Considerando a dificuldade em obter documentações impressas sobre a Educação Escolar Quilombola e para dar voz aos participantes da pesquisa, utilizaremos os registros orais das senhoras Maria Lúcia (Primeira professora no Jardim Cascata), Leutéria (Engenho II), Procópia (Riachão), do Senhor Faustino (primeiro professor Quilombola do Vão de Almas) e senhor José Cabral (Primeiro professor do Vão do Moleque) para apresentar como os processos educacionais ocorreram nas CRQ pesquisadas, ambas se caracterizam por salas multisseriadas nas quais o professor inicialmente “tomava a lição” como um processo de alfabetização.
Dona Maria Lúcia mudou-se para Goiás ainda muito jovem, seu pai era lavrador e veio do Estado de Minas Gerais, região de Formiga, para trabalhar na cidade de Anápolis. Na época, ela conta que caminhava muito para chegar à escola na qual as
lições eram “tomadas”22 juntamente com as quatro operações matemáticas.
22 Tomar a lição significava que o aluno precisava ler a lição para o professor de forma correta, quando isso ocorria, o professor seguia para a próxima lição.
Eu estudei até a quinta série, só que fui pelejando, sabe, assim. E o meu pai na verdade, assim, mudou muito, não deixou a gente estudar muito. Estudava na roça, tinha que andar para estudar e, quando a gente foi crescendo, crescendo, também veio as oportunidades e a gente queria namorar e casar. Aí já dispersou tudo, aí a gente não estudou muito né. O professor dava as aulas nas fazendas, quando a gente era menino, eu e meu irmão tinha que andar muito, mas a gente nunca parou de estudar, meu pai mudou muito. (Maria Lucia, 61 anos, Quilombo Jardim Cascata)
Dona Maria Lúcia não conseguiu falar sobre a metodologia de ensino, em sua fala ela recordou que se mudavam muito e que isso dificultava estudar, que tinham que caminhar até onde havia algum professor para “tomar a lição” e que as caminhadas
eram muito longas, que sempre carregava um caderno “para fazer as lições” e que não
havia muito incentivo do pai para que estudassem, uma vez que a mulher era para ajudar nos trabalhos de casa.
Quando se mudou para Goiânia, fugida dos maus-tratos do marido, ela foi trabalhar na Vila Brasília e de lá foi para a barraca no Jardim Cascata, pois na época estavam doando terrenos. A partir daí, viu a necessidade de ensinar para as crianças, já que, na região, não havia escolas e os meninos ficavam na rua. Então, ela fez, no fundo do lote (Figura 12), uma sala de aula improvisada.
Fiz a escola no fundo da barraca, era um bancão grande. Aí cada menino vinha, eu fincava um pau e uma tabinha em cima para os meninos pôr o caderno, eu era a professora e ia atrás de material para eles, no início dos anos 90. Eu pedia para todo mundo, tinha uns 30 meninos, eu queria juntar aqueles meninos, queria ensinar a escrever e ler, fazer continha. (Maria Lúcia, 61 anos, Quilombo Jardim Cascata)
Figura 12: Quintal da casa da Dona Lúcia, o local onde ela dava aulas aos alunos
Dona Lúcia conta que muitos meninos frequentavam a escola, que era um trabalho voluntário e que não havia registros. Quando ela deixou a presidência da Associação, após vencer o mandato, a escola foi levada para o barraco do então presidente, porém não aceitaram que funcionasse daquela forma (bancão e meninos) e tiveram que encerrar as atividades.
As lutas pela construção das moradias surgiram após uma chuva muito forte. As pessoas moravam em barracos, o governo doou material para a construção de dois cômodos a cada morador que deveria se responsabilizar pela mão de obra. Dona Maria Lúcia conta que houve também a luta para que houvesse uma escola na região. Assim, foi construída pelo município a escola do Jardim Cascata e, depois de pronta, foi cedida para o Estado de Goiás, passando a ser hoje o Colégio Estadual Jardim Cascata.
Dona Maria Lúcia conta que a escola ajudou muito, porém ela ainda não está satisfeita, pois o “povo deveria ter uma escola mais bonita, mais arrumada”. Ela se refere a ter uma escola com quadra coberta, paredes pintadas, melhores cadeiras e
mesas, que tenha uma melhor infraestrutura, “porque o povo merece um lugar bom para
estudar”.
O Sr. Faustino é morador do Vão de Almas, porém veio do Vão do Moleque ainda criança, o que demonstra a relação de parentesco entre as várias regiões do território, é pai da professora Wanderléia e do guia Adão, e tem outros cinco filhos vivos, pois cinco morreram recém-nascidos, possivelmente devido ao tétano. Para ele, o quilombo hoje é o lugar do descanso, onde se produz o sustento e se pode viver uma vida mais calma.
