5.4 The content of the workshops
5.4.1 Reading workshops
Retomam-se, neste momento final da pesquisa, as reflexões que se deram em função de analisar a prática do excursionismo nas lagoas de Arituba, Boágua e Carcará (Nísia Floresta/RN), onde se observa desde a década de 1990 a chegada de centenas de excursionistas, em dias de domingos e feriados, ávidos por um dia de lazer.
O excursionismo é compreendido neste estudo como uma modalidade de turismo realizado pelas massas que tem na viagem uma possibilidade de romper com a vida cotidiana, ao mesmo tempo que é uma prática que promove status social. É um fenômeno de essência urbana, que depende de um sistema de objetos e de ações para sua realização cujo objeto de consumo é o espaço.
Esta modalidade de turismo é realizada predominantemente por trabalhadores que em seu tempo livre deslocam-se aos destinos turísticos visando o direito ao lazer. Este tipo de expressão de lazer é comum, verifica-se no mundo, no Brasil e dinamiza sobremaneira a área da pesquisa.
Mas, seja no território que for acontece meio a práticas de segregação e marginalização por parte de outros agentes envolvidos. Os excursionistas, são denominados de “visitantes de um dia”, “desordeiros”, “farofeiros”, ou “demolidores” representam os turistas que compreendem o que por hora chamou-se “uma outra face do turismo potiguar”. São turistas desinibidos, despojados e que resistem e burlam as mais variadas formas de segregação, explícitas e implícitas no espaço.
Uma face do turismo que, de um modo mais intenso, movimenta o setor informal da economia, mas, que rebate, também, no setor formal, quer nas unidades emissoras, nas áreas de deslocamentos ou nas unidades receptoras destes turistas. A pesquisa revelou que, apesar da prática ser realizada por pessoas com baixo poder aquisitivo o consumo e a geração de tributos são fatos, quer no consumo de bebidas alcoólicas, de farinha, na entrada do parque aquático ou na contratação de um ônibus clandestino para o deslocamento.
Para atender os propósitos da pesquisa inicialmente realizou-se a compreensão do processo de produção do espaço que é apropriado pelos excursionistas e também por outros agentes sociais que representam o Estado e o
mercado local. Verificou-se que a realização do turismo nas lagoas de Arituba, Boágua e Carcará não se dá de forma aleatória, está relacionada com a inclusão destas na rota do turismo potiguar, nas quais se observa desde década de 1990 o turismo de massa, atraindo turistas de várias camadas sociais.
A inserção destas lagoas na rota do turismo potiguar, do tipo sol e mar, resulta não apenas do potencial paisagístico mas, sobretudo da atuação do Estado que através de políticas públicas voltadas para consolidar o turismo potiguar, desde a década de 1980, vem viabilizando a implantação de uma infra-estrutura urbana indispensável ao desenvolvimento da atividade turística possibilitando a chegada de vários turistas a Arituba, Boágua e Carcará: seja os que se destinam às segundas residências, os que chegam através do turismo receptivo hospedados em Natal ou Pipa, ou, ainda, os “farofeiros em excursão”.
Pode-se afirmar que este processo de turistificação foi intensificado na década de 1990, período em que o turismo potiguar se consolida na porção do litoral oriental do estado do Rio Grande do Norte, contexto em que estão inseridos importantes fixos como a Rota do Sol e BR-101 os quais viabilizam até os dias atuais o fluxo de pessoas e mercadorias transformando as formas e os conteúdos da área da pesquisa.
A compreensão sobre o processo de produção do espaço permitiu observar que este espaço vem sendo apropriado por agentes de naturezas distintas que agem simultaneamente, algumas vezes, de modo convergente e outras divergentes. Um espaço formado por agentes hegemônicos e não-hegemônicos: Estado, mercado e turistas.
Neste sentido, foi possível perceber a ação do Estado enquanto provedor de infra-estrutura urbana, no âmbito federal e estadual, através da formulação de políticas públicas de turismo, como o PRODETUR/RN, que rebatem na área das lagoas inserindo-as na rota do turismo potiguar; ao mesmo tempo que foi possível reconhecer a sua deficiência no âmbito local o que requer intervenções urgentes no sentido de ordenar o uso do territórios turísticos estudados.
