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Public finances: Less transparency, more concealment

4. POLITICAL AND INSTITUTIONAL COSTS AND EFFECTS

4.6 Public finances: Less transparency, more concealment

Ao final do capítulo II falamos sobre o papel domesticador das religiões, no sentido de que as religiões, sendo um sistema simbólico que constrói a realidade determina muitos dos comportamentos do homem, entre eles, os que se referem à alimentação. Usando a própria alimentação, depois, como uma ferramenta para construir o homem. A alimentação auxilia através do reforço às proposições religiosas. Se a religião incentiva comportamentos que facilitam a colaboração no interior do grupo, em relação à alimentação, é esperado que encoraje práticas onde haja doação, especialmente de alimentos, recurso mais importante ao homem desde a antiguidade. Num primeiro momento o homem aprende a trocar com os “deuses” ou outras entidades sobrenaturais que acredita,

Eram antes de mais nada os espíritos dos mortos e dos deuses. Com efeito, são eles os verdadeiros donos das coisa do mundo. Era com eles que era mais necessário trocar e mais perigoso não trocar. Mas inversamente, era com eles que era mais fácil e mais seguro trocar.465

464 Ibid., 194.

150 Em tese, depois da troca, aprenderiam a doar. A festa do sacrifício no islamismo, Id al Adha, citada no capítulo III, ilustra bem esta questão, um cordeiro é sacrificado a deus e parte dele deve ser doada.

Além das categorias jejum, dietas regulares, interdições alimentares e, as práticas alimentares circunscritas nas categorias oferendas de alimentos e sacrifícios de animais também exercem sobre o homem as funções social e domesticadora, uma vez que reforça ao homem a partilha de alimentos. O que já era feito quando o homem aprendeu a caçar animais de grande porte ou grandes rebanhos de uma vez, adquire com o tempo aspectos culturais. Contra o mesmo programa acúmulo, o homem abrirá mão de alguns dos alimentos que por vezes lhe são caros ou desejados, ou abrirá mão de pelo menos de parte destes alimentos. “Os sistemas sacrificiais que admitem o consumo de uma parte da vítima caracterizam-se, principalmente pela partilha dos animais sacrificados entre os homens e os deuses e pelo banquete dentro do grupo social.”466

Oferendas e sacrifícios de alimentos, sempre ligados à religião, instituíram regras para o uso da terra e daquilo que ela produzia, bem como para abate e consumo de animais. Há uma gramática sacrificial:

O sacrifício não pode se realizar em qualquer momento, lugar ou circunstancia. Assim nem todos os momentos do dia ou do ano são igualmente propícios ao sacrifícios, e há mesmo alguns que os excluem [...] A partir do momento em que começou, deve prosseguir até o final sem interrupção e na ordem ritual. É preciso que todas as operações de que se compõe se sucedam sem lacuna e estejam em seu lugar [...] o próprio local da cena deve ser sagrado: fora de um local santo a imolação não é mais que um assassinato.467

Na antiguidade observa-se claramente as regras para consumo de carne propiciadas pela prática sacrificial: “o mundo mediterrâneo antigo está sujeito a uma mesma regra: os animais não poderiam ser mortos a não ser no respeito à religião, ou seja, sacrificados.”468

O sacrifício educa o homem porque ensina-o a controlar o instinto da fome, além das regras sobre tempo, espaço e o modo de abate, ele não poderá consumir o animal (nos sacrifícios em

466 FLANDRIN, J-L. e MONTANARI, M. op. cit., p. 127. Grifo nosso. 467 MAUSS, M. e HUBERT, H. op. cit., p. 31-35.

151 que é queimado), ou pelo menos não poderá consumi-lo inteiro, “para que a vítima possa ser utilizada pelos homens, é preciso que os deuses tenham recebido sua parte primeiro.”469

Ao contrário da imagem que muitos têm sobre o sacrifício animal hoje: barbárie, crueldade, primitivismo; o sacrifício teve e em certas circunstâncias ainda tem um importante papel de disciplinar a voracidade, porque regulamenta o consumo de carne.

Talvez possamos considerar muito mais “bárbaro” o consumo indiscriminado de carnes em churrascos por exemplo. Se o consumo da carne sacrificial é gramática, o churrasco é a entropia. Mesmo porque: “A técnica de assar carne no espeto já vem do homem de Neandertal.”470 A

carne é consumida sem limites, sem aspectos que fortaleçam a coesão do grupo e sem nenhum objetivo que favoreça a espécie, nem mesmo nutricionalmente, uma vez que o consumo excessivo de carne causa doenças como obesidade, hipertensão arterial, acidentes vasculares, etc. É através dos sacrifícios e das oferendas que se aprende a “pagar” aquilo de que se usufrui, isto é, o homem aprende não apenas a usar indiscriminadamente, mas a trocar. Para obter o favor dos deuses, deve oferecer algo em troca, abrir mão de alguma coisa. “Em todo sacrifício há um ato de abnegação, já que o sacrificante se priva e dá. E geralmente essa abnegação lhe é mesmo imposta como um dever, pois o sacrifício nem sempre é facultativo; os deuses o exigem.”471

A comida de Orixá aparece seguida da ideia de retribuição. Seja na cantiga: “Quem me dá o que comer também come, quem me dá o de beber também bebe...” Ou na explicação: “Se a gente não der, a gente não recebe, tem que oferecer a eles para que recebamos.”472

Este processo nos remete ao mecanismo recompensa/custo, explorado anteriormente. O homem aprende primeiro a noção de economia em seu processo biológico, especialmente por conta do custos da alimentação, depois aprenderá a “negociar” em outras. Exploramos também este aspecto no item 2.3 Animais e plantas nos sistemas culinários, quando estas categorias enfatizam a partilha entre membros de um grupo assume um viés mais social e quando se trata da partilha

469 MAUSS, M. e HUBERT, H. op. cit., p. 50. 470 RADEL, G. op. cit., p. 23.

471 MAUSS, M. e HUBERT, H. op. cit., p. 106. 472 JUNIOR, V. C. S. op. cit., p. 34.

152 ou oferta a seres sobrenaturais observa-se mais a questão domesticadora, pois exige daquele que oferece ou partilha uma grande convicção.