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Tekstuell kontekst: Kjendiser, keisere og andre tekster

4. Fashion på alvor – fire tekster fra Oslo Fashion Week

4.5 Dagbladet.no: Keiserens nye klær – kommentar på moten

4.5.2 Tekstuell kontekst: Kjendiser, keisere og andre tekster

Outra forma de denominar essas línguas ―ameaçadas de extinção‖, além do termo ―moribundas‖, o qual indica que as línguas irão desaparecer, seria utilizando-se dos termos que indicam que essas línguas podem ser revitalizadas, a saber: ―adormecidas‖, em ―silêncio‖ (HINTON, 2011e) ou ―anêmicas‖ (RODRIGUES, 2000). Este indica que as língus estariam carentes de sangue das populações, com um número reduzido de usuários. Freire (2008) observou que a língua Kokama pode ser qualificada como uma língua ―anêmica‖, visto que algumas crianças têm falado essa língua, indicando assim que ela não irá desaparecer.

Línguas de falantes que foram separados em diversas aldeias de repartição, misturando-se aos falantes de línguas diferentes e ambientes em espaços artificialmente criados podem ser vistas como ―anêmicas‖ (FREIRE, 2003, p. 78). Pode-se dizer que os falantes da língua Kokama passaram por esse processo de separação em que algumas famílias iam trabalhar nos seringais (ambientes artificialmente criados) ou migravam para outras regiões devido a pressões existentes nas terras indígenas, como nos casos referidos por Rubim (2011). O processo de separação e migração, além de tornar a língua Kokama ―anêmica‖, fez com que ficasse ―silenciada‖, devido às press es sofridas nesses ambientes.

No século XVI, os Kokama organizavam-se em ―grandes cacicados‖ onde viviam naturalmente a sua cultura:

[...] os Kokama, parentes dos Omagua, ocupavam a calha central do Alto Solimões e a confluência do rio Amazonas com os rios Napo, Ucayali e Huallaga. No século XVI, organizados em grandes cacicados, eles construíam imponentes malocas, teciam mantas coloridas de algodão e redes de dormir, fabricavam canoas e instrumentos musicais, mantinham currais de tartarugas, torravam farinha, produziam alimentos em abundância, narravam seus mitos, constituindo aquilo que o arqueólogo americano Donald Lathrap denominou de ―civilização da mandioca‖ (FREIRE, 2008)295.

No entanto, no período colonial foram dizimados pelos espanhóis e pelos portugueses que também os escravizaram. E como mencionado anteriormente, no período da República, sofreram investidas dos patrões seringalistas296. Essas foram algumas das causas

295 FREIRE, José Ribamar. Aqui começa o Brasil..Diário do Amazonas. Taqui pra ti . 20/01/2008. Disponível em: http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=102> Acesso em 18 jun. 2014

da dispersão297 dos Kokama pelos centros urbanos e por comunidades, em que os Kokama permaneceram por muito tempo ―camuflados‖.

Outros, no entanto, resistiram, permanecendo camuflados nas comunidades, disfarçados de cabocos. Ninguém tinha interesse em ser identificado. Para continuar sendo índios, tinham que fingir que não eram. “A gente tinha muito medo, não ensinava a língua para os filhos, para que não fossem reconhecidos como índios, pois seriam humilhados, castigados e explorados”, explica Francisco Samias, professor Kokama [...] (FREIRE, 2008).

Dada esta situação de ―invisibilidade‖, a qual ocorreu também no Peru, Anthony Stocks publicou a obra Los Nativos Invisibles: Notas sobre la Historia y Realidad Actual de los Cocamilla del Rio Huallaga298que trata da atuação das missões entre os ―cocama e cocamilla‖, e dentre outros temas, da onomástica entre os indígenas residentes do Peru, em que os cocama e os cocamilla usavam sobrenomes não indígenas para não serem identificados como indígenas, pois assim sofreriam preconceitos.

