O relatório de atividades apresentado no final do ano de 1984, como tradicionalmente se fazia, destacou na introdução os principais acontecimentos do ano e, entre eles, está a realização do III Encontro pela Cinemateca Brasileira:
[O III Encontro] colocou a entidade no panorama internacional, reconhecendo seu trabalho como exemplar não apenas em termos de 3º Mundo, como também equiparável ao de entidades congêneres do mundo desenvolvido – respeitadas as condições de um arquivo em país em vias de desenvolvimento353.
351 Arquivo e Administração, v. 3, n.1-2, 1986, referenciado em Carlos Roberto de Souza, , op. cit., 2009,
p. 149.
352 Leandro R. Negreiros e Eduardo W. Dias. “Automação de arquivos no Brasil: os discursos e seus
momentos”, In Arquivística.net, v. 3, n. 1, jan./jun. 2007, p. 44 (www.arquivistica.net).
A sugestão de que o III Encontro acontecesse na Cinemateca veio de Wolfgang Klauer, que havia visitado oficialmente a instituição em 1978 e apresentado um relatório elogioso, como dissemos anteriormente. A sugestão de Klaue aconteceu no II Encontro Latino-Americano, ocorrido no México em 1983 e, segundo Carlos Roberto de Souza354, Maria Rita Galvão, presente no encontro como representante da Cinemateca Brasileira, apavorou-se com a indicação. Afinal, a entidade enfrentava muitos problemas em 1983, antes da incorporação à Pró-Memória, e ela tinha dúvidas quanto à capacidade da instituição em abrigar um evento internacional. Apesar das dificuldades, a Cinemateca resolveu assumir o desafio e opta por um seminário de caráter técnico. Carlos Roberto de Souza relata que:
Diferentemente do seminário anterior, para o III Encontro solicitou-se aos arquivos participantes que enviassem técnicos de catalogação, ou de documentação, ou de restauração, tendo em vista que os convidados seriam divididos em três grupos correspondentes a essas atividades e nelas ficariam concentrados355.
O evento aconteceu de 22 a 28 de outubro, sendo os primeiros quatro dias nas dependências da Cinemateca Brasileira, com os grupos de trabalho distribuídos entre os departamentos correspondentes. Em seguida, os participantes se deslocaram para o Rio de Janeiro, para a Cinemateca do MAM, onde foram discutidos assuntos ligados à administração dos arquivos, difusão e política. Aparentemente a escolha por um seminário mais técnico foi acertada, pois o documento final redigido pelos participantes, destaca:
el significado positivo de la labor realizada en São Paulo y Rio de Janeiro, en especial para el análisis de los problemas que afectan las actividades específicas de los archivos presentes, tanto en el marco de los trabajos internos como en lo referente a la conscientización del rol que cumplen las cinematecas en sus referidos países356.
E, o relatório anual da Cinemateca, afirma que, “na avaliação final, este III Encontro foi considerado o mais proveitoso dos encontros realizados na América Latina, bem como em outras regiões do Terceiro Mundo”357.
Como dissemos, a preparação do III Encontro Latino-Americano já tinha provocado algumas consequências positivas para o Departamento de Preservação e Catalogação. Entretanto, o evento em si foi ainda mais produtivo. Para Carlos Roberto
354 Sobre toda a preparação do III Encontro, consultar Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 146-
148.
355 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 148.
356 Documento datilografado, sem número de página, datado de “octobre, 22-28, 1984”, ainda não
catalogado pelo setor de Documentação. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira.
de Souza, as discussões que aconteceram nos grupos de trabalho foram especialmente proveitosas para a conservação e a catalogação da Cinemateca, porque:
essa coisa da Preservação/Catalogação discutir todos os procedimentos que foram colocados [no texto] que o Motta escreveu, discutir até mesmo [...] as propostas de formulários do Roberto, que participou direto dessas discussões, serviu para sedimentar e dar certeza de que o caminho era aquele mesmo [...]. Foi fundamental para não ter dúvidas daí para frente358.
E o relatório de 1985 confirma as palavras de Carlos Roberto de Souza, quando declara que:
Após o III Encontro, a equipe de Catalogação [...] decidiu redesenhar o conjunto de fichas existentes para adaptá-los às necessidades cotidianas do arquivo, criando assim um fluxo natural de documentos sobre os filmes [...]. Esses novos formulários – testados e alguns já implantados – foram desenhados com vistas à utilização de computadores para a recuperação das informações recolhidas359.
