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THE IMMERSED BRIDGE TUNNEL (IBT)

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“Ter o apoio do coordenador é importante em que sentido? Se antes de começar as aulas, de começar o semestre, a gente tiver algumas regras claras de saber onde é que a gente pode ir.” (Professora Augusta)

Tal como fica evidente nos depoimentos das professoras Rosa, Augusta e Mafalda registrados abaixo, os professores reconhecem que, além dos problemas e carências que o

aluno carrega ao adentrar a universidade, existem condições dos próprios docentes e da própria instituição que não colaboram para a melhoria do processo de ensino-aprendizagem:

Na universidade, eu vejo assim: se você não souber segurar essa classe, se você não tiver domínio [...] de conteúdo, do que você fala, da sua aula, da postura dos alunos e da sua aula, de por que eles estão estudando isso, de qual é a importância disso, tudo vira uma bagunça mesmo. Aí, eu não sei se isso é uma indisciplina ou se isso é uma dispersão. Porque, assim, se eu não estou entendendo nada do que ela está falando, se ela também não, aí vira uma bagunça...

E, por muitas vezes, quando o aluno vem conversar, pra tentar mostrar as dificuldades que eles estão sentindo e, também, as fragilidades daquela aula, que, de repente, você, professor, está demonstrando, os professores não aceitam. Aí, vem da pessoa, do professor, a dificuldade de admitir um erro, né? Aí, essa dificuldade passa por uma discussão de: “não, eu não quero ouvir o que vocês têm pra falar. Vocês têm que aceitar e ponto final.”

[...] a falta de normatização entre os próprios professores causa conflitos.

Os discursos acima mencionam três problemas que prejudicam a relação professor- aluno e o processo de ensino-aprendizagem: falta de domínio de sala de aula, ausência de diálogo sobre os problemas encontrados na aula e falta de normatização entre os docentes. Nesse contexto, até mesmo a harmonia com a turma é perdida. A aula acontece de maneira desestruturada, abrindo espaço para a bagunça, a dispersão e/ou a indisciplina. Como a professora Augusta colocou muitas vezes, alguns alunos tentam falar com o professor e expor a situação da turma quanto ao processo de ensino, mas sem êxito. Alguns professores não se dispõem a entender as dificuldades dos alunos e não estabelecem com eles qualquer comunicação. É comum escutar, nos corredores das universidades, conversas em que os alunos declaram que tal professor tem boa didática e que outro não sabe “passar o conteúdo”.

De acordo com Libâneo (1994), a didática é uma ciência que instrumentaliza o professor na construção de suas aulas e cujo objetivo é ocupar-se das estratégias de ensino- aprendizagem e de questões práticas relativas à metodologia do ensino. O professor só consegue melhorar e aprimorar a sua didática em comunhão com o aluno, pois é ele que fornece subsídios para que o primeiro possa permanentemente avaliar os saberes da prática docente que detém. Nesse sentido, a opinião de Freire (1996) é muito acertada: o docente também aprende com o discente. Esse aprender só pode ocorrer por meio do diálogo, no qual o aluno expressa suas considerações a respeito das aulas ministradas pelo professor. A professora Lisa entende isso quando declara que:

É importante que o professor tenha autocrítica e saiba se adequar à realidade dos alunos. Quando o aluno vem conversar com o professor, é uma forma de pedir ajuda, de pedir socorro, e creio que o primeiro passo é tentar um ponto de equilíbrio com a própria turma. Não é fácil, até porque existe a falta de postura, de educação básica, como os colegas colocaram.

Com certeza, não é fácil para o professor ressignificar a postura do aluno e entender que, por trás de toda uma conduta não conivente com as normas sociais, está um pedido de ajuda para uma situação que ele, aluno, não está conseguindo entender. Analisando a situação à luz da teoria de Vygotski (2001), é possível supor que, quando o aluno não consegue significar os conteúdos, isso se dá porque ele não consegue articular o novo com o que já traz em sua bagagem intelectual. Com isso, sua formação constitui-se de forma precária. Na perspectiva de Freire (1996), ensinar exige humildade, aceitar que naquele dia o objetivo da aula não foi atingido e que, a partir do feedback dos alunos em uma relação dialógica, o professor alcança subsídios para estruturar melhor a próxima aula. Fechar-se para o diálogo com os alunos é perder a oportunidade de melhorar a própria atuação docente e, portanto, a didática. Os professores avaliam também que, na conversa com os estudantes, surge a oportunidade de mostrar-lhes que o problema pode não residir apenas na aula, tal como relata a professora Augusta:

Porque, aí, eu explico, eu falo que não é bem assim, que o problema é individual, não é exatamente do professor. Não é exatamente a aula que é o problema. O problema está em aceitar os próprios defeitos. Em aceitar que eu não sento pra estudar, que o jeito que eu estudo não é da forma mais adequada. Eu tenho dificuldades por isso, por isso e por aquilo. Os problemas não são da aula...

