5. Endringsperspektiv
5.1. Diskusjon - endringsperspektiv
5.1.2. Endringsperspektiv – 1984-85
O Projeto de psicologia (1895) definiu a pulsão pela primeira vez e a considerou
sinônimo de excitações, representações afetivas, moções de desejo e estímulos endógenos. Nos Três ensaios sobre a sexualidade (1905), Freud opõe, ainda que implicitamente, pulsões sexuais a pulsões de autoconservação, e postula a libido como a expressão das pulsões sexuais. As funções do ego são examinadas em textos posteriores a 1905; porém, pouco se disse sobre sua estrutura ou dinâmica. Somente em 1910, no artigo intitulado Sobre a perturbação psicógena da visão, aparece a expressão “pulsão egóica”, identificada com as pulsões de autoconservação e, também, com a função repressora. Nele é definida a primeira dualidade pulsional: as pulsões sexuais a serviço da sexualidade e da consecução do prazer sexual, e as pulsões do ego voltadas à conservação do indivíduo. Em Pulsão e destinos da pulsão (1915), o conflito psíquico torna-se um conflito entre duas classes de pulsões, a libido e as pulsões egóicas.
Com a introdução do conceito de narcisismo em 1914, as pulsões de autoconservação permanecem opostas às pulsões sexuais, mas nestas últimas é introduzida uma distinção suplementar: as pulsões sexuais, que antes direcionavam sua energia apenas para o exterior, passam agora a direcioná-la para o ego.229 Freud postula o conceito de libido do ego ou libido narcísica. O que muda, mais precisamente, é o fato de as pulsões sexuais passarem a investir o ego no início do seu desenvolvimento libidinal e poderem retornar a ele em alguns casos específicos. A melancolia figura um desses casos em que a libido é reintrojetada pelo ego, via identificação com o objeto perdido, e regride à etapa oral de desenvolvimento da libido; que dá ao vínculo do ego com o objeto perdido o caráter sádico, próprio do segundo momento da fase oral. Monzani (1989) comenta que a introdução do conceito de narcisismo e a consideração de que o ego se torna o reservatório da libido “esfumaçou” o dualismo pulsional:
229
A pesquisa de Karl Abraham sobre a demência precoce resultou na idéia de que os investimentos de objeto podem se voltar para o ego. Em Introdução ao narcisismo (1914), Freud supõe que na história do desenvolvimento da libido muitas pulsões se satisfazem, no começo, com o próprio corpo, de maneira auto-erótica. É provável, continua ele, “[...] que o narcisismo seja o estado universal e originário a partir do qual só mais tarde se formou o amor de objeto, sem que por isso devesse desaparecer aquele”. S. Freud, Introdução ao narcisismo (1914), AE XIV, 1989, p. 378.
Foi a partir da introdução do conceito de narcisismo que a distinção anterior se viu ameaçada, já que a distinção entre pulsões sexuais e pulsões do ego se encontra obscurecida na medida em que o ego é também investido libidinalmente. A rigor, tudo indica que neste momento seria mais correto falar em libido do ego e libido objetal. O dualismo está evidentemente esfumaçando-se, pois o ego é agora “o grande reservatório da libido”, a partir do qual a libido é enviada para os objetos e pode também refluir deles ao ego.230
Após Introdução ao narcisismo (1914) é reconhecido que o conceito de narcisismo colocou em risco a teoria pulsional por situar a libido como a energia dos dois grupos de pulsões. Nos Trabalhos sobre metapsicologia (1915) a concepção dualista é sustentada às custas de provas pouco convincentes. Freud afirma, por exemplo, que o fato de as pulsões de autoconservação serem reconhecidas como libidinais não prova que não existam outras pulsões funcionando no ego.
