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Impact of the hidden debts: Methodology and calculation

3. THE INDIRECT LOSSES CAUSED BY THE HIDDEN DEBTS

3.2 Impact of the hidden debts: Methodology and calculation

Muito do comportamento de um animal é determinado por seus programas inatos, mas há também uma boa parcela que deve ser aprendida socialmente. Pássaros aprendem a voar com suas mães, bem como babuínos aprendem a achar rotas de fuga de predadores com os membros mais velhos de seu grupo.107 A aprendizagem social, não é exclusividade humana. Tais recursos transmitidos socialmente são imprescindíveis tanto para a sobrevivência do ser quanto para que ele torne-se humano. Isto se evidencia no caso relatado a seguir:

Em 1922, elas [duas meninas] foram resgatadas de uma família de lobos que as haviam criado em completo isolamento do contato humano. Uma das meninas tinha oito anos e a outra cinco. A menor morreu pouco depois de encontrada e a maior sobreviveu cerca de dez anos, juntamente com outros órfãos com os quais foi criada. Ao serem achadas, as meninas não sabiam caminhar sobre os pés e se movimentavam rapidamente de quatro. Não falavam e tinham rostos inexpressivos. Só queriam comer carne crua e tinham hábitos noturnos. Recusavam o contato humano e preferiam a companhia de cães ou lobos. Ao serem resgatadas, estavam perfeitamente sadias e não apresentavam nenhum sintoma de debilidade mental ou idiotia por desnutrição. Sua separação da família lupina produziu nelas uma profunda depressão, que as levou à beira da morte, e uma realmente faleceu. A menina que sobreviveu dez anos acabou mudando seus hábitos alimentares e ciclos de vida, aprendeu a andar sobre dois pés, embora sempre recorresse à corrida de quatro em situações urgentes. Nunca chegou propriamente a falar, embora usasse algumas palavras. A família do missionário anglicano que a resgatou e cuidou dela, bem como outras pessoas que a conheceram com alguma intimidade, jamais a sentiram como verdadeiramente humana.108

Os processos de seleção natural privilegiaram os espécimes com melhor desempenho das funções cerebrais: “a cultura constitui uma estrutura que acolhe favoravelmente toda a mutação biológica que vise a complexificação cerebral”109. Isto é compreensível porque uma solução do

tipo abrir um fruto de casca dura usando uma pedra é muito mais rápido e menos biologicamente custoso do que sofrer uma mutação anatômica do tipo desenvolver dentes mais resistentes e afiados, mandíbulas mais fortes ou outra solução que envolva mudança na estrutura corporal. Falar de uma melhora na solução dos problemas operacionais cotidianos do homem é ainda considerá-lo somente como o homo sapiens, ou o animal humano, no sentido de ser mais uma

107 LORENZ, K. A Agressão. Uma historia natural do mal. Santos: Martins Fontes, 1973, p. 58. 108 MATURANA, H. e VARELA, F. op.cit., p. 145.

43 espécie dentre tantas outras. O que realmente distanciará o homem das outras espécies será a linguagem; como enfatiza Roy Rappaport, a linguagem é responsável não pelo desenvolvimento humano, mas pelo desenvolvimento da Humanidade; nossos ancestrais só tornaram-se completamente humanos com a emergência da linguagem.110

Em termos adaptativos a linguagem possibilita uma mudança muito mais rápida e mais econômica, em vez de ter de sofrer uma mutação genética, o que poderia levar alguns milhares de anos, basta mudar algumas proposições.

Quando organização social e regras de comportamento são estipuladas através de convenções, expressas em palavras em vez de especificadas em genes inscritos em cromossomos, elas podem ser substituídas no tempo de uma única geração e, às vezes até mesmo, da noite para o dia.111

Sabemos que os sistemas são baseados na premissa de que o todo é maior que a soma de suas partes, no sentido de que a organização entre elementos faz surgir resultados muito mais eficientes do que as ações individuais. Para tal organização, porém, faz-se necessário um meio eficaz de interação, uma linguagem que gere conectividade entre os subsistemas. Talvez o sexo tenha sido a primeira forma de comunicação, que forçaria seres a trocarem informações entre si, agindo de forma sistêmica. “A linguagem, a mais radical inovação no processo evolutivo desde o aparecimento do sexo, possuindo similaridades em alguns aspectos. Os dois, acima de tudo, são meios de recombinar e transmitir informações.”112

