Um trabalho que se pretende ter um alcance público deve pensar que há uma prestação de contas pública, que, segundo definição de Bauer e Gaskell (2003) é o que dá credibilidade à pesquisa. Tal característica é conseguida através de transparência, clareza dos objetivos, do processo de coleta e análise dos dados e da relevância do que se é discutido para o âmbito social. A transparência só é conseguida se todos os processos de pesquisa estiverem bem documentados, daí a necessidade de o pesquisador precisar buscar o máximo de elementos que possam contribuir para acercar o objeto de estudo.
Para que o nosso trabalho pudesse ter todas as características que lhes são necessárias, sentimos a necessidade de pensar no critério de qualidade da validação comunicativa, que deve ser pensado junto com os participantes, pois, segundo Bauer e Gaskell (2003, p.515), “[...] os resultados são levados de volta aos entrevistados que forneceram a informação e é solicitado a eles que concordem ou discordem, para assegurar que sua situação não está sendo mal interpretada”. Assim sendo, fizemos questão de, antes da divulgação dos resultados que aqui aparecem, apresentá-los aos envolvidos no processo, a fim de evitar inferências indevidas, como também para discutirmos se, em meio à grande quantidade de material coletado, com os mais diversos recursos, conseguimos captar o que de melhor e mais significativo foi desenvolvido em nossa pesquisa. E este processo só pode se efetivar se tivermos em mente a importância do olhar do outro, tendo como diretriz o critério da ética, pois este “[...] exige que todo esforço seja feito para retratar os dados com o mínimo possível de distorções com o cuidado de não causar qualquer dano aos sujeitos participantes” (BAUER; GASKELL, 2003, p. 365)
Desta forma, buscamos detalhar cada momento desta pesquisa, tendo em vista a sua importância e relevância para o meio educacional, elegendo a pesquisa-ação colaborativa e os seus possíveis dispositivos complementares como a abordagem que melhor atende aos nossos anseios.
4.4 A PESQUISA-AÇÃO COLABORATIVA COMO UMA ALTERNATIVA NA FORMAÇÃO CONTINUADA E SUAS PECULIARIDADES: ARGUMENTO QUADRO A QUADRO
Não se sabe ao certo a gênese da pesquisa-ação, contudo, em muitos estudos, atribui- se a Lewin o processo de sistematização desta. Outras versões apontam para as ações de John Collier, visando melhorar as relações inter-raciais (TRIPP, 2005). Após Lewin ter utilizado o termo pesquisa-ação, este foi considerado um termo geral para a pesquisa-diagnóstico e pesquisa participante. Apesar das várias vertentes desse tipo de pesquisa, a essência da emancipação e reflexão-ação dos envolvidos perpassa todas elas, como também mostra que, da ação à investigação há, em espirais cíclicas, o planejamento, a ação, a descrição e a avaliação, como apresenta Tripp (2005, p. 446) no diagrama a seguir:
Fig.11: Ciclos da investigação-ação. Fonte: (TRIPP, 2005, p. 446).
O autor alerta para a banalização do termo a qualquer ato reflexivo e o compromisso desse tipo de pesquisa com a emancipação de todos os envolvidos, na evolução do conhecimento, e a repercussão do mesmo para a melhoria social, que é a responsabilidade de todos os pesquisadores que adentram pela pesquisa-ação.
Existem fundamentos que devem ser sabidos por aqueles que se dispõem a realizar uma investigação-ação. O primeiro refere-se ao grau de envolvimento do pesquisador com a realidade pesquisada, que é social, se efetiva em “espirais cíclicas”, nunca de forma linear. Na perspectiva educacional, deve-se ter em mente os caminhos que se configuram, tendo sempre clareza que o objetivo principal da pesquisa-ação é o aperfeiçoamento de todos os sujeitos envolvidos no processo, pois “[...] quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado” (FREIRE, 1996, p. 23).
Há também a perspectiva da intervenção e da mudança, que é o produto final de uma ação reflexiva, permeando todo o processo. Neste, exploramos problemas e nos aprofundamos não só na problemática inicial, mas no desenvolvimento pessoal e profissional, alertando e encorajando aos profissionais (em nosso caso, professoras) a estarem conscientes de sua prática, com perspectiva de mudança. Por tais especificidades, “O seu carácter participativo e colaborativo faz com que a investigação–acção seja com os sujeitos em vez de sobre os sujeitos” (GONÇALVES, 2001, p. 242, grifo do autor).
