PILOT STUDY
6.5. Data collection instrument
A reforma da Igreja na Inglaterra fora cautelosa porque a rainha Isabel I não desejava causar grandes abalos sociais. Por isso, embora a Teologia fosse reformada, ela manteve o governo hierarquizado tradicional bem como as antigas formas de culto. Segundo Mendonça (ibid. p. 35), um grande contingente de partidários desejava uma reforma mais profunda da Igreja e tendo emigrado para o continente (sobretudo para Genebra), onde mantiveram contato mais direto com os movimentos protestantes, lutavam para que a Igreja inglesa se libertasse de coisas que os desagradavam, como vestimentas e aparatos cerimoniais e opunham-se igualmente ao governo da Igreja pelos bispos, desejando uma congregação de cristãos independentes de qualquer governo geral, pelo qual foram chamados de independentes e mais tarde de congregacionalistas. Formavam o assim chamado partido dos puritanos que, entre outras coisas,
queriam que a Igreja adotasse disciplina severa contra clérigos e leigos cuja conduta moral não satisfazia aos padrões elevados do modelo genebrino (...) e chegaram a moldar o sentimento religioso do povo inglês. (Mendonça, 1984, p. 35)
Estes puritanos chegaram a adaptar o dogma reformado às necessidades de uma religião pública e pessoal, desenvolvendo a assim denominada corrente teológica do Pacto ou Federal. Esta corrente reside na insistência em que os decretos predestinantes não se referem a um esquema impessoal e mecânico de salvação, mas a um “pacto de graça com a semente de Abraão,” (ibid. p. 36) isto é, a um chamado de cada eleito através de um encontro pessoal com as promessas de Deus de iniciativa divina – e assim um ato de graça. O elemento novo (em relação à Teologia reformada) foi que “haveria uma iniciativa humana e pessoal na apropriação dessa graça”(ibid.), que fazia oposição a todas as formas de soberania, principalmente a dos episcopados, tanto romanos quanto anglicanos.
Foi a assembléia de Westminster (1643-1649), convocada pelo parlamento, que ratificou a Teologia desse pacto e sua adoção por numerosas Igrejas, (principalmente as presbiterianas) e que fez dessa confissão o maior símbolo doutrinal na América protestante, sobretudo nas Igrejas de origem calvinista e “parece ser a raiz da ideologia do Destino Manifesto” (ibid. p. 37).
A luta dos puritanos contra a Igreja estabelecida teve desdobramentos políticos importantes, influenciando o estabelecimento do período republicano e mais tarde ditatorial de Cromwell (por ocasião da Revolução Gloriosa (1688-89), que depôs Carlos I), e no contexto eclesiástico foi o responsável pelo surgimento das Igrejas livres. Nestas destacaram-se duas tendências: a) A formação de Igrejas locais autônomas sem vínculo com a instituição maior; b) A organização de congregações locais em federações com um regime republicano representativo (presbitérios, sínodos e assembléias gerais nacionais). Na base dessas organizações estava a Teologia do pacto, isto é, cada congregação era composta de santos visíveis, com um pacto exclusivo e único com Deus. É a congregação que determina quem são estes santos, estabelece a disciplina e exclui pessoas do seu meio quando julgar necessário.
Entre os séculos XVI a XVIII foram se configurando novas formas secundárias de Igrejas, suscitando grandes movimentos intra-reformadores, entre os quais o movimento encabeçado por João Wesley (1703), constituindo-se mais tarde na Igreja Metodista. Na constituição do protestantismo missionário em solo americano, através
da migração de luteranos e calvinistas, sobretudo os puritanos cansados de suas lutas por igualdade e liberdade na sua pátria (Inglaterra), merece destaque o fato destes se sentirem no direito de construir no novo mundo um Estado Puritano, (cf. Mendonça, 1984, p. 45) ou, observando-se o estabelecimento do pluralismo protestante em função das imigrações européias (sobretudo no estabelecimento da Igreja Reformada Holandesa em Nova Iorque como uma colônia da Companhia das Índias Ocidentais, onde havia puritanos, presbiterianos escoceses, luteranos suecos e alemães, católicos romanos e judeus), quando a colônia passou ao domínio inglês, estabeleceu-se ali oficialmente a Igreja Anglicana. Mais tarde este espírito protestante vai se constituir na maior empresa missionária de todos os tempos.