Maturana dirá que a comunicação não é apenas transmissão de informações, mas uma coordenação entre organismos vivos.113 O aprendizado social depende principalmente de uma linguagem, seja ela qual for, a linguagem permite que se aprenda através da experiência alheia.

todos os animais comunicam-se e mesmo plantas recebem e transmitem informação, mas apenas humanos, até onde sabemos, possuem linguagens compostas de primeiro, de um

110 RAPPAPORT, R. op.cit, p. 4. 111 Ibid., p. 7.

112 Ibid., p. 8.

44 léxico feito de símbolos, no sentido de Peirce114 e segundo, de gramáticas, conjuntos de

regras para combinar símbolos em discursos semanticamente coesos.115

É, entretanto, o uso do símbolo que realmente coloca o homem em outra posição. O uso do símbolo significa que consegue gerar uma ideia sobre uma coisa concreta, que consegue inclusive dissociar a própria ideia deste concreto.

Humanos são particularmente bem equipados com a capacidade de modelar seus sentidos em impressões cognitivas. É quando estas transformações mentais de nossas experiências corpóreas são codificadas em sinais e sinais em sistemas de sinais que se transformam permanentemente em transportáveis em forma de unidades cognitivas fenomenologicamente livres de suas unidades fisiológicas de ocorrência.116

Não é mais necessário ter presente a água para se falar da água, o homem aprende a fazer

deslocamento conceitual, percebe que um mesmo mecanismo ou ideia pode ser aplicado a várias coisas, através de representações. Ele passa a extrair modelos de tudo o que vê.

Clifford Geertz falará em intertransponibilidade de modelos, classificando em modelos para, forma pela qual animais e humanos podem aprender e desenvolver atividades; e modelos de, meio pelo qual aparentemente apenas seres humanos aprendem e desenvolvem suas atividades.117 Citando Konrad Lorenz, Geertz explica como funciona o modelo para, encontrados em toda ordem de natureza:

Entre os animais, o aprendizado gravado é talvez o exemplo mais marcante, pois o que esse aprendizado envolve é a apresentação automática de uma sequência comportamental apropriada de um animal-modelo na presença de um animal-aprendiz e que serve, com o mesmo automatismo, para provocar e estabilizar certo conjunto de respostas geneticamente construídas no animal-aprendiz.118

114PEIRCE, C. S. Semiótica e Filosofia. São Paulo: Editora Cutrix 1993 p. 126. Segundo Peirce símbolo é um signo

que representa por hábito ou convenção.

115 RAPPAPORT, R. op. cit., p. 4.

116 SEBEOK, T. Signs. An introduction to semiotics. Toronto: University of Toronto Press Incorporated, 1994, p.

xiii. Tradução do autor.

117 GEERTZ, C. op. cit., p. 69 e 70.

45 Neste sentido, até mesmo “um primeiro filete de água a encontrar seu caminho de uma fonte na montanha para o mar, abrindo um pequeno canal para maior volume de água que irá segui-lo, desempenha uma espécie de modelo para a função.”119

Entretanto, no caso humano, a experiência pode ser transferida de uma forma bem mais complexa do que uma mimese, pode-se extrair o conceito, é isto que Geertz classificará como:

Modelos de processos – linguísticos, gráfico, mecânico, natural, etc., que funcionam não para fornecer fontes de informações em termos das quais outros processos podem ser padronizados, mas para representar esses processos padronizados como tal, para expressar sua estrutura num meio alternativo – são muito mais raros, e talvez se encontrem apenas no homem. A percepção da congruência estrutural entre um conjunto de processos, atividades, relações, entidades e assim por diante, e outro conjunto para o qual ele atua como um programa, de forma que possa ser tomado como uma representação ou uma concepção – um símbolo – do programado, é a essência do pensamento humano.120

Desta maneira, “a emergência do símbolo não apenas aumentou a capacidade conceitual, mas também tornou novas formas de aprendizado possíveis.”121 Com um conjunto crescente de

modelos que acoplava e a capacidade de estabelecer congruências estruturais entre tudo, o homem passou a interpretar e consequentemente explicar a si mesmo, mistérios como a origem e dinâmica das coisas, dos seres... Começando já por interpretar e classificar o que via, como coisas ou seres, concepções animistas, por exemplo, classificam coisas como seres.