Nos vales do Amazonas, Marañon e Ucayali, faz-se uma distinção entre apelidos humildes ["sobrenomes humildes"] e apellidos altos ["sobrenomes elevados"] ou apellidos de viracocha ["sobrenomes de branco"] (Stocks 1981:140-141; ver, também, Gow 1991 e Chibnik 1994). Como se dá em todo o mundo hispânico, as pessoas são identificadas por um prenome pessoal, pelo sobrenome do pai do pai e pelo sobrenome do pai da mãe. Assim, os homens transmitem seus sobrenomes paternos continuamente através das gerações, enquanto as mulheres transmitem os seus apenas por uma geração (GOW, 2003)299

Segundo Gow (2003), a troca do sobrenome estava vinculada, naquela época, à busca por uma posição social mais elevada e sugere que ao disfarçar a sua identidade os indígenas buscavam sinalizar que tinham ―a intenção de abandonar seus laços de parentesco‖.

Em contrapartida, os Kokama-Kokamillas do Peru, ao mesmo tempo em que sofriam repressão e por isso tinham que se ―camuflar‖ e, às vezes aderir a outros sobrenomes, vêm buscando desde a década de 1980, assim como os Kokama no Brasil, conexão com suas raízes e histórias, além de investirem em ações para a revitalização da língua e da cultura, como afirma Rosa Vallejos:

297 Muitos autores abordaram a questão do deslocamento dos Kokama, tais como: Curt Nimuendaju (1944), Rivas (2000), Stocks (1981), entre outros.

298 STOCKS, Anthony. Los Nativos Invisibles: Notas sobre la Historia y Realidad Actual de los Cocamilla del Rio Huallaga.Lima: CAAAP. 1981.

299 GOW, Peter. "Ex-cocama": identidades em transformação na Amazônia peruana. Mana vol.9 no.1 Rio de Janeiro Apr. 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 93132003000100004 Acesso em: 20 jun. 2014.

Desde o início de 1980, o Kokama-Kokamillas têm promovido esforços de revitalização da língua, incluindo reuniões anuais com o único propósito de falar sua língua de origem e desenvolver programas de rádio local produzidos em Kokama-Kokamilla. Estas duas atividades foram desenvolvidas com o apoio do Centro de Capacitación Campesina de la Amazonía (CENNCA), Igreja Católica Vicariato-Nauta, Loreto. Outra iniciativa que tem sido importante é a formação de professores do ensino fundamental bilíngüe para ensinar Kokama-Kokamilla como uma segunda língua. Esta iniciativa surgiu dos próprios membros da comunidade organizados no âmbito da associação indígena AIDESEP nacional (VALLEJOS, 2010, p. 33, tradução nossa)300.

No Brasil, devido à busca pelo reconhecimento da identidade étnica junto a FUNAI, por meio do Registro Administrativo de Nascimento do Índio (RANI), os Kokama discutiram em Assembleia Geral sobre a escolha de nomes indígenas. Conforme Almeida e Rubim (2011), noutra reunião os Kokama da comunidade Nova Esperança continuaram as discussões e foram ―renomeados‖ como uma forma de valorizarem a sua autodenominação indígena. Alguns dos nomes próprios escolhidos foram: para mulher Sisa ‗flor‘ e Amana ‗chuva‘ e para homem: Mapa ‗abelha‘ e Tuan ‗grande‘. Outros membros da comunidade já possuíam nomes indígenas, mas ainda não tinham o registro indígena (ALMEIDA; RUBIM, 2012) .

Na Colômbia, Sandra Patricia Rodríguez González realizou pesquisa sociolinguística contendo informações sobre os Kokama em seu artigo Diagnóstico Sociolingüístico de la zona ribereña del río Amazonas: Ronda, Mocagua y La Libertad301.

