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5. Endringsperspektiv

5.1. Diskusjon - endringsperspektiv

5.1.3. Endringsperspektiv – 1993

Como escreve Peter Gay (1989), em Totem e tabu (1913) Freud se afasta da concretude de suas inferências clínicas para enveredar por um terreno até então pouco investigado por ele: o terreno da etnologia, da filologia e dos folcloristas. Para o biógrafo de Freud, Totem e tabu é psicanálise aplicada e também um documento político. Em uma carta a Ernest Jones, Freud tece o seguinte comentário a respeito de

desejo de matar o próprio pai, mas agora descrevi o homicídio efetivamente realizado; de qualquer maneira, é um gigantesco passo a frente − do desejo ao fato”.238

Discutiremos as consequências desse “passo a frente” para os conceitos de ódio e de agressividade, e sustentaremos que a elaboração de uma primeira ocorrência real e prototípica para as experiências de ódio estendeu a relevância de tais conceitos no arcabouço teórico da psicanálise, tendo influenciado as condições de surgimento da pulsão de morte. Será analisada a relação das tendências inconscientes homicidas com a ambivalência emocional e o complexo de Édipo.

O conceito de ambivalência percorre o texto inteiro. É inicialmente utilizado para explicar os determinantes psicológicos do tabu. Freud compara as proibições obsessivas às proibições-tabu e supõe, na base de ambas, atividades para as quais havia forte inclinação. Os obsessivos e os selvagens reprimiriam o desejo proibido inconsciente e se tornariam ambivalentes em relação a ele. A coerção das pulsões sobre a qual repousaria a cultura − tese antiga de Freud anunciada desde a correspondência com Fliess −, é uma operação que estaria intimamente associada aos propósitos do tabu. “O tabu é, nesta perspectiva, um meio eficaz de coagi-las, isto é, de impedir que os homens dêem livre curso às suas tendências inconscientes homicidas e incestuosas”.239 As tendências hostis constituem um dos pólos da ambivalência emocional, sendo o outro governado por sentimentos amorosos, ternos e de admiração. É no complexo de Édipo que os desejos incestuosos, agressivos e amorosos se constituiriam e se encontrariam. Por essa razão, a ambivalência é situada como um dos principais fundamentos do complexo nuclear das neuroses. Totem e tabu relaciona estas questões de forma muito clara no quarto ensaio, mas já no primeiro sugere que as proibições e as leis − como a lei de proibição do incesto − seriam proporcionais à intensidade do desejo de transgredi-las.

Na relação dos selvagens com os inimigos, a ambivalência de sentimentos apareceria na forma de luto e de arrependimento; na relação com os governantes, se expressaria como respeito, e também como hostilidade inconsciente; frente aos mortos, os selvagens sofreriam conscientemente, mas gozariam de uma satisfação inconsciente. Os dois sentimentos contraditórios, um consciente e outro inconsciente, estariam sempre presentes. Por trás das proibições do tabu e dos rituais haveria o desejo intenso de matar e o conseqüente repúdio a esse desejo.

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E. Jones, Vida e obra de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1979, p. 440. 239

Teremos que concluir que os primitivos se acham literalmente perseguidos pela tentação de matar seus reis e sacerdotes, cometer incestos e maltratar seus mortos. [...] A tendência de matar é, em nós, mais forte do que cremos, e se manifesta por efeitos psíquicos, mesmo se escapam à consciência. [...] Esta tendência existe realmente no inconsciente, e o tabu, como mandamento moral, explica-se e se justifica por uma atitude ambivalente quanto ao impulso homicida.240

Ao longo dos quatro ensaios, Freud insiste na força dos impulsos homicidas e na forma pela qual eles coabitam com as tendências amorosas em todos os sujeitos e, mais intensamente, nos neuróticos. Ele estende o exame da destrutividade, antes restrito à discussão dos sintomas obsessivos e dos sentimentos edipianos, para um fenômeno normal e coletivo: o tabu, precursor de todas as formas subseqüentes de proibições morais. Para argumentar em favor da idéia de que o sistema totemista resultou das condições em jogo no complexo de Édipo são resgatados dois exemplos clínicos de crianças que incluíam animais nos seus sintomas, o caso do Pequeno Hans e de Árpad, relatado por Ferenczi. Hans temia ser mordido por cavalos, e Árpad identificava-se com galos e galinhas acreditando ser um deles, além de manter o hábito de matar animais e dançar ao seu redor num gesto de comemoração. Freud relembra, em sua Autobiografia (1925), o ponto comum observado entre os casos clínicos infantis e a relação dos selvagens com o totem:

Em seguida vieram em meu auxílio dois fatos da psicanálise: uma feliz observação de Ferenczi de uma criança (1913), que me permitiu falar do retorno do totemismo da infância e a análise das precoces zoofobias das crianças; esta análise demonstrou que o animal era um substituto do pai, e sobre o animal se havia deslocado o medo deste último, fundado no complexo de Édipo.241

No caso Árpad, Freud encontra mais semelhanças com o comportamento dos selvagens em relação ao totem. Ele constata duas analogias com o totemismo: a identificação completa com o animal-totem e a ambivalência de sentimentos em relação a ele. A ambivalência aparece nos dois casos clínicos como fator operante na relação dos meninos com os pais. Tal relação é comparada ao vínculo do selvagem com o totem: se o totem é o substituto do pai, pensa Freud, os dois principais mandamentos do totemismo, os preceitos tabus que constituem seu núcleo − não matar o totem e não casar com a mulher do mesmo clã totêmico − coincidem em conteúdo com os dois crimes do Édipo, que matou o pai e se casou com a mãe, e, do mesmo modo, com os dois desejos primordiais das crianças, que, reprimidos insuficientemente ou

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S. Freud, Totem e tabu (1913), AE XIII, 1989, p. 259.

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Ele continua: “Os primitivos descrevem o totem como sendo o ancestral comum e o pai primevo. Não estamos fazendo nada além de considerar em sentido literal o enunciado destes povos, um enunciado com o qual os etnólogos não souberam bem o que fazer e logo lhe diminuíram de importância”. Autobiografia,

despertados, geram as psiconeuroses. “Se esta equação for algo mais que um mero jogo de azar [...] conseguiríamos tornar verossímil que o sistema totemista resultou das condições do complexo de Édipo, o mesmo que a zoofobia do pequeno Hans e a perversão galinácea do pequeno Árpad”.242

O próximo passo foi analisar a aparente incoerência dos clãs no banquete totêmico. Eles diziam descender do totem e, ao mesmo tempo, mantinham o hábito de comê-lo. Esse ato foi interpretado como uma tentativa dos membros de se identificarem com o totem para adquirirem parte de sua força, ato que parecia revelar entre os selvagens, mais uma vez, a presença da ambivalência e dos mesmos desejos presentes no complexo de Édipo. A teoria darwiniana do estado primitivo da sociedade humana é retomada.243 Freud se pergunta se a forma de organização totêmica se desenvolveu a partir de outras. Em seguida, recupera a celebração da refeição totêmica e a interpretação psicanalítica do totem e anuncia uma hipótese à qual denomina “mito científico”.244 Os irmãos, expulsos pelo pai violento e temido, retornam, matam-no e o devoram, colocando fim à horda patriarcal. O ato de devorar o pai consuma a identificação dos irmãos com ele, que adquirem parte de sua força. A refeição totêmica, “[...] que é talvez o mais antigo festival da humanidade, seria assim uma repetição e uma comemoração desse ato memorável e criminoso, que foi o começo de tantas coisas: da organização social, das restrições morais e da religião”.245

O mito termina com o arrependimento dos irmãos. Após a consumação do ódio no parricídio, vem à tona a corrente terna de sentimento, que gera um enorme sentimento de culpa. Tal sentimento conduz os irmãos à elevação de um ideal que corporificasse o poder ilimitado do pai primevo e a disposição de se submeterem a ele. O pai morto torna-se, a partir daí, mais poderoso do que quando estava vivo, e a interdição sexual com as mulheres do mesmo clã, antes estabelecida pelo pai, passa a ser determinada e seguida espontaneamente pelos irmãos, que tentam expiar a culpa do

