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O último conjunto noticioso a ser analisado dentro da categoria da relação direta entre elementos verbais e visuais foi publicado no jornal Folha de S.Paulo do dia sete de outubro de 2012, no página B4, do caderno Mercado. Refere-se à política de implementação de cotas de importação de carros asiáticos pelo Brasil. Na sequência, pode ser conferida a página completa na qual o conjunto foi publicado:

142 O conjunto ocupa as duas colunas da esquerda da página, compreendendo a altura dos três quartos inferiores da página. Numa leitura vertical, de cima para baixo, primeiramente encontra-se uma fotografia creditada a Eduardo Anizelli, da Folhapress, seguida da legenda “Fachada de concessionária da Kia na região central de SP”. Logo abaixo há a manchete: “Cotas dividem destino de carro asiático importado”, seguida da linha fina: “Novo regime limita a Kia, da Coreia, e favorece as chinesas Jac e Chery”. Há ainda uma segunda linha fina antes do texto principal, negritada: “Em um mês, coreana já estoura teto anual; rivais da China têm folga maior porque anunciaram abrir fábricas no Brasil”. O texto principal, assinado por Gabriel Baldocchi, de São Paulo, está transcrito na sequência:

Em um mês de vendas, a sul-coreana Kia já estoura o limite anual estabelecido pelo governo para importações de veículos sem adicional de 30 pontos percentuais no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

O novo regime automotivo, divulgado na quinta, estipulou uma cota isenta de tributação maior para marcas sem fábricas no país e sem intenção de produzir localmente.

O cálculo é feito com base nas importações de 2009 a 2011, mas está limitado a 4.800 unidades por ano.

A coreana é importadora de maior volume em atuação no país, responsável por 32% dos veículos trazidos do exterior, sem considerar os modelos vindos do Mercosul e do México, com regras diferentes de tributação.

Em 2011, antes da adoção do adicional tributário para os importados, essa fatia era de 38,7% e o volume mensal de emplacamento ficava próximo de 6.400 unidades.

A alta do IPI pesou sobre as vendas deste ano, que caíram quase pela metade.

A expectativa de que o governo criasse as cotas dava confiança aos importadores, mas os limites anunciados pelo governo desanimou uma parte deles.

O horizontes de vigência da restrição – o regime vale até 2017 – complica as operações da Kia no país.

Com faturamento aproximado de R$ 5 bilhões, a coreana tem hoje 172 concessionárias e cerca de 8.000 funcionários no Brasil.

Até agora, diferente de outros importadores, a empresa ainda não falou em produzir no país. Procurada, a Kia não quis comentar.

CHINESAS

Em seguida, na ordem de volume de vendas de importados, JAC e Chery vivem outro momento. Com mais de 20 mil unidades emplacadas em 2011, elas comemoraram o novo regime.

As duas já haviam anunciado fábricas e, portando, poderão usar uma cota extra, incluída no regime, equivalente a 50% da capacidade de produção futura no Brasil, de 100 mil e até 150 mil unidades, respectivamente.

As marcas de alto luxo, como Ferrari e Maserati, pouco devem ser afetadas pelas cotas. Há também um grupo intermediário (Volvo, Audi etc.), para qual a restrição terá impacto, mas parcial.

143 O conjunto noticioso em destaque:

Como informa a legenda, a fotografia é de uma concessionária da Kia na cidade de São Paulo. Nela, podemos ver, à esquerda, a dianteira de quatro carros enfileirados e, à direta,

144 seus reflexos produzidos pelo vidro da fachada, que, pelo enquadramento da foto, praticamente divide a fotografia ao meio, verticalmente.

Béguin-Verbrugge (2006) já apontou a função dos quadros, no tocante ao enquadramento, como “operadores sintáticos privilegiados dos enunciados pluricódicos” (2006, p. 291, tradução própria) 77. No caso aqui analisado, é o enquadramento que permite estabelecer o desdobramento metaenunciativo opacificante.