Ao recapitular a história da teoria das pulsões, Freud admite a existência de conteúdo libidinal entre as pulsões de autoconservação.231 Em O mal-estar na
civilização (1930), ele reitera a natureza libidinosa das pulsões de autoconservação,
explicando, mais detalhadamente, a razão pela qual o conceito de narcisismo pareceu dissolver o dualismo pulsional: “Com o postulado de uma libido narcisista o conceito de libido ficou ameaçado, pois, como as pulsões do ego também eram libidinosas, pareceu inevitável que tivéssemos de fazer coincidi-la com a energia pulsional em geral, como C. Jung já advogara anteriormente”.232 Desistir do conteúdo sexual da libido e, nesse sentido, identificar a libido com o interesse psíquico geral seria para Freud concordar com a teoria junguiana, o que ele jamais pensou em fazer. Para não precisar concordar com Jung, ele evidencia, em Pulsões e destinos da pulsão (1915), a diferenciação entre libido e interesse − a energia das duas pulsões −, e propõe uma solução na análise do sadismo, do masoquismo e da melancolia que não contraria os pilares da sua primeira teoria pulsional. Propomo-nos a percorrer alguns de seus textos a fim de compreendermos o lugar atribuído aos fenômenos agressivos de maneira geral. Isto facilitará o entendimento de alguns impasses que o conduziram a postular a noção de pulsão de morte.
Como Pulsão e destinos da pulsão (1915) situa o ódio teoricamente? Quando os destinos das pulsões de autoconservação são examinados o ódio é focalizado e sua fonte
230
Monzani, Freud, o movimento de um pensamento, p. 155.
231
Aqui: “[...] posto que se discerniu também as pulsões de autoconservação como sendo de natureza libidinosa, como sendo libido narcísica”. Autobiografia, AE. XX, p. 52-53.
é considerada distinta da fonte do amor. O ódio não possuiria uma conexão estreita com o prazer e com as funções sexuais. O ego
[...] odeia, abomina, persegue com fins destrutivos a todos os objetos que se constituem para ele em fonte de sensações desprazerosas, sem levar em conta que signifiquem uma frustração da satisfação sexual ou da satisfação de necessidades de conservação. Realmente pode-se asseverar que os genuínos modelos da relação de ódio não derivam da vida sexual, mas da luta do eu por conservar-se e afirmar-se.233
A origem do ódio é, por assim dizer, considerada distinta da origem do amor, cuja fonte é a pulsão sexual.
A pulsão da qual o sadismo deriva é a pulsão de dominação;234 termo que Laplanche e Pontalis (1985) avaliam como impreciso e utilizado por Freud apenas em algumas ocasiões. Ora esta pulsão é definida como uma função específica da pulsão de autoconservação, ora como independente dela. A pulsão de dominação está ligada ao aparelho da musculatura e à fase anal-sádica de evolução da libido e seu acento recai, como o termo sugere, na dominação. Os autores do Vocabulário sublinham que não é a meta desta pulsão causar dano ao objeto: se o outro e seu sofrimento são tomados em consideração, a pulsão de dominação já se misturou com a pulsão sexual. A finalidade primária do sadismo não seria causar dor ao outro, mas assegurar seu domínio sobre o objeto. No ódio e no sadismo em sua primeira forma de aparição, as pulsões sexuais não desempenhariam nenhum papel. A sexualidade só entraria em cena no sadismo quando houvesse uma volta da posição masoquista, e então se poderia dizer que a finalidade sádica seria causar sofrimento ao outro.235 Nesta posição, as pulsões de autoconservação assumiriam uma significação sexual, fusionando-se com as pulsões sexuais. Este trabalho metapsicológico situa a fonte pulsional da agressividade nas pulsões de autoconservação. A auto-agressividade, embora derive deste grupo de pulsões, precisa se fundir às pulsões sexuais para se constituir como tal, para dar o caráter de prazer no sofrimento. Um componente destrutivo inerente às pulsões sexuais é, pois, reconhecido
233Pulsão e destinos da pulsão, AE XIV, p.132. 234
Nos textos anteriores a Além do princípio do prazer (1920) esta pulsão é descrita como uma pulsão não sexual que secundariamente volta-se ao exterior, constitui o único elemento presente na crueldade originária da criança. Nos “Três ensaios” é retomada no esclarecimento da origem da crueldade infantil e seu alvo não seria o sofrimento. A pulsão de dominação teria a musculatura como suporte e seria independente da sexualidade, embora pudesse se fundir com ela numa fase precoce, graças a uma anastomose nos seus pontos de origem. Em Predisposição à neurose obsessiva (1913), a mesma pulsão é situada como predominante na fase anal-sádica. Enquanto a passividade se vincularia ao erotismo anal, a atividade seria derivada da pulsão de dominação em sentido lato. Finalmente, na segunda teoria das pulsões, a pulsão de dominação é a forma assumida pela pulsão de morte quando está a serviço da pulsão sexual.
