4. METODE
4.8 S TATISTIKK
Inicialmente, optou-se por esclarecer que esse estudo refere-se, prioritariamente, ao Design Industrial, do inglês Industrial Design e, não a área do Design, em seu generalismo pleno. Esse esclarecimento se faz pertinente porque o design, atualmente como tem sido compreendido abarca muitas outras áreas que não são campos de atuação do designer industrial, como é o caso do artesanato, das novas mídias gráficas digitais voltadas ao projeto de sistema digital para a rede mundial de computadores (internet), do estilismo, da decoração, da cenografia ou interiores, entre outras; embora, o designer industrial também desenvolva durante sua formação profissional competências, habilidades e qualidades para produzir, eventualmente, projetos de artefatos industriais com alguma ligação nas áreas supracitadas, por exemplo, qualquer artefato ou sistema de
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Optou-se, durante a extensão da narrativa do estudo adotar a expressão “artefatos industriais” quando se referir ao resultado da projetação do designer industrial. Nos momentos em que aparece o termo “produto” em vez de artefatos industriais se deve à manutenção da ideia extraída de demais autores citados.
objetos tangíveis para atingir aquelas finalidades, mesmo que se configure em produção unitária ou limitada.
Bomfim (1978), ao fazer alusão à citação empregada de Papanek relacionando design a praticamente todas as atividades humanas, conclui:
Ora, segundo Papanek, design pode ser tantas coisas, que o próprio conceito se torna nulo, tamanha a sua abrangência. No nosso caso, interessa apenas o termo industrial design, que limita a priori essa atividade ao campo dos produtos industrializados, e em série. BOMFIM (1978, p.59) Outro aspecto esclarecedor diz respeito ao fato desse estudo não priorizar a etimologia do termo nem dar vazão a discussões aprofundadas acerca do uso do termo em inglês em detrimento ao do português e vice-versa. Essa é uma questão que foge do escopo desse estudo e que outros pesquisadores ou, já o fizeram, ou, continuarão a fazê-la durante estudos futuros com grande propriedade, vide Gomes (1994, 1996, 1997 e 1998), além de várias outras publicações, dentre outros autores. Acredita-se que a adoção pelo termo design, no Brasil, em substituição ao termo Desenho Industrial tenha sido precipitada e trouxe implicações e prejuízos para quem faz, vive, “transpira” ou atua profissionalmente com design industrial, com projetos de artefatos industriais ou para aqueles que preferirem, com design de produtos.
Schneider (2010) mostra que a rediscussão do emprego e as implicações do termo design na Alemanha e na França também estão sendo aflorados. Por exemplo, Bonsiepe citado por Schneider (2010), propõe para a Alemanha os termos Entwerfen (projeto) e EntwerferIn (projetista), enquanto, na França, Findeli propõe, respectivamente, Projet e Projecteur.
Para finalizar a questão da banalização do emprego do termo design no Brasil, Bonsiepe (2011) foi categórico:
O uso do termo causou e causa até hoje certa resistência, que não se pode atribuir a um purismo linguístico. Inicialmente, design associava-se às atividades projetuais. Contudo, a partir da década de 1990, foi perdendo o seu significado original e adquirindo outras conotações, como o divertido (fun design), caro, superficial, extravagante, efêmero, caprichoso e emotivo. Associou-se a moda, festas e eventos midiáticos. Perdeu rigor e transformou-se em termo curinga, não contribuindo para consolidar a profissão dos projetistas de produtos e dos programadores visuais. BONSIEPE (2011, p.13)
O Quadro 01 demonstra que várias nações possuem, mantêm ou adotam termos originais dos seus respectivos idiomas o que desqualifica a tese de que o termo design seja universal ou “caminha” para isso como argumentam os adeptos do emprego do termo anglicista.
Quadro 01: Termo Desenho Industrial e equivalências em idiomas. Termo em
Português Pais ou Nação (Idioma) Termo Equivalente
Desenho Industrial
Espanhol Diseño Industrial*
Inglês Industrial Design*
Alemão Produkgestaltung ou industrielle Formgebung*; Industrie-
Design**
Francês Esthétique Industrielle*
Italiano Disegno Industriale*
Russo Tecnicheskaia Estetika*; Промышленный дизайн**
Malaio/Indonésio Reka Bentuk Perindustrian**
Africâner Industriële Ontwerp**
Albanês Dizajnit Industrial**
Azerbaijano Sənaye Dizayn**
Catalão Disseny Industrial
Crioulo haitiano Endistriyèl Design**
Croata Industrijski Dizajn**
Dinamarquês Industriel Design**
Eslovaco Priemyselný Dizajn**
Esloveno Industrijsko Oblikovanje**
Esperanto Industria Dezajno**
Estoniano Tööstusdisaini**
Finlandês Teollinen Muotoilu**
Galego Disseny Industrial
Galês Dylunio Diwydiannol**
Holandês Industrieel Ontwerpen**
Indonésio Industri Desain**
Islandês Industrial Design**
Letão Rūpnieciskais Dizains**
Lituano Pramoninis Dizainas**
Maltês Reka Bentuk Perindustrian**
Norueguês Industrial Design**
Polonês Wzornictwo Przemysłowe**
Romeno Design Industrial**
Sueco Industriell Formgivning**
*Adaptado de Maldonado (1993); **Adaptado de Google Tradutor.