Especialmente para a informatização da Cinemateca, o III Encontro Latino- Americano foi determinante e acelerou todo o processo. Durante o evento, Roberto Souto fez uma apresentação do projeto e do desenvolvimento dos trabalhos até ali, que chamou a atenção de Célia Zaher, presente no encontro como representante da Unesco. Segundo Carlos Roberto de Souza, a própria Célia Zaher tinha “iniciado [...] um processo radical de atualização tecnológica no processamento de informações”360, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, quando foi diretora dessa instituição, em 1982 e 1983. Entusiasmada, junto com o pessoal da Cinemateca, Célia Zaher “escreveu o projeto para a Unesco detalhando as etapas de trabalho que incluíam estabelecimento de planilhas, pesquisa de programas adequados e testes do sistema.”361
A Unesco efetivamente apoiou o projeto e o grupo envolvido com a informatização passou a pesquisar programas para a constituir uma base de dados, os sistemas informatizados de outras cinematecas, os possíveis fornecedores de pacotes de informatização oferecidos por software houses existentes na época. Para Carlos Roberto de Souza, “o Roberto [Souto] era futucador [sic], ele ia, via, falava, fazia relatórios”362 e foi uma pessoa fundamental nas escolhas técnicas desse momento. Ao final dessa busca, a escolha recaiu sobre o programa CDS/Isis, um programa desenvolvido por um técnico em informática da Unesco, Giampaolo del Bigio, para informatização de bibliotecas. Mais uma vez Célia Zaher participou dessa história, entrando em contato com Del Bigio
358 Entrevista com Carlos Roberto de Souza, 2009. Op. cit.
359 Relatório de atividades – exercício de 1985. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit. 360 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 150.
361 Idem, ibidem, p.150.
para relatar a intenção da Cinemateca em informatizar um arquivo audiovisual através do programa que ele desenvolvera. Carlos Roberto de Souza relata que,
[Del Bigio] achou o projeto fascinante e se dispôs a colaborar, diretamente e através de Abel Paker, responsável pelo setor de informática do Centro Latino-americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde – Bireme, Organização Mundial da Saúde, sediado em São Paulo363.
As circunstâncias felizes redundaram no desenvolvimento do banco de dados que ainda hoje é uma ferramenta fundamental para a operacionalidade da instituição. O primeiro computador adquirido pela Cinemateca para implantação do banco de dados também chegou graças a recursos concedidos pela Unesco – mas este fato só vai acontecer em 1987. Comentaremos sobre o desenvolvimento desse banco de dados e o reflexo desta mudança tecnológica mais adiante, quando discutiremos o que significou para a conservação a chegada da informatização na Cinemateca.
Além da parte de informatização, de acordo com o relatório anual, um outro projeto esboçado por Célia Zaher no âmbito do III Encontro, incluiu recursos para “a modernização do Laboratório [de restauração] de modo que este possa atender a pedidos de restauração de filmes de outras cinematecas da América Latina”364. Este projeto trouxe recursos para o Laboratório de Restauração, dois anos mais tarde.
Afora uma maior integração da Cinemateca Brasileira com os arquivos da região latino-americana, o III Encontro propiciou ainda outros benefícios no que se refere ao reconhecimento internacional da instituição. Entre os resultados dos grupos de trabalho do encontro, estava a sugestão de uma maior representação dos países do Terceiro Mundo nas comissões técnicas da Fiaf e a indicação de João Sócrates de Oliveira como representante da região. Isso de fato aconteceu no ano seguinte, como nos informa o relatório de 1985:
Como resultado do III Encontro [...], João Sócrates, ainda como indicado, compareceu a todas as reuniões da Comissão [de Preservação] durante o Congresso Anual da Fiaf (Nova Iorque, abril/maio). Em Londres (setembro), participou de um novo encontro da Comissão de Preservação, já como membro aceito pelo Comitê Executivo da Fiaf365
Assim como João Sócrates, algum tempo depois, Carlos Roberto de Souza vai se tornar um dos membros da Comissão de Catalogação da Fiaf (1989 – 1997); e Maria Rita Galvão será eleita membro do Comitê Executivo da Fiaf (1989 – 1992) e
363 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p.150.
