5.7 S UMMARY OF RESULTS
6.2.4 Are the teams really agile?
O Estado de Goiás, ao adentrar no território Kalunga para assumir parte da educação quilombola Kalunga, como forma de organização, criou uma diretoria das
Escolas Calungas localizada no município de Campos Belos – GO, a nordeste do estado
e a 408 km de Brasília – DF. A equipe é composta por uma diretora, coordenador, secretária, tutoras e coordenadoras de merenda. Esse município, embora tenha como maior fonte de renda a pecuária, possui um comércio que atende a região sendo que Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás dependem dele ou de Brasília para realização de diversos serviços.
Até 2016, havia uma Subsecretaria de Educação do Estado de Goiás a qual foi fechada juntamente com outras subsecretarias. Para a Secretaria de Estado da Educação (SEE), as Escolas Estaduais Calungas são cinco, todavia dentro do território há outras treze extensões, o que na prática observa-se é que há dezoito Escolas Estaduais Calungas dentro do Território Kalunga.
De acordo com a ata de criação das Escolas Estaduais Calungas, a palavra foi escrita com a letra “c”, diferentemente da utilizada para designar a comunidade, no caso a letra “k”, e essa situação gera embaraços, erros nos preenchimentos de documentos até
o momento em que o professor se habitua a escrever Calunga, usando a letra “c”, por
necessidade, embora a melhor forma seria uma proposta que alterasse o nome das escolas, passando a denominá-las de Escolas Estaduais Kalungas, conforme dados coletados em entrevistas com os professores. Observamos que mesmo na documentação da SEDUCE aparece o nome Calunga e Kalunga para as escolas.
Maia (2013), em seu trabalho realizado na Comunidade do Engenho II, chega à conclusão de que a palavra Calunga não existe e nem tem significado. Durante o período da nossa pesquisa, e sabendo das diversas definições para Calunga, passamos a perguntar, por meio de entrevista semiestruturada, aos professores se a denominação das escolas escrita com a letra c causava desconforto, mais de 90% afirmaram que sim, pois se a Comunidade é registrada com a letra k, as escolas também deveriam ser, visto que fazem parte da identidade do território.
Uma professora disse: “Eu sempre escrevo Kalunga com k, quando estou fora da
escola. Na escola eu só posso escrever com c, e isso é muito ruim, pois para mim tinha
que ser Kalunga com K para tudo o que escrevemos, é nossa identidade” (D.C.S – 34
A SEDUCE apresenta as Escolas Estaduais Calunga no território da CQK como sendo cinco somadas a outras treze extensões. Esse fato ocorre como forma de organização da SEDUCE junto à Superintendência de Ensino Fundamental, a qual é responsável pelas escolas do campo, para a distribuição de recursos materiais e financeiros. O quadro 9 foi construído para melhor compreensão da distribuição das escolas na CQK.
Quadro 10: A Educação Escolar Quilombola no Território Kalunga do Estado de Goiás.
Município Nome da Escola Localização Turmas
Cavalcante 1 Escola Estadual Calunga I –
Sede
Vão de Almas 1° ao 9° EF*
1° ao 3°EM**
2 Escola Estadual Calunga I -
Extensão Santo Antônio
Vão de Almas 1° ao 9° EF*
3 Escola Estadual Calunga I -
Extensão Joselina
Engenho II 1° ao 9° EF*
1° ao 3°EM**
4 Escola Estadual Calunga I –
Extensão Maiadinha
Vão do Moleque 1° ao 9° EF*
1° ao 3°EM**
5 Escola Estadual Calunga I –
Extensão Nossa Senhora
Prata 1° ao 9° EF*
6 Escola Estadual Calunga I –
Extensão Planalto
Vermelho 1° ao 9° EF*
7 Escola Estadual Calunga I –
Extensão João de Deus
São José 1° ao 9° EF*
8 Escola Estadual Calunga I –
Extensão Vereador Anedino
São Domingos 1° ao 9° EF*
1° ao 3°EM**
9 Escola Estadual Calunga I –
Extensão Órfãos
Rio Bonito 1° ao 9° EF*
1° EM** Monte
Alegre de Goiás
10 Escola Estadual Calunga II –
Sede
Riachão 1° ao 9° EF*
1° ao 3°EM**
11 Escola Estadual Calunga II –
Extensão Bom Jardim
Bom Jardim 1° ao 9° EF*
12 Escola Estadual Calunga II –
Extensão Tinguizal
Tinguizal 1° ao 9° EF*
13 Escola Estadual Calunga II –
Extensão Barra
Barra 1° ao 9° EF*
Teresina de Goiás
14 Escola Estadual Calunga III –
Sede
Ema 1° ao 9° EF*
Monte Alegre de Goiás
15 Escola Estadual Calunga IV –
Sede
São Pedro 1° ao 9° EF*
16 Escola Estadual Calunga IV –
Extensão Curral da Taboca
Curral da Taboca 1° ao 9° EF*
17 Escola Estadual Calunga V –
Sede
18 Escola Estadual Calunga V – Areia
Areia 1° ao 9° EF*
Fonte: Arquivo pessoal da autora * EF – Ensino Fundamental * EM – Ensino Médio
Apesar de as escolas serem organizadas em escolas sedes e extensões, verificamos na prática, que as extensões são de fato escolas e que uma escola é distinta da outra. Dessa forma, para esta pesquisa, a CQK possui 18 escolas, nas quais o Ensino Infantil ocorre no período matutino e a segunda etapa do Ensino Fundamental e o Ensino Médio no vespertino, definidos entre as Secretarias Municipais de Educação e a SEDUCE.
