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CONSTRUCTION OF SUPERSTRUCTURE Tower [4]

AKASHI KAIKYO BRIDGE PROJECT

CONSTRUCTION OF SUPERSTRUCTURE Tower [4]

Um elemento desconsiderado, ou por vezes minimizado em sua importância, pela grande maioria dos estudiosos do assunto, diz respeito às diferenças e às diversidades existentes dentro do campo anarquista. Tratar de anarquistas, de forma generalizante, tem produzido incompreensões acerca de aspectos básicos dentro do movimento anarquista tanto no mundo, como no caso de sua experiência no Brasil.

Se em algumas vezes prevalece a má fé nas interpretações uniformizantes, por conta de posicionamentos ideológicos e políticos, há também que se considerar o muito de desconhecimento da matéria. Assim, se os anarquistas se encontram todos igualmente dispostos

no espaço da negação do princípio de autoridade, de abolição da hierarquia, acontece de se distanciarem quando partem para o campo das realizações e de um pensamento propositivo.

A recusa da hierarquia não significa desdobramento em campos idênticos relativos às propostas de vida social. Dá-se mesmo o caso de serem estabelecidas distâncias astronômicas entre as expressões integrantes do movimento e do pensamento anarquista. Desta maneira, seria mais justo tratar sempre de anarquismos no plural, evitando o uso do singular por ser generalizante, homogeneizante e, portanto, cego quanto a questões relevantes para um entendimento mais completo da diversidade do movimento em questão72. As expressões dos anarquismos são correntezas manifestando vitalidade e fluidez em seus dinamismos e desdobramentos. A perda desta versatilidade leva ao enrijecimento e, portanto, ao dogmatismo.

A disposição para variar e diferenciar, como característica do multiverso anarquista, traduz abertura à existência de singularidades e divergências. Estas podem chegar a limiares de impossibilidade de conciliação. Na opinião de Benjamin Tucker73, quando da elaboração de um balanço das idéias e expressões anarquistas, o anarquismo tinha sua forma possível com o individualismo. Seu posicionamento relativo a esta questão chegou a ponto de recusar ao comunismo libertário a qualidade de pensamento anarquista. Nomeando especificamente Kropotkin como o mais ilustre expoente do comunismo anarquista, afirmou taxativamente não ser o príncipe russo um ácrata.

A longa e fecunda experiência do movimento anarquista no Brasil apresenta contribuições de diversas escolas libertárias através da divulgação e debates em torno do pensamento de Bakunin, Kropotkin, Reclus e Malatesta, mas também de Proudhon e Stirner. Enquanto é de

72 Para uma leitura acerca de reflexões em torno da diversidade própria ao campo do anarquismo ver PASSETTI,

Edson. Anarquismos e Sociedade de Controle. São Paulo: Cortez, 2003.

73 TUCKER, Benjamin. Socialismo estatal e anarquismo. In: WOODCOCK, George. Os grandes escritos

anarquistas. Tradução Júlia Tettamanzi, Betina Becker. Porto Alegre: L&PM, 1981. p. 131-140. (Biblioteca

domínio comum o conhecimento da ascendência dos quatro primeiros, estes dois últimos são equivocadamente considerados pensadores que exerceram pouca ou nenhuma ressonância no movimento anarquista no Brasil. A assertiva de desconhecimento do pensamento de Proudhon e Stirner entre os trabalhadores é enganosa, pois em livros e em quase todos os jornais revistas aqui analisadas, há presença, de forma direta ou indireta, do pensamento destes estudiosos.

Nomes como Lima Barreto, Elysio de Carvalho e Maria Lacerda de Moura são os mais expressivos na demonstração individualista de matriz stirneriana. Elysio de Carvalho74 na revista

Kultur (1904), Rio de Janeiro, redigiu um artigo comentando o livro de Stirner. Fábio Luz75 em seu testamento libertário registrou os debates provocados por Elysio de Carvalho em torno das idéias de Stirner. A escrita livre, debochada e bem humorada de Lima Barreto lembra o estilo de Stirner. Na revista Aurora76 há um artigo analisando aspectos relativos à formação do pensamento de Stirner. Maria Lacerda de Moura, de seu lado, afirmou em vários de seus escritos sua condição de individualista.

Outros anarquistas, como Friedrich Kniestedt, Francisco Viotti e Florentino de Carvalho, discutem diversos aspectos do pensamento de Stirner em seus escritos. Estes dois últimos operam em suas análises contagiados em muito pelo cabedal conceitual elaborado por Stirner, sem se restringirem, em suas análises, à tentativa de executarem procedimentos de adesão nem filiação. Tampouco reduzem o anarquismo a este filósofo. Acredito ser esta uma demonstração da compreensão que tiveram acerca de um pensamento que não favorece a existência de algum séqüito de seguidores obcecados. Cada um deles elaboraram uma filosofia própria.

