4.4 The application of the workshop principles to a L2 context
4.4.4 The teaching of L2 writing
Nesta parte do trabalho, define-se o objeto de estudo da pesquisa e o modo de abordagem. Inicialmente retoma-se a compreensão corrente do termo excursionismo, que se refere à realização de viagens organizadas em grupo, caracterizadas por um menor custo, cujas finalidades são diversas: seja comercial, a exemplo os “sacoleiros” que viajam para Caruaru-PE; de cunho religioso, como as romarias à cidade de Padre Cícero Romão no Crato-CE; e, também, por lazer onde pessoas se deslocam para áreas de praia, rios, açudes, barragens ou lagoas.
Diante do exposto, ressaltamos que o excursionismo, é discutido neste estudo como uma forma de lazer, uma modalidade de turismo. Uma abordagem que é realizada por poucos estudiosos, o que é comentado por Alcântara (2005, p.12),
Que diferente! As pessoas acham inusitado um trabalho sobre farofeiros. Todo mundo sabe que as excursões de farofeiros existem e todos identificam o que é. Mas por que tanta surpresa? Uma razão pode estar
relacionada ao fato que no mundo acadêmico dominado pela classe média, essa prática é desvalorizada. Na verdade, para muitos é invisível, ou se não o é, ao menos muitas pessoas gostariam que fosse.
Entretanto, apesar do pequeno número de trabalhos a respeito da temática, esta pesquisa contou com relevantes trabalhos realizados por geógrafos, turismólogos, cientistas da comunicação social e sociólogos, nos quais a atividade é abordada a partir de categorias de análises como espaço e lazer.
A princípio, é necessário ressaltar que se pretende neste estudo a interpretação geográfica de um fenômeno social, realizado por parcelas da sociedade que anima as formas espaciais. O espaço é aqui entendido conforme Santos (2008) anuncia: um resultado da inseparabilidade entre sistemas de objetos e sistemas de ações; um híbrido, cujas formas possuem um conteúdo, um misto de fixos e fluxos como sugere este autor para a análise do objeto de estudo da geografia que é o espaço geográfico.
Assim, no sistema de ações que compõe o espaço, uma delas compreende o excursionismo, ação realizada por uma parcela da sociedade cuja intenção é a prática do lazer e que é atraída por um sistema de objetos naturais (como a lagoa) e viabilizada por tantos outros objetos artificiais (meios de transportes, estradas, etc.).
Além da importância do espaço, outro pressuposto teórico para compreender o excursionismo é a categoria de lazer, entendido nesta pesquisa como propõe Dumazedier (1973, p. 34),
O lazer é um conjunto de ocupações às quais o individuo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou, ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora, após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.
Para este autor, o lazer é definido, nos dias de hoje, como sendo oposto ao conjunto das necessidades e obrigações da vida cotidiana, e apresenta-se como um elemento central na cultura de milhões de trabalhadores.
O direito ao lazer resulta dos avanços das leis trabalhistas ao estabelecer uma carga horária máxima para o trabalhador, cujo tempo disponível é então,
apropriado para o lazer e descanso. Diz Rodrigues (1997) que, os movimentos sociais da classe trabalhadora conquistam um tempo livre diário, semanal e anual cada vez maior, e esse tempo passa a ser expropriado pela sociedade de consumo de massa que cria, então, novas necessidades.
Dumazedier (1973) questiona se o lazer seria o novo ópio do povo, onde o operário contentar-se-ia em vender sua força de trabalho, como se fosse uma mercadoria, a fim de poder usufruir o produto dessa venda no tempo fora do trabalho. Ainda segundo este autor o lazer funda uma nova moral de felicidade e o homem é incompleto, atrasado, e de certo modo alienado, se não aproveita ou não sabe aproveitar seu tempo livre.
Não adentraremos neste estudo na discussão conceitual sobre tempo livre, ócio, recreação, contudo, uma distinção se faz necessária para compreender o excursionismo, “turismo e lazer são atividades simbióticas, podendo existir lazer sem turismo, porém turismo pressupõe deslocamento e lazer” como aponta Rodrigues (1997, p. 80).