Cada sociedade desenvolve uma cultura única, e que se pode dizer também que constrói um mundo único que inclui não apenas uma compreensão especial de árvores, rochas e água... Mas também outras coisas, muitas delas invisíveis, tão reais quanto aquelas arvores, animais e rochas.122

A partir do momento em que o homem classifica um objeto como uma coisa ou outra, dá-lhe significado e passa a interagir com tal objeto segundo aquilo que acredita ser tal objeto.

Com a linguagem o mundo se torna mobiliado com qualidades como bom e mal, abstrações como democracia e comunismo, valores como honra, generosidade e seres imaginários como demônios, espíritos e deuses; e locais imaginados como céu e inferno.

119 CRAIK, apud: GEERTZ, C. op. cit. p., 70. 120 GEERTZ, C. op. cit., p. 70.

121 RAPPAPORT, R. op. cit., p. 4. 122 Ibid., p. 9.

46 Todos estes conceitos são reificados, feitos res, reais ‘coisas’ pelo contingente de ações sociais sobre a linguagem.123

No Candomblé, religião sacrificial por excelência, o sangue tem um grande valor. É visto como o depositário da força vital que anima todas as coisas, o axé. O mais interessante é que “o termo sangue parece motivado, sobretudo, pela metáfora do fluxo vital que anima o Universo.”124

Assim, consideram sangue muitas substâncias, tais como o mel, sangue das flores, água, sangue da terra, etc. Por atribuírem este poder de a tudo animar tais sangues, utilizam-nos para animar objetos e seres imateriais.

Também na escolha de seus animais para sacrifício, as características dos mesmos são relacionadas àquilo que se deseja obter. O ìgbín, caramujo, “é oferecido nos momentos em que a paz é necessária. O movimento vagaroso, cuidadoso e firme dos caracóis os impede de choques e confusões entre si.”125

Tudo tem um significado dentro de um significado maior. Mesmo questões que poderiam ser consideradas puramente materiais como o sexo, o repouso, a alimentação, a eliminação, as doenças, o nascimento e a morte, revestem-se de significados. Uma vez imbuídas de significados, estas ações sancionam o sistema de crenças. Assim, a linguagem no sentido de cultura, passou de criação do homem a criadora dele.

A partir deste momento não é mais o determinismo geográfico que impera na construção da alimentação, mas um determinismo sociocultural.

Os hábitos e tradições alimentares constituem uma herança cultural que é recebida junto com o leite materno e que permanecerá tanto no nível consciente das prerrogativas religiosas ou dietéticas como no nível inconsciente das mentalidades e dos gostos coletivos.126

123 Ibid., p. 8.

124 VOGEL, A. ET AL. Galinha D’Angola. Iniciação e identidade na cultura afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas,

2001, p. 100.

125 BENISTE, J. Òrun – àiyé. O encontro de dois mundos. O sistema de relacionamento Nagô-Yorubá entre o céu e

a terra. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002, p. 310.

47 A alimentação passa a ser um veículo de transmissão sociocultural. Primeiro, definimos nosso gosto no sentido físico, o indivíduo é influenciado pelos hábitos alimentares da mãe ainda no período de gestação, depois, através do processo de socialização, aprenderá a “gostar” de certos alimentos e a “desgostar” de outros. Aprenderá também a gramática alimentar de seu contexto social: os alimentos são classificados e, portanto, têm hora e maneira correta de serem consumidos.

Enganam-se os que pensam que o sistema gastrointestinal é aquele por meio do qual o corpo se relaciona fundamentalmente com objetos. Na realidade, são as convenções sociais que decidem o que é o que não é alimento, bem como quem pode comer o que e quando.127

As refeições transmitirão ao indivíduo uma noção de tempo, espaço e valores, especialmente se o sistema culinário a que estiver submetido for determinado por uma religião: dia de jejum, hora de comer doces, dia de comer carne, dia de festas, etc. A forma de se alimentar ajuda a internalizar o sistema de crenças. (detalharemos mais este aspecto no item 4.5 Sistemas culinários como

marcadores de tempo)

Talvez não haja melhor exemplo de transmissão da crença religiosa através da alimentação do que o Judaísmo. O sistema culinário judaico tem produzido por todo o mundo uma infinidade de livros de receita. Em geral, todos estes livros mencionam, além das receitas obviamente, o significado das comidas, em quais ocasiões (celebrações litúrgicas) devem ser servidas, e todas as tradicionais histórias ligadas a seus pratos típicos. Muitos destes livros foram escritos por mulheres judias, mães, o que reforça ainda mais o poder transmissivo destas obras. Gostaríamos de dar destaque, no Brasil, ao livro de Viviane Lessa e Léo Steinbruch, Cozinha Judaica da

Maria. O livro relata 21 histórias de “Marias” de distintas procedências, isto é, mulheres que trabalharam como cozinheiras em lares judeus do Brasil. A maioria delas, não judias, tiveram que aprender a nova “linguagem culinária” que se apresentava. Em contato com a cozinha, aprenderam também sobre a religião e a cultura. “Acho que sou mais judia do que católica. Para

mim, todas as religiões são boas, mas acho que eu já gosto mais da judaica.”128, diz Ana Maria

dos Santos, uma das “Marias” do livro.

