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More tension: the political economy of the hidden debts

4. POLITICAL AND INSTITUTIONAL COSTS AND EFFECTS

4.3 More tension: the political economy of the hidden debts

Adventismo

No mundo todo a IASD, preocupando-se com a questão alimentar detém algumas marcas produtoras de alimentos. É possível encontrar no Adventist Online Yearbook 415 um completíssimo e atualizado catálogo das empresas produtoras associadas à IASD presentes em cada região do mundo. Embora as empresas não estejam financeiramente vinculadas à igreja, produzem alimentos de acordo com a filosofia alimentar da IASD.

No Brasil temos a companhia Superbom, fabricante de produtos vegetarianos, com 87 anos, hoje tem distribuição nacional. Figuram entre seus produtos: méis, geleias, sucos (especialmente de uva), patês de vegetais, cevada, proteínas de soja e trigo, entre outros.416

Há também, pelo mundo, restaurantes e hotéis preparados para receber grupos de adventistas, onde a comida é uma das principais exigências a ser cumprida.

Budismo

Dentre as diversas escolas do budismo, é especialmente no zen budismo que a dinâmica da cozinha apresenta suas regras. Denomina-se culinária Shôjin, o conjunto de práticas de cozinhas de mosteiros da tradição zen budista. Nestes mosteiros, o tenzo (cozinheiro chefe), é sempre um monge de alta elevação espiritual. Ele é responsável pelo cardápio e coordenação do trabalho na cozinha.

A culinária Shôjin promove integração com o ambiente, levando em conta os processos produtivos e suas consequências:

Por exemplo, o alimento deve ser aproveitado integralmente – nenhum talo, semente ou casca é desperdiçada. E só se usa legumes, verduras e frutas da época e cultivados na região. Muitos mosteiros tem têm , inclusive, seu pomar e horta.417

415 Adventist Online Yearbook. www.adventistyerabook.org. Acesso em: 20/04/2014. 416 Superbom. www.superbom.com.br. Acesso em 20/04/2014.

131 Também é necessário respeitar o alimento também do ponto de vista simbólico. Não julgando-o: Cozinhar no estilo Shôjin requer uma atitude sincera e respeitosa com relação aos alimentos, não julga-los pela aparência e ter os mesmos cuidados pela aparência e ter os mesmos cuidados e consideração para com todos os alimentos. Preparar a comida cuidadosamente, seja grande ou pequena a quantidade, raro, caro, comum ou acessível, sem discriminação.418

Entretanto a tônica da cozinha é o silêncio, o estado de espírito meditativo e contemplativo enquanto se cozinha. “É o silencio que ajuda a transformar o cozinhar em meditação. E é pelo silêncio que você entende mais as pessoas do que quando está falando. Sua percepção fica mais aguçada”, diz a monja Gyoku En.419

Candomblé

No candomblé, obter ingredientes, é uma parte importante do trabalho espiritual, que começa a partir daí. Exu é dono do mercado, é necessário pedir sua permissão e proteção para que tudo saia nos conformes.

Dinheiro e mercadorias; narrativas, informações e cumprimentos têm em comum o fato de serem coisas trocadas. São regidas pelo princípio que governa todas as formas de troca. E porque a troca é movimento e o movimento implica em transitividade, todas elas estão subordinadas a Èsù [...] Esquecê-lo quando se vai às compras é nefasto para os negócios. [...] Isso é verdade, sobretudo, quando se trata de comprar as coisas necessárias para os rituais.420

Depois, aquilo que é extraído da natureza, simplesmente apanhado, também pede-se licença, cantam-se cantigas, pois tudo tem um dono.

Os processos de cozinha também exigem condutas específicas. Dada a importância da culinária litúrgica no candomblé, há uma pessoa designada, um cargo especifico, para comandar a cozinha de santo, trata-se da Iabassê. Podemos entendê-la como a cozinheira dos Orixás.

417 HOLANDA, A. Meditar e cozinhar, uma boa dupla. Vida Simples. Julho, 2013, p. 54. 418 Monja Gyoku En. apud : HOLANDA, A. op. cit., p. 56.