235
No masoquismo, o sujeito “[...] goza com a fúria que se abate contra sua pessoa”. Pulsão e destinos da pulsão, AE XIV, p.123.
pela investigação do sadismo e do masoquismo. O comportamento agressivo estaria, por assim dizer, a serviço da conservação do indivíduo − o caso do ódio é paradigmático −, ou voltado para a destruição do indivíduo − como mostra o sadismo e o masoquismo.
A análise da melancolia e da tendência do melancólico à autodestruição é explicada a partir da sexualidade e não mais, como o masoquismo, a partir da relação entre as duas modalidades de pulsões. Não é possível, do ponto de vista econômico, discutir esta afecção sem trabalhar com os conceitos de libido de objeto e libido narcísica. Os mecanismos de regressão da libido para a fase sádico-oral e a crítica da consciência moral em relação ao ego explicariam a autotortura presente no quadro melancólico. A explicação freudiana para o fenômeno do ódio baseia-se, em suma, em componentes das pulsões de autoconservação: para o sadismo − em sua forma secundária − e para o masoquismo, no processo de fusão e defusão dos dois grupos de pulsões, e na explicação da melancolia no aspecto destrutivo das pulsões sexuais.
O reconhecimento de um componente destrutivo inerente à sexualidade parece ter ampliado o lugar destinado, na teoria psicanalítica, aos conceitos de destrutividade e agressividade e, ao mesmo tempo, tornado a diferenciação entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação imprecisas. O modo pelo qual Freud resolve o problema da agressividade e da auto-agressividade nos trabalhos sobre metapsicologia não o obriga a reconhecer uma natureza libidinosa entre as pulsões de autoconservação e nem, tampouco, em concordar com a hipótese de um monismo pulsional. Após a “viragem de 1920” ele admite que o conceito de narcisismo o levou a considerar a libido a energia pulsional em geral, eliminando o dualismo pulsional. A saída encontrada nos artigos metapsicológicos para o impacto do conceito de narcisismo sobre a teoria das pulsões não foi totalmente satisfatória para Freud; persistia a idéia de que o impasse seria resolvido com a criação de outro grupo de pulsões cuja energia não fosse libidinal. Seu último esforço para manter a dualidade originária encontra-se na 26a das Conferências
de introdução à Psicanálise (1917), que diferencia libido de ego de interesse ou
egoísmo. Com relação aos impasses que o conceito de narcisismo teria gerado na teoria freudiana, Monzani (1989) comenta: “[...] nesse quadro é muito tênue a linha que pretende separar a pulsão sexual de uma pulsão autopreservativa. A rigor, seria mais coerente, como fazia Freud mais tarde, dizer que não havia distinção, desse ponto de
vista, entre ambas e que a oposição inicial entre as pulsões do ego e as pulsões sexuais mostrou-se inapropriada”.236
Com a hipótese das pulsões de vida e das pulsões de morte, e, pautando-se na idéia de que a libido advém de Eros, Freud legitima um lugar na teoria psicanalítica à altura da relevância que assumiram os fenômenos destrutivos e autodestrutivos na sua pesquisa clínica. O conceito de pulsão de morte vem de encontro à necessidade de se atribuir a fonte pulsional dos fenômenos agressivos e destrutivos a um grupo inteiro de pulsões. Descrevemos, aqui, dois dos motivos que teriam resultado na introdução da pulsão de morte: a dificuldade de sair do impasse causado pelo conceito de narcisismo sem precisar admitir uma teoria monista, e a importância assumida na experiência psicanalítica pelas tendências e comportamentos agressivos e auto-agressivos. As duas razões apontadas são consensuais entre os comentadores de Freud, para quem o conceito de pulsão de morte atendeu a exigências oriundas da clínica psicanalítica; exigências que teriam colocado questões de difícil solução.
