No referido tipo de fala da criança, apresentado no Quadro 13, constatou-se que houve maior incidência nas situações PA1, PA2, PA3, PA4, AA1, AA2, AA3, PB1, PB2, PB4, PB5, AB1, AB2, AB3. Essas situações são apresentadas a seguir:
PA1: Todos queriam uns bonequinhos que havia no lego. Aquela que ficou sem o
bonequinho, chorou. Ouvia-se muito: “é meu!”,“Aquele é meu!”,“Esse é meu!”. Havia
muita confusão e choro. Alguns se sentaram, conforme pediu a docente, mas outros não. Havia muita agitação, palavrões e gritos.
PA2: As crianças se cutucavam, rolavam pelo chão e conversavam ao mesmo tempo entre
elas. Um grupo invadiu o canto onde estavam amontoadas as cadeiras; todos acabaram invadindo. Provocando a maior confusão, pegavam as cadeiras e as carregavam pela sala. Com muita dificuldade, as crianças quase foram organizando um círculo. E foram todos se encostar na parede. Foi um bate-bate na cabeça do outro com a cadeira, uma arrastação sem fim. As crianças falavam entre si, faziam gestos, se cutucavam, riam. E riam muito alto. Uns e outros começaram a brigar e a se provocar. Vários foram tirar as blusas. Alguns, para garantirem a posse dos brinquedos, reuniam a maior quantidade que podiam entre suas pernas. Essas crianças acabavam nem brincando, pois ficavam cuidando para que ninguém tomasse os seus brinquedos. Alguns pulavam pela sala. Eles pareciam não querer aquela atividade que a professora estava propondo, porque continuavam a conversar, rolar pelo chão, fazer muitas “gracinhas” e, até mesmo, a bater uns nos outros.Com a distribuição das sucatas, recomeçaram, então, as brigas pela posse dos brinquedos. Havia muito choro e crianças chamando pela professora. Uma menina chorou muito, desesperadamente, porque outro tomou o seu brinquedo; disse que o menino pegou seu brinquedo. A professora lhe deu outro, mas a menina não aceitou: pôs imediatamente de lado e continuou chorando. O menino que pegara o brinquedo dela se isolou em um canto da sala com o brinquedo. Algum tempo depois, a menina ainda continuava chorando.
PA3: Naquele momento, havia crianças se cutucando, chutando os colegas no círculo.
esticavam-se, evidenciando um saturamento daquela atividade. Eles fizeram o gesto de
passar um zíper na boca, querendo dizer: “com a boca fechada”. Eles repetiam sem
interesse o que a professora solicitava para que repetissem e, às vezes, sem sucesso. Poucos prestavam atenção. Virou uma confusão, pois todos falavam ao mesmo tempo, não sendo possível entender o que uma criança falou. Tudo se transformou numa bagunça. Pararam de imitar os animais. Houve choro, brigas. Alguns foram para baixo da mesa.
PA4: As crianças brigavam pela posse dos brinquedos. Houve muito choro e confusão
durante a brincadeira. Uma criança mordeu outra, que chorou muito! As crianças começaram a bater umas nas outras e a brigar pela posse dos brinquedos. Elas se queixavam muito dos colegas para a professora. Outras crianças só brigavam pelos brinquedos, queixavam-se com a “pô”, mas nada se resolvia.
AA1: Após pararem a bagunça, a atendente A continuou a história, mas havia apenas
umas duas crianças prestando atenção.
AA2: Um grupo de crianças jogava terra e insultava as crianças e os adolescentes que
estavam do outro lado do alambrado, alunos da escola vizinha. Apesar de as crianças estarem naquele espaço incrível, pareciam perdidas, confusas, agitadas.
AA3: Os que recebiam os brinquedos, ao invés de brincar, disputavam, se desentendiam,
brigavam e choravam por causa deles. As crianças brincavam com medo de perder o brinquedo, de outra criança tomá-lo. Naquele momento, alguém chorou. Houve uma briga, uma confusão enorme que pareceu sair do controle. Demoraram para se sentar. Ficaram muito agitadas, gritavam muito, rolavam, pulavam, não faziam o que a atendente havia solicitado.
