4. Servicekvalitet
4.3 Kritikk av modellen
4.3.1 Teoretisk kritikk
A história começa in media res. O leitor já é introduzido na narrativa com o rapto das crianças. Já no final do primeiro capítulo, o ambiente de mistério está formado: “A clareira, em toda a volta, tinha um limite: a floresta, verde-escuro, misteriosa, árvores de sessenta metros” (p.14). Ainda neste clima, no próximo capítulo tem o incidente com Ricardinho: este é engolido por uma sucuri, por desrespeitar as autoridades da Fresh Blood Corporation.
No terceiro capítulo, o leitor é familiarizado à rotina do acampamento e aos procedimentos a serem tomados pelas crianças raptadas e a forma de extração de sangue. No quarto capítulo, há uma digressão para explicar a origem da Fresh Blood Corporation mencionada pelo holandês, Der Moltzer, durante o incidente com Ricardinho. Assim, é informado a origem humilde de Ship O‟Connors, a sua formação em Medicina e especialização em doenças de sangue e a abertura de seu consultório juntamente com seu sócio, Schsnels. Este descobre, em abril de 1978, que sangue de crianças na faixa etária de 9 a 11 anos tem alto poder curativo, apenas nessa idade. Ambicioso e na expectativa de ficar rico e famoso, sem hesitação, O‟Connors assassina Schsnels, que se recusou a obter benefícios com a descoberta. O local escolhido para formar seu curral é o Brasil pelas suas inúmeras vantagens: “[...] país imenso, onde a maioria do povo é pobre mas há em certos lugares gente rica, com filhos bem nutridos, como em São Paulo, e oferecendo localização perfeita para um curral escondido, nas desconhecidas florestas da Amazônia.” (MARINHO, 2006, p. 18). Após fundar a Fresh Blood Corporation com mais dois sócios, um alemão e um japonês. O sangue era levado para a Europa e de lá para o resto do mundo. Para evitar suspeitas, o médico norte- americano fundou bancos de sangue autorizados por lei, e o sangue exportado por navio era jogado fora. Assim, Ship O‟Connors pôde dar continuidade aos seus empreendimentos sem levantar suspeitas. Em março de 1980, o sequestro de crianças em São Paulo se inicia, sendo que, em poucos meses, mais de duas mil já haviam sido raptadas.
Após esse flash back, a narrativa é conduzida linearmente até o seu desfecho em setembro de 1980. O narrador descreve a festa junina na casa do Gordo, em 29/06/1980. Durante esse festejo, Ship O‟Connors conhece o Gordo e fica maravilhado. A intuição de que o sangue dele é valioso, faz com que seus olhos brilhem e deseje sequestrá-lo. O seu instinto estava certo: o sangue do Gordo é valiosíssimo, um capital de 20 bilhões de dólares.
raptar o Gordo. Leva o seu capital de 20 bilhões de dólares mais os integrantes da turma para o curral na Amazônia. A história passa a se desenvolver na floresta amazônica. Sabendo do fim que as crianças que completassem 11 anos teriam (seriam jogadas no mar), o Gordo e sua turma planejam uma fuga. A primeira tentativa não dá certo, mas não desistem. Mesmo com poucos recursos, enveredam-se pela floresta. Enfim, como uma turma de crianças, moradora na capital paulistana, entre 9 a 10 anos sobreviveria em plena selva amazônica? Não apelando para o fantástico nem reduzindo a capacidade estratégica das crianças, Marinho vale-se de suas experiências para dar um desfecho mais verossímil. Assim, o conhecimento da vegetação permitiu que as crianças vencessem os mateiros enviados por Ship O‟Connors por meio do boliche amazônico ou impuca:
_Aqui na floresta amazônica, como se vê, as raízes das árvores são levantadas, não entram na terra, porque a terra não é fértil; elas se alimentam da camada de folhagem. Por isso as árvores não estão bem fixas no solo, não tem sustentação. Quando uma árvore apodrece de velha cai, ela encosta nas outras, as outras não tem fixação e se forma um boliche amazônico, uma porção de árvores vão de imboléu. É a impuca. (MARINHO, 1982, p.131)
Um dos aspectos que conferem originalidade à obra de Marinho apontado por Zilberman (2005) é o fato de que as soluções encontradas pela turma do Gordo se dão pelo uso da tecnologia, diferente das outras obras tradicionais, que tem a ajuda de um ser mágico. Em Sangue Fresco, sem nenhum recurso tecnológico, as crianças valeram do seu conhecimento para se livrarem dos criminosos, contando para isso com o Hugo Ciência e com o Gordo. Único material que dispunham era um machado, trazido pelo Gordo, com o qual constroem uma jangada para fugirem pelo rio.