O Conselho Internacional das Associações de Desenho Industrial (ICSID) apresenta uma definição da área do design industrial, formulada no final da década de 1960, por Tomás Maldonado, mas atualizada nos últimos tempos como sendo:
É uma atividade criativa cujo objetivo é determinar as qualidades formais dos objetos produzidos pela indústria. Estas qualidades formais não são apenas as características exteriores, mas principalmente aquelas relações funcionais e estruturais que convertem um sistema para uma unidade coerente tanto do ponto de vista do produtor e do usuário. Design industrial se estende para abraçar todos os aspectos do ambiente humano, que são condicionadas pela produção industrial, ICSID. Disponível em http://www.icsid.org
O design industrial teve, e continua tendo, tamanha relevância para as nações industrializadas, em processo de industrialização ou que entendiam que o design industrial tem forte poder de inovação científica e competitividade tecnológica, algo que Puerto (1999) produziu no
Quadro 02, embora desatualizado, mas salientava alguns países e suas principais entidades responsáveis pelo desenvolvimento de programas e ações na área.
Quadro 02: Centros de promoção e difusão do design industrial no mundo.
País Entidade Programas
Canadá National Design Council Consultoria: Design Industrial
China (Taiwan) Industrial Design Promotion Center China External Trade Development Council
Consultoria: Design Industrial/Embalagem
Dinamarca Danish Design Council Consultoria: Design Industrial/Embalagem
R.F.A. (Alemanha
Ocidental) Design Center Stuttgart Consultoria: Design Industrial R.D.A. (Alemanha
Oriental) Internationales Design Zentrum Berlin Treinamento Marketing, Gestão e Industrialização em Design: Design,
Japão Japan Indusrial Design Promotion
Organization Treinamento em Design: Design Industrial, Design Industrial e de Embalagem
Coréia Korea Design & Packaging Design
Design Center Pesquisa em Design: Design Industrial
Holanda Industrial Design Foundation the
Netherlands Consultoria: Design Industrial
Nova Zelândia New Zeland Industrial Design Council Consultoria: Design Industrial
Espanha Barcelona Design Center Treinamento em Design e Consultoria
Inglaterra The Design Council Consultoria: Design Industrial
USA Design Management Institute Pesquisa e Treinamento: Design Industrial
Industrial Designers Society of America Consultoria: Design Industrial
Iuguslávia Secretariat to Biennial of Industrial Design Treinamento em Design: Design Industrial
Noruega Norwegian Design Council Treinamento em Design: Design Industrial
África do Sul Design Institute Treinamento em Design: Design Industrial Fonte: Puerto (1999).
Para Maldonado (1993), geralmente, compreende-se por design industrial a projetação de artefatos fabricados industrialmente por intermédio de máquinas e de modo seriado, cuja função principal consiste na projetação da forma de um produto, onde projetar a forma significa a coordenação, a integração e articulação de todos os fatores participantes do processo constitutivo da forma do artefato. Este autor atribuiu relação aos aspectos de uso, fruição ou de consumo individual ou coletivo (social) atrelados aos fatores funcionais, simbólicos ou culturais quanto àqueles aspectos de produção denominados de fatores técnicos e econômicos tais como técnicos sistêmico-
construtivos, técnico-produtivos e técnico-distributivos.
Parafraseando Redig (1977), ao apresentar uma das definições de design industrial bastante usada em língua portuguesa já entendia àquela época o design industrial como a equação concomitante de vários fatores tais como ergonômicos, de percepção, antropológicos, tecnológicos, econômicos, ecológicos, dentre outros, a serem adotados na projetação de elementos e estruturas físicas inerentes ao bem-estar físico e psicológico dos seres humanos.