419 Ibid.

132 Ela que se encarrega com suas imediatas, da elaboração e distribuição ritual das comidas oferecidas aos santos e por isso deve ser pessoa de grande experiência e equilíbrio. Geralmente são escolhidas para esse posto mulheres que já atingiram o estagio filosófico da menopausa – e estão, por isso, isentas das interdições rituais associadas aos dias considerados impuros, em que as mulheres não devem tocar as comidas sagradas dos orixás.421

Quem participa da cozinha de santo deve usar suas roupas rituais, brancas, detalhes coloridos apenas se estiverem relacionados ao orixá. Mulheres devem sempre estar de saia com calçolão por baixo. Todos devem usar seus fios de conta e demais acessórios rituais. Depois,

a cozinha é cheia de interdições como: não conversar mais que o necessário, não falar alto, gritar, cantar ou dançar músicas que não sejam do santo, não entrar pessoas que não sejam iniciadas – dependendo do que se estiver fazendo, somente um numero muito restrito – não admitir que mulheres menstruadas permaneçam nela, etc. Nesse espaço sacralizado, tudo vai ganhando significado: a bacia que cai, o garfo, a faca, a colher, o óleo que faz fumaçar no fogo, etc. Na cozinha se aprende além do “ponto” certo de determinado prato, que não se dá as costas para o fogo, não se joga sal no chão, não se mexe comida de orixá com colher que não seja de pau, que a comida mexida por duas pessoas desanda, que não se joga água no fogo e que algumas pessoas por terem o “sangue ruim” fazem a comida desandar,. Ou que a presença de pessoas de um determinado orixá faz com que certa comida não dê certo, como por exemplo: em cozinha onde se tem gente de Xangô o milho de pipoca queima sem estourar.422

O mais importante, contudo, é a diferença na atitude de quem prepara. Preparar comida para as pessoas é uma coisa, mas as comidas para por no “pé do Orixá” implicam uma intenção a ser comunicada:

A diferença está justamente nessas coisas que passam aos nossos olhos como pequenas, mas que na verdade são grandes. Porque quando estou escolhendo feijão para colocar nos pés da Oxum, no que estou escolhendo feijão, eu já estou passando com meu pensamento, com a minha cabeça à Oxum o porque estou fazendo aquilo.423

421 LIMA, V. apud: JUNIOR. V. C. S. op. cit., p. 111. 422 JUNIOR. V. C. S. op. cit., p. 83.

133 Hinduísmo

Com relação ao preparo da comida, o sistema de castas é um imperativo: “a diferença entre castas acarreta tabus gerais em relação a comer comida preparada por castas inferiores, assim, há demanda por Brâmanes (casta mais alta) que desejem ser cozinheiros.”424 A comida preparada

pela casta mais alta pode ser consumida por todos, mas ninguém quer contaminar-se com a comida preparada por alguém de uma casta inferior. Entretanto, alguns alimentos tenham propriedades purificadoras. Algumas preparados pela casta inferior podem ser purificados em outra etapa do preparo. Samosas (pastéis de vegetais), por exemplo, podem ser purificados quando fritos em ghee, devido ao caráter sagrado atribuído a este produto.

No hinduísmo fala-se também sobre a vibração que as comidas emanam

Estejamos ou não consciente a cerca das vibrações, elas têm um efeito sobre nós. Desta maneira, é necessário gerar boas vibrações onde a comida é cultivada, vendida, servida, armazenada ou transportada. Cozinheiros devem sentir-se inspirados e felizes enquanto cozinham. Aqueles que servem devem sentir-se felizes ao servir. Comida preparada por alguém que realmente gosta de cozinhar tem sabor muito diferente do aquela preparada por alguém ansioso [...] Um cozinheiro que é cuidadoso produzirá uma refeição que não apenas tem melhor sabor, mas também favorece a digestão.425

Por tudo que um cozinheiro pode emanar à comida, segundo o hinduísmo, ele deve se preparar para tal atividade, não no sentido da higiene microbiológica, mas no sentido energético:

Na Índia, é tradicional que o cozinheiro tome banho antes de entrar na cozinha. O ritual serve a dois propósitos: primeiro, faz com que o cozinheiro torne-se especialmente consciente do trabalho que iniciará, dirigindo sua atenção, e focalizando sua mente no preparo da comida. Segundo, o banho limpa e purifica, acalma, relaxa, e remove fatiga e depressão.426

424 LATHAM, J. E. e GARDELLA, P. in: JONES, L. op. cit., p. 3168.

425 JOHARI, H. Ayurvedic Healing Cuisine. 200 Vegetarian recipes for health, balance and longevity. Vermont:

Healing Arts Press, s/d, p. 10. Tradução do autor.

