5. Endringsperspektiv
5.1. Diskusjon - endringsperspektiv
5.1.1. Endringsperspektiv – 1971-72
Esboçaremos algumas hipóteses a partir do estudo dos textos teóricos e artísticos com a intenção de esclarecer alguns elementos desta relação. Em primeiro lugar, assumiremos que, ao se referir à sublimação do pulsional, definindo-a enquanto processo, a sublimação é uma operação psíquica que implica uma mudança de um alvo não sexual para um alvo sexual. E aqui estamos novamente de acordo com Gonçalves (2004), para quem a interpretação dos textos freudianos indica que a mudança de alvo é inerente à definição de sublimação. A mudança de alvo, como indica Loureiro (1994), implica um tipo de mudança “se não de objeto, ao menos no objeto”. A comentadora insiste no fato de que a sublimação envolve uma troca de objeto, tese com a qual concordamos, já que é sempre sobre um substitutivo do objeto sexual que a pulsão sublimada incidirá.
Assumiremos que a sublimação é uma função do ego. Está presente em todos os indivíduos e é fundamental para o bom funcionamento do aparelho psíquico. Trata-se de mecanismo de defesa que drena as magnitudes de excitação oriundas das zonas erógenas e as emprega em outros campos, tornando a disposição em si perigosa em incremento da capacidade de rendimento psíquico. Seu aspecto profilático reside precisamente sobre sua capacidade de escapar ao recalque e destinar parcelas significativas da pulsão sexual para atividades sociais, evitando, com isso, a produção de formações repetitivas e neuróticas. Na verdade, as pulsões, a fantasias, as lembranças
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É de forma muito resumida que estamos descrevendo os pilares do princípio de realidade.
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e tudo que envolve conteúdos de alguma forma repreensíveis podem ser desviados de suas finalidades originais pela sublimação.
Gonçalves (2004) opina que “a capacidade de sublimação para atividades artísticas é considerada, por Freud, um dom especial decorrente da herança biológica, um fator alheio à psicanálise, e, por isto, uma possibilidade de sublimação aberta apenas para os indivíduos que possuem tais talentos”.220 Discordamos sobre ser o fator biológico o único que prevalece. Sugerimos – e isso vale para os artistas e não artistas – que quanto mais plástica e móvel for a pulsão, quanto menos ela se fixar com particular tenacidade sobre os objetos, mais disponível estará para ser sublimada. É a constituição psíquica sexual de cada um que definirá a plasticidade e a capacidade de deslocamento pulsional. Somam-se a isso os aspectos disposicionais − tanto biológicos como resultantes das experiências infantis −, os fatores socioculturais envolvendo a repressão da sexualidade e o desenvolvimento da civilização, e os fatores atuais ligados a intercorrências orgânicas ou acidentais na vida do indivíduo.
A respeito da aptidão máxima a sublimar levantamos algumas hipóteses: primeiro, que ela inclui uma quota significativa de pulsões pré-genitais cuja plasticidade permite a aquisição de metas secundárias − que podem resultar, por exemplo, nas intensificação das pulsões de saber. Segundo, que essa aptidão implica um processo de resgate das fantasias reprimidas em um tratamento que lhes permite serem representadas; vale frisar que a condição para isso é a aptidão da pessoa a mergulhar no mundo da fantasia e retornar para a realidade. Se a saída é delirante, entramos no campo da psicose e saímos do campo das artes.
Concluímos que o produto do processo sublimatório envolve a pulsão dessexualizada em sua finalidade e um novo modo de satisfação pulsional com uma mudança de valor diante da censura. Trata-se de uma mudança para um valor positivo, que caracteriza o sublime, e, como observa Gonçalves (2004), é definida por Freud com qualificativos da ordem de “psicológica e socialmente irrepreensíveis”, “fins mais distantes da sexualidade e de maior valor social”, “enobrecimento”, “dignificação”, “moderação”, “restaurações das idéias infantis”, “aceitável”, “mais elevados”, “mais altamente valorizados”, etc.
Segundo as teses de O mal-estar na civilização (1930), pelo fato de promover deslocamentos libidinais e de produzir tipos de satisfação aceitos pelo mundo exterior, a
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sublimação aparece como uma técnica de defesa contra o sofrimento. A arte será uma via de gratificação alternativa para o homem moderno, na medida em que oferecerá satisfações substitutivas compensadoras das primeiras e mais antigas renúncias impostas pela civilização ao indivíduo. Ela oferece ocasiões para as pessoas experimentarem o que Freud chama de sensações elevadas. Fazemos nossa a afirmação de Loureiro (1994) segundo a qual “os valores culturais em jogo no processo de sublimação são aqueles internalizados pelo indivíduo a partir das vicissitudes de sua história pessoal e, evidentemente, de seu complexo de Édipo”.221 O ideal de ego, que tem raízes na identificação com as figuras parentais e nos ideais culturais, faz-se presente na sublimação e nos oferece a via para pensarmos a questão da escolha do objeto não sexual a ser investido. Além disso, como é indicado em O futuro de uma ilusão (1927), a arte contribui para a satisfação narcisista ao representar produções de uma civilização especial, fortalecendo, do mesmo modo, os ideais de uma dada coletividade.
