3. Kritisk Diskursanalyse
3.1. Tre dimensjoner
3.1.1. Tekst – beskrivelse (hva?)
Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci e um ensaio biográfico.
Diferentemente de “Gradiva...”, que, prescindindo dos dados do autor, baseia-se nas informações contidas na própria narrativa, “Uma recordação...” apóia-se nas informações de alguns biógrafos de Leonardo e no seu diário pessoal. Seu propósito não é outro que esboçar um mapa da constituição psíquica do pintor e as razões da inibição de sua atividade artística. Como já mencionamos, o texto em questão tem o mérito de explicitar a relação entre neurose e sublimação e as variáveis que tornam alguém neurótico e artista. Propomo-nos a identificar as principais hipóteses utilizadas na interpretação da biografia de Leonardo para apresentarmos as contribuições que o texto fornece a compreensão do conceito de sublimação.
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Se em “O delírio...”, Freud esforça-se em demonstrar os principais norteadores de sua teoria, a saber, as formações inconscientes, o trabalho do sonho, o complexo de Édipo, a técnica psicanalítica, etc., em Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci (1910) ele investiga o desenvolvimento da sexualidade infantil e a travessia pelo complexo de Édipo. Para tanto, parte das datas da biografia, das contingências, episódios e influências do meio de Leonardo e também das informações sobre as suas reações. Assim ele resume a finalidade do texto ao mesmo tempo em que descreve o papel do psicanalista que se aventura em ensaios de tipo biográfico:
Ora, baseado em seu conhecimento dos mecanismos psíquicos procura sondar dinamicamente a natureza do indivíduo a partir de suas reações, colocar em relevo suas forças pulsionais psíquicas originárias, assim como suas ulteriores transformações e desenvolvimentos. Quando se consegue, a conduta dessa personalidade em sua vida fica esclarecida pela ação conjugada de constituição e destino, forças internas e poderes externos.167
Sua hipótese principal é a de que o pintor se tornara sexualmente inativo ou homossexual depois de haver convertido sua sexualidade infantil numa pulsão de saber. Circunstâncias acidentais de sua infância teriam exercido um profundo efeito perturbador: seu nascimento ilegítimo o subtraiu, até o quinto ano, da influência do pai, deixando-o livre para uma terna sedução de uma mãe de quem ele é o único consolo. Devido a sua constituição psíquica sexual, Leonardo era dotado de uma quota particularmente intensa da pulsão de investigar; pulsão sobre a qual Freud se apóia para situar o conceito de sublimação. O período da investigação sexual infantil de Leonardo inicia-se por volta do terceiro ano de vida da criança, geralmente marcado pelo nascimento do irmão, que ameaça seus interesses egoístas. Como um meio de evitar a perda de seu “trono”, ela investiga a origem das crianças, mas como sua constituição sexual não está, à altura da época, de engendrar filhos, abandona a investigação. Há, nesse período, uma enérgica repressão.
A pulsão de investigar, com efeito, toma três direções. Na primeira delas ela pode ser reprimida e resultar em uma fraqueza intelectual duradoura, reforçada pela iniciação religiosa à qual a criança é submetida. Pode ser, além disso, reprimida e originar a sexualização do pensar, fruto de uma operação na qual a inteligência se fortalece e vence a repressão, fazendo que a investigação sexual regresse do inconsciente como compulsão, desfigurada, mas potente o suficiente para gerar a
angústia típica dos processos compulsivos. Finalmente, no terceiro destino, “raro e perfeito” nas palavras de Freud, do qual Leonardo figurava um exemplo paradigmático, “[...] a repressão do sexual não consegue conduzir para o inconsciente uma pulsão parcial do prazer sexual, mas a libido escapa ao destino da repressão sublimando-se desde o início em um apetite de saber e somando-se como reforço a uma vigorosa pulsão de investigar”.168
Devido a essa especial aptidão para a sublimação, reforçada pela pulsão de investigar, na puberdade – período em que emerge com força a excitação sexual –, Leonardo não se torna neurótico. Freud denomina “segunda sublimação das pulsões eróticas”, a operação que resultou no seu interesse e habilidade como artista; a primeira sublimação o conduziu ao apetite de investigar, que retornou mais tarde, devido à quase total repressão de sua vida sexual objetiva.
