Café:
Na instituição C, as crianças foram se sentando em volta da mesa e dos bancos
compridos. Tomaram café com as outras quatro turmas de Pré. Inicialmente, havia um pouco de confusão, algazarra, mas, aos poucos, foram se acomodando e recebendo o alimento: bolo e iogurte. Chegaram outras turmas e houve muito barulho e tumulto. Havia uma professora que gritava com muita rispidez com as crianças. Algumas crianças repetiam e muito rápido, mas, por outro lado, muitas não quiseram comer. As docentes conversavam entre si, não conversavam com as crianças; apenas perguntavam se queriam mais e o que queriam.
Almoço:
Uma das turmas almoçava junto com outras quatro turmas, o que provocava um
barulho ensurdecedor. A Professora B distribuiu os pratos e talheres às crianças e, logo após, começou a servir a comida. Os pratos, talheres e a comida eram colocados em um “balcão janela”, que separava a cozinha do refeitório. A Professora B foi perguntando se a criança queria a salada, mas só era possível a comunicação por meio de gestos, por causa do barulho. Muitas crianças não comiam de tudo, rejeitavam vários tipos de alimento. O menino G, por exemplo, só aceitou arroz e feijão, não querendo carne nem salada. A Professora B informou que havia proibição por parte da direção da instituição em fazer qualquer interferência no sentido de fazer a criança comer. Quanto às outras profissionais, permaneceram de cara feia, gritando, muito bravas com as crianças. Quando a Professora B percebia que a criança não comeria mais, ela tirava os pratos da mesa. Na mesa, no banco, no chão, ficou uma grande sujeira. Ao saírem do refeitório, uma auxiliar de limpeza (que já estava esperando ao lado com o pano nas mãos, como que pressionando para que acabassem logo para que ela pudesse limpar o mais breve possível e ficar livre daquilo) veio e limpou a sujeira.
Jantar:
No refeitório, as crianças já estavam aguardando o jantar. Havia uma vasilha de
plástico com tampa, com a sopa a ser servida para cada turma. Uma das turmas de Pré I dividia o refeitório com outras cinco turmas. Tudo se transformou em um verdadeiro tumulto. Juntando os gritos e as conversas de tantas crianças, somados aos gritos das professoras, ficou uma situação insuportável! Algumas crianças não aceitaram a comida. A Atendente B colocou os pratos e talheres sobre a mesa e serviu a sopa. Muitos repetiram. Ao terminarem de comer, as crianças foram ao banheiro e depois seguiram para a sala. Nem todos lavaram as mãos após usarem o vaso sanitário. Percebeu-se também que as crianças não escovaram os dentes. Informaram sobre a falta de pasta de dentes. Não houve qualquer tipo de orientação nem acompanhamento presencial da docente junto às crianças para a realização dessas atividades.
As crianças foram se sentando no fundo do refeitório, onde as mesas se encostavam
na parede, não sendo possível circular por ali. As crianças gritavam muito, ficavam alvoroçadas, falavam ao mesmo tempo. Havia uma tigela de plástico com a sopa para cada turma. As outras turmas foram chegando e os pratos com a sua comida já estavam servidos. Essas turmas começaram a comer, fazendo grande barulho com as colheres nos pratos. A atendente A serviu as crianças uma por uma em seu lugar e depois foi dando as colheres. Elas comeram muito rápido e repetiram. A sopa tinha um cheiro e aspecto bom. As crianças falavam o tempo todo, falavam de boca cheia, algumas se sujavam para comer. Do outro lado do refeitório, havia uma atendente que gritava e brigava muito com as crianças do maternal. A atendente A era quieta, ela servia as crianças, falando muito pouco e baixo. Havia muita agitação, barulho, bateção de pratos e talheres no refeitório. Eles discutiam e até brigavam, batendo uns nos outros enquanto comiam. Não tinham bons modos para comer. A atendente A recolheu os pratos e talheres, falou coisas básicas com as crianças, perguntando, por exemplo, se “queriam mais”. Ela foi limpando com um pano a sujeira deixada nas mesas. Ao mesmo tempo, foi servindo a sopa e eles foram comendo freneticamente. Ela retirou os pratos de quem já havia acabado. No final, ela limpou novamente a mesa, todos saíram do refeitório e foram usar o banheiro.
