• No results found

A análise contida neste trabalho se atém às excursões que têm como locus para sua reprodução social as lagoas, diferentemente dos estudos de casos analisados que observaram a prática em áreas de praia.

A pesquisa de campo se realizou em três lagoas do município de Nísia Floresta11, localizado ao sul da capital do estado do Rio Grande do Norte: Arituba,

situada na faixa litorânea, na praia de Tabatinga; na lagoa de Boágua, na comunidade de Boágua e em Carcará na comunidade de Timbó, estas duas últimas localizadas mais ao interior do município de Nísia Floresta, como demonstra o mapa 1.

11Este município apresenta em sua geomorfologia mais de vinte lagoas distribuídas pelo seu território,

dentre elas estão: Alcaçuz, Amarela, Anjos, Arituba, Boacicca, Boágua, Bonfim, Carcará, Carnaúba, Custódia, Dourada, Dunas, Ferreiro Grande, Hiola, Ilhota, Lagoa dos Negros, Lagoa do Peixe, Lagoa do Pium, Lagoa Seca, Papari, Papeba, Papebinha, Redonda, Redondinha, Tacho, Teixeira, Urubu.

Mapa 1- Mapa de localização do recorte espacial da pesquisa: lagoas de Arituba, Boágua e Carcará, Nísia Floresta (RN). Elaboração: Janny Lima, 2010.

A definição do recorte espacial desta pesquisa não se deu forma aleatória, baseou-se em outros critérios, além da ocorrência do excursionismo, uma vez que esta prática social ocorre em vários lugares do Rio Grande do Norte, ao longo do litoral norte e sul, em áreas de praias e lagoas; bem como, no interior do estado no entorno de rios, barragens, entre outras paisagens que despertam o interesse dos excursionistas.

Para a delimitação da área observou-se os seguintes critérios: a expressividade do fenômeno; que a área de ocorrência estivesse inserida na rota do turismo potiguar12, baseado no modelo sol e mar; a existência da acessibilidade à área da pesquisa; e que fosse possível perceber a as relações existentes entre os excursionistas, o poder público e os comerciantes locais.

Com base nisto, a pesquisa realizou-se nas lagoas de Arituba, Boágua e Carcará, nas quais se observa desde meados da década de 1990, conforme dados da pesquisa, a chegada, nos dias de domingos e feriados, de vários ônibus de excursão.

Estas lagoas estão inseridas na rota do turismo potiguar, pois situam-se entre os dois principais destinos turísticos do litoral oriental potiguar, Natal e Pipa, recebendo anualmente inúmeros turistas locais, nacionais e estrangeiros. Turistas que chegam às lagoas através de excursões, guias turísticos, em carros próprios ou em passeio de buggy realizados no denominado “Roteiro das águas” 13 ou Circuito

das lagoas (ver mapa 1).

Por fim, é nesta área que se concentra os agentes sociais que estabelecem uma interface direta com o excursionismo: poder público municipal e comerciantes locais, estes últimos representados por donos de barracas e de outros estabelecimentos comerciais presentes nas margens das lagoas. Agentes, com os quais o diálogo foi estabelecido o que possibilitou respostas aos questionamentos levantados neste estudo.

12 A menção sobre a rota do turismo potiguar ao longo deste estudo remete-se à atividade turística

que se desenvolve no Litoral Oriental Potiguar, porção do Rio Grande do Norte onde a atividade, baseada no modelo sol e mar , se encontra consolidada (FONSECA, 2005).

13 Segundo o bugueiro profissional Júlio César, as lagoas do litoral sul, foram inicialmente

descobertas pela atividade de motocross e posteriormente pela atividade dos passeios de buggy, a partir dos últimos anos de 1980, explorando áreas virgens e assim abrindo trilhas que davam acesso às diversas lagoas de Nísia Floresta. Entrevista em 01 de setembro de 2009, Natal/RN.

Durante a pesquisa foram entrevistados representantes do poder público municipal (Secretaria de Turismo e Meio Ambiente, Secretaria de Tributação); representantes do Sindicato dos Bugueiros Profissionais do Rio Grande do Norte (SINDBUGGY); empresários de transporte rodoviário e motoristas de ônibus fretados; além de conversas informais com comerciantes ambulantes, os quais levantaram questões pontuais sobre a realização das excursões.

A escolha dos comerciantes locais entrevistados considerou, inicialmente, o tempo de atuação destes nas lagoas na intenção de dialogar agentes sociais que vivenciam a prática do excursionismo há mais tempo. Bem como, foi considerada a existência de relações diretas com os excursionistas, seja na condição de vizinhos das áreas destinadas às excursões; pelas ações de repulsa para com os excursionistas através de placas proibitivas, as quais podem ser vistas em muitas das barracas nas lagoas; ou por estabelecerem relações comerciais com excursionistas como o aluguel de mesas ou oferta de parque aquático a um preço acessível ao perfil econômico destes turistas.