Esta autora entende que foi introjetada na mente dos indivíduos uma nova necessidade – a do lazer, lato sensu e da recreação, esportes e turismo, no sentido mais restrito. Como expressão da ideologia, na sociedade contemporânea, a viagem turística é tida como necessidade, sendo incorporada artificialmente em prol das necessidades básicas do homem, o homem urbano, que constitui o chamado Homo
turisticus ou Homo viajor, um produto da sociedade de consumo. Um sentimento que
é alimentado pela insatisfação nascida dentro do quadro de vida urbano, pela vontade de romper com o cotidiano, escapar da rotina, vendendo-se o espaço turístico como paraíso. (RODRIGUES, 1997).
Sobre a viagem, em particular, esta autora (idem, p.40) defende que, “é incorporada como uma necessidade fisiológica para a reposição de energias físicas e mentais [...]”. Afirma ter se tornado uma obrigação, e que nos dias atuais, quase todas as camadas sociais da população têm acesso à viagem, quer através dos sofisticados cruzeiros de volta ao mundo pelos que se encontram no ápice da pirâmide social, quer pelo domingo em praias através de ônibus de excursão, prazerosamente desfrutado pelas camadas sociais menos favorecidas da população.
Rodrigues (1997) argumenta que a viagem funciona como importante meio promotor do “status social”, para aquisição de prestígio, e complementa, com
contribuições a esta pesquisa o turismo, antes restrito aos grupos sociais mais privilegiados, hoje se transforma em um produto da sociedade de consumo de massa e guardadas as devidas proporções, todos viajam, como os “farofeiros em excursão”.
Nesse momento é importante trazer a definição de turismo de massa recorrendo-se a Cruz (2003, p.6) que diz,
Turismo de massa é uma forma de organização do turismo que envolve o agenciamento da atividade bem como a interligação entre agenciamento, transporte e hospedagem de modo a proporcionar o barateamento dos custos da viagem e permitir, conseqüentemente, que um grande números de pessoas viagem. (grifo nosso)
Diante do exposto por Cruz (2003), observam-se algumas semelhanças entre o turismo de massa e as “excursões de farofeiros” uma vez que estas, também, prescindem de uma organização, algumas vezes iniciada com meses de antecedência cujo pagamento da viagem pode até ser parcelado; outra semelhança diz respeito ao agenciamento realizado pelos organizadores da excursão junto às empresas de transportes; necessita-se, portanto, de um meio de transporte para o deslocamento, clandestino ou não (como as linhas especiais licenciadas pelo Ministério do Turismo); e que do mesmo modo, buscam, o barateamento dos
custos da viagem (no âmbito desta pesquisa custam entre R$ 3,00 e R$ 45,00
dependendo da distância entre unidade emissora e receptora), o que acaba permitindo que um grande número de pessoas viagem. As excursões que se destinam às lagoas de estudo mobilizam fluxos de viajantes que chegam a 3.000 pessoas no tempo livre da classe trabalhadora, que é o dia de domingo e feriados.
Entretanto, apesar destas semelhanças, compreender o excursionismo como turismo de massa contraria o pensamento de Cruz (2003, p.6), para esta autora turismo de massa não significa “turismo das massas”, pois estas
Não fazem turismo porque não reúnem as condições materiais e imateriais necessárias para isso, ou seja, ou não têm os recursos financeiros necessários para empreender uma viagem ou não têm tempo livre, ou ainda não dispõem nem de uma nem de outra condição.
Assim, com base nesta definição, discorda-se de Cruz (2003) uma vez que diante das semelhanças levantadas anteriormente, juntamente com os dados dispostos ao longo dos capítulos seguintes desta pesquisa permite inferir que as massas, entendidas como as camadas populares da sociedade também fazem turismo.
Por tratar-se de turismo é importante enfatizar que é entendido como um fenômeno complexo, uma prática social e uma atividade produtiva, revestido de um tríplice aspecto com incidências territoriais específicas, como no dizer de Rodrigues (1997, p.83),
Trata-se de um fenômeno que apresenta áreas de dispersão (emissoras), áreas de deslocamento e áreas de atração (receptoras). É nessas áreas que se produz o espaço turístico ou se reformula o espaço anteriormente ocupado. É aqui também que se dá o consumo do espaço.
De outro modo a definição de turismo trazida por Cruz (2003, p.5), corrobora com a definição adotada nesta pesquisa, “é, antes de mais nada, uma prática social, que envolve o deslocamento de pessoas pelo território e que tem no espaço geográfico seu principal objeto de consumo”.