De modo relevante foi compreender a que os agentes de mercado simultaneamente se apropriam do espaço ao estabelecer relações lucrativas neste território o qual desde a década de 1980 passa a ter uma função turística, mesmo
que seja de um modo “espontâneo”, quer dizer, não planejado pelos organismos oficiais que pensam o turismo no município de Nísia Floresta.
A pesquisa permitiu perceber a ação dos turistas a partir de uma caracterização da forma de apropriação; bem como a complexidade da atividade e as especificidades da prática que acaba por atrair uma gama variada de turistas às lagoas em estudo, demonstrando as desigualdades, principalmente, no poder de consumo o que repercute diretamente na prática do excursionismo, uma vez que, os turistas das classes sociais mais favorecidas despertam maior interesse ao poder público e, principalmente, ao mercado local.
A partir da compreensão da intencionalidade dos distintos agentes sociais, alguns objetivando uma prática de lazer enquanto outros possuem a intenção implícita e explícita de reproduzir o capital, foi possível compreender os conflitos territoriais existentes entre excursionistas, comerciantes locais e poder público municipal.
A compreensão destes conflitos apontou as relações de poder existentes, a disputa do território turístico das lagoas em estudo, principalmente pelos excursionistas e comerciantes locais (barraqueiros e outros empresários), os quais configuram explicitamente a formação de dois territórios efetivamente apropriados.
A análise destes territórios turísticos possibilitou verificar as estratégias de segregação para inviabilizar a prática do excursionismo nas lagoas, uma vez que é entendida pelos agentes de mercado e pelo poder público local como uma prática que deprecia a imagem do destino turístico. A pesquisa revelou, ainda, que ações segregadoras e de preconceito para com os excursionistas fundamentam-se no discurso ambiental e no comportamento abusivo dos “farofeiros”, visos como “sujos e “mal-educados”; mas a essência deste tipo de discriminação ação está vinculada ao baixo poder de consumo destes turistas.
Contudo o modo conflituoso das relações entre excursionistas e mercado local apresenta intensidades distintas nas três lagoas estudadas, uma vez que esta clientela já desperta interesse para a reprodução do capital quer no setor formal e informal da economia, seja através da instalação de parque aquático com valor acessível ao perfil econômico do excursionista ou através do comércio ambulante na venda de ginga com tapioca. De vários modos o consumo é visível.
Conclui-se que o poder público local é negligente com a prática do excursionismo apesar da expressividade do fenômeno o qual a exemplo da lagoa de Boágua chega a receber 3000 visitantes em um dia de domingo. Esta negligência ficou evidenciada tanto através da precária infra-estrutura utilizada pelos excursionistas, quanto pelas estratégias de segregação utilizadas pelo poder público e pelos comerciantes locais.
A pesquisa revelou que tal negligência atinge tanto excursionistas quanto turistas de classes mais abastadas, uma vez que compromete a qualidade do produto turístico. Assim, com base no exposto no primeiro e segundo capítulo deste trabalho, é possível afirmar que a negligência está relacionada às deficiências e a ineficiência da gestão pública municipal que nem sequer possui um planejamento turístico sobre o turismo que reconheça o papel das lagoas na rota do turismo potiguar; bem como, que a omissão do poder público local pode estar relacionada à tendência deste território ser apropriado por agentes imobiliários de capital externo, tornando-se uma alternativa mais lucrativa que desperta o interesse dos gestores municipais pelos tributos que serão gerados com a venda da terra do entorno das lagoas se este tipo de apropriação por agentes imobiliários se confirmar.
As lagoas configuram-se, então, como territórios turísticos marcadas por fortes relações de poder e é neste contexto que se insere os excursionistas, agentes sociais reconhecidos pelo senso-comum como “farofeiros”, uma alcunha que desvaloriza a prática social realizada, na verdade, por cidadãos que buscam fazer valer um direito social: o direito ao lazer.
Através da pesquisa pode-se observar o perfil, a origem, os fluxos e as motivações que levam centenas de excursionistas à área em estudo. De um modo geral, pode-se dizer esta prática caracteriza-se por homens e mulheres, trabalhadores e não, “vagabundos” como preconiza o senso comum. Cidadãos com baixo nível de escolaridade, de comportamento desinibido e despojado, que utilizam práticas alternativas de consumo como levar comida, bebida, churrasqueira e uma rede para este dia tão sonhado dia de lazer, mesmo que se dê ao preço da segregação e de conflitos territoriais.