É certo que a sublimação potencializa o prazer favorecido pelo trabalho artístico e intelectual. Porém, sustentamos que, para Freud, a sublimação é uma operação universal e não restrita a uma minoria. Apesar de estar mais presente em uns que em outros, como indicamos na primeira parte do capítulo, a sublimação não se restringe ao círculo dos artistas e intelectuais. Se levarmos às últimas consequências a idéia de que produz tipos de satisfação aceitos pelo mundo exterior, talvez pudéssemos incluir no rol das atividades ditas sublimadas as brincadeiras, os chistes, o humor,222 o esporte, o ócio, o lazer e o trabalho. Atividades nas quais as pulsões sexuais e agressivas são desviadas de suas metas originais e propiciam um tipo de satisfação substitutiva, isto é, uma “válvula de escape” pulsional. Nos casos específicos das artes, dos chistes, das brincadeiras e do humor é mais clara de que maneira o prazer vincula-se à satisfação de desejos que não podem ser satisfeitos pela realidade.223 Entretanto, como um desdobramento possível das hipóteses de Freud a respeito das atividades sublimadas, sugerimos não haver problemas em considerar o ócio, o esporte, o lazer e o trabalho efeitos do processo sublimatório.
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Loureiro, A arte do pensamento de Freud..., p. 94.
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O humor pressuporia igualmente a economia no gasto da despesa psíquica. Sua essência repousaria na poupança da expressão de um sentimento penoso. O superego imobilizaria as reações egóicas, obrigando o ego a recusar o contato com o mundo exterior. A um só tempo o superego consolaria o ego e o salvaria do sofrimento; evita a liberação de afetos penosos e favorece o “triunfo do narcisismo”.
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O homem, como dirá Freud em O motivo da eleição do cofre (1913), “[...] usa a atividade de sua
Mellor Picaut (1979) torna independente o conceito de sublimação dos chamados “valores sociais”. Em sua opinião, uma das maiores fraquezas da noção de sublimação reside em não estabelecer independência suficiente em relação à determinação sociocultural. A tese de que a sublimação é uma operação que resulta em atividades valorizadas e socialmente reconhecidas é parte integrante da definição de sublimação desde os primeiros escritos de Freud. A nosso ver, isso não figura uma fraqueza da concepção de sublimação. Reconhecemos a presença de um critério valorativo. No entanto, o sublime enquanto elevado culturalmente não corresponde, necessariamente, a uma adequação aos valores sociais.
No estudo de Leonardo, por exemplo, embora a investigação científica seja qualificada de sublime e portadora de alto valor social, “[...] este valor não implica a sua aceitação pelas autoridades científicas da época, nem tampouco a adequação de Leonardo ao método científico aceito socialmente naquele momento histórico”.224 Parece-nos que a sublimação independe da idéia de adequação necessária aos valores de uma dada sociedade. Ela depende, sim, da adoção de certos valores por meio de um julgamento crítico do próprio indivíduo.
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Conclusão do primeiro capítulo
Todo o esforço do presente capítulo baseia-se numa só tarefa: demonstrar que o conceito de sublimação não pode ser compreendido sem a referência à esfera cultural. Por sua própria definição, a sublimação depende do campo cultural. A reflexão realizada até aqui propôs-se justamente a discutir os viéses pelos quais a referência à cultura se faz presente nos sentidos reunidos em torno dessa concepção. Como sabemos, não é possível expor os elementos de uma teoria coerente da sublimação. E aqui fazemos nossa a opinião de Laplanche (1989), segundo a qual “[...] foi possível somente projetar a exploração, passo a passo, antes das sublimações do que da sublimação”.225 O papel da “cultura” como determinante na definição de sublimação aparece de diversas maneiras. Faremos um esforço, agora, para sintetizá-las.
Insistimos em que o método da interpretação dos sonhos reside no modelo de interpretação da arte. Vimos que a interpretação dos sonhos é paradigmática sobretudo pelo fato de o sonho representar um desejo infantil, de implicar um fenômeno geral: a regressão. “O sonho marca a regressão do aparelho psíquico no tríplice sentido formal: de retorno à imagem, cronológico; de retorno à infância, tópico; de retorno ao curto- circuito do desejo e do prazer, segundo o tipo de satisfação alucinatória chamado processo primário. Assim o sonho nos dá acesso ao fenômeno da regressão”.226 Ao lado do sonho o estudo dos chistes foi fundamental para a teorização da arte e do processo sublimatório em ação nas atividades estéticas de maneira geral.