134 Islamismo

De forma similar ao judaísmo o Islamismo possui regras estritas em relação à obtenção da carne. Assim como judeus, muçulmanos também não comem animais que morreram naturalmente ou que não foram abatidos segundo seus preceitos, há também a interdição do sangue. Chama-se

Zabihah, o procedimento prescrito pela doutrina islâmica, portanto, para que a carne seja considerada Halal, o abate deve seguir os passos abaixo:

1- O animal deve ser abatido por um muçulmano que tenha atingido a puberdade. Ele deve pronunciar o nome de Alá ou recitar uma oração que contenha o nome de Alá durante o abate, com a face do animal voltada para Meca.

2- O animal não deve estar com sede no momento do abate.

3- A faca deve estar bem afiada e ela não deve ser afiada na frente do animal. O corte deve ser no pescoço em um movimento de meia-lua.

4- Deve-se cortar os três principais vasos (jugular, traqueia e esôfago) do pescoço. 5- A morte deve ser rápida para evitar sofrimentos para o animal.

6- O sangue deve ser totalmente retirado da carcaça.427

Judaísmo

Em relação à obtenção e ao preparo de alimentos no judaísmo as regras principais estão associadas à interdição da mistura de carne e leite. A proibição da mistura é tão imperativa que os mesmos não podem nem mesmo serem armazenados no mesmo refrigerador. Também não se pode usar os mesmos pratos, talheres, panelas e utensílios para manusea-los, mesmo que sejam lavados entre um uso e outro. Um alimento fleishig (relativo a carne), cozido numa panela

milchig (relativo a leite), torna-se trêfá (impróprio). Nem a mesma chama ou forno devem ser usados para ambos.

Quando um utensílio de carne for usado, por engano, para leite ou vice-versa, ele pode tornar-se não kasher, dependendo das circunstâncias. Torna-se não kasher sempre que tenha sofrido ação do calor ou quando houve contato durante vinte e quatro horas

135 ininterruptas, mesmo em estado frio. O mesmo se aplica quando um utensílio kasher é inadvertidamente usado para comida não kasher.428

Há, entretanto maneiras de tornar o objeto trêfá, kasher novamente, realizando-se alguns procedimentos, embora nem tudo seja recuperável.

Tudo depende do modo como de seu uso e da maneira que se tornou kasher. Panelas e talheres usados com liquido quente são recuperados por meio de água fervente. Utensílios usados diretamente sobre o fogo são recuperados incandescendo-os.429

Produtos de barro, cerâmica, porcelana ou com cavidades, falhas, espaços muito estreitos ou partes coladas com frestas de difícil acesso não podem ser recuperados.430

Durante a Pessah, onde se exige produtos não fermentados, também se faz necessário realizar procedimentos para utilização de fornos e utensílios que tenham tido contato com fermentos,

hamêts. Deve-se limpá-los bem e acender a chama máxima por meia hora.431

Para que a carne seja considerada Kasher o animal deve ser abatido “Degolarás do teu gado e do teu rebanho... como te ordenei, e comerás... (Deut. 12, 21).”432 O abatimento dos animais devem

seguir o preceito Shehitá, previsto na Torá:

Este método de abate foi concebido de maneira a causar o mínimo de dor ao animal e a extrair o máximo de sangue. Consiste de um rápido corte de ida e volta, na garganta do animal, por meio de uma lâmina perfeitamente afiada, de comprimento adequado, sem a menor lasca ou falho. O movimento rápido da faca corta a traqueia, o esôfago, os dois nervos as duas carótidas e as veias jugulares [esse método] assegura a drenagem total e rápida do sangue animal, ao invés de permitir sua coagulação dentro da carne.433

O abater ritual é obrigatório apenas para mamíferos e aves, estando peixes isentos. “rebanho e gado serão degolados para eles... o peixe do mar serão ajuntados para eles (Núm. 11, 22).”434

428 DONIN, H. H. op. cit., p. 135. 429 Ibid. 430 Ibid. 431 Ibid., p. 136. 432 Ibid., p. 123. 433 Ibid., p. 123-124. 434 Ibid., p. 123.

136 Além de um abate que favorece a extração do sangue, há também dois métodos aplicados após o abate: “deixar de molho e salgar”435, para que o sal, por osmose faça o mesmo sair, ou “o método

de assar em cima ou em baixo de uma chama ou num forno elétrico ou assadeira elétrica.”436 De

modo que o sangue escorra.