Luego de iniciar el trabajo exploratorio en la isla de Ronda se pudo detectar que cierto núcleo «muy secreto» de abuelos era hablante de la lengua cocama. Gracias a la oportuna colaboración del señor Marcial Huaniri se logró obtener una encuesta léxica y gramatical espontánea de la lengua cocama, en la primera salida. La reacción de los demás habitantes de Ronda no se hizo esperar y en la segunda salida de campo el entusiasmo y un cierto nerviosismo por escuchar no sólo a los abuelos sino al investigador pronunciar algunas palabras en cocama, su propia lengua, los emocionó. Hoy esta comunidad proyecta recobrar su lengua y su cultura. Pues la totalidad de los habitantes de Ronda son monolingües em español. En la segunda salida a terreno se logró reunir a tres abuelos con quienes se realizaron varias grabaciones. Se pudo determinar con este grupo um bilingüismo equilibrado

300―Since the early 1980s, the Kokama-Kokamillas have promoted language revitalization efforts, including annual meetings with the sole purpose of speaking their heritage language and developing local radio programs produced in Kokama-Kokamilla. These two activities have been developed with support from the Centro de Capacitación Campesina de la Amazonía (CENNCA), Vicariato Catholic Church-Nauta, Loreto. Another important initiative has been the training of bilingual elementary school teachers to teach Kokama-Kokamilla as a second language. This initiative has arisen from the community members themselves organized within the national indigenous association AIDESEP‖ (VALLEJOS, 2010, p. 33)

301RODRÍGUEZ GONZÁLEZ, Sandra Patricia. Diagnóstico Sociolingüístico de la zona ribereña del río Amazonas: Ronda, Mocagua y La Libertad. Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Práctica, Lima. 2000.

en la medida en que ellos podían comunicarse en cocama o en español. Superaron la vergüenza y el miedo y hasta llegaron a afirmar que existen formas de habla distintas según el género; se intentó además que los abuelos recordaran algún mito de origen (RODRÍGUEZ GONZÁLEZ, 2000, p. 225)

Já em 2002 a questão da reafirmação Kokama vinha sendo discutida por autores. Marcos Antonio Braga de Freitas defendeu sua dissertação com o título ―O Povo Kokáma: Um caso de reafirmação de identidade étnica‖ em que teve contato com os anciãos Kokama da aldeia Acapuri, AM.

O contato com esses velhos Kokáma foi muito rico porque percebi que mesmo sentindo dificuldade de falar sobre a história dos seus antepassados é clara a consciência étnica de pertencimento que eles têm por meio dos laços de parentesco e organização comunitária estabelecida no bairro (FREITAS, 2002, p. 30).

Freitas (2002, p. 37), ao abordar o contexto histórico de reafirmação da identidade étnica dos Kokama, afirma que estes saíram do ―silêncio‖ a partir dos anos de 1980, pois foi a partir daí que os Kokama voltaram a aparecer nos dados demográficos contemporâneos, ficando este período marcado pela ―emergência‖ étnica dos Kokama.

O fato de os Kokama terem sido considerados ―extintos‖ por Darcy Ribeiro em 1957, referia-se à integração desses índios à sociedade nacional e com isso a perda da identidade étnica. No entanto, conforme o contexto histórico dos Kokama no Brasil, contrariamente a essa consideração, os Kokama ―usaram de estratégia de reprodução física e cultural e ―esconderam‖ sua identidade no meio de outro povo, os Tikuna‖ (FREITAS, 2002, p. 38). Conforme Freitas (2002), a identidade étnica dos Kokama se fortaleceu nesse contato com o outro (os Tikuna). O que pode ser visto na política indigenista do Amazonas:

No início dos 80 do século XX ―ressurgem‖ no contexto da política indigenista do Amazonas remanescentes Kokáma que se auto-identificam e reafirmam sua identidade étnica, ou seja, assumem-se como indígenas. Portanto, este é período em que encontramos as primeiras articulações sociais e políticas sobre a indianidade Kokáma (FREITAS, 2002, p.39).