A escolarização no Vão de Almas iniciou em 1971, no ano em que seu Faustino se casou com Dona Teodora (casamento tratado). As professoras vieram da cidade e trabalhavam na casa do pai de seu Faustino, Altair trabalhou em um período de 3 anos, Helena (Helenita), 2 anos e Elizabete (Deta), 1 ano. Após a passagem das três professoras, o prefeito da época, Jorge Cheim, sabendo que Seu Faustino havia estudado até o quarto ano primário, convidou-o para ser professor da Comunidade do Vão de Almas.
As aulas então passaram a ser realizadas em uma sala construída de adobe23 e
palha, próximo à casa do Sr. Faustino o qual, além de ministrar aulas para os alunos, era
23 Adobe são tijolos de terra crua, água, palha, estrume de gado ou outras fibras naturais, moldados em formas por processo artesanal.
também responsável por buscar a merenda escolar em locais de difícil acesso, onde só
era possível transitar em mulas que traziam nas costas as buracas24 cheias de alimentos,
que por vezes chegavam através do Rio Paranã. Dona Teodora ajudava no preparo da merenda para que os alunos não ficassem sem alimentação, pois eram longas as distâncias percorridas entre suas casas e a escola.
Figura 13: Primeira escola, constituída por uma sala de aula no Vão de Almas.
Fonte: Fotografia da autora.
O Sr. José Cabral (in memoriam), mais conhecido como Capixaba, nasceu no Rio de Janeiro e veio para Cavalcante para atender a um trabalho de Dr. Ênio, um paulista que possuía fazenda no Vão do Moleque, próximo à Maiadinha. Na ocasião, ele conheceu Cristina, moça quilombola Kalunga, que tornou-se sua esposa. Deixou o trabalho na roça e começou a trabalhar nas terras da família de Dona Cristina, onde constituiu família e residiu até junho de 2017.
Em 1992, começou a dar aulas em um barraco, ministrava aulas da alfabetização até a quarta série primária. Com o Programa do Governo Proformação, curso de nível médio para habilitar no magistério, pôde realizar o concurso para professor municipal, tornando-se o primeiro professor, com Nível Médio, da Maiadinha. Até então, não havia escolarização na região. Atualmente, era aposentado no cargo de professor pelo município de Cavalcante e sempre teve a sala de sua casa (Figura 1) como uma sala de aula, para ensinar todos aqueles que recorressem a ele. Faleceu durante a pesquisa
24 Bolsas artesanais produzidas com couro de gado utilizadas em cavalos para carregar mantimentos. Em algumas regiões, recebe o nome de bruaca como variação linguística. O povo Kalunga utiliza a buraca, também, como instrumento de percussão para tocar a sussa.
(junho de 2017), deixando uma história para aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo, desfrutando do seu convívio como amigo ou sendo um de seus alunos.
Figura 14: Entrada da sala (sala de aula) da casa do Sr. José Cabral.
Fonte: Fotografia da autora.
Durante a conversa que tivemos, o Sr. Cabral afirmou que estudavam mais de 70 alunos no barracão, que as disciplinas mais importantes eram Língua Portuguesa e Matemática e que, mesmo com todas as dificuldades e precariedades, encaminhava os alunos sabendo ler e fazendo as quatro operações matemática, as outras áreas eles aprenderiam depois. As professoras Nilça e Dulcimar são professoras na Extensão da Maiadinha e foram alunas do Sr. Cabral, que fala com orgulho de saber que elas hoje podem contribuir muito mais para o ensino dos alunos da Comunidade Kalunga.
Só não posso ensinar o que eu não sei. Tem professor que não quer que o aluno saiba mais do que eles. Tenho alunos formados que agradecem e a gente fica satisfeito em ver cidadão. Penso, começou comigo e olha onde ele está. Um prazer muito grande, fico até emocionado. Pedi para o prefeito para abrir sala de aula para alfabetizar, foi quando a escola foi construída, em um rancho simples, melhor do que o barraco. (Cabral, 71 anos, Maiadinha – Kalunga)
O Sr. Cabral lembra-se das unidades de medidas que eram utilizados como: litro, prato, arroba (15 kg), palmo (distância entre o dedo polegar e o mínimo com a mão aberta), chave (distância entre o dedo polegar e indicador), alqueire, hectare, légua (6 ou 6000 passos), passos (cada passada correspondia a 1 m, 1000 passadas a 1 km, conta
que os saberes das pessoas estavam de acordo com a realidade por eles vivenciadas, que se fizessem as contas certinho dava certo. Que não havia muitas opções, mas que as pessoas conseguiam realizar suas tarefas, marcar o tempo que gastava até a cidade, ou fazer os tijolos de adobe e construção das casas. Que as plantas do quintal eram a farmácia, até porque o acesso à cidade sempre foi muito difícil.