4.3 Speed proles
4.3.3 Tangential speed component
As primeiras intervenções no espaço do Matadouro aconteceram entre 1992 e 1993, quando foram construídos os depósitos para o acervo em base de nitrato (n.º 9 da planta) e foi reformado o Depósito 2 (n.º 12 na planta), denominado no projeto como depósito intermediário. Como dissemos, Rudá de Andrade e João Sócrates de Oliveira se ocuparam destas primeiras intervenções na Área Técnica.
Sobre os depósitos para os nitratos, o relatório anual de 1992 informa que “não havendo recursos para a instalação de climatização artificial, optou-se por um projeto com proteção térmica e de segurança, adequados e de baixo custo”470. Para conseguir a maior eficiência possível dentro das limitações econômicas, a construção destes depósitos se valeu de conceitos técnicos testados, muitos dos quais haviam sido aplicados na construção dos arquivos do British Film (na década de 1940), como descrevemos no primeiro capítulo. Porém, diferentemente dos depósitos ingleses, além de não poder contar com recursos para o tratamento do ar através de equipamentos de climatização artificial, as condições climáticas brasileiras – notadamente mais quentes e úmidas do que as inglesas – exigiam uma solução nacional para a questão. A formação em arquitetura de João Sócrates, neste momento, foi providencial e ele projetou, a princípio, oito depósitos pequenos que comportariam cerca de 500 rolos em cada um (a ultima revisão dos nitratos, em 1989, contara cerca de 3.600 rolos). Porém, as restrições orçamentárias obrigaram a construção de apenas quatro depósitos que abrigaram cerca de mil rolos cada.
Na prática, o que se chamou de projeto de “proteção térmica e de segurança, de baixo custo” foi a estruturação dos depósitos de tal forma que as paredes oferecessem algum isolamento das condições climáticas externas – promovendo a estabilidade térmica possível sem equipamentos de climatização –, com uma aeração constante garantida pela aplicação de princípios científicos básicos. Vejamos como.
Os quatro depósitos construídos, sendo geminados dois a dois, foram levantados com tijolos vazados de concreto e com o forro também em concreto. Entre as paredes geminadas dos depósitos foi levantada uma terceira parede de concreto. Acima do forro, deixando um vão de aproximadamente um metro, foi colocado um telhado com estrutura de madeira e telhas de amianto. Nas laterais, deixando um corredor de
cerca de um metro, foi levantada uma parede de cada lado, também com o tijolo vazado em concreto, mas com o tijolo deitado, deixando à mostra o vazado do tijolo, numa espécie de treliça de concreto. O desenho abaixo deixa mais claro o que estamos descrevendo.
Para conseguir alguma estabilidade térmica nos depósitos, o conceito com o qual se trabalhou foi o de criar barreiras para a ação do tempo, criando “camadas” de proteção sobrepostas. Assim, os tijolos de concreto, um material mais denso e menos condutor (de calor) e com menor porosidade (para umidade) do que o barro ou o cimento dos tijolos mais comumente usados em construções, cumpria a função de isolar o interior do depósito da umidade e calor externos. Assim como o teto em concreto, que cumpria a mesma função pelas mesmas características de densidade e porosidade. Os tijolos vazados, que deixavam uma camada de ar interna nas paredes, colaboravam especialmente para o isolamento térmico, pois o ar é sabidamente um bom isolante térmico. A propriedade de isolamento térmico do ar foi também o motivo para a colocação do segundo telhado deixando uma camada de ar entre a laje dos depósitos e as telhas. Este segundo telhado ainda impedia que a chuva e os raios solares incidissem diretamente no teto dos depósitos, criando mais uma barreira para o calor e a umidade, afora a proteção que já significava o próprio forro de concreto. Igualmente, as paredes em treliça, erguidas nas laterais dos depósitos, serviam para impedir a incidência direta
dos raios solares e da água da chuva nas paredes dos depósitos, reduzindo também a transmissão de calor e umidade.
As telhas de amianto foi uma solução de economia, pois transmitem muito calor e, portanto, reduzem a eficiência do isolamento desejado. Pensou-se em algumas soluções para minimizar a desvantagem do amianto, como pintar o telhado com tinta reflexiva ou aplicar por jateamento uma espuma isolante (de poliuretano) que existia no mercado comum (esse recurso foi usado inclusive para tratar provisoriamente um dos galpões do antigo Matadouro nesta mesma época). Seja por falta de recursos ou por circunstâncias da política interna de investimento, nenhuma destas alternativas foi implementada durante alguns anos. Somente no final de 2005 as telhas foram substituídas por telhas térmicas, fabricadas especificamente para o isolamento térmico em telhados – as chamadas telhas sanduíche – constituídas de poliuretano expandido entre duas lâminas de metálicas471.