PB1: D. ainda se arrastava por baixo das mesas. D. bateu em W., fazendo-o chorar e
gritar. A professora colocou os dois meninos que brigavam de castigo, sentados no chão em um canto da sala, sem brincar. Assim, deixou as crianças se dispersarem, fazerem uma enorme confusão e um barulho ensurdecedor. Três meninas uniram seus pés, formando uma barreira para que outros não fizessem parte do grupo delas. Alguns queriam entrar no grupo, mas não conseguiram. D. passou pelos grupos chutando e pegando as peças de madeira que encontrava pela frente. D. sentou-se no centro do círculo do terceiro grupo, chamando para si a atenção de todos. Algumas crianças ainda corriam pela sala. Havia
muito barulho, crianças chorando, berrando, gritando. De repente, ocorreu uma confusão embaixo de uma das mesas: três meninos brigavam. Os que estavam esperando no chão, brincavam, rolavam, brigavam e se chutavam. Alguns rolavam embaixo da mesa da Professora B. Nesse instante, ocorreu outra briga entre três meninos. A professora colocou L. e J. de castigo e eles choraram. O castigo foi ficar em pé à porta da sala. Nesse momento, houve uma grande confusão.
PB2: Havia muita agitação. Algumas crianças olhavam para a professora: pareciam
querer saber o que iam fazer. Dois meninos brigavam por causa do lugar, eles continuavam teimando, mas nada! Finalmente, um deles cedeu: aquele que estava correto (no meu julgamento). As crianças ficaram visivelmente agitadas. Havia um menino que chupava chupeta; estava se jogando pelo chão. O menino que estava no chão, D., nesse momento, estava com os dois pés em cima da mesa. Parecia querer a atenção de todos, principalmente a da Professora B. Os mesmos meninos, D. e G., voltaram a brigar (J. também entrou na briga) por causa de lugar. Isso estava atrapalhando muito a atividade em andamento. Na atividade proposta, muitos falavam ao mesmo tempo, não sendo possível saber o que cada um estava dizendo.
PB4: Durante essa atividade, houve muito barulho, agitação e desinteresse por parte de
alguns, além de bateção de cadeiras. Durante a leitura, havia muita agitação, conversas em alto volume (barulho).G. e D. permaneciam de chupeta. Houve, nesse momento, uma briga: uma menina chorou e queixou-se por ter apanhado de um menino.
PB5: Houve uma briga, uma confusão. A professora deixou um menino de castigo, sentado
no chão sem brincar.
AB1: A Atendente B chamou as crianças para se sentarem ali perto dela, mas estavam
muito dispersas. Ela chamava muito, mas eles não lhe davam ouvidos. E as crianças corriam debandadas pelo pátio, de modo que ela não conseguiu concluir a atividade. Levou-as para a sala.
AB2: As crianças deram muito trabalho para ficarem quietas. Com muitos gritos,
pancadas na mesa e ameaças da outra atendente, acabaram diminuindo o barulho. As crianças repetiram a música, mas demonstraram que estavam saturadas daquilo tudo. Pareciam fazer somente por serem obrigadas, não sentindo nenhum prazer.
AB3: Um menino chorou, fez uma grande manha porque ele só queria ser escolhido. No
final, houve brigas, choros, manhas, insatisfações. As discordâncias geraram agressões físicas.