A identificação com a figura materna após a repressão de suas fantasias edipianas favoreceu uma escolha objetal de tipo narcísico, e uma orientação de sua libido para a homossexualidade. No entanto, no inconsciente se conservava a fixação à mãe e as recordações beatíficas dos carinhos dela, as quais Mona Lisa e Santa Ana, a
virgem e a criança aludiam.169
“Unindo esse trecho de sua infância ao já citado (a presença da mãe e da avó juntas), condensando-os em um unidade mista, resultou na composição de “Santa Ana com os outros dois”. A figura materna mais distante da criança representa sua mãe”.170 Freud supõe que a mãe acariciava o filho para ressarcir- se da falta do marido e para ressarci-lo de não ter pai. Assim, como todas as mães insatisfeitas, toma o filho como substituto do marido. A imagem dos lábios ternos de sua mãe estava reprimida. “Se tornou pintor e então se empenhou em recriar esse sorriso com seu pincel”.171
Do mesmo modo que Hanold foi surpreendido por uma imagem que inconscientemente estava ligada às lembranças de Zoé, Leonardo foi cativado pelo sorriso de Mona Lisa, que teria invocado a recordação de sua mãe. “As mulheres sorridentes eram repetições de Catarina, sua mãe”, 172 interpreta Freud. O descuido por suas obras era por sua vez uma repetição do descuido que seu pai tivera com ele. As
168Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci, AE XI, p. 75.
169Santa Ana, a virgem e a criança sintetiza a história infantil de Leonardo na opinião de Freud. A
representação da mãe e da avó remete à sua avó, mãe do pai, e a sua mãe. Santa Ana, mãe de Maria e avó da criança, é colocada como uma mulher jovem. Leonardo teve duas mães, Catarina, de quem foi tirado aos três anos e sua madrasta, Donna Albiera.
170Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci, AE XI, p. 75. 171Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci, AE XI, p. 109. 172Uma recordação infantil de Leonardo da Vinci, AE XI, p. 105.
influências do pai não eram, porém, negativas na sua totalidade. Graças à renúncia que teve que fazer da autoridade paterna, ele, muito cedo, prescindiu do apoio dessa autoridade, produzindo uma série de obras das quais ele se sentia inteiramente responsável. “Quem cria na condição de artista sente-se responsável por sua obra”,173 diz o psicanalista com o intuito de mostrar as boas influências da imago paterna.
Boa parte do ensaio é ocupada pela interpretação da fantasia do abutre, que revela para Freud a intensidade dos vínculos sexuais entre mãe e filho, mais precisamente, a recordação de Leonardo de ser amamentado e beijado pela mãe.174 A partir dos códigos da escritura sagrada dos antigos egípcios, Freud traduz o abutre pela figura materna. Segundo ele, os egípcios veneravam uma divindade materna com várias cabeças de abutre chamada Mut, cuja semelhança fonética com a palavra Mutter – mãe, em alemão – não era, para ele, mera coincidência.
De qualquer maneira, e é isso que nos interessa em particular, Uma recordação
infantil de Leonardo da Vinci nos fornece um exemplo de uma sublimação bem-
sucedida. A hiperternura da mãe de Leonardo no período inicial de sua infância, somada a uma predisposição psíquica particular para a sublimação, o conduziu a um processo intenso de investigação sexual, em seguida parcialmente reprimido. Ao chegar na puberdade, as pulsões parciais escaparam da repressão e, mais uma vez, via sublimação, transformaram-se em apetite de saber, posteriormente reforçado pela pulsão de investigar presente desde sua infância. Nesse processo, ao invés do retorno do reprimido, ocorreu a sublimação. É possível afirmar, como sugere Mezan (1997), que o impulso artístico e investigatório de Leonardo representa um substituto da atividade sexual. No nível manifesto, o que caracteriza o destino via sublimação é a capacidade do indivíduo de se interessar por temas outros, distintos dos objetos iniciais da investigação infantil, e, respeitando as injunções da repressão, não aborda questões ligadas à sexualidade.
A sublimação envolve, portanto, a transformação da sua finalidade: ao investir em atividades socialmente mais valorizadas, a pulsão renuncia à satisfação direta para despender sua energia
173
Idem.
