusões são realizações dos desejos mais antigos, mais fortes e mais prementes da humanidade; o segredo de sua força é a força desses desejos (...) A idéia de que os homens fazem os deuses à sua própria imagem podia ser tão velha quanto os gregos antigos, mas Freud acrescentou que os homens fazem seus deuses à imagem de seus pais.

Também para Mezan (1986, p. 519),

a religião é um instrumento inventado pela civilização para conciliar os homens com suas mazelas, e também com aquilo diante do qual ela é

28 Inúmeros autores da época de Freud desenvolveram teorias similares, entre eles, James G Frazer e W

Robertson Smith sobre religião primitiva e comparada; Havelock Ellis – sobre as conversões religiosas na origem das tensões da adolescência ou da menopausa, da excitação religiosa remontando a conflitos sexuais; os esforços de J M Charcot para reduzir os fenômenos sobrenaturais a causas naturais; Max Weber – nos ensaios sobre A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1904-1905) sobre a contribuição de certas seitas religiosas (protestantes ascéticos) para o desenvolvimento do capitalismo e Émile Durkheim - que tratou as crenças religiosas como expressões da organização social, relacionando eventos individuais como o suicídio, a educação e a religião a fatos sociais institucionais, onde, pelo seu conceito de ‘anomia’ – colapso ou confusão das normas sociais - pretendeu que os eventos individuais fossem investigados como fenômeno social, relacionando as experiências da religião às suas manifestações na cultura. (Cf. GAY, op. cit. p. 478–80)

impotente: a morte, os cataclismas naturais, o terror inerente à pequenez do homem e à desproporção entre seus meios e os da Natureza. Ela preenche esta função criando a ilusão de que estes fenômenos são apenas aparentes, e que os deuses ou Deus velam por sua proteção. Este Alguém é fruto de uma projeção, pela qual o pai infantil é transformado em Deus, e a condição humana assimilada à uma criança indefesa.

Se uma criança cresce desamparada e posteriormente passa a ser amparada pelo adulto, na medida em que ingressa paulatinamente nesse mundo, se apossa desse poder, enquanto se torna também adulta, logo percebe, segundo Freud, (1927/1974, p. 36)

Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes superiores as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não obstante, confia sua própria proteção (...) É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer – reação que é, exatamente, a formação da religião.

É no contexto do desamparo humano, portanto, que Freud vincula a necessidade de religião às experiências infantis, nas quais, reconhecidamente, a religião é “o mais precioso bem da civilização,” (ibidem, p. 31-2) mais prezada do que os outros artifícios para conquistar tesouros na terra, prover o sustento dos homens e evitar as doenças. Também Gay (1995, p. 481), em sua obra biográfica sobre Freud, argumenta nesse sentido de que a religião, juntamente com a arte e a ética, provêem esse sustento contra as forças da natureza na fase mais infantil da humanidade:

A criança teme o poder dos pais, mas também confia na proteção deles. Por isso, ao crescer, ela não tem dificuldades para incorporar o que sente como poder parental – principalmente paterno – em reflexões sobre seu lugar no mundo, ao mesmo tempo perigoso e promissor. Como a criança, o adulto cede a seus desejos e borda suas fantasias com os enfeites mais imaginosos. No fundo, são resquícios: as necessidades, a própria vulnerabilidade e dependência da criança, sobrevivem na idade adulta. (...) As concepções religiosas originaram-se na mesma necessidade de todas as outras realizações da cultura, a partir da premência de se defender contra a superioridade esmagadora da natureza e do ímpeto em corrigir as imperfeições da cultura, dolorosamente sentidas.

A religião, nesse contexto, é entendida como uma realização cultural, que tem por objetivo integrar os sujeitos no processo civilizatório, em que possam renunciar ou adiar seus ímpetos pulsionais, para possibilitar, via civilização, um maior desenvolvimento social/cultural da espécie, engendrando realizações já no plano do

processo secundário, regidas pelo princípio da realidade, diluindo sua ainda captura pelo processo primário, sob a regência do princípio do prazer.

Entretanto, entender a religião como fenômeno necessariamente articulado à crença na figura de um Deus e, portanto, embasado no dogma da fé, pode continuar a se configurar como o divisor de águas entre a psicanálise e a religião.