MODELAND HYPOTHESES FOR EXPERIMENT 2
8.2. An extended conceptual model
9.2.1. Stimulus primer
Tendo por base essa concepção de realidade psíquica, cujo passado se transmuta no presente em função de um futuro imaginário, Freud (1914a/1974, p.45) elaborou a noção de um ideal do eu. Sua origem remonta à transformação da libido do objeto em libido narcísica, que implica no abandono dos objetos sexuais como uma espécie de
35 Ideal do Eu: termo correlato para Ideal do Ego, empregado a partir dessa referência como seu
sublimação, a partir de identificações primitivas com o objeto amado. Para ele, na origem do ideal do eu
jaz oculta a primeira e mais importante identificação de um indivíduo, a sua identificação com o pai em sua própria pré-história pessoal (...) trata-se de uma identificação direta e imediata, e se efetua mais primitivamente do que qualquer catexia do objeto
originária do caráter triangular da situação edipiana e a bissexualidade constitucional de cada indivíduo, na qual o ideal do eu tem a missão de reprimir o complexo de Édipo.
Aliado permanente do supereu ( ao qual o complexo de Édipo precisa sucumbir, através da influência da autoridade, da educação escolar, da leitura, dentre outros, mediatizado por um sentimento inconsciente de culpa), o ideal do eu
é o herdeiro do complexo de Édipo, e, assim, constitui também a expressão dos mais poderosos impulsos e das mais importantes vicissitudes libidinais do id. Erigindo esse ideal do ego, o ego dominou o complexo de Édipo e, ao mesmo tempo, colocou-se em sujeição ao id. Enquanto que o ego é essencialmente o representante do mundo externo, da realidade, o superego coloca-se, em contraste com ele, como representante do mundo interno, do id. Os conflitos entre o ego e o ideal, (...) em última análise, refletirão o contraste entre o que é real e o que é psíquico, entre o mundo externo e o mundo interno. (...) devido à maneira pela qual o ideal de ego se forma, ele possui os vínculos mais abundantes com a aquisição filogenética de cada indivíduo – a sua herança arcaica. O que pertencia à parte mais baixa da vida mental (...) é transformado, mediante a formação do ideal no que é mais elevado na mente humana pela nossa escala de valores. (...) o ideal do ego responde a tudo o que é esperado da mais alta natureza do homem (...) e como o substituto de um anseio pelo pai, ele contém o germe do qual todas as religiões evolveram. (Freud, 1914a/1974, p. 51-2)
Para Freud, à medida que uma criança cresce e é religiosamente educada nesse ideal, primeiramente pelos pais e depois pelos professores, internaliza essas injunções e proibições e, por força desse ideal, as mesmas continuam a existir na forma de “consciência”, promotora da censura moral. A tensão entre essa consciência e os desempenhos concretos do eu acaba sendo experimentada como sentimento de culpa, e o auto-julgamento de que o eu não alcançou seu ideal produz o sentimento religioso de humildade, ao qual o crente apela em sua necessidade.
Já em Totem e Tabu (1912-13/1974), Freud sugeriu a hipótese de que a religião, a moralidade e o senso social (originalmente uma só coisa) foram adquiridos através do complexo paterno, isto é, a religião e a repressão moral através da repressão do complexo de Édipo, e o sentimento social pela necessidade de superar a rivalidade entre
os membros da geração mais nova, sobrevivendo hoje ainda na forma de impulsos de rivalidade ciumenta entre irmãos e irmãs.
Também em seu texto Sobre o Narcisismo – Uma Introdução (1914b/1974, p. 111), Freud entende que a repressão provém do amor-próprio do eu, para o qual a formação de um ideal é o fator condicionante da repressão, pois,
esse ego ideal é agora o alvo do amor de si mesmo, desfrutado na infância pelo ego real. O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual, como o ego infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância, na qual ele era o seu próprio ideal.
Todo esse processo de idealização do eu é feito através da sublimação da libido objetal e consiste no fato da pulsão se dirigir a uma finalidade diferente e afastada da finalidade de satisfação sexual, na deflexão da sexualidade. A idealização diz respeito ao processo no qual o objeto é engrandecido desmedidamente pelo indivíduo e é possível tanto na esfera da libido do eu, como na libido objetal. Enquanto a sublimação se relaciona com a pulsão, a idealização se relaciona com o objeto, estabelecendo-se aí uma interdependência reciprocamente proveitosa.
Freud (1914b/1974, p. 112), considera que “é nos neuróticos que encontramos as mais acentuadas diferenças de potencial entre o desenvolvimento de seu ideal do ego e a dose de sublimação de seus instintos libidinais primitivos”, na medida em que estes, como idealistas, permanecem muito suscetíveis à idealização, porque a formação de um ideal do eu aumenta as exigências do eu, fator propenso à repressão, e a sublimação é uma saída pela qual essas exigências podem ser atendidas sem envolver grande repressão. De fato, é pela auto-estima que se pode avaliar o tamanho do eu idealizado, seja pelas realizações no plano do concreto, seja pela permanência das fantasias narcísicas primitivas de onipotência.
No processo de desenvolvimento do eu esse narcisismo primário é afastado, ocasionado pelo deslocamento da libido em direção a um ideal do eu imposto de fora, ao mesmo tempo em que o eu emite catexias objetais libidinais, tornando-se empobrecido em benefício dessas catexias. Da mesma forma, em benefício do ideal do
eu, são então atribuídas a este eu as funções superiores de auto-observação, a consciência moral, a censura dos sonhos, dentre outros.
Como herdeiro do narcisismo original, no qual o eu infantil desfrutava de auto- suficiência, esse novo eu reúne gradualmente as imposições do meio ambiente, nem sempre possíveis de ser cumpridas. Assim, quando um sujeito não está satisfeito com seu próprio eu, tem a possibilidade de recorrer ao ideal do eu, diferenciado, muito embora a distância entre o eu e o ideal do eu corresponda à produção de um saber singularizado e apresente funcionamento muito relativo em cada caso.
No patamar da religião, a supervalorização progressiva desse ideal do eu em detrimento de uma desvalorização progressiva do eu conforme se encontra constituído e funcionando, quando mediado pela noção de pecado e pelas sanções punitivas da religião, estes remetem o sujeito a um estado de infantilização, de não saber, de temeridade diante da moral rigorosa imposta pelo pai protetor, lugar do qual esse sujeito pode então se sujeitar à verdade revelada por este pai de origem supostamente transcendental, alcançado pelo pensamento mágico-infantil de totalidade inquestionável e de certezas supostamente inabaláveis.
O preço por esta proteção é a submissão total e irrestrita a esse pai soberano, que então governa seu corpo e mente, como ideal de crente, condição sine qua non para sua aceitação como filho, predisposição encontrada em quase todas as religiões (com exceção das que pretendem um auto-aperfeiçoamento ininterrupto), presente também em quase todas as formas de totalitarismo político e econômico.
Essa verdade revelada por este pai atravessaria as angústias mais profundas do ser humano, que, no paradigma freudiano, referem-se ao desamparo do sujeito frente às intempéries da natureza e da vida como um todo, em que a vida inevitavelmente conduz à morte, que remete esse sujeito ao desamparo original da perda do narcisismo primário.