De acordo com a perspectiva teórica de Piaget (1973b), esse tipo de fala dos sujeitos crianças, expresso no Quadro 13, possui características da linguagem egocêntrica, especificamente uma tipologia denominada pelo autor de monólogo a dois ou coletivo. O monólogo a dois ou coletivo, definido pelo autor, foi uma característica percebida na fala dos sujeitos crianças nesta investigação, nas situações anteriormente citadas, pelo fato de que, nesta fase, a criança não se incomoda em saber a quem fala, nem mesmo se é escutada; não procurar compreender a outra pessoa, o seu interlocutor. Segundo Piaget (1973b), a criança vive um momento de incoerências internas, o que pode ser visto nas diferentes situações observadas, em que a crianças estavam próximas, faziam manhas, choravam por quererem um determinado brinquedo que, naquele momento, não podiam ter, ou mesmo nos momentos em que havia muito barulho e as crianças falavam ao mesmo tempo, não sendo possível que uma escutasse a outra e, até mesmo, a docente não conseguia escutar nenhuma das crianças. Via-se claramente que as crianças falavam para si e, ao mesmo tempo, agregavam sua fala à de outra criança, não se preocupando se, de fato, eram ouvidas ou compreendidas.
Na perspectiva de Vigotski (2000a), estando a criança nos momentos de enfrentamento de problemas e dificuldades, como pôde ser percebido nesse tipo de fala dos sujeitos desta investigação, apresentado no Quadro 13, a criança de quatro a cinco anos de idade emite uma fala não dirigida ao seu interlocutor. O autor afirma que ela pronuncia os fatos, as ações, como se os estivesse reproduzindo verbalmente. Quando a criança atua dessa forma, verifica-se, como menciona Vigotski (2000a), a ação explícita da linguagem como mediadora da conduta, o que ocorre por meio do movimento de relações verbais, capazes de auxiliar na resolução de um problema complicado. Assim, inicialmente, a criança fala em voz alta para si mesma e, aos poucos, essa fala vai se atenuando, transformando-se em sussurro até se tornar uma fala interna.
Nesse sentido, Vigotski (2001) postula que a linguagem contém basicamente duas funções, sendo uma delas a comunicação. O autor denomina a forma inicial de fala socializada, que se trata da fala da criança com os outros que a rodeiam, ou seja, é uma fala externa à criança, com a função da linguagem, que é a comunicação. Vigotski (2000a) observa que, inicialmente, no desenvolvimento infantil, a linguagem é permeada pela sua primeira função, a comunicação, ocorrendo, portanto, o que o autor nomeou como primórdios
do pensamento ou da inteligência prática. De acordo com o autor, a criança soluciona os problemas e usa instrumentos em um nível concreto, contudo sem mediação simbólica. A comunicação, realizada inicialmente entre as pessoas, aos poucos, vai sendo internalizada e se torna, para a criança, um instrumento do pensamento. Dessa forma, a criança fala para si mesma, fazendo uso de um discurso interior, que se concretiza no que o autor chamou de falar para si mesma, praticando, assim, a primeira função da linguagem: a comunicação. Essa comunicação é efetivada também por meio das interações sociais que envolvem olhares, gestos corporais e faciais e sons.
Apesar de os sujeitos desta investigação se situarem em uma faixa etária em que, segundo Vigotski (2001), a criança possui uma linguagem permeada pela sua primeira função, que é a de comunicação, percebeu-se que, nas situações observadas, no referido tipo de fala da criança discutido neste momento, ocorreu precariamente essa primeira função da linguagem. A criança demonstrou, por meio do choro, da birra, de gritos, da briga, dentre outros gestos e atitudes, que estava insatisfeita, que precisava de ajuda para resolver os problemas. Isso pelo fato de que, em meio ao referido tipo de fala da criança, em seu meio social, não houve a satisfação de suas necessidades na tentativa de solucionar os problemas enfrentados por meio da comunicação. Assim, não se utilizou a fala, mas sim outros artifícios ou recursos da comunicação para solucionar os problemas. E mesmo com esse tipo de comunicação concretizada, as crianças não receberam auxílio da docente para a superação dos problemas e do tipo de fala expresso, o qual se adequaria a uma faixa etária ou a um estágio anterior ao dos sujeitos em questão.
5.1.1.2 Tipo de fala da criança: conversas entre as crianças, em brincadeiras nas quais