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Freud apresenta o trecho do diário de Leonardo em que ele descreve sua fantasia: “Parece que eu já estava predestinado a me interessar fundamentalmente pelo abutre, pois me ocorre como primeiríssima lembrança que, quando eu ainda estava no berço, um abutre desceu até mim, abriu-me a boca com a cauda e bateu várias vezes em meu lábio com esta mesma cauda”. Uma recordação infantil de Leonardo
em atividades que, embora sob a interpretação se revelem como substitutos daquela, consistem precisamente em substitutos dela, e não em rodeios para atingi-la de modo neurótico.175
A sublimação não implica nenhuma espécie de retorno do reprimido, nem, tampouco, a repressão propriamente dita da libido. A pulsão sexual escapa à repressão, culminando em um tipo de investimento libidinal sobre objetos que substituem este reprimido; tal processo, concordando novamente com Mezan, implica a aceitação do princípio de realidade, já que todos os objetos e atividades que envolvem esse destino da libido só existem fora do psiquismo.
No texto sobre Leonardo, Freud igualmente situa a sublimação como um processo que incide sobre as representações, nesse caso as representações das figuras parentais. Ouçamos: “O Deus todo-poderoso e a Natureza bondosa aparecem-nos como [...] sublimações do pai e da mãe, ou melhor, como reminiscência e restaurações das idéias infantis sobre os mesmos”.176 Para Gonçalves (2004) nesta acepção de sublimação de conteúdos representacionais não é apenas a pulsão que é referida como objeto da sublimação, mas a própria imago de pessoas significativas. As idéias do pai e da mãe nas reminiscências infantis de Leonardo teriam sido restauradas pela sublimação, pela representação de Deus e da Natureza. O comentador atenta, ainda, para o fato de que as diferentes acepções de sublimação remetem a diferentes noções temporais: a capacidade de sublimar é uma potencialidade não necessariamente realizada, a sublimação enquanto processo é descrita no tempo presente, enquanto o ato de sublimar, isto é, o efeito do processo, é duradouro – como a sublimação da curiosidade sexual de Leonardo em impulso de pesquisa –; pode manter-se durante anos mas também pode ser desfeita.
O ensaio sobre Leonardo inaugura um tipo de interpretação psicanalítica da arte pautada sobre os dados da biografia do autor. Esse estilo de análise é anunciado no pós- escrito redigido para “O delírio...”, em que relata que os progressos psicanalíticos, no intervalo de cinco anos, possibilitaram uma mudança de orientação: da confirmação de teses psicanalíticas para o exame do material de impressões e recordações do poeta que contribuíram na formação de uma dada obra. Uma recordação da infância em Poesia e
Verdade (1917) segue esta orientação. É sobre a biografia de Goethe que Freud se apóia
para analisar uma recordação infantil do escritor e investigador da natureza, na qual Goethe, com três anos e meio de idade, joga pela janela pequenas vasilhas de brinquedo
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Mezan, Freud: pensador da cultura, p. 331.
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enquanto é incentivado pelos vizinhos, que gritam: “De novo!”.177 Quando acabam suas vasilhas ele passa a jogar as vasilhas da mãe, mas logo em seguida é interceptado por um adulto.
Freud substitui o conteúdo dessa recordação encobridora por outro a partir da pesquisa que faz da história biográfica do poeta. Para tanto, vale-se de relatos de crianças que, diante do nascimento do irmão mais novo, reagiram com brincadeiras semelhantes àquela narrada por Goethe. Como interpretação, o psicanalista sugere: “Poderíamos formar a opinião de que jogar a vasilha é uma ação simbólica na qual a criança (tanto Goethe como meu paciente) expressa vigorosamente seu desejo de eliminar o perturbador intruso”.178 O ato de jogar os objetos para fora da casa é considerado a expressão do desejo de jogar o irmão pela janela. Para reforçar seu argumento, Freud retoma um episódio no qual uma criança que escutou a história de que a cegonha trouxera seu irmão comenta: “Pois que a leve de volta”.179 Loureiro (1994) resume a natureza desse tipo de investigação ao afirmar que o que está por trás desta busca da história pessoal e das fantasias do autor é o esforço, sempre presente na obra de Freud, de encontrar um referente para as fantasias, de achar seu ponto de ancoragem último – seja na realidade factual, seja numa suposta fantasia inconsciente de caráter sexual e infantil.