Além de isolar o ambiente interno do clima externo, os depósitos precisavam permitir a dispersão dos gases resultantes da deterioração do suporte de nitrato – o ácido nítrico – pois, como dissemos, a concentração destes gases acelera os processos degenerativos e contamina os rolos não deteriorados. Para tanto, foram construídas nos fundo de cada depósito chaminés que promoviam a renovação constante do ar pela diferença da pressão atmosférica. Alfonso del Amo explica com clareza esse conceito, na publicação Clasificar para preservar:
La ventilación por diferencia de presiones constituye un recurso utilizado históricamente por la humanidad para enfriamiento y deshumectación de sus construcciones. Como es sabido, al calentarse el aire se expande y se hace más ligero por unidad de volumen y, en consecuencia, el aire caliente tiende a subir buscando las zonas de menor presión en las alturas superiores. […] Atendiendo a este principio, en una edificación que tenga la entrada de aire en su nivel inferior y la salida en el superior, todo el interior de la edificación se comportará como un conductor que enlaza dos zonas de diferente presión atmosférica; como un vaso comunicante, por el que el aire circulará continuamente, subiendo por el interior del edificio, para intentar nivelar las dos presiones sin poder conseguirlo jamás.472
Desta maneira, e segundo estes princípios, a chaminé criava uma zona de baixa pressão por onde saía o ar aquecido e as frestas da porta permitiam a entrada do ar mais frio, promovendo a ventilação por depressão que fazia a renovação constante do ar interno. A circulação ininterrupta do ar, por sua vez, carregava para fora dos depósitos os gases da deterioração. Este recurso tinha ainda a função de ser mais um elemento auxiliar do
471 À título de informação, estas telhas surgiram no Brasil nos anos de 1980. 472 Alfonso del Amo, op. cit, 2006, p.173.
controle climático interno, como explica Alfonso del Amo na seqüência do trecho citado acima:
Combinando estos dos principios (la tendencia del aire caliente a subir y la tendencia general del aire a fluir hacia la zona de menor presión cuando circula por un conducto) es posible conseguir reducciones de temperatura y humedades muy importantes y, lo que es más importante, absolutamente independientes de los fallos en el funcionamiento de los equipos, en el suministro de energía o en la financiación del archivo.473
Portanto, toda a estrutura física dos depósitos de nitrato colaborava para se criar um ambiente interno propício à conservação do acervo, dentro dos limites que este tipo de solução permite. Naquele momento de mudanças, reformas e restrições orçamentárias, foi providencial que a solução alternativa prescindisse dos gastos com equipamentos e dos custos da energia elétrica, que seriam ampliados consideravelmente pelo uso continuado destes equipamentos.
A circulação constante do ar, e a consequente eliminação do ácido nítrico em forma de gás, também era uma questão de segurança. Assim como o suporte de nitrato pode entrar em combustão espontânea, o ácido nítrico na forma gasosa é altamente inflamável e, em caso de incêndio, a pressão interna provocada pela expansão do ar (por causa do calor do fogo) pode chegar a ponto de causar a explosão do depósito. Para prevenir esse tipo de sinistro, na saída de escape das chaminés foram colocadas venezianas leves, construídas na própria Cinemateca com lâminas de PVC, e fixadas nos vãos apenas com calços. No caso de um incêndio, a pressão interna expulsaria a janela, evitando a explosão e direcionando o fogo para a chaminé. Pelo mesmo motivo, os depósitos não tinham nenhuma instalação elétrica para que não se corresse o risco de que um curto-circuito provocasse o incêndio. Ainda, no caso de incêndio em um dos depósitos, a parede de concreto colocada entre as paredes geminadas servia de isolante térmico para que o calor do fogo de um depósito não provocasse o incêndio no depósito contíguo.
Estes depósitos sem dúvida melhoraram sensivelmente as condições de armazenamento e de segurança do acervo de nitrato, especialmente se comparadas com a falta de estrutura das casinholas do Parque do Ibirapuera. Em 1993 a Cinemateca não contava com instrumentos de medição ambiental para monitorar o ambiente interno dos depósitos. Porém, como estes arquivos permaneceram sem alteração física até 2007, quando aconteceu a troca das telhas que comentamos, e podemos tomar como base de estudo as leituras feitas nos anos posteriores, através de termohigrôgrafos.
473 Idem, ibidem, p. 173.
Tomaremos como exemplo uma semana do mês de setembro e outra de dezembro de 2002 que, embora estejam fora do período que abrange este capítulo, são dados confiáveis uma vez que os fatores determinantes para as condições climáticas permaneceram idênticos. Intencionalmente escolhemos uma semana do mês de setembro, por ser um período com temperaturas mais frias e grandes variações de temperatura; e uma semana do mês de dezembro, período de altas temperaturas e também com grandes variações climáticas. De 9 a 16 de setembro, as temperaturas externas variaram de 12ºC a 24ºC474, enquanto dentro do depósito de nitrato monitorado as temperaturas se mantiveram entre 18ºC e 20ºC. Na semana de 25 a 31 de dezembro, as temperaturas externas variaram de 15ºC a 35ºC, enquanto no depósito monitorado, as temperaturas se mantiveram entre 25ºC e 29ºC475.