Com a pesquisa pode-se observar que esta prática turística estabelece fluxos de pessoas e de mercadorias entre unidades emissoras de vários municípios do entorno de Nísia Floresta, incluindo os da Região Metropolitana de Natal, e até de
estados vizinhos como Paraíba e Pernambuco. Tomando como foco as excursões oriundas de Natal, capital potiguar, percebeu-se a relevância social desta alternativa turística para uma massa de trabalhadores que comumente se desloca de bairros marcados por uma infra-estrutura de lazer precária, como nos bairros populares de Felipe Camarão, Planalto, Bairro Nordeste e Mãe Luiza. Uma realidade que demonstra a importância social desta prática turística para cidadãos que tem como maior motivação de deslocamento: o direito a um dia “diferente” de lazer.
Como nota final desta pesquisa confirma-se a hipótese que sustentou a discussão, uma vez que a apropriação do espaço pelo excursionismo se dá entre relações conflituosas contrariando a intencionalidade dos agentes do mercado local e do poder público municipal os quais visam o desenvolvimento da face lucrativa da atividade turística. Ao mesmo tempo, que se verificou que a prática social do excursionismo se dá como uma espécie de contra-racionalidade, uma forma de resistência da sociedade num espaço que é social e fragmentado, desigual e contraditório.
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APÊNDICE A - QUESTIONÁRIO DA PESQUISA: Os “farofeiros” em excursão nas lagoas de Arituba, Boágua e Carcará (Nísia Floresta/RN): análise de uma outra face do turismo
potiguar
Entrevistado: COMERCIANTE LOCAL
Objetivo da pesquisa: Analisar o uso turístico e os conflitos territoriais, decorrentes da prática do excursionismo, nas lagoas de Arituba, Carcará e Boágua (Nísia Floresta/RN).
Instrumento metodológico: Entrevista estruturada (perguntas abertas e fechadas)
Grupo de Entrevistado: Comerciante local
Nome do estabelecimento
Data: / /
Local/lagoa:
OBS: Autoriza a utilização dos dados? (___)sim (___)não
Nome do entrevistado: Idade:
Sexo:
Escolaridade:
a)(___)alfabetizado c)(___)ensino fundamental b)(___)ensino médio d)(___)ensino superior 1)Características do estabelecimento comercial: a)(___)bar b)(___)restaurante
c)(___)pousada d)(___)outro:_________________________ 2)Há quanto tempo atua como comerciante do turismo?
3)Há quanto tempo atua nesta Lagoa? 4) É nativo(a) de Nísia Floresta/RN? a)(___)sim b)(___)não, de onde?
5)Qual o perfil da clientela que freqüenta este estabelecimento?
________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 7)Qual o perfil da clientela que freqüenta esta lagoa?
_________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 8)Qual o período de melhor movimento?
Dias da semana:__________________________________________________________ Datas:___________________________________________________________________ Meses:__________________________________________________________________ 9)Como a clientela chega até aqui?
Turistas locais ____________________________________________________________ Turistas
nacionais:________________________________________________________________ Turistas internacionais: _____________________________________________________ (carros particulares, empresas de turismo, bugueiros, outros)
10)Quantas pessoas emprega?O que fazem? (___)cozinheira
(___)garçom
11)Qual a situação deste estabelecimento, em relação à área que está instalado? (___)área pública (___)área privada (___)área de posse (___)outro:
_________________________________________________________________________ 12)Efetua pagamento de impostos para funcionamento?
(___)não (___)sim, quais?
13)Quais os incentivos e entraves existentes com o poder público municipal
a)Incentivos?_____________________________________________________________ ________________________________________________________________________ b)Entraves?______________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 14)Nesta lagoa existe alguma intervenção do poder público estadual (IDEMA, Ministério Público), federal(IBAMA),em relação a : ______________________________________ 15)Quanto à infra-estrutura existente, como avalia as condições de:
a)Avalie:
Acessibilidade: (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Estacionamento: (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Segurança: (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Coleta de resíduos sólidos: (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Tratamento de esgoto: (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Água para consumo humano (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima Água da lagoa(balneabilidade) (___)ótima (___)boa (___)ruim (___)péssima b)Existe obra/ação, concluída ou em andamento, que contemple estas estruturas? (___)não (___)sim, quais?__________________________________________________ 16)O que sabe da prática do Excursionismo conhecido como “ônibus de farofeiros”? a)Desde quando?
b)De onde vem?____________________________________________________ c)Quando vem?_____________________________________________________
d)Perfil dos excursionistas (“farofeiro”)?__________________________________
17)Qual a relação do estabelecimento com as excursões, seus organizadores e excursionistas?