74 CARVALHO, Elysio de. Combates pelo Indivíduo. Kultur – Revista Internacional de Estudos Filosóficos e

Questões Sociais. Rio de Janeiro, ano 1, n. 04, p. 31-33, set 1904.

75 LUZ, Fábio. Testamento Libertário de Fábio Luz. In: RODRIGUES, Edgar. Os Libertários – José Oiticica, Maria

Lacerda de Moura, Neno Vasco, Fábio Luz. Rio de Janeiro: VJR – Editores Associados, 1993. p. 208-214.

76 FRONTINI, G. A. As Origens Ideológicas da Doutrina de Max Stirner. Aurora – Revista Mensal de Crítica Social

Relacionando Max Stirner a Friedrich Nietzsche, Friedrich Kniestedt registrou em seu livro autobiográfico ter proferido diversas palestras para os trabalhadores com um mesmo tema: “Stirner ou Nietzsche”. De seu lado, Florentino de Carvalho, em seu primeiro livro, sustenta ter sido Nietzsche influenciado, ainda que relativamente, pelos escritos de Stirner, particularmente pelo seu livro único.

Neno Vasco77, que talvez seja, ao lado de Edgar Leuenroth, o nome mais expressivo do anarcossindicalismo no Brasil, expressa domínio e conhecimento do pensamento filosófico de Stirner. Comentando aspectos de um artigo escrito por Elysio de Carvalho sobre os anarquistas no Brasil, Vasco problematizou as definições elaboradas por Carvalho, rejeitando ser etiquetado desta ou daquela maneira. Nesta direção afirmou ser um stirneriano, na medida em que evidenciava o valor da individualidade e contrário a qualquer tirania, mesmo que a tirania de uma assembléia comunal.

Em artigos escritos na imprensa operária há registros de diversos debates acerca das repercussões do pensamento de Stirner no movimento anarquista. Como afirmei mais acima, Francisco Viotti e Florentino de Carvalho apresentam em seus escritos significativos sinais da influência de Stirner. No caso de Florentino de Carvalho aconteceu de se estabelecer, em seus escritos, mudanças de avaliação acerca do valor e da contribuição de Stirner ao pensamento e ao movimento dos trabalhadores.

Num primeiro momento de seus escritos, vinculou Stirner, Mackay78 e Nietzsche como exercendo uma influência negativa no movimento operário, afirmando consistir suas filosofias

77 VASCO, Neno. Individualismo + Comunismo (Carta d’um classificado). Kultur – Revista internacional de

Filozofia, Sociologia, Literatura, etc.. Rio de Janeiro, ano 1, n. 2, p. 18-19, [Abril?] 1904. (Germinal de 112).

78 Deve-se ao poeta e anarquista Jonh Henry Mackay a retirada de Stirner do ostracismo a que seu tempo o

condenou. Em fins do século dezenove Mackay encontrou casualmente o livro de Stirner numa biblioteca na Alemanha, ficando fascinado com a leitura do texto. Direcionou, a partir de então, esforços a fim de levantar dados sobre sua vida e sua obra, tendo escrito a primeira e fundamental biografia de Stirner. Ver WOODCOCK, George. O Homem Egoísta. In: ______. Anarquismo: uma história das idéias e movimentos libertários – A Idéia. Tradução de

uma espécie de egocentrismo79. Num segundo momento, manteve esta crítica em relação a Nietzsche, reconsiderando sua avaliação inicial dos dois primeiros e evidenciando o pensamento de Stirner enquanto contribuição por demais importante ao universo do pensamento anarquista.80

Todavia, sobre a relação do pensamento e obra de Nietzsche com os postulados do anarquismo, outros ácratas manifestaram perspectiva contrária a de Florentino de Carvalho. Foi o caso de José Oiticica81 e Henry Lichtenberge82. Ambos analisaram a filosofia nietzscheana enquanto integrante do campo anarquista. Este debate demonstra o conhecimento, por parte dos anarquistas, quanto à existência de uma relação entre o pensamento de Nietzsche com o de Stirner. Nos nossos dias, esta associação foi considerada plausível somente através de algumas pesquisas mais recentes83.

