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Em 1988 o relatório anual informa que a Diretoria da Cinemateca “conseguiu consolidar juridicamente a conquista da área de 12 mil metros quadrados, onde se localiza o antigo Matadouro Municipal da Vila Clementino, para nela instalar a sede definitiva da instituição”438. Em contrapartida, a instituição deveria restaurar os edifícios históricos. O Matadouro foi cedido à Cinemateca, no ano anterior, pelo então prefeito Jânio Quadros, e aconteceu através das relações pessoais do desembargador Felizardo Calil, pai de Carlos Augusto Calil, que conhecia o prefeito de longa data e tinha boas relações com Jânio Quadros. Quando os recebeu, os prédios estavam em ruínas, desfigurados pela falta de conservação e pelas reformas grosseiras para transformar os galpões históricos em depósito de materiais. O local estava ocupado pelo Departamento de Iluminação Pública da Prefeitura de São Paulo, com uma quantidade enorme de postes, transformadores, lâmpadas e todo tipo de material utilizado para a iluminação das vias da cidade. No mesmo ano, são contratados os arquitetos Lúcio Gomes Machado e Eduardo Jesus Rodrigues para efetivar o projeto de restauração e serão responsáveis também, junto com João Sócrates de Oliveira, por projetar os depósitos climatizados para guarda de acervo. Pouco depois, em 1991, veio somar-se a este terreno, “graças ao apoio decisivo da professora Marilena Chauí, Secretária Municipal de Cultura [...] as dependências já desocupadas nos fundos do Matadouro”439 – perfazendo uma área total de 23 mil metros quadrados para onde a Cinemateca vai se transferir a partir de 1992.

437 Relatório de Atividades – exercício de 1991. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 438 Relatório de Atividades – exercício de 1988. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 439 Relatório de Atividades – exercício de 1991. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit.

Como vimos, as más condições de armazenamento e a situação ruim do prédio onde se encontrava o Laboratório de Restauração configuravam duas pendências institucionais que exigiam providências urgentes. Por esse motivo, resolveu-se iniciar o projeto de reforma da área recém cedida – os fundos do Matadouro – para ser ocupada pelo acervo e o laboratório. Rudá de Andrade e João Sócrates ficaram encarregados administrar esta tarefa a partir de 1991.

O primeiro projeto de ocupação do Matadouro Municipal de Vila Clementino está ligado ao Centro Regional de Conservação de Películas que, por sua vez, nos remete ao III Encontro Latino-Americano. Segundo Carlos Roberto de Souza, “a relevância técnica assumida pela Cinemateca Brasileira entre os arquivos latino- americanos a partir do III Encontro”440 foi o fator motivador para o convite feito por Gabriel Garcia Márquez, presidente da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano, à instituição para desenvolver “um amplo projeto visando a construção de um laboratório destinado a salvar o patrimônio audiovisual da América Latina”441. A Cinemateca aceita o desafio e formaliza sua proposta no documento intitulado “Proposta para a implantação de um Laboratório Latino-Americano de Restauração de Filmes e Vídeos”, “elaborado por Maria Rita Galvão, João Sócrates de Oliveira e pela Diretoria da Cinemateca Brasileira [... que foi] encaminhado [...] em agosto de 1987”442.

A proposta enviada envolvia três etapas: 1. Diagnóstico; 2. o Projeto que seria elaborado a partir do diagnóstico; e 3. Implantação. Entre muitos acontecimentos políticos que envolveram representantes oficiais de vários países da América Latina443 e um longo trabalho político capitaneado por Maria Rita Galvão, efetivamente apenas a primeira etapa se cumpriu: o diagnóstico. Este diagnóstico tinha o objetivo de verificar quais eram as reais condições de trabalho, como eram os acervos e como estavam sendo conservados nas instituições latino-americanas. Para tanto, foi elaborado por João Sócrates de Oliveira um questionário com:

43 perguntas organizadas em 20 tópicos, e desce a detalhes que poucos arquivos – mesmo em países desenvolvidos – tinham condições de responder plenamente pois implicavam o conhecimento exaustivo de seus acervos444. Na dificuldade em conseguir respostas dos arquivos consultados, e com os recursos liberados pela Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano, Maria Rita Galvão

440 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 161.

441 Relatório de Atividades – exercício de 1987. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. 442 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 153.

443 Para saber mais sobre os episódios, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 152-159. 444 Idem, ibidem, p. 157.

percorreu os países da região “complementando dados, ajudando arquivo a preencher o questionário, fazendo entrevistas, tirando fotografias”445. Todo esse levantamento resultou num interessante panorama das condições de preservação na América Latina da época, mas o projeto não teve continuidade.

No entanto, quando a Cinemateca começou a projetar a restauração e a adaptação do complexo arquitetônico do Matadouro Municipal, ainda se acreditava nessa possibilidade e a primeira maquete do projeto – “com salas de projeção, espaços multiuso, salas de aula, locais para depósitos climatizados e laboratórios de filme e vídeo” –, apresentado em agosto de 1989, estava batizada como Centro Latino- Americano e do Caribe de Preservação de Imagens em Movimento446. Anos mais tarde, Calil Augusto Calil diz nunca ter realmente acreditado na viabilidade do projeto e que o uso do nome foi uma jogada:

Isto era para tentar seduzir o Ministério da Cultura, na época do [ministro] Zé Aparecido [de Oliveira], com um projeto internacional que, segundo Maria Rita, tinha condições de ser implantado. Eu nunca vi as condições materiais. [O nome] Era uma estratégia [que] não funcionou. O Zé Aparecido não deu o dinheiro447.

A reforma e restauração do Matadouro vão se prolongar por vários anos e algumas mudanças de Diretoria. Coerentes com as prioridades daquele momento, iniciam-se as reformas para adequar o espaço para os depósitos de filmes e a instalação do laboratório de restauração. No Parque do Ibirapuera, os cupins de solo não só tinham comprometido o madeiramento do telhado, como tinham atacado praticamente todas as estantes de madeira que sustentavam os rolos de nitrato. Seis meses antes da mudança, temendo a queda total das estantes (algumas já tinham ruído), que poria a perder toda a organização dos rolos, tomou-se a providência de substituí-las por novas estantes, também em madeira porque, a rigor, seriam úteis apenas por um curto período de tempo. Providência inútil pois, impressionantemente estes seis meses foram suficientes para que os cupins atacassem e derrubassem todas as novas estantes. O ataque foi tão violento que o relatório de 1992, informa que:

No início deste processo houve uma tentativa de manter alguma espécie de controle: foram feitas pilhas no chão, identificadas com papéis, mostrando a posição topográfica original, mas estes papéis também foram comidos pelos cupins448.

445 Idem, ibidem, p. 157.

446 Assim nomeado no Relatório de Atividades – exercício de 1989. Arquivo Histórico da Cinemateca

Brasileira. Op. cit.

447 Entrevista com Carlos Augusto Calil, 2009.

A saída foi reorganizar os rolos nos novos depósitos que estavam sendo construídos na Vila Clementino e, portanto, o acervo de filmes em nitrato e os equipamentos do laboratório são os primeiros objetos da Cinemateca a ocupar o local.