Gonçalves (1981) considera o design industrial como uma atividade meramente de cunho projetual capaz de determinar a produção seriada dos objetos por intermédio de processos de planejamentos, de ordenações e de racionalização industrial. Nesse sentido, este autor estabelece uma estreita relação entre os conceitos de indústria, tecnologia e ciência quando afirma que a aplicação produtiva da ciência pela indústria se dá por intermédio das máquinas as quais são instrumentos da tecnologia. Assim, para este autor, o produto ou artefato concebido pelos designers
industriais resulta de uma transformação da matéria-prima, por intermédio de processos produtivos e tecnológicos, a partir de conhecimentos técnicos e científicos, previamente, planejado, ordenado e racionalizado.
Dorfles (1989) menciona que um objeto para ser enquadrado como concepção atribuída ao design industrial é necessário preencher os seguintes requisitos básicos: i) fabricação em série; ii)
produção mecânica; e, iii) presença de valor estético. Sob esse aspecto Este autor aponta que há a
possibilidade do grupo da pequena ou pequeníssima série cujos exemplares podem ser poucas dezenas de unidades ou até mesmo poucas unidades; nesse grupo podem estar presentes os aviões, “as locomotivas, os navios de carga, os submarinos, as máquinas calculadoras electrónicas gigantes, os electroencefalógrafos e demais instrumentos de alta precisão e de escassa difusão”, Dorfles (1989, p.29-30). O outro grupo, conhecido por grandíssima série, contempla a grande maioria dos casos dos objetos onde podem atingir milhares ou centenas de milhares de exemplares idênticos ao protótipo tais como as louças, os eletrodomésticos, os recipientes, os talheres, os brinquedos dentre outros (Idem).
Schulmann (1994), por outro lado, esclarece bastante quando assevera que o design industrial “é um instrumento que permite prevenir, minimizando os riscos”, (1994, p.9); ou, quando afirma que seja um “método, que deve, por natureza, adaptar-se às evoluções sociais e econômicas”, (Idem); e, que, em algum determinado momento, “a maioria dos produtos que nos acompanha em nossa vida diária foi objeto de um estudo de desenho industrial”, (Ibidem).
Para Löbach (2001) entende-se por design industrial “toda atividade que tende a transformar em produto industrial passível de fabricação, as ideias para a satisfação de determinadas necessidades de um indivíduo ou grupo”, Löbach (2001, p.17). Desse modo, complementa que é “um processo de adaptação dos produtos de uso, fabricados industrialmente, às necessidades físicas e psíquicas dos usuários ou grupo de usuários”, Löbach (2001, p.21).
Outra compreensão acerca do termo design industrial Bürdek (2010) atribui a sua utilização pela primeira vez a Mart Stam, em 1948: “Stam entendia por projetista industrial aquele que se dedicasse, em qualquer campo, na indústria especialmente, à configuração de novos materiais”, Bürdek (2010, p.15).
Schneider (2010) define o design industrial também conhecido por design de produto por se constituir um processo extremamente complexo, integrante de uma empresa, “hierarquicamente estruturado, de desenvolvimento criativo organizatório de produtos, desde o planejamento, passando pelo projeto, até atingir a fase em que eles estão prontos para ser produzido em série”, Schneider (2010, p.204). Segundo este autor pode abranger desde produtos de consumo, do ramo da medicina e até de armamentos.
Outros pensadores do design industrial situam essa área no campo da tecnologia como é o caso de Gay e Samar (2007):
Esta nueva actividad profesional el Diseño Industrial, si bien está enmarcada por la estética, no pertenece al campo del arte, sino de la tecnología, su actividad no consiste (como sucedía antes) em embellecer los productos agregándoles ornamentos que nada tienen que ver con su funcionalidad, sino más bien en lograr una unidad entre tecnología y
estética en la misma etapa de concepción del producto, para lograr que el objeto, además de ser funcional, sea agradable a la vista. GAY e SAMAR (2007, p.11)
Manzini e Vezzoli (2002) esclarecem que a expressão design industrial não pode sofrer interpretações reducionistas, atribuídas a ela apenas um significado de produto físico – o material, a forma e a função. Essa interpretação foi adotada por muitos para justificar a substituição de desenho industrial por design. Para o autor, deve ser compreendida na sua digna plenitude e atualidade, ou seja, um “sistema-produto”, “isto é, ao conjunto integrado de produto, serviço e comunicação com que as empresas se apresentam ao mercado”, Manzini e Vezzoli (2002, p.19).
Cunha (2002) citando a definição de Karim Rashid afirma que:
Design Industrial é um ato criativo, um ato político, um ato físico, e um processo socialmente interativo que é maior que a própria forma física. Seu resultado é manifestado em formas estéticas; seu conteúdo é inspirado por todas as possibilidades de nossas condições contemporâneas. CUNHA (2002, p.17)
Hannah (2004) compilou em sua publicação alguns depoimentos sobre a conceituação da expressão projeto de produto, os quais foram transplantados para o Quadro 03 a seguir:
Quadro 03: Depoimentos sobre Projeto de Produto (Design de Produto).