Quanto à influência prática de Proudhon, talvez ela tenha se dado tanto no cooperativismo como junto às associações de beneficência ou mutualidade abundantes em meados para fins do século XIX. Considerando os debates e discussões existentes nos jornais e revistas anarquistas, há que se admitir um conhecimento bastante aprofundado das idéias e conceitos formulados por Proudhon e Stirner.

Individualistas, sindicalistas revolucionários, comunistas libertários e anarquistas sem

adjetivos são algumas expressões existentes no movimento operário no Brasil que foram, de uma

Alice K. Miyashiro; Heitor Ferreira da Costa; José Antonio Arantes; Júlia Tettamanzy. Porto Alegre: L&PM, 1983. v. 1.

79 CARVALHO, Florentino de. Atitude dos Anarquistas ante o Movimento Operário. Guerra Sociale. São Paulo,

ano 1, n. 08, 1915.

80 Ver capítulo vinte e cinco de CARVALHO, Florentino de. Da Escravidão à Liberdade: a derrocada burguesa e o

advento da igualdade social. Porto Alegre: Renascença, 1927.

81 OITICICA. José. Nietzsche e os bolchevistas. In: ______. Ação direta, antologia dos melhores artigos

publicados na imprensa brasileira - meio século de pregação libertária. Seleção, introdução e notas: Roberto das

Neves. Rio de Janeiro: Germinal, 1970. p. 166-169.

82 LICHTENBERGER, Henry. Os dois nihilismos. Kultur – Revista Internacional de estudos filozoficos e questões

sociais. Rio de Janeiro, ano 1, n. 5, p. 5-6, out 1904.

83 A este respeito ver o posfácio à versão em português do livro de Stirner escrito por MIRANDA, José Bragança de.

Stirner, o Passageiro Clandestino da História. In: STIRNER, Max. O Único e a sua Propriedade. Tradução de João Barrento. Lisboa, Portugal: Antígona, 2004. p. 297-339. PASSETTI, Edson. Éticas dos Amigos: invenções libertárias da vida. São Paulo: Imaginário, 2003.

forma direta ou indireta, influenciados pelos escritos do conjunto dos clássicos do anarquismo. Estas designações apontam para estabelecimento de importantes pontos dissidentes entre integrantes do mesmo movimento anarquista. Não obstante quase todos se designarem anarquistas, há que se considerar as suas especificidades.

Os chamados antiorganizacionais expressam um campo de interseção entre o comunismo libertário como e o individualismo. Os primeiros, no que diz respeito às propostas de reorganização social, adotaram as concepções anarco comunista de abolição do Estado, do capitalismo e do equivalente universal. Os produtos seriam intercambiados através de trocas diretas entre as comunas. O eixo do dinamismo da vida social estaria nas mãos da assembléia comunal. Ambas as tendências, individualistas e comunistas libertários, foram designadas antiorganizacionais não por serem absolutamente contrárias a toda forma de organização social. Esta compreensão, vale salientar, caracteriza um mal entendido em torno dos que criticavam o sindicalismo. Esta crítica, por convergir com aspectos do pensamento individualista, deixava por vezes a impressão de antagonismo a qualquer forma de ação solidária.

A qualificação de antiorganizacionais se estabeleceu dentro dos debates entre os integrantes do movimento anarquista acerca do posicionamento a ser adotado diante do movimento dos trabalhadores, particularmente em relação à proposta sindicalista debatida desde a organização da Associação Internacional dos Trabalhadores. Em relação ao sindicato, alguns setores do movimento dos trabalhadores se encaminharam para propostas de intervenção social em que o sindicato constituía espaço privilegiado para a localização e estratégia das lutas libertárias.

Dentro desta perspectiva o sindicato é tido não apenas como instância de resistência, mas também como meio por demais importante na reorganização da sociedade. Desta maneira, abolido o Estado e extinto o capitalismo, ao sindicato caberia o papel de célula social,

organizando e coordenando todo o dinamismo da vida social. Isto para além da produção e distribuição de produtos e da riqueza social.

A forma para se alcançar estes objetivos seria através da construção da greve geral expropriadora, pela qual o capitalismo e o Estado cairiam. Os antiorganizacionais discordavam radicalmente desta concepção de revolução, elaborando uma crítica aguda ao sindicalismo e rejeitando-o enquanto campo possível de atuação pelos anarquistas. Para eles o capitalismo, dentre seus filhos diletos, tinha no sindicalismo uma de suas formas de expressão mais significativas, constituindo elemento por demais relevante na gestão da sociedade vigente.