Em relação à umidade relativa, a proposta destes depósitos se mostra menos eficiente. O que é bastante compreensível, pois a umidade é mais difícil de se controlar, inclusive nos sistema de climatização artificial, por questões naturais, como nos explica Alfonso del Amo:
Si dos masas de aire con distinta humedad específica se sitúan en contacto, el vapor de agua migrará hacia las zonas con menor presión de humedad absoluta (menos húmedas) hasta conseguir el equilibro de presiones. […] Dicha migración […] tiene grandes consecuencias cuando se trata de conseguir ambientes de baja humedad relativa, [pois] se desarrolla muy rápidamente entre masas de aire.476
O que se verificou nos gráficos de monitoração dos depósitos foi uma variação da UR. Esta acompanhava mais de perto as mudanças externas e os recursos de isolamento eram menos eficientes, embora também se verificasse um diferencial considerável entre os parâmetros internos e externos. As leituras da UR dos depósitos, nos mesmos períodos acima citados, são: em setembro, variação de 40-100%UR no ambiente externo (com precipitação nos dias 13 e 14) e de 57-90%UR no ambiente interno; em dezembro, variação de 40-90%UR no ambiente externo e de 45-70%UR no ambiente interno.
Aparentemente a proposta de isolamento pela estrutura física do edifício aliada à aeração por depressão deu resultados interessantes. Há uma diferença de aproximadamente 5ºC e de 10%UR entre as leituras externas e internas, sendo que o ambiente interno era mais estável (apresentava diferença menor entre a máxima e a
474 Os dados de temperatura e umidade externas que apresentamos nessa análise são os informados no site do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet), mantido pelo Ministério da Agricultura.
(www.imnet.gov.br)
475 Ver Doc. 19 – Anexo II a reprodução dos gráficos originais. 476 Alfonso del Amo, op. cit., 2005, p. 166.
mínima dos dois parâmetros) do que o externo. Sabemos que estes dados são insuficientes para atestar a eficácia destes depósitos e, principalmente, para avaliar por quanto tempo uma proposta como esta pode ser eficiente para a conservação dos nitratos. Entretanto, vale informar que o diferencial constatado entre os parâmetros internos e externos tende a se confirmar nos demais gráficos de monitoração que estão arquivados (ainda sem um trabalho de análise e consolidação das leituras) no setor de Preservação da Cinemateca Brasileira, e que registram as leituras de 1999 até 2009.
Os parâmetros de umidade e temperatura medidos ainda estavam distantes dos recomendados pela Fiaf para o armazenamento de nitrato, a saber: “4ºC com variação máxima de ± 1ºC em 24 horas e anualmente; e 50%UR com variação máxima de 2%UR em 24 horas e 5%UR anualmente”477. No entanto, representaram um passo importante para a Cinemateca uma vez que ampliavam a expectativa de sobrevivência dos filmes. A nosso ver, esse tipo de proposta alternativa mereceria estudos mais aprofundados que poderiam ser úteis especialmente para as instituições que enfrentam constantes restrições orçamentárias, como é o caso da maioria dos arquivos audiovisuais brasileiros. Embora não possam ser consideradas soluções definitivas, uma vez que não garantem a sobrevivência dos materiais por longos períodos, são estratégias para se ganhar um tempo precioso na busca dos recursos necessários para uma instalação mais próxima do que é considerado ideal.
Com os depósitos finalizados, em junho de 1992 o acervo de nitrato foi transferido do Parque do Ibirapuera para o Matadouro, junto com os equipamentos e a equipe do laboratório. O jornal O Bisbilhoteiro não deixou passar em branco o fato e na edição de 16 de junho publicou:
A conjunção dos astros favoreceu e a mudança dos nitratos para o Matadouro aconteceu exatamente nos dias e horários previstos no mapa. Apenas os cupins e os rolos a serem descartados ficaram nas velhas casinhas do Ibirapuera.478
Como descrevemos antes, os rolos tinham perdido sua organização quando os cupins derrubaram as estantes, nas casinhas do Ibirapuera. Porém, ainda estavam guardados em seus estojos, devidamente rotulados e identificados com os respectivos números de tombo. A princípio todos os rolos foram reunidos em um dos depósitos e, através da identificação dos rótulos, foram reorganizados e armazenados nas estantes metálicas. Todo o armazenamento dos rolos nas estantes foi novamente mapeado e as
477 Carlos Roberto de Souza (org.). Manual de operações, 1990, p. 40, documento de uso interno da
Cinemateca Brasileira.
suas respectivas posições topográficas foram atualizadas na base de dados TRF. Até o final do ano de 1992 o acervo estava novamente sob o controle do arquivo.