Enfim, encontram um acampamento de frades capuchinhos e com a ajuda de frade João e sua cruz de madeira, os capangas de Ship O‟Connors são derrotados. Frade João passa a fazer parte da turma, aparecendo nas demais histórias, inclusive Ship O‟Connors, que terá uma breve participação na obra seguinte O Livro de Berenice (1984).
Para conhecer essa história, o leitor é conduzido por um narrador que se encontra fora da história, tendo momentos em que tece seus comentários e revela os pensamentos dos personagens. Há vários momentos em que o narrador aproxima-se do leitor, estabelecendo maior intimidade: “A nossa turma estava lá [...]” (p.27); “A expedição dos nossos heróis caminha pela floresta [...]” (p. 124).
Há a emissão de comentários do narrador em alguns momentos da narrativa: “A zoada era uma loucura, só mesmo, estando lá para saber o barulho que fazem duas mil crianças
demoradamente, em estado de graça.” (p.27); “[...] vejam o que é a formosura parelhada na inteligência” (p.42); “Era doloroso de assistir, alguns ainda não tinham morrido, estavam sem pele, gemendo. (p.153)”. Até os pensamentos de Ship O‟Connors é revelado pelo narrador: “[...] esqueceu que era uma bandido senvergonho e de sua cabeça começaram a sair pensamentos puros” (p.33).
Um dos traços característicos da produção de Marinho e presente em Sangue Fresco é o exagero, por meio dele, as cenas de violência, principalmente, adquirem um efeito cômico, como nos trechos abaixo:
[...] o Pirata [...] pulou no pescoço do chinês e deu uma tentada de tigre: separou o chinês em dois, a cabeça de Huang rolou na lona do Cataraman e o corpo descabeçado caiu no mar [...]. (p.52)
Pulou miolo da cabeça de Teng que dava para fazer uma fritada completa. O chinês caiu no mar. (p.55)
Ninguém queira saber o que é chulé de pé de Gordo, entranhado num tênis que levou suor de pé de Gordo [...] Edmund, Berenice, Pituca e Hugo Ciência taparam o nariz, saíram correndo, dois gambás desmaiaram, uma jaguatirica teve um troço. (p.155)
Marinho refere-se às obras da literatura nacional e mundial. Muitas referências são dadas por meio da paródia, que para Hutcheon (1985, p.13), é “uma das formas mais importantes da moderna auto-reflexividade; é uma forma de discurso interartístico”, não sendo “apenas aquela imitação ridicularizadora”. Para que haja a compreensão do uso da paródia, é necessário que haja um conhecimento comum entre codificador e descodificador (HUTCHEON, 1985), em outras palavras, entre autor e leitor. A paródia só terá sentido, assim como a ironia, se o leitor conseguir identificá-la. Embora a falta de conhecimentos às obras parodiadas não comprometa o entendimento da história, caso o público leitor seja criança ou jovem, pois essas referências enriquecem esteticamente o texto literário, quando identificadas pelo leitor e potencializam o sentido do humor usado pelo autor.
Há trechos em que Marinho cita apenas um personagem como o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato ou Fedra, da mitologia grega; o estilo do livro de Mario de Andrade, Macunaíma, quando Berenice afirma que seu livro terá um fim “rapsódico e dramático”; à poesia de Olavo Bilac; a Skakespeare, inclusive a Bíblia, nas cenas do profeta no pedágio e de Frade João, respectivamente:
_Nhé Nhé Nhé. Malditos pecadores, todos vocês preparem-se para o Último Pedágio, o Derradeiro Pedágio, o Pedágio Final. Tremam. Olhem para a arquitetura do Pedágio, muito branco, reluzindo ao sol, é o TEMPLO DO
ontem. (MARINHO, 1982, p.44).
