O estudo desenvolvido foi fundamentado na abordagem qualitativa (Bogdan e Biklen, 1994), com inspiração etnográfica e observação participante visando conhecer as realidades vivenciadas nas comunidades e escolas quilombolas, para compreender o ensino de Química na EEQ frente às DCNEEQEB e a Lei 10.639/03, como forma de apresentar perspectivas e os desafios vivenciados por ambos.
A pesquisa qualitativa, para Minayo (2003), visa à construção da realidade, preocupa-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado, trabalhando com o universo de crenças, valores, significados e outros construtos profundos das relações sociais que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Nesse sentido, Godoy (1995) ressalta a diversidade existente entre os trabalhos qualitativos e enumera um conjunto de características essenciais capazes de identificar uma pesquisa desse tipo como: possuir o ambiente natural como sua fonte direta dos dados e o pesquisador como seu principal instrumento; caráter predominantemente descritivo na coleta de dados e preocupação em compreender o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida.
A pesquisa etnográfica, segundo Mattos (1995), traz algumas contribuições importantes ao campo das pesquisas qualitativas, especialmente aquelas que se interessam pelos estudos das desigualdades sociais, dos processos de exclusão e situações sociointeracionais, por preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura, isto é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as estruturas sociais e as ações e interações humanas.
O trabalho etnográfico está baseado em três premissas: preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura, introduzir os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica e modificadora das estruturas sociais, bem como, preocupar-se em revelar as relações e interações significativas de modo a desenvolver a reflexividade sobre a ação de pesquisar, tanto pelo pesquisador quanto pelo pesquisado.
É necessário um período despendido no campo de investigação maior (cerca de um a dois anos), descrição densa e minuciosa dos dados coletados e processo indutivo de análise. Este período se faz necessário para que o pesquisador possa entender e validar o significado das ações dos participantes, de forma que este seja o mais representativo possível do significado que as próprias pessoas pesquisadas dariam a mesma ação, evento ou situação interpretada.
Atualmente, uma nova abordagem metodológica tem sido colocada para os pesquisadores no campo da etnografia, a metodologia etnografia crítica, a qual Mainardes e Marcondes (2011) afirmam que vários autores argumentam que essa técnica
Possui um potencial significativo para fortalecer as pesquisas em educação, uma vez que destaca a necessidade do estabelecimento de relações com o sistema social amplo e a problematização de questões relacionadas à reprodução social, desigualdades e formas de opressão dentro e fora do sistema educacional. (p.23)
O senso questionador do etnógrafo é a base da pesquisa etnográfica, e a utilização de técnicas e procedimentos etnográficos não segue padrões rígidos ou pré- determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa. Os instrumentos de coleta e análise utilizados, muitas vezes, passam por processos de reformulações para atender à realidade do trabalho de campo, ao mesmo tempo em que introduzem os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica no processo modificador das estruturas sociais.
Nesse sentido, Mehan (1992) afirma que o objeto de pesquisa pode ser o sujeito, sendo considerado como a agência humana no ato de significar as contradições sociais evidenciadas nessas estruturas e processos interacionais. Erickson (1986) complementa ao descrever que é possível revelar as relações e interações ocorridas no interior das escolas, assim como de outras instituições parte dessas estruturas sociais de forma que estas se abram e evidenciem os processos por elas engendrados e de difícil visibilidade para os sujeitos que delas fazem parte. Dentro desse contexto, o sujeito da pesquisa, historicamente ator das ações sociais e interacionais, contribui para significar o universo pesquisado exigindo a constante reflexão e reestruturação do processo de questionamento do pesquisador.
A etnografia é também conhecida como: pesquisa interpretativa, pesquisa hermenêutica, dentre outras. Compreende o estudo, pela observação direta e por um período de tempo, das formas costumeiras de viver de um grupo particular de pessoas,
ela estuda preponderantemente os padrões mais previsíveis das percepções e comportamento manifestados na rotina diária dos sujeitos estudados e observa os modos como esses grupos sociais ou pessoas conduzem suas vidas com o objetivo de revelar o significado cotidiano, em que as pessoas agem.
A observação participante, de acordo com os pressupostos teóricos e metodológicos de Brandão (1984; 2003), tem como característica principal, a participação e a inserção, tanto do pesquisador como dos sujeitos pesquisados, no estudo. Brandão (1984, p. 10) afirma que os “pesquisadores e pesquisados são sujeitos
de um mesmo trabalho comum, ainda que com situações e tarefas diferentes”. É uma
das técnicas usadas com bastante frequência nas pesquisas qualitativas, por meio da qual o pesquisador insere-se no grupo e torna-se integrante do mesmo, a fim de interagir, por um período relativamente longo, com as atividades do cotidiano das pessoas, visando à observação dos fenômenos considerados significativos para o seu estudo.
Lüdke e André (1986) complementam que a observação participante permite um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno estudado. Essa interação in
loco possibilita que ele compreenda a realidade dos sujeitos participantes e suas visões
de mundo em relação ao estudo.
Para o desenvolvimento da pesquisa, também utilizamos a observação participante, audiogravações de entrevistas semiestruturadas, com o uso do aparelho de
gravação e reprodução Sony Digital Voice Recorder 4GB – Icd – Px240, para realização
dos registros, rodas de conversas e anotações em diário de campo.
As gravações foram realizadas com o intuito de registrar as falas dos alunos, dos professores, dos membros da comunidade estudantil e do quilombo durante as visitas e desenvolvimento de atividades. Posteriormente, todas as falas foram transcritas para serem analisadas, compondo o registro oral, de acordo com a técnica da análise das falas significativas, que para Brandão (2003, p. 142), “representam uma expressão de um pensamento, de um saber, quando se parte do princípio de que em qualquer pessoa humana há um crescendo de conhecimento vivenciado e acumulado sob a forma de uma integração cultural de saberes”.
3.2 O campo da pesquisa: Comunidades Remanescentes de Quilombos no Estado