Laplanche e Pontalis (1985), por exemplo, consideram seis motivos manifestos que levaram Freud a propor a existência de uma pulsão de morte: os dois motivos por nós mencionados; a descoberta das resistências contra o tratamento; a análise do dito espirituoso, que teria revelado tendências agressivas; o fenômeno de repetição, que mostra uma força independente do princípio de prazer e susceptível de se lhe opor; e, finalmente, a descoberta do complexo de Édipo como conjunção de desejos amorosos e hostis. Mezan (2001) refaz o percurso da noção de repetição e retoma a história da agressividade, mostrando as mesmas razões apontadas por Laplanche e Pontalis para a conclusão de que as tendências agressivas deveriam ter uma fonte pulsional própria. “A existência da agressividade em geral era reconhecida em vários registros, desde as primeiras observações de Freud: basta pensar na transferência negativa, nas resistências à terapia, na fascinante análise do dito espirituoso hostil, e sobretudo na relação edipiana”.237
A introdução da pulsão de morte é justificada, em Além do princípio do prazer (1920), pela análise de fenômenos repetitivos derivados de observações clínicas e a partir de especulações biológicas. Este rápido trajeto nos sugeriu que os elementos que moveram Freud a postular esse conceito não se reduzem aos argumentos apresentados no texto metapsicológico de 1920, mas abarcam, igualmente, fenômenos clínicos de
236
Monzani, Freud: o movimento de um pensamento, p.146. 237
natureza destrutiva e impasses de ordem teórica. Uma vez apresentado o debate em torno do qual surge o conceito de pulsão de morte, partiremos da hipótese de que a formulação desse conceito não se limita à esfera da clínica psicanalítica e a especulações biológicas, mas se estende, do mesmo modo, ao campo das investigações culturais.
Chama atenção na argumentação de Laplanche, Pontalis e Mezan uma única referência aos fenômenos de ordem cultural, isto é, a referência aos ditos espirituosos e à tendência agressiva que se esconderia atrás deles. A participação da análise da cultura na introdução da pulsão de morte parece não se resumir à teorização das frases de espírito. Há outros fatos culturais que influenciaram Freud, e, talvez, mais relevantes.
Totem e tabu exerceu um papel significativo nesse sentido, fornecendo elementos para a
conceituação da pulsão de morte; texto cuja importância para a genealogia do conceito é freqüentemente negligenciada pelos comentadores de Freud.
O artigo antropológico atribui ao fenômeno da destrutividade um lugar de destaque na explicação psicanalítica da constituição do psiquismo humano e da história da civilização. Ao analisar as tendências inconscientes homicidas e a ambivalência emocional, elabora uma hipótese para o nascimento da cultura e das regras sociais, baseada no parricídio, e supõe que a humanidade descende de um crime. Tais formulações parecem ter ampliado o lugar até então legado ao fenômeno destrutivo na teoria psicanalítica; ampliação que, acrescida das outras razões sublinhadas, resultou na nova dualidade pulsional, na hipótese de um grupo inteiro de pulsões como fonte pulsional dos fenômenos de natureza destrutiva e autodestrutiva. Vista por este ângulo, a formulação das premissas freudianas parece ser influenciada por um movimento que vai da análise da cultura para a metapsicologia.