_Pá Pá Pá – disse frade – Nem todos os bandidos do mundo me fariam adiar um bom almoço. Daí de comer a quem tem fome, dizem as Escrituras, eu sou homem de fé, obedeço o mandamento, cada vez que tenho fome eu dou- me de comer. (MARINHO, 1982, p.161)
Além de citar a ascendência de Frade João, menção feita a Frère Jean, personagem de Rabelais, em Gargantua (2009), a descrição de como 180 capangas de Ship O‟Connors, armados com metralhadoras, foram derrotados pelo uso de uma enorme cruz de madeira é semelhante à feita pelo autor francês, quando a abadia em que Frère Jean morava era invadida e ele sozinho, matou várias pessoas. Mais uma vez o exagero traz comicidade ao fato:
Frade João [...] macetou os ossos do cóccix dos sessenta, com tal força que os fez vomitar a coluna vertebral, osso por osso, vértebra por vértebra, para grande alegria os cachorros da missão que iam mordendo os ossos fresquinhos e mastigando o tutano. (MARINHO, 1982, p. 164)
Quando Hugo Ciência recita os poemas de Olavo Bilac para Berenice pode namorar, a garota diz: “_Deixe de ser burro Hugo! – disse a Berê – Isso é poesia do tempo da vovozinha. Bota aí uma coisa moderna.” (MARINHO, 1982, p.80). o menino recita um poema modernista de Oswald de Andrade, remetendo-se ao período Modernista e não ao sentido contemporâneo enfatizado por Berenice.
O autor também faz referência a sua própria obra. Referindo-se a sua segunda obra da coleção, O caneco de Prata, Berenice responde a respeito do seu “caso” com o Biquinha: “Foi no tempo do Caneco de Prata, fiquei deslumbrada um pouquinho, só foi isso, só isso” (MARINHO, 1982, p.70).
Embora sejam crianças, as atitudes da turma do Gordo não são infantilizadas. Gordo chama de subliteratura o livro que Berenice quer publicar sobre as aventuras na Amazônia. Berenice não se preocupa de trocar de namorado quando quer, tampouco de falar de gravidez na infância, pois não se importa de “balançar a estrutura das mentalidades burguesas” quando se refere ao seu diário Paixão amazônica, com pseudônimo de Anástacia Palova. Ela já sabe quais são as características de um livro para que venda: “_A gente precisa de umas pitadas de imaginação na história – falou Berenice – Um pouco de sal, para agradar o povão; se a gente vai no tão-tá, o livro fica encalhado, não vende.” (MARINHO, 1982, p. 142).
O criador da turma do Gordo brinca com as instituições e pessoas como no caso da professora Jandira, interesseira, mostrada de forma erotizada, e o professor de matemática que dá zero a um aluno por ciúmes. Na reunião para mandar um manifesto ao Presidente da
primeiro plano. Embora o livro vá ser lido por pais e professores, João Carlos Marinho não mede palavras: “Vocês sabem, vocês já viram, reunião de pais e mestres, com duas mães presentes, ninguém aguenta, imagine aquela com quarenta mil - o desgraçado que inventou a Reunião de Pais e Mestres deu uma contribuição inestimável para a discórdia humana.” (MARINHO, 1982, p.61).
As autoridades brasileiras são mostradas como ingênuas como a mídia nacional: “os jornais brasileiros se entusiasmaram, elogiavam Ship O‟ Connors, faziam entrevistas com ele, um jornal proclamou que Ship O‟Connors estava provando ao mundo que o sangue brasileiro era o melhor do mundo.” (MARINHO, 1982, p. 26). De forma bem humorada, Marinho faz essa crítica às ideias veiculadas pelas diferentes mídias e que na verdade não condizem com a realidade como no caso da exportação de sangue, em que Ship O‟Connors vale-se de uma empresa de fachada para poder extrair ilegalmente o sangue das crianças.
Em relação ao projeto gráfico-editorial da obra, a última alteração é de 2006, em que adquire novo formato de 15,5x23, sendo o projeto de capa de Camila Mesquita e ilustrações de Alê Abreu. O livro contém seis ilustrações, que ocupam a página toda. A capa traz a vegetação da floresta amazônica e a entrada de luz entre as árvores. Nessa nova versão, o nome do ilustrador vem na capa no canto inferior esquerdo. O título e o nome do autor vêm escritos em uma folha, que lembra a de um bloco de notas e em fontes diferentes. Essa nova diagramação do livro é, visualmente, melhor pela disposição do texto na página.
O subtítulo da primeira edição é suprimido nas versões da Global Editora, sendo incorporado na última versão da coleção, mas sofrendo uma alteração: de “Uma aventura de Bolachão na Amazônia”, passa para “Uma aventura da turma do Gordo”. Este estará presente em todas as obras da Turma do Gordo, após o título de cada livro. Essa alteração ocorreu nas demais obras e conferem ao conjunto de histórias o seu caráter de coleção ao acrescentar em todas “Uma aventura da turma do Gordo”.
Figura 6: Capa e ilustração de Roland Matos.