Segundo Thiollent (1998), a pesquisa-ação diferencia-se da participante por haver, além da participação, o planejamento de uma ação social e/ou educacional. Neste tipo de pesquisa, há uma valorização da dinâmica entre o pesquisador e o participante da situação investigada. Esse tipo de pesquisa é, às vezes, considerada como um rebaixamento do nível da exigência acadêmica, um abandono do ideal científico pela impossibilidade de se estabelecer todas as etapas a priori. Contudo, este pensamento está atrelado às mentes que ainda percebem a ciência sendo regida por um método, com etapas estáticas, imutáveis, que chegam à verdade plena, seguindo um modelo indutivista, que tem sido foco de discussão de vários epistemólogos que discutem sobre a natureza da ciência. Além de não existir um “método científico” rígido e único, deve-se ter em mente que “[...] as idéias científicas são afetadas pelo meio social e histórico no qual são construídas” (EL-HANI, 2006, p.7).
Tal pensamento é ratificado por Thiollent (1998, p23-24) ao enfatizar que:
A compreensão, a seleção dos problemas, a busca de soluções internas, a aprendizagem dos participantes, todas as características qualitativas da pesquisa-ação não fogem ao espírito científico. O qualitativo e o diálogo não são anticientíficos. Reduzir a ciência a um procedimento de processamento de dados quantificados corresponde a um ponto de vista criticado e ultrapassado, até mesmo em alguns setores das ciências da natureza
Este tipo de pesquisa qualitativa é bastante utilizada quando se quer dar vez e voz ao participante, pois propicia subsídios para que os sujeitos percebam a dinâmica do seu trabalho, em especial quando é feita em grupos de pequeno porte, pois há uma interação de grande eficácia e promoção do desenvolvimento das relações interpessoais. Uma definição bastante difundida deste tipo de pesquisa é o elaborado por Thiollent (1998, p.14), ao afirmar que:
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada com estreita associação com uma ação ou a resolução de um problema coletivo para e no qual os pesquisadores e os participantes estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
Assim sendo, uma pesquisa só pode ser chamada de pesquisa-ação se houver uma participação efetiva de todos os envolvidos no processo, a fim de que atuem como autores dos resultados, para que haja uma transformação mútua. Nesse contexto, o pesquisador avalia os problemas da situação real, as ações que se desencadeiam para resolver a problemática, visando o crescimento de todos. E a nossa escolha por este tipo de pesquisa se dá também
porque não desejamos uma pesquisa apenas burocrática, mas queremos “[...] pesquisas nas quais as pessoas implicadas tenham algo a ‘dizer’ e a ‘fazer’”. (THIOLLENT, 1998, p.16)
Apesar de nosso estudo não apresentar todas as características de uma pesquisa-ação, ela apresenta algumas particularidades que, segundo Thiollent (1998), são pontos básicos que contemplam essa abordagem. Analisemos um a um e relacionemos as similaridades de nossa metodologia:
a) Há uma ampla e explícita interação entre pesquisadores e pessoas implicadas na situação investigada – Privilegiamos o diálogo em cada momento de interação com os professores. Elas não apenas recebiam passivamente o que lhes era ensinado, mas apontavam novos encaminhamentos para a continuidade da discussão.
b) Desta interação resulta a ordem de prioridade dos problemas a serem pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob forma de ação correta - Através dos diálogos interativos, tivemos a possibilidade de estabelecer o que era mais importante em determinado momento, inclusive a hora de “frear” nossa ansiedade de mudança e dar o tempo necessário de organização para as professoras, a fim de que nossos encontros não fossem atividades mecânicas.
c) O objeto de investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes naturezas encontradas nesta situação. - Apesar de a pesquisa não ter sido pensada junto com as professoras, ela pode ser vista como um problema educacional: a forma de lecionar ciências e seu distanciamento do universo infantil. Sabemos que este problema precisa ser melhor evidenciado, pois o ensino de Ciências ainda não se constitui uma preocupação de primeira instância, haja vista a gama de necessidades educacionais apresentadas pelas crianças brasileiras, tendo como prioridade leitura e escrita, que ainda são precárias.
d) O objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos, em esclarecer os problemas da situação observada - Não objetivamos resolver os problemas do ensino de Ciências, pois, se este fosse o nosso alvo, facilmente nos frustraríamos. Contudo, a nossa intenção desde o início foi sinalizar a importância da discussão sobre esta problemática, para que, pelo menos, tais preocupações estivessem na pauta das conversas, com vias de mudança.
e) Há, durante o processo, um acompanhamento das decisões, das ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação - O acompanhamento foi feito, durante
todo o processo, tanto nos encontros de formação quanto na aplicação da estratégia metodológica por nós elegida.
f) A pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo): pretende-se aumentar o conhecimento ou o “nível de consciência” das pessoas e grupos considerados - Não nos limitamos à aplicação dos quadrinhos nas aulas de Ciências, mas avançamos, como discutiremos nos capítulos posteriores, para uma reflexão sobre o ser professor de Ciências, o que, de fato, traz muito mais contribuições do que apenas aplicar um instrumento solicitado pelo pesquisador, o que seria apenas um ato mecânico, fato esse que foge da nossa concepção de educação e de pesquisa. Mas, como nomear este tipo de ação que, além de ser construída pela participação dos sujeitos, envolve a produção de conhecimentos, que depois de gerados devem ser divulgados? A pesquisa-ação é um método? Uma técnica? Uma metodologia? Mediante esta dúvida, buscamos aporte em Thiollent (1998, p.25), que assim explica: “Trata-se de um método, ou de uma estratégia de pesquisa agregando vários métodos ou técnicas de pesquisa social, com os quais estabelece uma estrutura coletiva, participativa e ativa ao nível de captação da informação”.