Contudo, um professor não deve justificar os problemas de aprendizagem do aluno declarando que eles decorrem dos “próprios defeitos dele”. A palavra “defeito”, segundo o dicionário Houaiss (2005, p. 168), significa “imperfeição física ou moral, mau funcionamento”. Considerada essa definição, quando a professora diz que o aluno “precisa aceitar os seus próprios defeitos”, é possível inferir que ele deverá conformar-se com seu mau funcionamento ou sua imperfeição. Com as tantas dificuldade de compreensão que o aluno já tem, ele vai entender que a professora não quis dizer isso, mas que ele precisa modificar a forma de estudar? Tudo vai depender de como o aluno constitui o sentido do que lhe é dito. De acordo com Vygotski (2001), o sentido é muito mais amplo do que o significado, precisamente por envolver a dimensão afetiva. A atribuição de sentido à declaração da professora pode prejudicar o processo de aprendizagem: acreditar que o defeito é seu poderá

levá-lo a sentir-se incapaz de fazer algo para resolver a imperfeição. É preciso que o professor descreva as ações que o aluno está fazendo errado e ensiná-lo a corrigi-las. Classificar as condutas de modo depreciativo em nada colabora para a transformação do aluno.

Além da falta de diálogo com os alunos, os professores concordam que a falta de normatização é uma situação que prejudica a rotina do professor: cada um adota o que quer em uma mesma instituição, levando o discurso institucional a enfraquecer-se e criando, para alunos e professores, uma verdadeira “bagunça”. A professora Raquel considera que:

[...] cabe ao professor, na sala de aula, estabelecer um contrato pedagógico que esteja em consonância com o regimento da instituição. Muitas vezes, o professor, como uma forma de conter a indisciplina, age de forma repressora, coercitiva, o que gera mais indisciplina. O aluno precisa ter clareza do que é permitido ou não, o que pode ou não fazer ou dizer, participar da construção deste contrato pedagógico, sentindo que valores comuns fazem parte do processo de construir um ambiente solidário, cooperativo, diminuindo as questões de indisciplina.

Essa clareza quanto ao que se espera tanto do aluno como dos professores deve ser o objetivo da instituição, a ser obtido por meio de um trabalho partilhado entre professor e coordenação. Mas, na realidade, o que acontece é que as coordenações têm tido, para os professores, uma função meramente administrativa, que não se preocupa com as questões pedagógicas ou relacionais, e têm prejudicado – ou até mesmo impedido – o bom andamento da aula e das interações sociais que nela ocorrem. É da seguinte maneira que os professores descrevem o apoio institucional que recebem:

Professora Augusta: ter o apoio do coordenador é importante em que sentido? Se antes de começar as aulas, de começar o semestre, a gente tiver algumas regras claras para saber onde é que a gente pode ir [...] seria já ótimo. Aqui, nessa instituição, o suporte do coordenador significa, pra gente, ter uma pessoa na sala da coordenação, você, professor, poder ir se reportar ao coordenador, contar o que aconteceu, porque o aluno pode chegar com esse assunto lá na sala dele e acabou!

Professora Mafalda: [...] a coordenação só vai fazer alguma coisa, te apoiar ou não, quando a coisa acontece. O que eu sinto falta é, até, às vezes, da coordenação chegar aqui, na outra, e até na federal, também, né? E deixar claro quais são as regras pros alunos. Como que funciona a brincadeira aqui? Porque você tem um jeito de dar aulas, ela tem outro, né? Cada um tem um jeito! E então você faz um contrato pedagógico com o aluno. Mas qual é a regra geral da instituição? Isso, eu sinto falta. O aluno vai em cana, o coordenador senta com você meio que pra inquirir, né? Então, eu acho que isso aí não é apoio. Qual é a regra? O que é claro? Só se for o fato de a gente sair correndo e contar pro coordenador antes que o aluno conte! A gente já está dizendo que não tem uma regra clara...