O turismo é uma atividade transformadora de espaços e produtora de territórios, sobretudo, nas cartografias urbanas, mas que se desenvolve nos mais diversos lugares do mundo, revestida por um manto de complexidade que permite extensas análises, sob óticas diversas, como no dizer de Furtado (2007, p.120), que complementa, “[...] nesse sentido, como prática social configuradora de um conjunto de atividades econômicas, o turismo reproduz, como qualquer outro setor produtivo, as contradições do sistema capitalista”.
Então, é partindo destes pressupostos, que o excursionismo é compreendido, enquanto uma prática social, voltada para o lazer turístico, apresentando uma dinâmica que rebate no espaço, mesmo que praticada por uma parcela da sociedade menos favorecida.
É um fenômeno de massa que prescinde do espaço turístico, e de deslocamento, cabendo então, aos excursionistas, a denominação de “turistas”,
apesar de contraria as definições propostas pela Organização Mundial de Turismo (OMT), como visto anteriormente.
Sobre a definição de excursionismo, a pesquisa apoiou-se na obra da Professora Adyr Balestreri Rodrigues, Turismo e Espaço, rumo a um conhecimento transdisciplinar (1997), na qual dois ensaios abordam a temática num estudo de caso sobre o litoral paulista: “Tempo livre como objeto de consumo e lazer dirigido como oportunidade de manipulação” e “O domingo na praia - felicidade ao preço da segregação”. Nestes estudos o excursionismo é discutido como expressão do lazer, focalizando a população pobre do Estado de São Paulo.
Rodrigues (1997, p.112), defende que as excursões de um dia, pelo fato de incluir um razoável deslocamento do domicílio, podem conceitualmente, expressar um tipo de turismo, chamado “turismo de um dia”. A autora entende o fenômeno como uma expressão de lazer massificado, que prescinde do deslocamento e por esta mobilidade pode ser designada como excursionismo; aborda, também, as restrições, que são impostas por diversos agentes sociais, quanto ao uso do espaço por parte destes turistas; e menciona que as “excursões piratas” incluem-se no setor informal da economia.
Outro geógrafo que abordou a temática foi Guilherme de Alcântara (2005), cuja obra é intitulada: “Abaixo a farofa! exclusão "legitimada" em territórios de praia”. O recorte espacial deste estudo compreende parte do litoral carioca, Cabo Frio e Mangaratiba, municípios que desde o final dos anos de 1990, apóiam-se num discurso em prol do desenvolvimento local e promovem intervenções voltadas para a reorganização dos seus espaços de consumo turístico, resultando em restrições quanto ao acesso das "excursões de farofeiros" às praias locais.
Esta análise corrobora com a presente pesquisa quando, da mesma forma, a imagem negativa do "farofeiro" é usada pelo poder público como justificativa para a manipulação do território produtora de um padrão de marginalização que se apóia na privatização do espaço público.
Para Alcântara (2005, p.65),
Essas viagens de caráter popular não são uma categoria nova na sociedade brasileira. Há décadas que se organizam passeios e viagens de baixo custo, sem uso de grandes recursos. Como não poderia deixar de ser, dadas as condições socioeconômicas e também culturais da sociedade brasileira,
existe um vasto setor alternativo promotor de viagens, não diretamente vinculado ao grande capital ou às agências de viagem.
Este autor concorda com a noção de que o excursionismo é uma modalidade de turismo quando defende que as excursões são segmentos de um “turismo popular” mesmo que se realize numa espécie de “circuito inferior do setor turístico”, caracterizado por relações predominantemente informais, como enfatiza Alcântara (2005, p.65),
O setor se apresenta um tanto diversificado, no que diz respeito ao capital investido, à forma de organização e à clientela que atende. Compreende atividades marcadas pela flexibilidade, mobilidade e, na esmagadora maior parte das vezes, pela informalidade de suas relações [...].
Nessa perspectiva, Rodrigues (1997, p. 119), já havia defendido que,
Esse tipo de mobilidade, não considerado turismo pelos critérios da OMT (Organização Mundial de Turismo), pode ser designado como excursionismo. Expressa-se por meio das chamadas „excursões piratas‟, uma vez que não é organizado por agência de viagem, enquadrando-se no setor informal da economia [...].
Outra contribuição, à compreensão do excursionismo, é trazida por Barreto (1995 apud Alcântara, 2005, p. 66) que argumenta sobre o perfil socioeconômico dos adeptos desta prática:
A classe de baixa renda só pode fazer turismo de massas; é a faixa que mais pratica o turismo religioso, viaja de forma coletiva, normalmente de trem ou ônibus fretado, faz excursionismo ou, no máximo, turismo de fim de semana.