A divisão estabelecida pelo enquadramento da fotografia é clara, tendo o vidro da vitrine como uma divisória, com carros em ambos os lados, mesmo que, no plano à esquerda sejam os carros reais e, à direita, o reflexo dos mesmos no vidro. O enquadramento, portanto, constrói a divisão da foto. Vale ressaltar que o que cumpre a função de divisão na fotografia é a vitrine da loja, que tem por função dividir a área interna do estabelecimento da sua área externa, além de possibilitar a exposição de seus produtos.

Já na manchete do conjunto noticioso, portanto, no plano verbal, há a presença do verbo dividir: “cotas dividem destino de carro asiático importado”. Esta divisão, como se compreende pela leitura do texto, refere-se sobre as consequências de um novo regime de tributação estabelecido pelo governo: enquanto que a sul-coreana Kia fica prejudicada pela ação, as chinesas JAC e Chery saem favorecidas.

A relação direta a ser estabelecida e que propicia o desdobramento metaenunciativo opacificante é entre esses dois elementos:

plano verbal plano visual

Verbo dividir Enquadramento de dividir

Dividir o futuro de importadoras de carros: duas favorecidas e uma prejudicada com novo regime de tributação

Construir uma separação de planos, ter dois planos opostos

Como apontado, o resultado de um enquadramento pode possibilitar o estabelecimento de uma relação direta com um elemento verbal e assim ser opacificado. Não é a imagem da vitrine que é opacificada nesta relação, por mais que ela também divida o interno com o externo da loja, mas é a forma como ela é apresentada na composição da fotografia que a transforma em uma divisória do plano visual, criando dois planos opostos conforme se pode constatar:

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plano verbal plano visual

Verbo dividir Enquadramento de dividir

dividir o futuro de importadoras de carros: duas favorecidas e uma prejudicada com novo regime de tributação

construir uma separação de planos, ter dois planos opostos

plano verbo-visual

a fotografia dividida em dois planos, tendo os carros nos planos opostos confrontando-se, mostra a divisão do futuro das importadoras de veículos

Construído o desdobramento, por meio da relação direta entre o verbo dividir e o enquadramento que divide e a fotografia em dois planos opostos, a divisória flagrada e centrada na fotografia não mais representa o registro da vitrine de uma concessionária, como informa a legenda, mas sim a divisão do destino dos carros importados, como destaca a manchete do conjunto noticioso.

Resolveu-se enquadrar esse tipo de desdobramento metaenunciativo como sendo de relação direta entre elementos verbais e visuais porque o enquadramento foi tomado como um elemento visual e, assim, como há uma clara divisão da fotografia e a presença do verbo dividir, a relação direta entre eles pôde ser estabelecida. Tanto Béguin-Verbrugge (2006), quanto o Grupo μ (1992) já apontaram os efeitos sintáticos e retóricos do enquadramento e da composição do plano visual, o que poderia abrir outra discussão sobre o tipo de relação estabelecida entre eles.

Entretanto, dentro do corpus da presente pesquisa, o único conjunto noticioso no qual esse desdobramento foi flagrado foi o analisado, o que não permitiu identificar por ora algum mínimo funcionamento comum entre ele e algum outro do qual poderia ser extraída uma nova dinâmica recorrente que possibilitasse a construção de outra categoria de análise das aspas verbo-visuais.

Isso não implica que ela não poderá ser formulada em pesquisas posteriores, por meio de análises que centrem na relação entre elementos verbais, composições e formas visuais, dentro da orientação de uma retórica do visual (como, à guisa de exemplo, a construída pelo Grupo μ), criando-se uma nova categoria de análise como, talvez, a de aspas verbo-visuais de tipo relação direta entre elemento verbal e forma visual. Os caligramas, por exemplo, poderiam ser classificados dentro dessa categoria.

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