Professor Tarso: caramba, não tem regras? Às vezes, eu sinto falta dessa coisa geral. Aí, gera uma confusão, que gera uma falta de educação. Eu falo uma coisa, o coordenador fala outra, o outro colega meu, que mal entrou, fala outra coisa. Espera aí, como é? O que é o seu? Eu acho muito importante a coordenação dar a base da coisa. Se ela me dá a base – e se todo mundo falar a mesma linguagem – fica mais fácil e gera menos falta de educação do aluno.

Segundo os discursos acima, a coordenação não apoia o professor no que ele precisa. O trabalho docente é solitário. O coordenador serve como um órgão fiscalizador da relação professor-aluno, entendendo que essa inspeção não incide sobre a maneira e as bases nas quais se assentam as relações, mas têm, unicamente, o propósito de não perder o cliente- aluno. De acordo com Pimenta e Anastasiou (2002/2005), não existe, nas instituições de educação superior, espaço para o profissional docente elucidar dúvidas ou repensar as ações constituídas em sala de aula. Nessa perspectiva, o trabalho do professor resume-se a ministrar aulas; o da coordenação, a contratar o docente e lidar com as queixas dos alunos. Sem o reconhecimento de qual é o papel ou a função da coordenação, os professores ou rebelam-se ou divergem quanto às situações e à forma como poderiam ser ajudados:

Professor Tarso: na verdade, eu não gosto de coordenação nenhuma. [...] Eu não vou atrás do coordenador pra falar o que aconteceu. Se o aluno falar alguma coisa, eu vou lá e falo a minha versão. Se o coordenador não acreditar em mim, me mande embora.

Professora Raquel: [...] o coordenador tem que dar sempre o sim pro professor. Se ele tirar um sim do professor, ele gera uma série de outros conflitos. E liberdade abre brecha pra várias outras situações. Então, quem manda é o professor. Aí, depois, se porventura mais pra frente ele falar: “esse professor não serve pra mim”, ele manda embora. Porque, se ele não apoia o professor, a professora X, a professora Y, ela determinou tal situação. Aí, você tem que conversar com ela e não comigo. Esse tipo de situação, essa falta de base [...] gera indisciplina, porque gera conflito. Eu acho que essa indisciplina, esse chegar até o coordenador, com os exemplos colocados aqui, que são conflitos entre professor e aluno, é tudo gerado pela falta da regra geral.

Professora Augusta: [...] a participação do coordenador em outro aspecto [...] também é importante pra poder identificar dificuldades do próprio docente. Porque a gente não está acima do bem e do mal. A gente também erra e, muitas vezes, a gente tem dificuldade de assumir o erro. Isso é um fato. [...] O ego da maioria dos professores vai acima de qualquer outra coisa, né? Então, pra esse tipo de problema, é importante o coordenador ouvir o aluno, porque, aí, o aluno que sabe identificar esse tipo de situação, ele é um aluno que não vai simplesmente me falar bobagens. Ele vai conversar com o coordenador e ele vai expor a situação de forma educada.

Professora Rosa: o coordenador deve respaldar o professor em questões gerais, especialmente as que envolvem indisciplina ou falta de respeito, pois,

quando o aluno se sente ofendido e o procura, ele deve colocar o porquê daquela atitude do professor.

Professora Lisa: como sei dessas dificuldades, eu dificilmente me utilizo do auxílio da coordenação, como regra acho uma solução com os próprios alunos.

Essas divergências acontecem porque a coordenação parece não se fazer presente nem esclarecer quais são as atribuições dos professores, sua própria e os direitos e deveres dos alunos, o que abre espaço para o professor sentir-se e agir com rebeldia, desconfiança e descrença. Como os próprios docentes declararam o alunos utiliza a desorganização para tentar tirar proveito próprio, favorecendo-se nas obrigações acadêmicas. Fica difícil, nesse panorama confuso, a falta de educação ou a indisciplina não aparecerem, visto que elas indicam que algo está errado no funcionamento da instituição de ensino. Além do apoio da coordenação, com medidas institucionais partilhadas por todos os docentes e discentes, o grupo focal de professores avaliou que a formação universitária precisa melhorar quanto ao aspecto social, com enfoque não apenas na técnica, tal como destacam os professores Tarso, Raquel e Augusta:

A gente tem que fazer uma pedagogia mais preocupada com a formação humana do que qualquer outra coisa, em função da realidade que a gente encontra agora. [...] A formação humana pra esses jovens, na universidade, eu acho fundamental. Eles não sabem nem mesmo respeitar o espaço... Por isso, ter que ouvir, ter que falar. É claro que o ensino superior é diferente do ensino médio, em que você dá um tapa na mesa, manda pra fora e depois vê o que vai acontecer. Aqui, no ensino superior, não dá pra fazer isso. Não dá! A faculdade precisa dar, além da formação pedagógica, uma formação mais humana, isto inclui: “com licença”, “boa noite”, “obrigado” e “por favor”. Nossos alunos desconhecem essas quatro palavrinhas mágicas!

Acho que tanto nós, professores, como os coordenadores, devem estar preparados para, além de educar para a ciência e para a cidadania, educar também nos aspectos elementares do afeto e das relações interpessoais.

Segundo Masetto (2003), as instituições universitárias não têm trabalhado a formação moral e ética do futuro profissional. E, assim, as modificações necessárias na conduta humana não têm acontecido. Os professores percebem essa situação quando constatam que as regras de convivência básica precisam também ser ensinadas e compartilhadas no ambiente universitário. Candau e Koff (2006) avaliam que a didática precisa ser repensada em função desses novos sujeitos, oriundos dessa nova sociedade contemporânea, entendendo que as diferenças devem compor e configurar a reflexão pedagógica. Essa nova configuração é também uma constatação partilhada por empresas quando afirmam que em seus espaços têm

sido difícil lidar com a nova safra de trabalhadores, denominados, por alguns autores, de geração Y (GILBURG, 2007; OLIVEIRA, 2009; SIQUEIRA, 2001). Essas pessoas caracterizam-se por terem outras formas de perceber limites e de portar-se socialmente.

É preciso que as universidades eduquem para além da ciência, retomando o projeto da formação cidadã que pode ter se perdido na educação básica. Os professores reclamam que os alunos têm chegado sem noções básicas de convivência. O que fazer? Diante do que já foi discutido aqui, só há uma resposta: trabalhar essas questões, almejando uma formação técnica juntamente com o saber estar e conviver em sociedade.

5.1.6 Núcleo de significação “Participação no grupo focal”

“Eu gostei muito, é um assunto pouco discutido entre os professores, nós ouvimos as queixas dos colegas quanto aos comportamentos, mas falta esse momento para discutir isso.” (Professora Rosa)

No final da última sessão do grupo focal, perguntou-se a cada professor a avaliação quanto a sua participação na presente pesquisa. A maioria considerou que esse trabalho possibilitou momentos de discussão dos quais, normalmente, o professor não dispõe, já que momentos de trocas com os colegas raramente acontecem nas instituições de educação superior particular. Abaixo estão transcritos os depoimentos de Augusta, Rosa, Lisa e Mafalda:

Achei muito saudável nossas discussões e, mesmo não chegando num consenso, acho que valeu. Me fez pensar na minha atuação em sala de aula... Eu gostei muito porque é um assunto pouco discutido entre os professores. Nós ouvimos as queixas dos colegas, quanto aos comportamentos, mas falta esse momento para discutir isso. Nas reuniões pedagógicas, só se fala em Enade, captar alunos etc., mas o nosso dia a dia mesmo pouco é discutido. É tão necessária para nosso trabalho essa troca de experiências. Como todos, eu gostei muito. Pena que não temos tempo para fazer isso todo mês.

Pra mim foi ótimo! Vi que não sou só eu que tem problemas com os alunos, com a falta de um discurso institucional... Enfim, saber das experiências dos colegas foi ótimo. Gostei muito mesmo. Se tiver outro, pode me convidar.

A necessidade de reunir-se com os colegas para discutir os assuntos de sala de aula foi lembrada: falar do ensino, das relações com o aluno, das estratégias de ensino e dos problemas. Segundo a professora Rosa, as poucas reuniões existentes são realizadas apenas para tratar do Enade – o já mencionado exame que mede a qualidade dos cursos de graduação