Apenas na Sede II (Riachão), o Ensino Médio ocorre no período noturno por haver energia elétrica na escola. No ano de 2017 ocorrerá a formatura da primeira turma do Ensino Médio da CQK Riachão, o que para Dona Procópia é motivo de muita emoção, porque não imaginava ver uma formatura no Kalunga, e de orgulho ao ver os alunos da região concluírem os estudos na própria comunidade, o que representa o grande esforço dos alunos em continuar com os estudos, a luta dos professores, gestores e membros da comunidade para que o Ensino Médio passasse a ser ofertado na comunidade. Dona Procópia fala que Santina, sua companheira de luta, estará feliz no céu ao poder ver que os esforços na busca por recursos para a comunidade não foram em vão, que seus netos puderam ter a oportunidade de estudar na comunidade, o que evidencia a luta constante do povo da CQK pela garantia dos seus direitos.
Em entrevista no Engenho II, uma das entrevistadas nos afirmou que retornou aos estudos quando tiveram o Telecurso na comunidade e que concluiu o Ensino Médio com a turma regular de jovens no turno vespertino. Houve grande esforço para conciliar as atividades domésticas, a maternidade e os estudos, mas a vontade de concluir os estudos era muito grande, pois quando chegou ao Engenho II e teve a oportunidade de estudar, não quis perdê-la, visto que antes morava em outra comunidade que não oferecia condições para estudar. A entrevistada possui vontade de continuar com os estudos, assim como outros membros da comunidade, mas tem dificuldade em se deslocar da comunidade até a universidade mais próxima, deixar a família e o trabalho acabam sendo empecilhos para dar continuidade aos estudos.
Outra entrevistada do Engenho II afirmou que parou de estudar para trabalhar e cuidar da família e hoje, com os filhos já maiores, tem vontade de voltar a estudar, mas não foi possível, pois não há ensino no turno noturno, uma realidade a ser avaliada para
futuramente ofertar educação na modalidade EJA no noturno já que a Comunidade Engenho II possui energia elétrica.
Para estudar na CQK, percebemos que o aluno tem muita força de vontade a fim de vencer todos os obstáculos que envolvem essa trajetória, como as condições da escola e a necessidade de conciliar os estudos com o trabalho, além disso, o acesso à escola exige horas de percurso em terrenos íngremes, mesmo sendo realizado em camionetes ou ônibus escolares.
O mapa construído por Raphael Sânzio de Araújo, figura 19, a partir dos dados de Mari Baiocchi (1999), apresenta o território Kalunga com algumas das escolas da CQK. Insta salientar que existe a necessidade de elaboração de um mapa que apresente a localização das Escolas Estaduais Calungas, pois nesse mapa por não é possível encontrá-las.
Figura 19: Mapa do Sítio Histórico e Cultural da Comunidade Remanescente de
Quilombo – Kalunga e algumas localidades.
Fonte: ARAÚJO, Rafael Sânzio. Projeto Cartográfico – Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográficas da Universidade de Brasília a partir de BAIOCCHI, Mari de Nazaré, Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga. Brasília: Ministério da Justiça, UNESCO 1999.
azul, escolas que não foram visitadas, mas que tivemos contato com os professores durante os Encontros de Formação de Professores Kalungas. Algumas escolas não se encontram no mapa, por isso não estão identificadas, por isso a importância de um mapa que pudesse apresentar dentro do território todas as 18 escolas, para melhor identificação.
Realizamos o percurso, com o auxílio do programa Strava, que nos gerou uma imagem, figura 20, a qual nos permite visualizar o percurso realizado para acessar a Sede da Escola Estadual Calunga I e a Extensão Santo Antônio, ambas localizadas no Vão de Almas é via GO 118, saindo de Cavalcante e passando pelo município de Teresina de Goiás.