Graças à primeira investigação psicanalítica considerada cultural, baseada nesse fenômeno que se destina a ser comunicado e que, por isso mesmo, pressupõe uma relação de alteridade e o campo das relações intersubjetivas, Freud reuniu elementos para elaborar a tese econômica do prazer em jogo nas experiências estéticas e para demonstrar alguns traços relevantes da operação sublimatória. O estudo dos chistes lhe permite avançar em direção às manifestações artísticas, outro fenômeno intersubjetivo. Freud mostra que as principais características de numerosos processos mentais aparentemente sem relação, como os sonhos, os sintomas, os lapsos e os chistes, têm traços comuns com os mecanismos da criação artística. Que todos esses processos
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J. Laplanche, Problemáticas III – A sublimação. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 95. 226
encontram-se em íntima relação com a fantasia, com a realização de desejos inconscientes, a reanimação de recordações infantis, etc. Assim é operado, na obra freudiana, um movimento de ampliação da reflexão das experiências circunscritas ao plano individual – sonho, lapso, sintoma, lembranças encobridoras – para as experiências coletivas − chistes e arte. Tal ampliação resulta na elaboração de uma teoria estética que postula as modalidades de prazer envolvidas na experiência estética e no trabalho artístico. Se a arte configura, a nosso ver, o paradigma da sublimação é pelo fato de esclarecer os processos por meio dos quais é operada a transformação dos conteúdos internos, de teor sexual e infantil, em atividades humanas distantes da finalidade sexual e valorizadas socialmente. A investigação freudiana da arte enriquece o conceito de sublimação ao trazer os elementos que evidenciam a fonte de onde a sublimação extrai seus conteúdos – complexos, fantasias e desejos recalcados − e a técnica de transformação de tais conteúdos em obra de arte.
Isto dito, certamente não há como negar a importância da esfera cultural na definição da sublimação; é fundamental e necessária à teorização do conceito. O campo das experiências estéticas no qual a arte é incluída pertence ao campo maior das atividades compartilhadas social e culturalmente. Soma-se a isso o elemento cultural intrínseco às primeiras definições de sublimação: o fato de consistir em um processo psíquico que desvia metas sexuais em direção a metas distantes da visada sexual e valorizadas socialmente. Esta é a razão pela qual os produtos da sublimação estão a serviço de Eros na construção do patrimônio cultural. Ao destinar parcelas das pulsões sexuais para finalidades valorizadas pela sociedade, a sublimação contribui para potencializar os sentimentos de identificação necessários à manutenção do setor civilizado. É nesse sentido que é importante ao equilíbrio energético pulsional da vida em sociedade. Ainda que após a introdução da segunda teoria das pulsões a sublimação apareça dissociada das pulsões agressivas, sugerimos que essa operação pode ser estendida às pulsões de morte, “associais” por natureza.
Faz-se relevante elucidar mais detalhadamente em que sentido o termo “cultura” é considerado por nós determinante no processo de elaboração da concepção de sublimação; cientes de que o esforço de sintetizar pode reduzir as questões em pauta. Em primeiro lugar e de modo mais geral, incluímos na categoria “cultura” os textos freudianos por nós examinados, considerados de aplicação. Demonstramos pormenorizadamente as contribuições desses textos para a construção dos sentidos que reúne o conceito de sublimação. Em segundo lugar, a “cultura” apresenta-se para nós
como o terreno em que se fazem presentes os efeitos da sublimação, ou seja, as atividades ditas sublimadas. Nesse sentido, ela designa o campo das produções humanas, entre as quais se destacam as manifestações artísticas e científicas. E, finalmente, “cultura” designa o campo que se beneficia dos processos sublimatórios na medida em que amplia os tipos de vínculos libidinais considerados “saudáveis”. Mais precisamente, “cultura” é compreendida enquanto um terreno constantemente ameaçado de desintegração pelos efeitos nocivos das pulsões de morte: um organismo que, para se manter vivo, depende do processo sublimatório, que oferece tipos de satisfações substitutivas à consumação das pulsões sexuais e agressivas, e que auxilia na diminuição dos sentimentos de culpa e de mal-estar do homem moderno.
Ao levarmos a cabo a tarefa de demonstrar que a referência à cultura é necessária à teorização da sublimação, e que é um conceito exemplar quando da solidariedade entre a reflexão metapsicológica e a investigação cultural, afirmamos a tese mais geral deste trabalho, que atribui ao exame freudiano da cultura um papel relevante no processo de elaboração das concepções metapsicológicas. Nos próximos capítulos veremos de que modo as teses de Freud sobre a cultura influenciaram a teorização dos conceitos de pulsão de morte e superego.