127 RODRIGUES, J. C. op. cit., p. 64.

48 Carlos Alberto Doria utilizando o conceito de meme, “unidade de transmissão cultural, ou unidade de imitação”129, proposta por Richard Dawkins em o gene egoísta, coloca as receitas

culinárias como sendo memes dos diversos sistemas culinários130, na cultura judaica como em outras, poderíamos dizer que as receitas culinárias são memes não apenas do sistema culinário, mas de todo um sistema cultural. Os livros de receitas culinárias podem ser um modelo para, quando se trata da técnica de preparo propriamente dita, pois padroniza um modo técnico de se executar um prato com características particulares. As mesmas receitas são também um modelo

de, quando representa as características de um sistema culinário. Pode ser que receitas de Gefilte

Fish (bolinho de peixe da cozinha judaica) existentes no mundo não sejam idênticas, mas possuem elementos comuns que caracterizam-nas como receitas tipicamente judaicas.131

Os modelos de aprendizagem propostos por Geertz podem ser complementados por Damásio que sugere que tudo aquilo que inventamos foi na verdade o acesso a um conhecimento oculto possível apenas após o desenvolvimento da mente consciente. É como se no processo evolutivo todas as soluções proporcionadas pelos processos adaptativos de milhões de espécies tivessem sido registradas e a mente consciente pudesse finalmente acessá-las de alguma maneira.

É comum cairmos na armadilha de ver nosso grande cérebro e nossa complexa mente consciente como responsáveis por atitudes, intenções e estratégias por trás de nossa sofisticada gestão da vida [...] Mas a realidade é que a mente consciente apenas tornou o know-how básico da gestão da vida conhecível [...] O conhecimento oculto da gestão da vida precedeu a experiência consciente [...] Sem menosprezar a consciência, certamente enalteço a gestão não consciente da vida e suponho que ela constitui o gabarito [oculto] para as atitudes e intenções da mente consciente.132

Logo, qualquer coisa que podemos pensar já foi criada pela natureza, porém, com este recurso o homem pode não apenas interromper certos programas, mas construir novos, com base em suas observações e naquilo que tem gravado em si.

Assim, nossa grande habilidade consiste em converter as soluções da natureza, sejam observada ou contidas em nós em modelos para e modelos de, conforme dito em Geertz e posteriormente,

129 DORIA, C. A. op. cit., p. 146. 130 Ibid.

131 Assim como em outros sistemas, os sistemas culinários apresentam estrutura e organização. A organização

permanece sempre a mesma, de modo que reconheçamos uma determinada cozinha, mas as estruturas podem mudar, como no exemplo dos templos budistas. Ver pág. 20.

49 atribuir a elas significado para que a realidade seja construída. Segundo Edward Wilson, nem mesmo nossos valores morais e éticos escapam à origem biológica:

Como qualquer um, os filósofos avaliam suas reações emocionais pessoais a varias alternativas como se consultassem um oráculo oculto. Esse oráculo reside nos centros emocionais profundos do cérebro, muito provavelmente dentro do sistema límbico, um complexo localizado logo abaixo da porção “pensante” do córtex cerebral. As respostas emocionais humanas e as praticas éticas mais gerais nelas baseadas foram programadas, em grande parte, pela seleção natural ao longo de milhares de gerações.133

Este mecanismo demonstra que, mesmo com todo o avanço do homem, somos ainda limitados em nosso repertório de soluções. “A ação humana é orientada por um sistema de processamento complexo, porém finito.”134

Os valores que atribuímos aos alimentos remontam um processo biológico de acesso ao “gabarito oculto”. As classificações que atribuímos aos alimentos nascem em estruturas que só começamos a descobrir recentemente. Trata-se do uso de um compêndio de conhecimentos construído ao longo de milênios, gravado em nossa memória genética.