Assim sendo, quando utilizamos essa estratégia que abarca vários métodos e técnicas, estes não podem ser delineados antes de se entrar no campo investigativo, como também pode-se dizer que fica impossível criar hipóteses a priori, pois o trabalho se delineia na medida em que as ações acontecem. Contudo, o nosso objetivo inicial ao desenvolver esta pesquisa era de “[...] alcançar realizações, ações efetivas, transformações ou mudanças no campo social”. (THIOLLENT, 1998, p.41). Esta pretensão, que é nossa e da pesquisa-ação, ratifica a nossa escolha por tal abordagem.
Sabemos que nem sempre conseguiremos a transformação/conscientização de todos os envolvidos no processo, pois este desvelar da realidade com o olhar crítico não ocorre no tempo limitado da duração de um mestrado, mas é fruto de uma série de vivências, de tomadas de decisão, de rupturas. E este ato vai depender das características e objetivos que estabelece cada sujeito, se ele se tornará, como disse Paulo Freire (1996), epistemologicamente curioso. Caso contrário, esse processo de conscientização se dará de forma ingênua e não acontecerá nenhuma ruptura e mudança de ponto de vista. De nada vale tentar refletir pelo outro, pois como disse o pensador alemão Hermann Hesse: “Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens,
além daquele que há em sua própria alma... Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo”. Cada um só pode dar o que tem, e o nosso trabalho é apenas tornar o educador consciente disso.
Outra característica da pesquisa-ação, que também nos interessou bastante, foi o processo democrático de avaliação, pois o mecanismo de validação das ações é efetuado não apenas pelo pesquisador. Antes disso, passa pelo crivo dos envolvidos, no processo de espirais cíclicas, aprendendo com os erros de hoje para promover o acerto no futuro próximo. Esse é o processo de reflexão.
Encontramos alguns pontos de contato com a pesquisa-ação e outros com a pesquisa colaborativa, que se diferenciam basicamente no fato de que enquanto a primeira requer que a imersão dos sujeitos que nela se envolvem se dê através de objetivos comuns, a segunda focaliza na análise das práticas, com a finalidade de transformá-las, não só a análise, pressupõe uma intervenção na realidade estudada (PIMENTA, 2006).
Ao nos referirmos à ação colaborativa, remetem-nos à base etimológica da palavra colaborar, laborare (trabalhar para um determinado fim) e que recebe a seguinte definição: “Trabalhar em comum com outrem na mesma obra”. (HOUAISS; VILLAR, 2009, p. 168). Assim sendo, nossa pesquisa pode ser considerada uma pesquisa-ação colaborativa, uma vez que envolve empréstimos das duas abordagens, pois, a pesquisa colaborativa no contexto educacional:
[...] tem por objetivo criar nas escolas uma cultura de análise das práticas que são realizadas, a fim de possibilitar que os seus professores, auxiliados pelos professores da universidade, transformem suas ações e as práticas institucionais [...] (PIMENTA, 2006, p.36)
Podemos perceber que o desvelamento de nosso objeto de estudo possui elementos das duas pesquisas, haja vista que a pesquisa-ação também é percebida como uma estratégia de formação continuada privilegiada, pois favorece uma emancipação do grupo a ser estudado, como também uma via de superação da “metodologia da superficialidade” da qual o senso comum e a prática sem reflexão teórica são algumas das e suas características. Ela pode também ser considerada uma pesquisa criativa pois, segundo Nuñez e Ramalho (2001, p. 04) “[...] se o professor não tem uma atitude de criatividade, de pesquisar sobre a sua própria prática, pouco poderá fazer para formar crianças criativas, participantes na solução de problemas de diferentes naturezas” .
[...] nessa direção, encontramos pesquisas denominadas de colaborativa, realizadas na relação entre pesquisadores – professores da universidade e professores – pesquisadores nas escolas, utilizando como metodologia a pesquisa-ação. Nesta, os professores vão-se constituindo em pesquisadores a partir da problematização de seus contextos. Na reflexão crítica e conjunta com os pesquisadores da universidade, são provocados a problematizar suas ações e as práticas da instituição e a elaborar projetos de pesquisa seguidos de intervenção [...]. (PIMENTA, 2006, p.27)
E aqui chegamos, em uma definição de pesquisa-ação colaborativa, que a nós foi revelada no decorrer do processo, no qual as coisas que dantes eram sem forma e vazias, com o poder da palavra, do diálogo, da interação, foram tomando forma e sinalizando um caminho. E todos nós vimos que era bom...