Esta etapa do trabalho de campo realizou-se nos meses de janeiro e fevereiro de 2010 (Apêndice A), contemplando toda a área da pesquisa, conforme relacionado no quadro 1.

Estabelecimento comercial Tempo de existência do estabelecimento

(entre 15 a 20 anos, década de 1990) La moni‟s – Bar e Restaurante-

20 anos=1990 Barraca do Galego

Bar e Restaurante do Ednaldo 18 anos=1992

Pastelaria e Petiscaria Gosto da Terra 20 anos=1990

Crescer Comercial Distribuidora LTDA.-

Balneário Boágua: 13 anos=1997

Toca do Tito 15 a 20 anos=1990

Barraca do Cajueiro( Barraca de D. Laura) 19 anos=1991

Barraca da Kelly 15 anos=1995

Barraca do Oziel

16 anos=1994 Palhoção Casa Show

Quadro 1 – Relação dos estabelecimentos comerciais cujos responsáveis foram entrevistados. Com base nas entrevistas as análises foram realizadas, algumas falas estão reproduzidas na íntegra no corpo do trabalho, porém, visando respeitar a imagem e opiniões dos entrevistados, que por vezes foram enfáticos em marginalizar a atividade, seus nomes serão preservados.

Quanto aos excursionistas, foram aplicados 74 questionários dos quais trinta e dois, em Boágua; vinte e oito, em Carcará e quatorze em Arituba (Apêndice B), uma amostragem que permitiu atender os objetivos da pesquisa.

Os questionários foram formulados com questões abertas e fechadas e a escolha dos entrevistados visava contemplar o maior número de excursionistas por unidade emissora, ou seja, por local de origem das excursões de modo a se conhecer não apenas o perfil dos turistas, mas, também, os fluxos estabelecidos por esta prática.

A abordagem aos excursionistas se deu na margem das lagoas, logo após que estes se instalaram, visando não gerar incômodo a estes cidadãos que se encontravam no seu dia de lazer. É importante ressaltar que algumas dificuldades foram encontradas, como a falta de receptividade de alguns excursionistas que se mostravam incomodados com a presença dos pesquisadores, inviabilizando a aplicação de um maior número de questionários; além de que, com o passar das horas, muitos estavam embriagados e por isto os questionários foram aplicados no horário entre nove e treze horas do dia para que não houvesse prejuízos ao conteúdo das respostas dos entrevistados. Esta etapa da pesquisa de campo foi realizada em três dias, englobando as três lagoas em estudo, privilegiando os dias de domingo e feriado, no mês de fevereiro de 2010.

Foram entrevistados, também, alguns organizadores de excursão, os quais estavam responsáveis por excursões oriundas de João Pessoa (PB), e de outros municípios do Rio Grande do Norte como Brejinho, Goianinha, Macaíba, Monte Alegre e Natal.

Os dados resultantes dos questionários e entrevistas realizadas em toda a área da pesquisa foram trabalhados estatisticamente e analisados de um modo geral; bem como se observou as especificidades de cada lagoa, permitindo análises pontuais sobre o fenômeno. Outros instrumentos metodológicos utilizados foram o registro fotográfico e o georreferenciamento de dados coletados na área da pesquisa que resultou na elaboração de mapas temáticos.

Diante da escassez de estudos sobre o excursionismo no Rio Grande do Norte, o fenômeno foi estudado a partir da contribuição de pesquisas realizadas em outras regiões do país e, apesar das dificuldades encontradas como a deficiência de estudos sobre o recorte da pesquisa e de fontes primárias que subsidiassem as

análises; estes fatores constituíram-se num fator de motivação para realização deste trabalho.

Assim, este estudo está calcado nas fontes primárias e secundárias disponíveis, somados ao trabalho de campo realizado no período aproximado de trinta dias nas três lagoas o que possibilitou analisar como se dá a prática do excursionismo e, por conseguinte, representa um avanço no sentido de construir uma base teórico-metodológica a respeito desta prática que se mostra expressiva no território potiguar.

Portanto, é este o aporte teórico-metodológico que subsidia as análises nesta pesquisa. Concluída esta parte do trabalho, o capítulo seguinte aborda o processo de produção do espaço em que se observa desde a década de 1990 a chegada das excursões nas lagoas em estudo.

3 AS LAGOAS DE ARITUBA, BOÁGUA E CARCARÁ NA ROTA DO TURISMO