Conforme Freitas (2002) o primeiro movimento por demarcação de Terra Indígena (TI) Kokama foi em 1982 em Tefé. A demarcação de mais TIs Kokama nos anos de 1990 e 2000 pode ser vista como mais uma marca de reafirmação étnica. A TI Guanabara foi a mais

recente TI Kokama com demarcação confirmada302. O site dos Povos Indígenas do Brasil do Instituto Socioambiental (ISA)303 mantêm informações on-line acerca das TIs de diversos povos e dentre eles os Kokama. A maioria das TIs Kokama apresenta crescimento demográfico nos últimos anos. Com informações mais detalhadas o link <http://ti.socioambiental.org/>, vinculado ao site anterior, apresenta dados das seguintes TIs Kokama: Terra Indígena São Domingos do Jacapari e Estação, Prosperidade, Espírito Santo, São Sebastião, Acapuri de Cima, São Gabriel/São Salvador, Ilha do Camaleão, Sururuá, Barro Alto, Sapotal, Santa Cruz da Nova Aliança, Lago do Correio, Guanabara. Os tipos de dados apresentados sobre cada TI, são os seguintes: Povos e demografia, dados territoriais, ambiente, gestão, sobreposições, pressões e ameaças, notícias e comentários.

O uso da língua Kokama vem sendo uma das principais formas de reafirmação étnica dos Kokama. A confirmação do conhecimento de sua língua foi um dos fatores que justificou a demarcação da Terra Indígena Sapotal. Em relatório304 feito por Ana Suelly A. C. Cabral em 1996, foi atribuído aos Kokama serem conhecedores da sua língua nativa.

Para Almeida e Rubim (2012, p.78) ―aprender a falar ou ensinar a língua indígena é mais do que afirmar a identidade étnica, é estar politicamente demarcando um espaço social ou reconquistando tal espaço no âmbito do direito, diante da sociedade‖.

Nos últimos anos os Kokama sofreram muitos preconceitos, de forma contraditória, por não falarem mais a sua língua, como se isso tivesse sido algo voluntário, tanto por parte dos Tikuna como pelos não indígenas. Como visto anteriormente a estratégia do ―silêncio‖ foi justamente a única forma encontrada para sobreviverem. Mas o uso da língua Kokama em suas diversas formas (oral, textos, áudios, vídeos, etc) tem mostrado como a língua tem sido, para os Kokama uma das referências de identidade étnica e de reconquista.

Recentemente, os Kokama deixaram a sutileza de lado, seguindo o exemplo dos Ticuna com quem conviviam. Iniciaram o processo de etnização em 1986, quando a Funai foi à aldeia Sapotal interrogá-los. “Nós não somos índios” – disseram alguns, pensando que podiam ser perseguidos como nos tempos passados. Mas um grupo seguiu Antônio Samias, que declarou: “Quem quiser ser branco, que seja. Mas eu sou Kokama no céu, na terra e no inferno”. Para não haver dúvidas, desandou a falar em seu idioma [...] (FREIRE, 2008)

302Portaria 1.704, de 19 de abril de 2013. Disponível em: < http://www.jusbrasil.com.br/diarios/53391240/dou-secao-1-22-04-2013-pg-35> Acesso em 20 jun. 2014. 303Povos Indígenas do Brasil. Kokama. Disponível em: < http://pib.socioambiental.org/pt/povo/Kokama> 304 CABRAL, A. S. A. C. Relatório de identificação étnica do Kokama de Sapotal, Sacambú e Jutimã. Brasília: FUNAI, 1996.

A ―emergência da identidade coletiva Kokama‖ (ALMEIDA; RUBIM, 2012) e a ―resistência identitária‖ (ALMEIDA; RUBIM, 2012) relacionam-se aqui à língua de resistência, a língua Kokama, a qual também pode ser considerada uma língua emergente. Aquela que estava silenciada, que passou por um período de resistência perante os fatos repressores externos, os quais causaram a autolimitação que a impedia de vir à superfície da consciência e da memória. Que se encontra ainda em situação de obsolescência, mas com status de língua em processo de fortalecimento, em vias de ―afloramento‖ da memória, de conhecimentos em fluxo, de uso e aprendizagem.

Portanto, considerando as reflexões anteriores, a língua Kokama resistiu junto com o povo Kokama, estabelecendo-se em diversas comunidades. Além de resistir às pressões externas, vem aflorando a cada dia na memória dos falantes e sendo buscada por àqueles que desejam aprendê-la, tanto crianças, como jovens e adultos. Um caso exemplar é o do Sr. Luiz Chota305, levantado pelo pesquisador Leonel Magalhães de Souza.