O que é Projeto de Produto?
Conceituação Depoimentos
“É o desenvolvimento de novas idéias para tornar os produtos mais fáceis
de se usar, mais atraentes aos olhos, e mais eficiente para a fabricação”. Paul Metaxatos - Design
“É a fusão perfeita do modo como um produto funciona com a sua
aparência”. Joel Delman, 20-20 design
“Qualquer produto está em constante mudança. Mas, para mim, é o processo da apresentação de algo (solução), utilizando os recursos dos outros (fabricante/cliente) para proporcionar algum benefício a alguém (usuário)”.
Tad Toulis, Motorola.
“Atualmente, eu o descreveria como o projeto de produtos, de sistemas e de experiências que tornam a vida dos usuários mais produtiva, saudável e feliz. Se você comparar essa definição à resposta de Henry Dreyfuss a uma pergunta semelhante na década de 1950, é praticamente a mesma”.
Ron Kemnitzer, Design Kemnitzer.
“O projeto do produto não começa com um esboço. Para mim, começa com a identificação de uma necessidade. A necessidade deve ser real, e não um problema imaginário que alguém pode ter. Eu não posso pensar em produto sem pensar no mercado. Se eu não consigo descobrir como comercializá-lo, eu abandono a idéia desde o início. Então, eu considero a tecnologia adequada, os testes, as coisas normais que todos nós fazemos, etc. Eu o provoco até o fim. Quando tudo está concluído, a solução deve continuar a tradição de fazer mais com menos.”
Craig Vetter, Design Vetter.
“Basicamente, o desenho industrial é a profissão que projeta produtos - mas nós fazemos muito mais. Porém, no futuro, o desenho industrial abordará menos sobre um simples produto e mais sobre facilitar a comunicação entre o usuário e o produtor. Em outras palavras, somos talentosos tradutores”.
Tucker Viemeister, Springtime.
“É a concepção e a criação dos instrumentos da vida diária”. Patricia Moore.
“É a atribuição de uma lista de requisitos para um produto manufaturado. Esta atribuição é a interpretação do projetista às metas e parâmetros definidos pelo cliente e relativos ao meio ambiente”.
Trevor Combs, Super Innovative Concepts.
“É o processo de identificar, definir, resolver, inventando e moldando
soluções físicas para os problemas da vida”. Peter Bressler, Bressler Group.
“É o ciclo do projeto inteiro - vai do início ao fim do ato de projetar e desenvolver os produtos. Fazê-lo, pouco a pouco, por intermédio de uma série de diferentes produtos, processos, materiais, e assim por diante”.
André Grasso, Index Industrial Design.
“É dar forma, razão e personalidade ao inanimado”. George Schmidt, George Schmidt Design.
Fonte: Adaptação de Hannah (2004).
Como se pôde verificar há uma vastidão de definições e conceituações sobre o design industrial ou a respeito do projeto de artefatos industriais. Algumas nasceram no seio da tecnologia, outras têm um perfil mais social ou de cunho gerencial. Enfim, as tentativas de definições e conceituações acerca da expressão são muitas, porém reflete a visão sob essa área por olhares distintos, algo que não corresponde a erros e distorções, mas, sobretudo por enfoques particulares, talvez complementares, e específicos de contextos ou perfis daqueles pensadores sobre o design industrial.
Definir, conceituar ou compreender o design industrial daqui a um século à frente, por exemplo, certamente, terá novos elementos característicos que a sociedade não os possui com clareza ou não os desenvolveu ainda até o presente momento. Aspectos como as necessidades permanecerão sob outro foco ou níveis de importância distintos da atualidade. A fonte energética utilizada ou a tecnologia de produção e fabricação poderá ser outra, possivelmente, com maiores benefícios sociais e ambientais. A projetação, compreendida entre o método projetual e a sua execução, deverá se valer de outros instrumentos metodológicos e aparatos tecnológicos.
Esta área, possivelmente, não será extinta a não ser que surja uma nova civilização onde todas as necessidades a serem satisfeitas pelos indivíduos não careça mais de artefatos físicos e, sim, somente de bens imateriais, intangíveis, talvez invisíveis. Nesse caso, há três possibilidades a se considerar: i) surgirá uma nova área e uma nova profissão para atender a essa nova demanda; ii) alguma outra área e profissão já existente se adequarão e migrarão para atender a essa carência; ou, iii) o próprio designer industrial se incumbirá dessa nova função. Esse novo tempo parece estar bem longe de se tornar uma realidade!