_________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 18)Como avalia a presença deles aqui?É bom ou ruim para o comércio?
_________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 19)Sabe informar como os clientes deste estabelecimento (turistas) avaliam a presença dos excursionistas, existe algum pré-conceito?
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 20)Os excursionistas são clientes do estabelecimento?O que consomem?
________________________________________________________________________ 21)Quanto ao local que utilizam, onde ficam?
(___)dispersos na lagoa (___)em local específico, onde: ________________________ 22)O que trazem e o que deixam?
_________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________
23)Quanto ao comportamento dos excursionistas e numa visão geral, cite: Aspectos positivos (consumo,animação,freqüência):
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ Aspectos negativos (poluição-sonora, ambiental, visual, insegurança, violência, uso de drogas):
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 24)Na sua opinião, o que o poder público poderia fazer para minimizar os efeitos negativos das excursões, quanto à:
Acessibilidade: Estacionamento: Segurança: Limpeza:
Poluição sonora:
Outro aspecto negativo:
25)O que acha do título de “farofeiro” dado aos excursionistas?
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ ________________________________________________________________________ 26)Considerando-se que as excursões para a lagoa é uma forma acessível de lazer para uma classe com menor poder aquisitivo, dê a sua opinião sobre um comportamento que não geraria conflito.
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ Pode indicar outro comerciante para colaborar na pesquisa?
_________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________ Observações do pesquisador:
Número de estabelecimentos comerciais:_______________________________ Número de questionários aplicados (amostragem):_______________________
APÊNDICE B - QUESTIONÁRIOS DA PESQUISA: Os “farofeiros” em excursão nas lagoas de Arituba, Boágua e Carcará (Nísia Floresta/RN): análise de uma outra face do turismo potiguar
Entrevistado: EXCURSIONISTA
Instrumento metodológico: Questionário
Agente social envolvido: Excursionista
Nome/como é conhecido: Data: / / Local/Lagoa: Pesquisador colaborador: 1.Perfil do excursionista Sexo:____________Idade:______________ Qual o local de origem?
Estado:_____________________Cidade:_______________Bairro:_______________ Quanto a sua renda:
( )empregado ( )desempregado ( )recebe benefício ( )aposentadoria Se estiver empregado, fale da sua atividade e renda média?
Qual a atividade?_______________________ Qual a renda média?
( )até 1 salário* ( )até 2 salários ( )até 3 salários ( )mais de 3 salários *salário mínimo R$510,00
2.Quanto ao motivo da excursão: Por que saiu numa excursão?
( )para conhecer outro lugar ( )porque no lugar que mora não tem como se divertir ( )porque onde mora tem proibições para excursões ( )porque gosta mais daqui Se não estivesse aqui, o que estaria fazendo em casa?
( )trabalhando ( )descansando ( )bebendo ( )assistindo TV ( )outro:__________ Caso saísse de casa você iria para:
( )casa de algum parente ( )igreja ( )cinema ( )outro No lugar(bairro,comunidade) onde mora tem?
( )campo de futebol ( )quadra de esportes ( )praça ( )outro:____________ 3.Quanto ao custo da excursão?
Você veio? ( )só ( )com familiares ( )com amigos,
Total do grupo?_______adultos:______________crianças:__________ Quanto pagou pela excursão?R$_______________________________
Quanto ao pagamento da excursão: ( )à vista ( )parcelado ( )cortesia Gosta de participar de excursões?quantas faz por ano(média)?
( )é a 1ª vez ( )só faz 1 excursão ( )até 2 excursões( )até 3excursões ( )mais de 3 excursões
Que lugar prefere:
( )praia ( )lagoa ( )rio ( )outro?__________ Já que veio à lagoa, diga o porquê:
( )porque a água do banho é doce e calma
( )porque tem sombra pra ficar embaixo e dar pra trazer a família ( )porque é mais barato do que ir a uma praia