Lanche na sala:
A Atendente Aia dando pedaços de mamão às crianças (na mão mesmo). Alguns não
quiseram comer. Comeram sentadas no chão da sala. Falavam muito pouco, algumas não falavam nada, estavam ainda muito sonolentas.
Lanche no refeitório:
Cinco turmas dividiam o refeitório, embora cada uma fosse independente em relação
ao horário exato para chegar lá. Aos poucos, foram chegando e tomando lanche. A Atendente B serviu uma fruta (banana) nas mãos das crianças. Algumas não comeram; outras repetiram. Havia muito barulho, não sendo possível ouvir quase nada do que cada criança falava. Só era possível ouvir se chegássemos muito perto dela e ainda teríamos que olhar sua expressão facial. Houve brigas e tumulto, o que fez com que a Atendente B ficasse brava. Ao terminarem, deixaram uma grande sujeira nas mesas, no chão e nos bancos.
Lanche no pátio:
Quando todas as crianças acordaram, a Atendente C começou a falar: “Ó o sino, ó o
sino”. Ela estava alertando-os que o sino iria tocar para o horário do lanche. Então, ela organizou as crianças no chão do pátio, e uma auxiliar de limpeza com uma bacia cheia de pedaços de melancia serviu a fruta nas mãos das crianças. Para cada turma, havia uma auxiliar de limpeza servindo. Enquanto isso, as atendentes foram para o seu intervalo tomar lanche (15 minutos). No pátio, ao terminarem o lanche, as crianças ficaram por ali sob o olhar das auxiliares. Ao voltarem, com o toque do sino, as atendentes levaram as crianças para as próprias salas.
Quanto ao café, almoço e jantar, nas três instituições, os mesmos foram realizados em um refeitório coletivo, acomodando de quatro a cinco turmas juntas no mesmo horário. O fato de as instituições contarem apenas com um refeitório, para todas as turmas, desde o maternal até o Pré II, é uma variável que gerou grande tumulto, barulho e confusão. Não era possível entender o que as crianças diziam, porque falavam ao mesmo tempo umas com as outras e em um tom muito alto. De modo geral, não havia diálogos entre as crianças, e sim monólogos frenéticos. Era tamanha a agitação, que, quando a docente precisava dar algum comando ou chamar a atenção, ela só era ouvida se ficasse brava e gritasse com a turma; caso contrário, muitas vezes, ficava calada ou conversava com as outras docentes.
Na instituição A, o lanche era oferecido na sala com as crianças sentadas no chão; na instituição B, era oferecido no refeitório; e na instituição C, era servido no pátio, com as crianças sentadas no chão. Sobre o lanche na instituição B, oferecido no refeitório, considera- se uma prática adequada com relação ao espaço e à higienização, por ser um lugar próprio para fazer as refeições. Entretanto, mesmo no refeitório, não houve qualquer tipo de conversa. Percebeu-se que não havia conversa, e sim comandos para tolher qualquer tipo de iniciativa de fala. Parecia que a docente queria mesmo que as crianças continuassem sonolentas! A docente poderia estar atenta aos diálogos que surgissem e, de modo intencional, provocar os
diálogos, ou, até mesmo, aproveitar, de modo amistoso, aquele momento, tornando-o agradável, para que a criança pudesse se expressar, por exemplo, sobre o que ela achou do sabor do bolo, do iogurte, da fruta.
Comer fruta na sala, sentando-se no chão sujo, sem lavar as mãos (realmente, as crianças não lavavam as mãos) e com sono, no mínimo, não é adequado. Oferecer o lanche no pátio é uma ideia interessante, por ser um ambiente amplo, ventilado, em que a criança pode se movimentar bastante. Contudo, necessitaria que isso fosse feito com as condições de higiene que uma refeição exige. Precisaria também que esse momento não ficasse sob a responsabilidade de auxiliares de limpeza, justamente porque essas profissionais não têm a formação pedagógica educacional necessária para realizar tais tarefas com as crianças.