Rubino (2004, p.10), no trabalho intitulado: “Políticas públicas de turismo: a hospitalidade pública ao excursionista em Bertioga” comenta:
No Brasil, o excursionismo é uma modalidade de turismo bastante praticado, pois a própria dimensão que o país apresenta propicia esta prática. Dentre esta modalidade, há o destaque para aqueles que procuram no seu tempo livre viajar para o litoral por meio de excursões organizadas ou por veículo próprio, não utilizando a estrutura para hospedagem no local visitado e que apresentam como costume levar seu próprio alimento e bebida. Este tipo de público é conhecido como „farofeiro‟.
Neste estudo, Rubino (2004) analisa o excursionismo no litoral norte de São Paulo, praia próxima à capital paulista, município de Bertioga, onde a prática é intensa, mas por não existir infra-estrutura turística adequada nem políticas públicas que contemplem a hospitalidade para o excursionista a exclusão torna-se a principal solução para o incômodo gerado por estes turistas na unidade receptora.
Diante do exposto por estes cientistas brasileiros, entende-se que excursionismo é uma prática social com implicações espaciais diversas, independente de sua finalidade (lazer, religiosidade ou comércio).
No âmbito desta pesquisa, trata-se de uma atividade de lazer realizada pelos segmentos mais baixos da sociedade, que se organizam em grupos e que movimenta um grande contingente de pessoas. É um fenômeno de essência urbana dependente de um sistema de objetos e de ações para sua realização.
Compreende-se que se trata do turismo das massas, sendo realizado pela classe trabalhadora que em seu tempo livre deslocam-se para vários lugares visando o direito ao lazer, mesmo que sua permanência seja inferior a vinte e quatro horas. Trata-se de uma atividade que para se realizar é necessário o agenciamento, a presença de um organizador de excursão, de meios de transportes e do cumprimento de normas a exemplo junto a órgãos ligados aos setores de transporte e de turismo.
Sobre a denominação desta prática não existe consenso e sim, uma variedade de termos: excursão, “piqueniques”, “convescote”, “turismo de um dia”, “turismo das massas”, “turismo popular”, ”turismo das classes trabalhadoras” ou simplesmente, “ônibus de farofeiro”. Do mesmo modo que são inúmeras as denominações dadas a estes viajantes: “visitantes de um dia”, “excursionistas”, “turistas”, “povão”, “desordeiros”, “farofeiros”, ou, como foi constatado nesta pesquisa: “demolidores”, termos que permitem dizer sobre a forma marginalizada pela qual os excursionistas são vistos.
Trata-se de “uma outra face” turismo que pela vertente econômica movimenta, de um modo mais intenso, o setor informal da economia, mas, que rebate, também, no setor formal, quer nas unidades emissoras, nas áreas de deslocamentos ou nas unidades receptoras destes turistas. Pois, percebe-se que para a realização desta atividade, importantes fixos se apresentam como os supermercados, bodegas, estradas, postos de gasolina, equipamentos de lazer, alimentação e entretenimento; gerando fluxos de pessoas e mercadorias, além de emprego e renda.
Uma prática social realizada por cidadãos, que apesar de possuírem um menor poder aquisitivo, são, também, consumidores e não deixam de gerar tributos, seja no consumo de bebidas alcoólicas, na compra da caixa de isopor, do feijão, galeto, farofa ou do carvão itens facilmente identificados nas sacolas destes turistas.
Uma manifestação social realizada por massas de trabalhadores que realizam viagens de poucas horas, para aproveitar um dia diferente de lazer, longe de seus domicílios. São turistas desinibidos, despojados e que resistem às mais variadas formas de segregação, explícitas e implícitas no espaço.
Porém, seria errôneo dizer que os excursionistas representam apenas incomodo aos agentes sociais que juntamente com eles se apropriam dos territórios turísticos. Esta prática social desperta, também, o interesse de outros segmentos do mercado que percebem a relevância destes potenciais consumidores (este assunto será melhor abordado no terceiro capítulo).
Assim, esclarecido alguns conceitos e denominações que subsidiarão as análises no decorrer da pesquisa, esclarece-se em seguida, questões metodológicas que pautaram a realização deste estudo.