Derrubar o Estado e o capitalismo, mantendo o sindicato, consistiria num desígnio equivocado, pois ele por si só é resultado do capital e do Estado. Os antiorganizacionais destacaram no sindicalismo seu papel de auxiliar na gestão da sociedade em benefício do capital e do Estado. A forma de organização dos trabalhadores por especialidade constitui indicativo deste caráter de disciplinamento e controle dos trabalhadores pelo patronato e governantes. O modelo sindicalista reproduz no interior do próprio movimento dos trabalhadores as divisões estabelecidas pela organização capitalista das tarefas.84

As críticas ao sindicalismo elaboradas por Malatesta, expostas mais acima, vão nesta direção. Assentar a organização dos trabalhadores sobre uma base justaposta à organização capitalista consistiria no estabelecimento de bases frágeis, para não dizer contraproducentes, para os proletários em suas lutas contra o capitalismo e o estatismo. Tal procedimento apresentava-se favorável ao estabelecimento de outras formas de relações sociais não condizentes com os postulados libertários.

84 Sobre a questão específica da divisão de tarefas ver GORZ, André (Org.). Crítica da divisão do trabalho.

Além do mais, entendiam os antiorganizacionais, a greve geral expropriadora não era instrumento suficiente para extinguir o capitalismo e o Estado. As classes dominantes usariam de todos os expedientes possíveis e inimagináveis para manter seus privilégios. Caso as seduções oferecidas pelo sistema não exercessem efeitos desejados sobre os segmentos sociais resistentes e revoltosos, a violência, via de regra, seria usada, sem o menor requinte de comedimentos.

Os estratos dominantes da sociedade não hesitariam em usar do recurso da violência contra os trabalhadores sublevados, esmagando-os fisicamente, procurando a liquidação das possibilidades de transformação social no sentido do estabelecimento da liberdade e da igualdade social. Esta probabilidade não era considerada pelos sindicalistas revolucionários que entendiam o cruzar dos braços por parte dos trabalhadores como um expediente eficaz e suficiente para desferir golpe mortal contra o Estado e o capital.

Além disso, o sindicato, segundo os antiorganizacionais, possui qualidades inerentes contrárias a todo e qualquer projeto libertário: corporativista, imediatista e economicista são apenas as principais características criticadas do sindicalismo. Corporativista porque a organização do movimento operário, se dando de acordo com a divisão de tarefas estabelecida no capitalismo, coloca de antemão os trabalhadores em oposição entre si, fazendo com que cada segmento tenha em consideração apenas seus interesses contra os de seus companheiros.

Imediatista por concentrar as energias e atenções aos acontecimentos do instante vivido, sem uma perspectiva mais ampla e mais larga acerca do modelo organizacional vigente. Por fim, economicista por entrar no círculo vicioso da restrita luta por melhorias salariais, descartando o exercício de uma visão crítica sobre as causas e fatores fundamentais da exploração e do domínio dos trabalhadores pelo patronato e governantes.

Por sua vez os anarquistas sem adjetivos consideravam como exatas as críticas dos antiorganizacionais ao sindicalismo, reconhecendo ponto por ponto as análises destes quanto aos

limites inerentes ao sindicato. Entretanto deles se distanciavam quando da recusa a atuar dentro das associações de classe. Para eles, toda a conjuntura em vigor à época facultava a ocasião para uma atuação anarquista dentro dos sindicatos de maneira a escapar aos limites próprio do sindicalismo. Isto significa dizer se dar à atuação dos anarquistas sem adjetivos dentro dos sindicatos de uma forma absolutamente crítica. Para estes, o momento histórico no qual viviam, possibilitava aos anarquistas atuarem enquanto anarquistas, sem transigir nem afrontar os postulados libertários, dentro das associações de classe.

Além do mais, operavam, em suas reflexões e atividades, distinguindo movimento operário do sindicalismo. A luta anarquista, desta maneira, situava-se tendo na organização do movimento dos trabalhadores um dos fatores explicativos de suas origens. A questão econômica compunha, ao lado de outras, uma das áreas de atuação dos trabalhadores. Os sindicalistas, ao contrário desta perspectiva mais ampla, percebiam o anarquismo como sendo sindicalista por essência. Para os anarquistas, os sindicalistas revolucionários, por vezes, apresentavam uma concepção sindicalista do anarquismo, em que pese afirmarem adotarem o anarquismo enquanto referencial.

Considerando estas reflexões iniciais é que me propus para este momento elaborar estudos visando tratar o tema a partir da análise de alguns jornais e revistas publicados por trabalhadores integrantes da fração anarquista do movimento operário no Brasil dentro da primeira década da república.

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Vocês olham coisas que