Já no início do séc. XVIII essa efervescência religiosa, inspirada nas doutrinas puritanistas, tinha declinado nas colônias em função das lutas políticas com a Inglaterra, desembocando na Guerra da Independência. Sobretudo o avanço do secularismo iluminista que inaugurava a era da razão, marcada pelo deísmo naturalista (a religião criada pela razão), que solapava as bases da eleição e predestinação dos fiéis (caráter elitista da Teologia do pacto) e transformava a reflexão teológica (puritanista) num mero moralismo individualista, ao mesmo tempo em que conduzia com idéias libertárias e proclamava o livre exame da consciência, também se enrijecia num dogmatismo que seria posteriormente a base dos grandes movimentos de reavivamento religioso (os despertamentos religiosos repletos de doutrinas perfeccionistas da terceira década do séc. XVIII até a Guerra da Independência). No entender do autor,
as condições históricas e sociais da América pré e pós-independência e a presença do puritanismo desde o início conseguem traduzir a Teologia protestante no sentido de atender às necessidades emergentes de uma sociedade que, ao se formar, tendia para o humanismo igualitarista e pragmatista, tudo sob o colorido do racionalismo e do progressismo evolucionista. Desse modo, é bastante compreensível a centralidade teológica no homem como agente moral livre, no Cristo cruxificado (o Deus homem que arrasta e vence as próprias condições humanas), na religião ética e na fé racional e experimental. Uma escatologia otimista e progressista marca a dinâmica dessa Teologia fortemente antropológica. (cf. Mendonça, 1984, p. 53)
Como contraponto teológico do avanço da civilização, nos princípios do progressismo desenvolveu-se toda uma expectativa milenarista (séc. XIX), baseada na vinda do Reino de Deus e no aperfeiçoamento e coroação dessa civilização. Essa efervescência milenarista cristalizou-se posteriormente no adventismo eclesiástico, em
que o projeto da sociedade teocrática seria o estabelecimento do céu na terra, vinculando a ação política ao destino religioso (destino manifesto). Também a ortodoxia calvinista foi por ela afetada e a Assembléia Geral Presbiteriana de 1815 recomendava orações especiais para que “a vinda gloriosa do Reino se apressasse.”(ibid. p. 55) A fé nessa possibilidade de realização do Reino de Deus na Terra, coincidia, para muitos autores eclesiásticos, com a cristianização da América, a partir da qual se expandiria para todo o mundo o que embasou ideologicamente a empresa missionária no decorrer do todo o séc. XIX, quando religião e civilização coincidiam a partir da proposta de um suposto povo escolhido (América de Deus). A linguagem em que Deus se comunicaria seria, naturalmente, o inglês (daí o grande investimento em literatura eclesiástica educacional inglesa). Olmstead (1961) compreendeu esta condição de forma singular e argumenta que:
A profunda convicção alimentada pelos americanos de que sua nação tinha sido escolhida para uma missão universal foi nutrida e sustentada através da guerra civil e recebeu um novo batismo de poder no período que se seguiu. Muitas forças se combinaram para exaltar o papel de ‘destino manifesto’ na consciência americana. A partir do darwinismo os americanos tiveram a intuição de que pela seleção natural os Estados Unidos tinham-se tornado uma nação superior destinada a dirigir os povos mais fracos. As filosofias idealistas enfatizavam a capacidade natural do homem e, interpretada a história em termos de progresso, tudo vinha favorecer a ideologia expansionista. Num período em que as nações européias expandiam seus interesses imperialísticos pela África, Ásia, América Latina e Pacífico, os americanos se sentiram comissionados para estender as bênçãos da civilização cristã e o governo democrático.(apud Mendonça, op. cit., p. 57)
Assim, no transcorrer desse século, o protestantismo americano, através da sua empresa educacional e religiosa, abriu caminho para a expansão política e econômica em solo estrangeiro e esse modelo continua presente na contemporaneidade, embora mudem os padrões e os valores de referência, e pode ser facilmente observado na campanha militar do presidente Bush contra o “erro muçulmano”, que antes de tudo reedita o modelo das cruzadas religiosas da Idade Média.
No caso do Brasil, país eminentemente católico, esse processo se implantou paulatinamente através das missões evangélicas no transcorrer de todo o século XX. Aqui no Brasil, o padrão de pregação, sempre se referia a uma base tríplice: avivamento, polêmica e moralização. O avivamento tinha por objetivo a conversão do indivíduo (dogmatização); a polêmica objetivava convencer o fiel da verdade do
protestantismo diante do catolicismo e a moralização tinha por finalidade inculcar os padrões de conduta moral diferenciadores dessa nova religião.
Baseando-se nas grandes campanhas de avivamento religioso na Inglaterra, executadas por João Wesley, repetiu-se esse modelo no contexto do povo brasileiro, para o qual a crença religiosa sempre era composta pelos elementos dogmáticos puritanos, permeados de certo racionalismo empirista de inspiração iluminista, veiculados por um emocionalismo por vezes constrangedor. Tal emocionalismo – um acento demasiado aos aspectos afetivos na propagação da nova fé - especialmente nas versões mais fundamentalistas da Igreja Presbiteriana no Brasil, continua sendo erroneamente interpretado como um requisito de autenticidade e transparência.
Nesse sentido, o iluminismo e outras novas teorias científicas (ex: darwinismo), em sua origem inimigos da Teologia, acabaram se transformando em aliados da Teologia protestante, fornecendo o instrumental, no entender desse autor, para que a mesma pudesse responder aos anseios da nova ordem social, em cujo centro estava a valorização do homem e o progresso da sociedade.
Nos Estados Unidos, ela teve que forjar seus caminhos sob o impacto de uma sociedade cansada dos problemas da velha sociedade européia e que buscava agora novas referências não apenas teológicas, mas também sociais, políticas e, sobretudo, econômicas sob os auspícios da nova problemática iluminista.
Países como a Holanda e a Inglaterra precederam estas novas aspirações sócio- políticas, tornando-se as matrizes desse novo pensamento teológico, que vinculava sua fé a uma prática nas instituições de base como a religião, a política e a construção desse novo mundo econômico, vinculando o progresso social, político e econômico às bases de fé que ali se configuravam. Além disso, a própria Teologia protestante também buscou fórmulas de legitimação12 nas aspirações dessa nova sociedade complexa e tumultuada do final do século XIX.
12 Para Berger, (1976, p. 101) “A religião tem sido, através da história, o instrumento mais difundido e efetivo de legitimação.”