364 Relatório de atividades – exercício de 1984. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit. 365 Relatório de atividades – exercício de 1985. Arquivo Histórico da Cinemateca Brasileira. Op. cit.
posteriormente assumirá o cargo de vice-presidente da Fiaf (1993-1994)366. Durante todo esse período, e mesmo depois do termino dos mandatos dos cargos que assumiu, Maria Rita Galvão foi a face internacional da Cinemateca. Para Calil “a Fiaf era um assunto dela. [...] Eles não sabiam que eu era diretor da Cinemateca Brasileira, no período que eu fui, porque eu nunca compareci [às reuniões da Fiaf]. Ela [Maria Rita] representava a gente”367.
O reconhecimento da Cinemateca Brasileira junto à Fiaf se fez perceber não só pelo convite a seus colaboradores para figurarem nas comissões e diretoria da entidade, mas foi expressa publicamente quando a instituição foi aceita (novamente) como membro efetivo desta federação. Segundo nos relata Carlos Roberto de Souza, a solicitação para full member da Fiaf foi aceita quase por unanimidade (39 votos a favor, nenhum contra e uma abstenção) e o arquivo foi assim apresentado na ocasião:
this archive, one of the oldest in Latin America, had been a member of Fiaf since 1947, and although they had withdrawn in the 1960`s for economic reasons, had returned en the 1970`s and been very active in exchanges and visits. They had survived two disastrous fire and enjoyed considerable international prestige as a result of their collections, their research centre and their preservation activity. The dossier had been very complete and the E[xecutive] C[ommittee] had no hesitation in warmly recommending them as full Members368.
Conquistar novamente a condição de membro pleno da Fiaf não foi só resultado do III Encontro Latino-Americano. Desde que a Cinemateca refez suas relações com a Federação Internacional, no final dos anos de 1970, a equipe se preocupou em manter contatos constantes com outros arquivos filiados e com a própria Fiaf, através de correspondências, dos relatórios anuais, ou enviando pequenas notícias do avanço dos trabalhos para serem publicadas nos boletins da federação. Para Carlos Roberto de Souza, esta foi uma maneira de ir “tecendo uma rede de relações profissionais e de amizade”369 de forma que, quando a Cinemateca Brasileira “pleiteou sua candidatura a membro pleno, garantidos os recursos federais para o pagamento das anuidades, a demanda teve vários advogados”370. A começar por Wolfgang Klaue, naquele momento, presidente da Fiaf, e que se tornou um parceiro importante em vários momentos da história da instituição. O relatório de 1985 avalia que a Cinemateca tem
366 Para saber mais sobre a participação de funcionários da Cinemateca Brasileira na Fiaf, consultar
Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 151-152.
367 Entrevista com Carlos Augusto Calil, 2009. Op. cit.
368 Fiaf XXXX [sic] Wien Minutes, p. 9. Assim referenciado em Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009,
p. 146.
369 Carlos Roberto de Souza, op. cit., 2009, p. 145. 370 Idem, ibidem, p. 145.
uma “cotação” mais expressiva no panorama internacional, pois, além de ter sido aceita como membro da Fiaf e de João Sócrates fazer parte da Comissão de Preservação,
nosso Laboratório de Restauração é reconhecido como exemplar para os países subdesenvolvidos, [... e] temos posição proeminente diante de nossos congêneres latino-americanos. Conquistamos, portanto, projeção internacional371
Para a área de conservação do acervo, as relações internacionais da Cinemateca, mais do que nada, significou ter acesso aos trabalhos e às pesquisas técnicas que a Fiaf divulgava ou realizava. De natureza investigativa, a federação sempre se preocupou em buscar soluções técnicas para as atividades de preservação dos arquivos audiovisuais. Além das publicações regulares e dos Congressos anuais, que serviam de canais de difusão desses trabalhos técnicos, boa parte dos arquivos filiados mantinha a tradição de “responder com muita generosidade”372 às solicitações feitas por correspondência. Esse tipo de relação de proximidade entre os arquivos e pessoas– chaves dentro da Fiaf foi também uma estratégia de sobrevivência, no caso da Cinemateca Brasileira. Apenas para citar um exemplo, em 1986, com as habituais dificuldades em adquirir filme virgem, o que garantiu a continuidade dos trabalhos do laboratório de restauração foi a intervenção de Wolfgang Klaue que, ciente das nossas limitações:
tomou as providências necessárias para que a Orwo, da República Democrática Alemã, fabricante do então considerado filme virgem mais barato do mundo, fosse autorizada a vendê-lo para a Cinemateca (até então a Lider era a compradora exclusiva da Orwo)373.