242 Autobiografia, AE XX, p. 63. Com isso, Freud reitera o que já havia afirmado nas primeiras

formulações sobre o complexo edipiano apresentadas em A interpretação dos sonhos (1900), ou seja, que nele está presente o conjunto de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta relativamente aos pais. Como se trata do complexo fundamental na estruturação da personalidade e na orientação do desejo humano, a destrutividade desempenha um papel relevante no modo de constituição do sujeito. Dependendo do modo pelo qual ela é vivida − se é reprimida, sublimada, deslocada, etc. − o indivíduo terá um resultado em sua economia libidinal mais ou menos favorável para sua saúde psíquica. Laplanche e Pontalis, Vocabulário da Psicanálise.

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A teoria de Darwin, embora não discorra sobre os primórdios do totemismo, supõe a existência de um pai ciumento e violento que guardava as fêmeas para si e expulsava os filhos quando estes cresciam.

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Hipótese que também havia sido alcançada por Atkinson (1903) como implicação direta do estado de coisas da horda primeva darwiniana.

assassinato elevando o pai à categoria de deus e acreditando descender dele. “Do sentimento filial de culpa surgiu a religião totêmica, num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai numa obediência a ele que fora adiada. Todas as religiões posteriores são vistas como tentativas de solucionar os mesmos problemas”.246 A hipótese do parricídio traz a formação da religião para o círculo do complexo do pai e a baseia na ambivalência que domina esse complexo. Depois que o animal totem deixa de servir como substituto do pai, ele se torna protótipo de Deus.247

A idéia de que os irmãos foram tomados pelos mesmos sentimentos contraditórios em ação no complexo de Édipo, manifestado pelos pacientes neuróticos, encobre uma conclusão ainda mais fundamental: a de que os irmãos não foram invadidos pelos sentimentos edipianos que os levaram à ação, mas o assassinato teria sido fundado por tais sentimentos. O mito da horda explicaria, então, o surgimento dos desejos edipianos e não o inverso. “O crime não corresponde aos desejos edipianos; mas estes são estruturados por ele. Matar o pai e dormir com a mãe são tendências que existem no inconsciente sob a forma de repressão, e esta, praticamente, é instituída a partir do crime, e não o inverso. A originalidade freudiana consiste em associar a emergência do complexo de Édipo e o surgimento da sociedade civilizada por meio do mesmo ato”.248

O crime permanece como ferida original que continua produzindo efeitos. Os traços do parricídio, quanto menos relembrados, mais substitutos originam. Freud firma a hipótese de que o sentimento de culpa persistiu por milhares de anos, tornando-se operativo em gerações que não o conheceram. Assume a existência de uma continuidade psíquica na seqüência das gerações, responsável pelas maneiras e meios empregados por uma geração para transmitir seus estados mentais à geração seguinte. A comunicação direta e a tradição, ele diz, não explicam todo o processo: somente a herança de disposições psíquicas que seriam despertadas na vida do indivíduo explicaria a passagem da carga emocional de geração a geração. Já que nenhuma moção psíquica pode ser sufocada a ponto de não deixar fenômeno residual, e já que a mais forte

246Totem e tabu, AE XIII, p. 148. 247

A culpa, conseqüência do parricídio, é parcialmente apaziguada pela devoção aos substitutos do pai morto. A idéia de que nenhum dos irmãos deveria ser tratado como o pai conduziu-os ao sentimento de solidariedade dentro do clã. Com isso, a proibição contra a morte do totem juntou-se à proibição contra o fratricídio. “A agressividade, por sua vez, é deslocada para o exterior, repousando sobre a estrutura social, sobre a proibição do fratricídio expressa no mandamento “não matarás”: não matarás teu irmão, ampliando-se progressivamente a categoria dos irmãos até incluir toda a Humanidade”. Totem e tabu, AE XIII, p. 148.

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sufocação deixa espaço para moções substitutivas e desfiguradas e reações que delas se seguem, as gerações não podem ocultar das seguintes seus processos mais importantes. Assim, o indivíduo moderno viveria, pela repetição, traços deixados pelo ato fundante. Os desejos inconscientes incestuosos e hostis e o sentimento inconsciente de culpa seriam, por assim dizer, legados do parricídio.249