Figura 20: Acesso ao Vão de Almas utilizando o programa Strava.
Fonte: Arquivo gerado a partir do programa Strava.
é a passagem pelo Rio Branco, nome dado pelos Kalungas, em substituição a Rio das Almas. É importante relatar que muitas pessoas morreram afogadas nesse rio, acreditava-se que mudando o nome para Rio Branco seria uma forma de minimizar o estigma de que as mortes estavam associadas ao fato de ser Rio das Almas. Além disso, o Rio Capivara, no período das águas, não permite o acesso via estrada, havendo a necessidade de barcos para transportar alunos, servidores e merenda escolar.
O professor Adão, acreditando que transformar é uma ação de se libertar, trabalhou em uma de suas aulas a questão: entender por meio da geografia e arte a localização dos discentes e os desafios enfrentados até chegarem à escola. As ilustrações na forma de mapas (figura 21), elaboradas pelos alunos durante a aula, permitiram fazer o levantamento dos principais desafios, sendo que receberam maior destaque: distância a ser percorrida para chegar à escola, chuva, rios cheios, estradas furadas, sol quente, sede, fome, falta de transporte. Os alunos apontaram como facilidades que a bicicleta ajuda e que dia ou outro tem transporte.
Figura 21: Ilustrações elaboradas por alunos durante a aula do professor Adão.
Fonte: Fotografia cedida pelo professor Adão
Com os depoimentos dados pelos alunos e relatos dos pais, o professor Adão apresenta parte da realidade do Vão de Almas nas palavras abaixo:
Durante o período chuvoso, na comunidade Vão de Almas se torna mais difícil o acesso. As estradas de rodagens, as trilhas cavaleiras com as chuvas apresentam diversos empecilhos. Os rios que banham a comunidade é o que dificulta ainda mais o tráfego. Assim sendo, as aulas no período chuvoso ou de cheia dos rios ficam comprometidas mesmo tendo em alguns casos a canoa (pequenos barcos) para atravessarem os alunos. Há um enorme esforço tanto dos alunos, pais, professores e da equipe gestora da secretaria de educação para que as aulas ocorram. É uma luta tremenda e diária para que os alunos acessem a escola. Há também um esforço incansável de toda a equipe gestora para que esses alunos não sejam prejudicados e consigam vencer o ano com avanços significativos. É uma realidade que é desprezada por quem não vive e convive aqui no dia a dia. A maioria dos estudantes moram longe da escola, uma distância considerável que pode chegar a uns 5 ou 6 Km para chegar até o ponto de estudos. Do ponto de vista dos avanços e do desenvolvimento educacional, isso é um fracasso e desfalque das políticas públicas de educação para comunidades tradicionais, pois o transporte que se tem hoje não atende as necessidades apontadas, uma vez que a demanda não é somente do transporte e sim também de estradas melhores, pontes entre outras. Gostaria de frisar ainda, que dentro desses desafios maiores, que em resumo é a ausência de políticas públicas, existem ainda os desafios menores que esses estudantes enfrentam diariamente para ter o acesso à educação, entre eles vou destacar alguns: cansaço pela distância percorrida, sol quente, sede, fome, dores nas pernas e de cabeça, etc. Tudo isso mexe com o psicológico do aluno dificultando o seu desenvolvimento na educação. Afeta também o psíquico dos pais e dos professores que preocupam muito diante da situação. Uma vez posta a questão, fica o questionamento: A escravidão no Brasil ainda não acabou apenas deixou de ser o trabalho exacerbado manual e passou a ser um trabalho de discriminação e exclusão social. (Adão, Vão de Almas)
O relato do professor Adão permite compreender que, embora exista voz na comunidade, as políticas públicas adequadas não chegam, tornando-se um reflexo negativo na área do ensino, permitindo observar dois aspectos: o de que os professores lutam diariamente para fazer a diferença e serem instrumentos de mudança social em suas comunidades e o de que há prejuízos no processo ensino-aprendizagem quando se relaciona cansaço e mal-estar dos alunos para conseguirem chegar à escola. A segunda condição foge do alcance das mãos dos professores e evidencia uma realidade que existe não somente na Comunidade Quilombola, como também em outras regiões do Brasil, a de que a educação pública no Brasil não ocorre de forma igualitária e de forma humanizada.
Os problemas de acesso à escola existem tanto no período da cheia, quanto no da seca, e o notável esforço da equipe de profissionais e de toda comunidade para que a educação aconteça evidencia uma realidade que não é vista por aqueles que estão distante.
CAPÍTULO 5: O ENSINO DE QUÍMICA NA EDUCAÇÃO ESCOLAR