Aos poucos, todas as crianças foram encaminhadas à sala de aula. Era o momento de
se prepararem para irem para casa. Havia grande confusão no banheiro e no bebedouro. A Atendente A os chamou para a sala, alguns ficaram para trás e foram depois. Já na sala, todos ficaram sentados, encostados à parede, enquanto a atendente A orientou para que cada um pegasse os seus pertences (sapatos, mochilas) e não se atropelassem para não se machucarem. Algumas crianças já estavam com a chupeta na boca.
A Atendente A acordou as crianças e, aos poucos, elas foram se encaminhando ao
pátio coberto e aos banheiros. As crianças não lavaram as mãos, apenas molharam (a maioria também não molhou), pois não havia sabão, sabonete nem toalhas.
Aos poucos, a Atendente C acordou as crianças, as quais foram se arrumando, se
calçando, enquanto ela ia guardando os colchões, que ficavam organizados em pé, um ao lado do outro, em um armário aberto, planejado para esse fim. As crianças estavam sonolentas, não diziam nada, apenas se calçavam vagarosamente. Outras ficavam paradas no chão sem fazer nada. Pareciam ainda estar dormindo. Aqueles que já haviam se arrumado foram ao banheiro. Ainda havia alguns dormindo e a Atendente C fez outra chamada para que acordassem. A maioria das crianças não lavou as mãos. Algumas crianças que usavam chupeta para dormir guardaram-nas em suas mochilas. Havia uma toalha de rosto na sala para uso comum. A Atendente C falou pouco com as crianças; apenas foi guardando, organizando tudo, sem falar. Alguns ainda permaneceram em um sono pesado! A Atendente C amarrou os cadarços de um menino sem dizer nada, sem conversar com ele. Nos lençóis ficaram grandes manchas de saliva. A Atendente C apelou às palmas para que os quatro que ainda estavam dormindo acordassem.
A Atendente A foi informada de que haveria um teatro no pátio, uma dramatização
com fantoches sobre os dentes, a escovação, os cuidados com a boca. Tratava-se de um projeto desenvolvido pela secretaria da saúde. Então, todas as turmas, com exceção do berçário, se reuniram no pátio coberto (que parecia uma jaula). As crianças faziam um barulho ensurdecedor. As funcionárias da instituição gritavam muito com as crianças para exigir silêncio. Com isso, as crianças do maternal ficaram assustadas e choravam com a confusão. Parece irônico estar em pauta um projeto como esse e, nos Centros, não haver pasta de dente. Ao final da dramatização, não houve qualquer tipo de orientação prática ou continuidade do trabalho com essa temática junto às crianças, nem se disponibilizou, no mesmo dia, pasta de dente para que as professoras orientassem as crianças. Cada turma seguiu com suas atividades habituais.
Com relação ao projeto sobre a higiene bucal, embora se possa pressupor que seria uma atividade ou uma situação que, necessariamente, deveria estar no segundo agrupamento, tal situação fez parte do primeiro agrupamento, pelo fato de que, nessa situação, não houve envolvimento, nem conversa, nem qualquer tipo de contribuição das docentes sujeitos da pesquisa. Elas simplesmente se posicionaram como expectadoras em meio às crianças. Observou-se, com relação ao teatro sobre higiene bucal, que não houve qualquer tipo de trabalho ou intenção pedagógica, vinculado ao tema a ser desenvolvido com as crianças. A impressão que ficou foi de que o grupo que apresentou a dramatização atendeu a uma formalidade de um projeto proposto pela Secretaria da Saúde, que, por sua vez, foi aceito pela Secretaria de Educação, para ser realizado nas instituições de educação. Esse projeto, que, a propósito, é importante no âmbito educativo e não somente no da saúde, não teve a recepção
apropriada nas unidades de ensino, pois a equipe pedagógica e as docentes não o tornaram compreensível às crianças para que estas pudessem vivenciá-lo.
Em se tratando de higienização, foi observado que as docentes não orientaram as crianças quanto ao uso do sanitário, tampouco à prática de lavar as mãos e à escovação de dentes. Vale ressaltar que não houve escovação de dentes em nenhum dos dias observados. Elas faziam tudo sozinhas, ou melhor, elas não o faziam direito, pois precisariam de orientação no momento em que estavam realizando a referida atividade. O pouco que as crianças conseguiram fazer sem orientação fizeram sob pressão, gritos e comandos coercitivos da docente.
Quanto às situações de arrumação pessoal, percebeu-se grande independência por parte das crianças. Parecia até que tinham que ser independentes nesse aspecto, por questão de sobrevivência em um ambiente em que há apenas um adulto para uma turma de 20 a 25 crianças. No geral, as docentes não ajudaram as crianças, restringindo-se a olhar de longe o que faziam, apressando-as e dando-lhes ordens.
Em relação ao despertar do sono especificamente, percebeu-se que, da mesma forma que todas as crianças eram obrigadas a dormir no mesmo horário, eram também obrigadas a acordar na mesma hora. As crianças que acordavam antes da hora de a docente chamar tinham que ficar caladas e deitadas em seus colchões. Havia crianças que, por outro lado, demoravam para dormir e só conseguiam pegar no sono, próximo do horário de acordar; logo, tiveram imensa dificuldade para despertar. E havia aquelas que precisavam de um tempo maior para dormir, motivo pelo qual também tiveram muita dificuldade para despertar do sono profundo.